Início Separador Opinião Separador Política Separador Sociedade Separador Economia Separador Internacional Separador Cultura Separador Desporto Separador Tecnologia Separador Vida
FaceBook Twitter RSS 2.0 Pesquisar
 
 
 
 
Diminuit textoAumentar texto
Até Setembro
Grémio Lisbonense obrigado a abandonar instalações
As instalações ocupadas pelo Grémio Lisboneses, na Praça do Rossio desde 1842, terão de ser desocupadas até Setembro, segundo uma ordem de despejo dirigida à associação
 
Ver artigoVer relacionados

A sentença que ordenou o despejo transitou em julgado no passado dia 15 de Março e teve origem em 1998, quando a execução de obras numa das salas do Grémio, pelos inquilinos, despoletou uma acção judicial pelo proprietário do imóvel.

O proprietário alegou junto do tribunal em Janeiro de 1999, «que o arrendatário [Grémio Lisbonense] realizou obras de alteração substancial das divisões, sem o consentimento do senhorio», no andar da Rua dos Sapateiros 226, conforme consta do processo a que a Lusa teve acesso.

No referido documento, o proprietário afirma que «demoliram-se paredes interiores» na sala sul do imóvel, que «parte do chão de madeira foi levantado e substituído por mosaicos», bem como a alegação de que a «resistência e a segurança do prédio ficaram diminuídas».

Do processo consta ainda que o Grémio «cedeu a utilização de parte do imóvel a terceiros, sem ter autorização» e que «não o comunicou ao proprietário», sendo em parte os motivos que levaram à resolução do contrato datado de 1927. 

Em declarações à Lusa, o vice-presidente da instituição, José Natário Pedro, disse entender parte dos argumentos, mas alega que herdou esta situação da direcção anterior.

No entanto, afirma que os anteriores dirigentes «não mexeram em nenhuma parede mestra», nem «nas estruturas».

Sublinhou ainda que «as obras eram necessárias devido à idade do imóvel», que não tinha «casas de banho» e a cozinha não se adequava aos actuais padrões exigidos.

A 'sala da discórdia' na parte sul do andar que o Grémio arrenda e que motivou o processo em tribunal, interposto pelo proprietário, continua com as paredes sem reboco e de tijolos à mostra, como demonstrou à Lusa Dina Martins, a sócia número 840 do Grémio.

Dos cinco responsáveis «pertencentes à anterior direcção, só um está vivo», mas os actuais dirigentes não sabem «do seu paradeiro há vários anos», adiantou José Natário Pedro.

A actual situação do Grémio Lisbonense está a ser seguida com «toda atenção e preocupação» pelo presidente da Junta de Freguesia de São Nicolau, António Manuel, que lembra que é a «colectividade mais antiga do país» e uma «instituição de referência na história da cidade».

António Manuel divulgou à Lusa que a Junta de Freguesia de São Nicolau tomará «muito em breve» uma posição oficial sobre esta situação, alertando para a perda desta «âncora cultural» na baixa pombalina.

Recordou ainda a «responsabilidade social e cultural da instituição», que foi utilizada por diversas vezes para distribuir comida aos sem-abrigo e mais necessitados da baixa lisboeta. 

A Lusa contactou um dos três herdeiros constantes no processo do prédio, que acolhe a sede do Grémio Lisbonense, que remeteu para outro dos titulares da propriedade qualquer declaração acerca deste assunto.

Até ao momento, a Lusa ainda não conseguiu obter qualquer declaração deste herdeiro e reconhecido proprietário do imóvel, conforme consta do processo. 

Numa tentativa de salvar a associação de carácter cultural e recreativo, um grupo de cidadãos e alguns sócios lançaram uma petição online, onde apelam para se encontrar «uma forma consensual de impedir o despejo»

Fundado a 26 de Outubro de 1842, o Grémio Lisbonense foi distinguido com o grau de comendador da ordem de benemerência pelo então Presidente da República Óscar Carmona, no ano em que comemorou o primeiro centenário (1942), e com a medalha de mérito Grau Prata da cidade de Lisboa pelos serviços prestados à comunidade. 

No Salão Nobre, destacam-se várias placas alusivas aos aniversários da associação que já assistiu à viragem de dois séculos.

Actualmente, a instituição conta com cerca de 300 sócios, muitos deles com idades avançadas que aproveitam o espaço para se encontrarem com «velhos amigos» e para «matar o tempo» a jogar às cartas.

Uma das curiosidades do Grémio Lisbonense, está no facto de existir um sócio barbeiro que se desloca duas vezes por semana à associação para «cortar o cabelo e a barba à moda antiga» aos «amigos e sócios do grémio», com vista privilegiada para o Rossio, contou à Lusa Raul Calado de 76 anos, um confesso amante do Fado e de Jazz.

Da história da instituição fazem parte nomes como o de Agostinho da Silva, Sam Levi, Mestre Lagoa Henriques, Mestre Lima de Freitas, Maestro José Atalaia, Ferreira da Silva e do pedagogo João Lopes Soares, que tem uma placa comemorativa da sua passagem pelo Grémio em 1970.

O edifício onde está instalado o Grémio Lisbonense destaca-se pela 'varanda da Santa Inquisição', por cima do Arco do Bandeira, virada para a praça do Rossio, que foi mandada construir pelo Marquês de Pombal, após o terramoto de 1755.

O Marquês de Pombal ordenou a transferência da varanda do tribunal da Santa Inquisição, que funcionou no edifício onde está actualmente o Teatro Dona Maria Segunda, para o imóvel onde está o grémio, contou o vice-presidente da instituição.

O Salão Nobre da instituição é o cartão de visita do Grémio Lisbonense, que apesar dos anos marcados pelo tempo nas paredes transporta os visitantes até ao tempo do Marquês de Pombal.

Trata-se de uma sala quadrada com cerca de 60 metros, onde estão duas mesas de bilhar iluminadas por um candeeiro de dimensões «generosas».

Com um pé direito com mais de sete metros de altura, a sala é forrada com decorações de madeira antiga e tem ao centro, viradas a norte, duas portadas em vidro que dão acesso à varanda com vista sobre a Praça D. Pedro IV, mais conhecida por Rossio.

Lusa (Mário Pedro Caetano)/SOL

Relacionados


Galeria Multimédia
 

mais galerias
 
 
 
© 2007 Sol. Todos os direitos reservados. Ficha Técnica. Regras de acesso. Contactos. Publicidade. Mantido por webmaster@sol.pt