Mark Twain disse que «a vida seria infinitamente mais feliz se nascêssemos com 80 anos e nos aproximássemos gradualmente dos 18». E F. Scott Fitzgerald respondeu com o conto que inspira – ainda que de forma muito, mesmo muito ligeira – este portentoso filme, belo e tecnicamente irrepreensível, escrito por Eric Roth, o mesmo argumentista de Forrest Gump.
Mas Fitzgerald escreve num tom cínico de farsa, mandando à cara de Twain que nem essa fantasia serve para nos consolar, que o princípio e o fim estão lá. E opta por focar questões sociais, de forma crítica e caricatural, em detrimento da via filosófica e emocional escolhida pelo argumentista Eric Roth. A bem dizer, tirando a premissa, o conto e o filme não têm nada a ver.
O Estranho Caso de Benjamin Button, o filme que se estreia esta quinta-feira nas salas portuguesas, tem a força da frase da canção dos Arcade Fire, ‘My Body is a Cage’, escolhida para ilustrar um dos seus trailers: ‘o meu corpo é uma jaula, mas a minha mente tem a chave’.
Tal como no conto, prevalece a ideia de que, ainda que o corpo reflicta o tempo invertido, o princípio e o fim estão no mesmo lugar. Mas também que tudo o que se vive num corpo que rejuvenesce continua a ter um tempo para ser vivido. E que seria um pesadelo nascermos Benjamin Button e desencontrarmo-nos do tempo das pessoas com quem fazemos planos. E que perdemos muito tempo a pensar no tempo que passa, demasiado presos às obrigações do tempo.
Um filme com o poder de nos esmurrar a alma e acordar para a vida.
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