São raras as vozes assim. Que a cada palavra parece que nos rasgam a carne, nos esmurram a alma e dão cabo de quaisquer ambições contemporâneas de ter os sentimentos bem domados e trancados lá em casa.
E se nos discos já Aldina Duarte canta um fado à flor da pele, despojado, como se todo o mundo pudesse ser reduzido a um poema e uma guitarra, em concerto a voz que lhe sai lá de dentro parece até surpreender a própria. Como na História da música terá havido poucas: uma Billie Holiday, uma Chavela Vargas (que ainda hoje canta)…
De tal forma que ontem, perante uma sala da Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, cheia de convidados e curiosos, após a interpretação sublime de ‘Não Vou, Não Vou’ ou ‘Quadras de Amor Errante’, Aldina pareceu demorar alguns segundos a perceber onde estava. Como se, de repente, se achasse nua perante uma plateia de estranhos e não soubesse o que fazer da vida.
Só depois dessa desorientação momentânea, saída do mergulho do transe, era capaz de esboçar um sorriso libertando-se da vergonha de todos os presentes lhe terem espreitado para os mais fundos dos seus medos, as mais escondidas das suas dores.
Perante a assistência, Aldina pediu desculpa por não ter seguido à letra o conselho de Carlos do Carmo e não ter cantado mais os fados que compõem Mulheres ao Espelho – chegado ontem às lojas – antes de os passar para disco.
Por uma razão muito simples: na vida que ontem lhes conhecemos, os temas do novo álbum são de uma força tremenda, de uma torrente emocional que nos deixam sem equilíbrio possível. Em disco são muito bons, ao vivo secam-nos a boca e deixam-nos sem pinga de sangue. Mais não se pode pedir.
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