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Literatura
José Saramago acusa Papa Bento XVI de «cinismo»
O escritor português José Saramago, Prémio Nobel da Literatura, acusou terça-feira o papa Bento XVI de «cinismo» e defendeu que à «insolência reaccionária» da Igreja há que responder com a «insolência da inteligência viva»
 
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«Que Ratzinger tenha a coragem de invocar Deus para reforçar o seu neo-medievalismo universal, um Deus que jamais viu, com o qual nunca se sentou a tomar um café, demonstra apenas o absoluto cinismo intelectual da personagem», disse Saramago em Roma, durante um colóquio com o filósofo italiano Paolo Flores D’Arcais, noticiou hoje o jornal italiano Il Fatto Quotidiano.

O Prémio Nobel da Literatura 1998 encontra-se hoje na capital italiana para apresentar o livro O Caderno, em que estão compilados textos que escreveu entre Setembro de 2008 e Março deste ano no seu blogue, e reunir-se com amigos italianos, como a Prémio Nobel da Medicina 1986, Rita Levi Montalcini.

Na conversa que manteve com Flores D’Arcais, Saramago assegurou que é um «ateu tranquilo», mas que agora está a mudar de ideias.

«Às insolências reaccionárias da Igreja Católica há que responder com a insolência da inteligência viva, no bom sentido, da palavra responsável. Não podemos permitir que a verdade seja ofendida todos os dias pelos presumíveis representantes de Deus na terra, a quem na realidade só interessa o poder», afirmou.

Segundo Saramago, interessa pouco à Igreja o destino das almas e o que sempre procurou é o controlo dos seus corpos.

«A razão - acrescentou - pode ser uma moral. Usemo-la».

Inquirido sobre se a ausência de empenhamento de escritores e intelectuais pode ser uma das causas da crise da democracia, o escritor disse que sim, mas que não só, já que toda a sociedade está nessas condições e isso leva a uma crise de autoridade, da família, dos costumes, uma crise moral em geral.

Saramago advertiu para que na Europa «está a crescer o fascismo» e mostrou-se convencido de que nos próximos anos «atacará com força».

Por isso - sublinhou -, «temos de preparar-nos para enfrentar o ódio e a sede de vingança que os fascistas estão a alimentar».

«Apesar de ser claro que se apresentarão com máscaras pseudo-democráticas, algumas das quais circulam já entre nós, não devemos deixar-nos enganar», frisou.

Antes de Roma, Saramago esteve em Milão, Turim, Alba e Pontedera, onde se encontrou com os seus leitores e criticou o primeiro-ministro italiano, Silvio Berlusconi.

Em declarações ao diário ex-comunista L’Unità, o escritor disse que Berlusconi é a «doença do país» e hoje, na conversa com Flores D’Arcais afirmou que o que mais caracteriza a esquerda, no plano internacional, é a «falta de ideias».

A direita, de acordo com Saramago, não precisa de ideias para governar e isso vê-se em Berlusconi, «que não tem nenhuma», mas a esquerda, «se não tem ideias, não tem nada que oferecer aos cidadãos».

A visita de Saramago a Roma ocorre dias antes do lançamento do seu mais recente romance, Caim, em que o escritor se ocupa novamente da religião e que será simultaneamente editado em português (de Portugal e do Brasil), espanhol e catalão.

Lusa / SOL

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