Amor, Escárnio e Maldizer foi anunciado como um disco conceitual. Em que conceito assenta o álbum?
Pacman: A ideia surgiu ao verificarmos que aquilo que fazemos hoje nos Da Weasel remete muito para o que já se faz há centenas de anos: as canções de amor, amigo, escárnio e maldizer.
Há coisas que se mantêm intemporais –o amor é algo de que se há de falar sempre, escárnio e maldizer também. Achámos giro fazer a ponte para os dias de hoje.
Onde ficaram, então, as canções de amigo?
P: As canções de amigo não fazem muito sentido hoje em dia, porque eram canções escritas por homens como se fossem mulheres a cantar, e eram canções de amor disfarçadas de amizade. Havia uma camuflagem que hoje não faz sentido.
Isso quer dizer que acreditam que hoje ninguém se disfarça. Mesmo com a utilização actual da internet?
P: Quando falava nas cantigas de amigo era por a mulher não ter a liberdade que tem hoje em dia. São coisas diferentes. Camuflagens há muitas, claro, muitas mesmo [risos]. É o que não falta. E é uma coisa que não me agrada muito.
Acho que muitas pessoas se barricam e vivem vidas que não são as delas através da net e só conseguem ser alguém dentro da net porque não o conseguem na vida real. Isso é um bocado triste.
O maldizer também acaba por estar facilitado pela mesma via.
P: Sim, mas pode ser uma arma bastante importante. Se a informação estiver muito controlada nos média, seja pelo Governo, por lobbies, pelo que for, são canais que permitem pôr o dedo na ferida com mais facilidade.
Há um tema no disco, ‘Cowboys’, em que se fala de heróis à antiga. Hoje, pelo contrário,já não há um herói com barba por fazer…
P: É uma piada a essa e outras coisas – até à cena metrossexual que já começa a ser um bocado demais. Mas, por outro lado, há uma série de anti-heróis a surgir. Ao mesmo tempo que há esses heróis assépticos, há sempre outra corrente a perverter a coisa.
Este álbum foi gravado num período muito curto. Tiveram a pressão de ter de entrar em estúdio em determinada data?
Jay Jay: Sim, e chegou a ser preocupante. Quando nos disseram que em Março tínhamos de entregar um álbum começou imediatamente o stress. Embora tivéssemos cerca de seis meses, foi uma corrida contra o tempo.
Tem-se a obrigação de compor e isso não é muito porreiro. O meu dia começava com o pensamento na composição e ia-me deitar a pensar no mesmo.
Deitava-me com um gravador porque a meio da noite podia surgir uma ideia e não estava numa de pegar na guitarra. Isto é bem revelador da pressão que colocámos em cima de nós próprios.
Dorme-se mal nessas alturas?
P: Não, com o tinto que se bebe. Acorda-se é mal [risos].
Gravaram três temas com a Orquestra Sinfónica Checa. Para quem começou no hip hop deve ser curioso, no mínimo, fazer algo que tem tão pouco a ver com a cultura de rua.
P: É curioso e foi um privilégio, muito recompensador.
J: E principalmente ver um tipo como o maestro Rui Massena aberto e ávido também de fazer isto connosco. O que é revelador de muita abertura. Despertou muita curiosidade e muita apreensão ao mesmo tempo.
E não receiam que o vosso público pense ‘estes tipos já estão velhos, a gravar com orquestra…’?
J: Não, porque, ao mesmo tempo, temos momentos no disco que puxam exactamente no sentido oposto. Não de uma forma premeditada, mas porque somos assim.
P: E mesmo o feedback dos mais putos ou de pessoas que não estão à partida tão viradas para este tipo de coisas, do que ouviram antes de o disco sair, foi extremamente positivo.
Como surgiu a participação dos Gato Fedorento?
P: Mais uma vez é a história do Amor, Escárnio e Maldizer. Se há jograis hoje em dia em Portugal, no sentido de ‘picar’ a política e a sociedade em geral, são os Gato Fedorento. São muito bons a fazer uma crítica irónica e sarcástica.
Na altura que fomos ao programa deles, já tendo este conceito para o disco, pensámos que eles poderiam fazer sentido. Quando vimos o tema ‘Niggaz’, achámos que o tema era a cara deles, passámos-lhes a letra e dissemos-lhes para fazer o que quisessem.
Mas havia da vossa parte um intuito de provocação? Porque por muito que a ideia de crítica ao estereótipo dos miúdos que ouvem hip hop já existisse no vosso tema, o lado de escárnio é muito acentuado pela participação deles.
P: Se estamos a pedir aos Gato Fedorento já se sabe que vai sair uma coisa passível de ser provocatória. Mas é uma crítica perfeitamente válida, não é gratuita porque é uma situação real. Há uns quantos putos que pensam que estão a entrar num ‘filme’ em vez de o ver apenas.
Revêem-se, imitam e entram num imaginário que não lhes pertence, que é o do 50 Cent, da cena gangsta norte-americana e que às vezes resvala para A Cidade de Deus quando a nossa realidade não tem nada a ver com isso. São putos dos 13 aos 17 anos, aquela idade em que são muito influenciáveis.
Isto é um ‘Pensa bem e vais ver que este não é o teu filme, podes vê-lo, como eu também vejo, e sacares dali o que quiseres. Mas não podes entrar nele: primeiro, porque não tens pedal para isso; segundo, porque não é a tua realidade’.
E porquê convidar o Simão Sabrosa, um futebolista?
P: É num tema que se chama ‘Bora Lá Fazer a P*** da Revolução’, muito irónico mesmo. É sobre um gajo que diz ‘vamos fazer uma revolução, está na hora de mudar as coisas’.
E depois vai a ver o calendário da semana e é complicado – à segunda sai tarde, à terça e à quinta tem terapia, à quarta-feira tem ‘cartada’ com a malta, à sexta tem de beber um copo por causa do stress todo da semana a trabalhar, no sábado leva o puto ao happy meal e resta o domingo para a revolução.
Se o Benfica não jogar, está combinado. No final do tema, telefona o Simão a dizer «como é, querem bilhetes para domingo?».
Acreditam nalgum tipo de revolução?
P: Claro que sim, sempre. Isto é uma provocação a nós próprios. Mas o primeiro passo de qualquer revolução, e que faz realmente falta, é a revolução pessoal, que é de longe mais difícil. Se cada um fizer a sua revolução pessoal e tiver mais aberto e disposto, aí podemos partir para outros voos.
Neste disco, apelamos para uma coisa muito mais primária que querer salvar o mundo. Primeiro trata de ti, mete a cabeça em ordem, coisas que apontam para um nível mais pessoal, para depois ter cabedal para entrar noutras revoluções.
Não vamos querer salvar o mundo sem sequer ter a casa arrumada. Nessa revolução acreditamos e passa pela música. Acho que nossa música cumpre a sua parte.
Há uma desilusão geracional por parte dos que lutaram pelo 25 de Abril. Sentem que a vossa geração também está a falhar um propósito de mudar as coisas?
P: Acho que as coisas antes do 25 de Abril eram muito mais claras, ou se estava de um lado ou se estava de outro. Agora é tudo muito mais difuso. É tudo muito confuso. O PS, será esquerda, centro ou direita?
Há um capitalismo desenfreado e um consumismo incrível. E revejo-me um bocado nisso – quer queira quer não acabo por ser levado muitas vezes por isso. Vivemos numa sociedade do ‘compra isto, compra aquilo, faz esta dieta, sê bonito’.
A sociedade está a concentrar-se só em coisas muito superficiais. Não acho que seja um problema específico de Portugal pós-25 de Abril, mas algo global.
Tanto que não aceito essa desculpa do Salazar ter sido eleito como Grande Português como uma desilusão das pessoas com o 25 de Abril. Não é por aí. Não é sintomático nem representativo de coisa alguma. Muito menos da nova geração, que de certeza não votou.
Há um certo desinteresse nas coisas que acho mais importantes, nas coisas básicas: não pelo lado em que se está politicamente, mas sim pelo respeito pelos outros, pelos valores fundamentais. Mas se me derem a escolher Portugal ou Estados Unidos, não penso sequer duas vezes.
Acho que aqui estamos muito mais ‘à frente’ e temos pessoas a fazer coisas muito mais interessantes e conscientes.
Ao chamarem para o disco o Simão Sabrosa e os Gato Fedorento, ídolos dos adolescentes, há um objectivo de cativar esse público?
J: Não, porque são os nossos ídolos também. É um privilégio poder partilhar um trabalho com pessoas que nós admiramos. Não tem nada a ver com marketing ou vendas. Estão lá porque fazem sentido.
Não é colado com cuspo. Se sentíssemos isso provavelmente não teriam entrado. Também conseguimos ser fãs. Quando o [pianista Bernardo] Sassetti respondeu a dizer que aceitava participar no disco eu estava a tremer. É impagável fazer um disco com pessoas tão interessantes.
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