
©António Pedro Santos/SOL
VERÃO de 1959. Joaquim Costa sobe pela primeira vez ao palco da Feira da Estrela – que também era ‘da alegria’ e ‘da mocidade’, como anunciavam os cartazes.
Com um grupo de amigos tenta fazer a música que ouviu pela primeira vez numa jukebox do Parque Mayer e lhe «entrou pelo corpo adentro».
O rock and roll chegava do outro lado do atlântico a quem tinha um escudo para gastar nas máquinas que punham a tocar rodelas de 78 rotações.
Até aquele Verão, ninguém se tinha atrevido a reproduzir a música que a imprensa nacional chamava então de «selvagem», «descontrolada» e «perigosa».
E fizeram-no sem guitarras eléctricas, sem amplificadores, sem bateria e sem saber inglês. Nada que fizesse falta, até porque o grupo de Joaquim Costa tinha atitude – e consta, até nos mais antigos manuais do rock, que isso é o mais importante. Verão de 2007.
Joaquim Costa, 72 anos, bisavô de guitarra em punho e cabelos brancos em poupa, sobe ao palco do Cabaret Maxime. É o regresso do ‘primeiro rocker português’, 29 anos depois do último concerto.
E para o rótulo sair das aspas é preciso uma explicação rápida: Joaquim é o pioneiro porque é dele a primeira gravação conhecida de um tema rock: duas faixas datadas de 1959, gravadas na extinta Rádio Graça, e que agora são reeditados pela editora Groovie Records, o selo que agendou o concerto de passado dia 3, no cabaret da Praça da Alegria, em Lisboa.
A sala, onde poucas vezes se puderam ver tantos cabelos brancos, estava cheia. Marcam presença rockabillys, amigos, família, curiosos e habitués da casa. Joaquim veste à rocker e abana as ancas como mandam as regras e a idade permite. A voz sai-lhe irrepreensível e mesmo sem saber falar inglês a mensagem passa.
«Eu tenho isto dentro de mim, é preciso é ritmo», explica Joaquim, «antes a malta era pobre e ninguém falava inglês. É meter umas palavras, uns ‘ baby baby’, uns ‘yeah yeahs’» .
Tocou cerca de 20 minutos até que as 72 primaveras, e todos os problemas da idade que não se vendem em separado, o levaram de volta aos bastidores: «já não aguento como antigamente».
A acompanhá-lo estiveram três músicos que podiam ser seus filhos ou mesmo netos: Paulo Furtado (dos Wraygunn e Legendary Tigerman), na guitarra; Pedro Pinto (Wraygunn), bateria; e Pedro Gonçalves (Dead Combo), no baixo.
Não se conheciam até à hora do soundcheck que, na verdade, serve mais de ensaio – Tutti Frutti, por exemplo, só é tocada de princípio ao fim à quarta tentativa.
«Esta parte é ‘dam dam dam’ e depois tu entras assim com o ‘tap tap tap’». Maestro Joaquim Costa comanda. Não há notas nem tempos, não é preciso -- e já estamos avisados que nisto do rock o que conta é a atitude.
«Arranjem alguém com 72 anos que cante melhor do que eu e eu dou-lhe um beijo na boca – que não é coisa que eu faça». Joaquim está afinado e canta como em 1959, quando começou na Feira a 50 escudos por noite. Hoje, o dinheiro não interessa.
Não recebeu nada pelo concerto do Maxime, já não está no negócio pelo dinheiro. A declaração de interesses segue dentro de momentos: «O [José] Cid, o [Paulo de] Carvalho, o Marco Paulo, andam todos prái a dizer que cantar é um ofício. Qual quê! Cantar é um prazer, é um gosto. É uma vaidade até. Trabalho é um gajo vergar a mola».
Já lhe chamaram o Elvis de Campolide, mas o título precisa de uma actualização. Joaquim Costa vive agora perto da Calçada do Combro, ali a dois passos (a subir) da Assembleia da República.
Passaram três dias desde que o vimos no Maxime, diz que não pensa voltar a tocar, que isso é coisa difícil de fazer aos 72 anos: «Já não me vou meter nisso», desabafa primeiro, «depois logo se vê», acrescentaria mais tarde. O telefone toca, é um convite para ir «cantar à radiotelevisão».
Depois logo se vê. Lamenta não ter tocado para mais malta rockabilly e o cansaço que o impediu de estar mais tempo em palco. «Podia até ter cantado um fado, mas não quis». Joaquim está reformado, ocupando os dias a tocar guitarra ou às voltas com a sua colecção de discos.
Foi ajudante de canalizador, reparou elevadores, trabalhou em serralharia e fez de alfarrabista. O tempo em cada emprego dependia dos humores de Joaquim, coisa que naquela altura mudava como um disco numa jukebox. Irrequieto, rebelde e inconstante, preferia a noite e o cinema à estabilidade de uma profissão.
O próprio resume esse estado de espírito melhor -- e com a ajuda de um pássaro: «Era como os pardais, não gostava da gaiola». A sala de estar do primeiro andar da Rua dos Poiais de São Bento está forrado a prateleiras cheias de discos, livros e álbuns.
«É o meu tesouro», confessa. Os olhos de Joaquim brilham ao folhear cadernos de recortes de imprensa, fotografias e cartas de fãs – as que sobreviveram aos ciúmes da mulher: «já sabe como é». Há ainda antologias do rockabilly e uma história do rock português feitas à mão.
Diz datas, nomes e discografias de cor, sempre intervaladas por um medley trauteado dos sucessos da época. Cartazes de concertos, bilhetes antigos e caricaturas, cada um com uma história para contar.
Saudosista confesso, diz estar demasiado agarrado aos anos 50, «não devias, mas estou». Vale a pena perguntar porquê? «Porque foram os melhores anos da minha vida». Foram os anos em que ia às cabines cantar para as meninas da central telefónica, os anos em que ajudou o Cascalheira Futebol Clube a subir à II Divisão – «diziam-me, ‘ó Costa, tu cantas melhor do que jogas’» – , os anos em que dava concertos nas casas de amigos.
Foi a partir das gravações de um concerto em 1978, numa mansão nos arredores de Lisboa, que se completou o disco agora editado pela Groovie Records, uma independente que edita apenas em vinil.
Juntaram-nas às músicas registadas na Rádio Graça e assim surgiu Rock and Roll, canta Joaquim Costa. São versões despojadas de êxitos da altura (Tutti Frutti, Rip It Up ou Shake Shake My Baby faziam parte do reportório de qualquer banda), o embrião do rock português na mesma altura em que o género irrompia lá fora – e que vale ao disco o rótulo de ‘Rock Primitivo’ e a curiosidade de coleccionadores estrangeiros.
Das gravações para a rádio de 1959 apenas foram prensados dois exemplares. O primeiro desapareceu depois de encerrada a emissora e o segundo andou perdido durante três décadas. Um dia, Joaquim reencontra o disco na feira da ladra, local que sempre frequentou e onde nunca desistiu de procurar.
Deu por ele 200 escudos e nunca mais o largou. A data está anotada num papel dum caderno de recordações e da memória que não falha. 24 de Outubro de 1989: «Foi o dia mais feliz da minha vida».
luis.miranda@sol.pt