Chegou a este cargo cheia de energia e de ideias, mas parece começar a ficar cansada.
Não há qualquer cansaço relativamente a ideias e projectos, há apenas um desgaste pontual por ter visto recentemente comprometidas as condições mínimas de trabalho. Ando numa tensão permanente desde 1 de Janeiro, por causa da gestão e do apoio mecenático.
Refere-se também à falta de vigilantes?
Desde que estou a trabalhar em museus nunca me vi confrontada com a necessidade de fechar espaços de exposição. É uma situação angustiante.
E o protocolo entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura?
A experiência do Museu de Arte Antiga (MNAA) no que diz respeito a esse protocolo foi catastrófica. Eu não quis repeti-la e mostrei a minha indisponibilidade ao IPM para receber professores com ‘horário zero’.
Este museu perde por depender do IPM?
Penso que este museu terá de ver alterado o seu modelo de gestão, sob pena de não poder crescer. O MNAA e o Museu da Terra de Miranda têm exactamente o mesmo modelo de gestão, que compromete os princípios de uma gestão por objectivos. O mérito tem de ser premiado, uma máxima aliás dentro do espírito da reforma da função pública.
Concorda que há falta de publicações na loja do museu?
É gritante. Sendo a sociedade contemporânea tão consumista, há um défice incompreensível de postais, de catálogos e merchandising. Aos directores dos museus competem apenas questões elementares como a verificação de stocks.
É possível resolver o grave problema de acessibilidade do museu?
Costumo dizer que quem vem ao MNAA é porque quer muito visitá-lo. Tive aqui o Prof. Carmona Rodrigues, que ficou de me ajudar com a criação de um estacionamento à beira-rio. Tenho o projecto que Souto de Moura me mandou. Elegi a acessibilidade como a questão prioritária, mas ultrapassa as minhas competências e não tenho tido colaboração do exterior. Mas não desisti.
Se um génio da lâmpada lhe concedesse um desejo, que sonho para este museu gostaria de ver concretizado?
Precisava de um génio com mil lâmpadas. Mas numa versão clássica queria que o edifício estivesse nas melhores condições. O resto vamos nós fazendo. O problema são as questões estruturais: degradação das fachadas, cobertura, vitrinas e alcatifas de 1983…
Este museu pode ser colocado no clube dos grandes museus mundiais?
Posso parecer muito ambiciosa, mas garanto-lhe que sim. Como estudante já tinha essa impressão. Agora, como directora, tenho a certeza. Recebo diariamente pedidos de empréstimo de obras. Só no ano passado houve seis pedidos para emprestar o S. Jerónimo de Dürer.
Obras dessas podem sair?
Não é consensual. Mas por que não fazer parcerias com o Louvre? Eles estariam sem dúvida interessados em apresentar a baixela Germain.
Por que razão a forte componente pedagógica das exposições temporárias não tem correspondência na colecção permanente?
O MNAA não tem audioguias, o que é confrangedor. Além de não garantir o acesso aos conteúdos, tem um discurso arrogante. Parece subentender que quem vem aqui possui uma formação que lhe permite compreender cada peça. E isso é de uma arrogância inaceitável.
Como tornar o discurso menos ‘arrogante’?
Contactei uma empresa de audioguias que está nos principais museus do mundo. As tabelas são omissas e tudo está organizado em função do que é estrangeiro e do que é português. Portugal não pode ter um discurso de auto-exclusão.
Qual o museu que mais gostou de visitar?
Se tivesse de escolher um só museu seria o Louvre, mas aquele onde regresso sempre com absoluto fascínio é a National Gallery de Londres. Isso só é possível porque tem entrada gratuita. Posso ir umas horas da manhã ao museu e voltar no dia seguinte. Era bom que um dia o mundo fosse assim.
Peter Klein disse que é altamente improvável que os Painéis datem de 1460-1470, como diz a tabela.
Por mais respeito que eu tenha por ele, o Sr. Peter Klein é um biólogo e nada percebe de História da Arte. É muito experiente na datação de madeiras, mas outras abordagens mostram que houve um longo processo de realização.
Admite abandonar este cargo?
Quando aceitei dirigir o MNAA fi-lo pensando que seria necessário disponibilizar seis anos da minha vida profissional. Vim preparada para realizar um projecto e estou muito empenhada nele.
Qual é a peça mais relevante que não está em exposição?
Essa questão é um bocadinho mítica. Não há tesouros nacionais em reserva. A questão coloca-se ao contrário: há algumas peças no percurso permanente que precisam de passar à reserva.
jose.c.saraiva@sol.pt
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