Sempre souberam que iria ser difícil: Don McKellar, o argumentista, e Fernando Meirelles, o realizador, confessam mesmo que foi a empreitada mais difícil em que já se viram metidos. Até a protagonista Julianne Moore sofreu como nunca tinha sofrido.
Mas foi por amor ao romance de José Saramago que decidiram avançar. O que não esperavam que fosse tão difícil era agradar ao público: tanto em Cannes como nos EUA e em alguns países europeus como a França, Ensaio Sobre a Cegueira foi incompreendido.
Numa visita a Lisboa, enquanto os jornalistas faziam fila para entrevistar Fernando Meirelles, o SOL agarrou no argumentista que por ali passava e perguntou-lhe o que pode ter falhado na tradução da história da cegueira branca para a linguagem cinematográfica.
Como argumentista e também actor, Don McKellar fala da experiência.
Lembra-se da primeira vez que leu Ensaio Sobre a Cegueira?
Foi há dez anos, quando estava numa digressão a promover o meu filme Last Night, que era sobre o fim do mundo. Vi o livro à venda e atraiu-me porque pareceu-me ser também uma visão apocalíptica semelhante, sem explicações, com maior enfoque nas pessoas do que no governo, no exército ou em razões científicas. Fiquei logo fascinado por aquela história.
Pensou desde logo que daria um grande filme?
Não costumo ter esse raciocínio quando leio romances. Aliás, normalmente leio para me distrair dos filmes. Mas, neste caso, percebi rapidamente que poderia ser um grande filme. Achei que o início era incrivelmente cinematográfico. E o desafio era que se tratava de uma história sobre a cegueira quando o cinema é só visão.
Alguns críticos não são consideram a história muito cinematográfica, agora que o filme está feito…
Os críticos têm opiniões opostas: alguns acham que o livro é muito cinematográfico, outros acham que seria impossível fazer um bom filme a partir do livro. Há aspectos do livro que são muito difíceis de passar para cinema e, sobretudo, que vão muito contra aquilo que é o cinema de Hollywood. Nunca pensei que a adaptação fosse fácil, mas também foi o desafio que me aliciou.
Também houve quem dissesse que o filme representava uma interpretação demasiado literal da metáfora do livro…
Só é literal porque está concretizada em imagens. É óbvio que os filmes não podem ser tão abstractos como os livros. Acho que estamos a passar por um período muito naturalista no cinema. As pessoas estão sempre à espera de uma espécie de hiper-naturalismo e desconfiam de tudo o que possa parecer um recurso estilístico. Nem sempre foi assim. Antes usavam-se mais recursos dramáticos, o cinema era mais teatral. Eu adoro filmes baseados em metáforas ou alegorias, mas parece que isso é raro e está relegado apenas para o cinema de terror ou ficção científica.
Como foi o processo de adaptação do livro?
Fugi um pouco ao romance a certa altura. Dei por mim a ignorar os desafios do livro. E um desses desafios era precisamente a alegoria. Uma das coisas que adoro no livro é que o leitor é atirado para o meio daquela historia, como se fosse testemunha de um acidente envolvendo pessoas que não conhece, cujos passados não são revelados, nem sequer os seus nomes. É mesmo como ver um acidente: este carro bateu naquele, depois apareceu um polícia… O leitor tem apenas estas descrições e é-lhe exigido julgar aquelas pessoas e construir, ele mesmo, cada personagem com base nas suas acções. O livro é muito forte na forma como define as personagens, muito verdadeiro e nada redutor. Depois de me afastar um pouco do livro, voltei e reconheci tudo aquilo de que tinha gostado da primeira vez. Voltei à essência não por querer ser muito fiel ou por sentir uma grande responsabilidade, mas por achar que era mais desafiante e verdadeiro.
Foi conversando com José Saramago à medida que adaptava o livro?
Falei com ele primeiro, quando lhe fui pedir os direitos para adaptar o livro.
Lembra-se desse dia? Ficou intimidado pela figura de Saramago?
Sim. Eu e o produtor Niv Fishman estávamos cheios de medo. Mas só porque tinha lido uma série de coisas sobre o facto de ele intimidar muita gente. A verdade é que foi muito delicado connosco. Achei que não correspondia nada à imagem que as entrevistas passavam. É um cavalheiro. Ele, na altura, disse que não queria estar envolvido na adaptação mas eu gostaria que ele estivesse. Respeito-o, adoro o livro e seria terrível que o autor não gostasse do resultado final. Dei-lhe o primeiro rascunho do guião e falámos duas ou três vezes. E acabou por estar envolvido até certo ponto porque… como hei-de dizer? Ele diz o que lhe apetece! Não é propriamente tímido a expressar opiniões [risos].
Mas não exigiu nada…
Não, nada. E também nunca disse coisas do estilo ‘odeio este diálogo’… Ele foi dando dicas sobre o que era importante no livro. Lembro-me da primeira vez em que nos encontrámos depois de lhe dar o primeiro rascunho. Fomos jantar e ele falou durante meia hora só sobre a primeira página do guião. Nessa altura, pensei: oh não, estou metido em sarilhos. O jantar está quase a acabar e ainda nem passámos à segunda página. Até que eu disse: ‘OK, e quanto à cena seguinte?’. Estava preparado para o pior, até que ele respondeu: ‘Não vale a pena, era só para você ter uma ideia’ [risos].
Não é difícil, tendo em conta a estrutura peculiar da escrita de Saramago, traduzi-la para diálogos cinematográficos? Ele não aprecia parágrafos nem pontuação demasiado expressiva…
Há uma dificuldade aparente. À primeira, é difícil apanhar a mensagem, há uma espécie de muro. Mas, à medida que uma pessoa se envolve, isso passa para segundo plano. O estilo de escrita de Saramago torna-se uma voz. Pode ouvir-se essa voz, é uma escrita muito oral. E mal uma pessoa entra nesse ritmo, é fácil ouvirmos os diálogos. A partir de certo ponto, a forma torna-se transparente. Mas antes de se chegar a esse ponto há muita gente que desiste.
E quanto ao trabalho como actor? Quis interpretar a personagem do Ladrão?
Não me lembro como surgiu a oportunidade. Acho que simplesmente achei graça ao facto de, sendo o argumentista, encarnar um papel de tão pouca reputação. Além de que eu roubei a história ao Saramago, por isso é simbólico! [risos].
ana.markl@sol.pt