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Ernâni Lopes
‘Portugal terá grandes dificuldades para sair desta crise’
Portugal «está a viver um cenário de definhamento. Este é o principal problema da economia nacional». A leitura é do presidente da SaeR. Em entrevista ao SOL, Ernâni Lopes diz que o país «está há uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância, sem densidade política». Mas há esperança: «Só depende dos portugueses»
 
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Vários indicadores macroeconómicos têm vindo a melhorar. Já estamos a sair da crise?
Na conjuntura há alguns sinais de melhoria, mas não de resolução. Tudo indica que as grandes dificuldades na distribuição de riqueza e a perda do ritmo da actividade económica pararam. Também do ponto de vista dos sistemas financeiros evitou-se o pior.

Pode falar-se já de uma recuperação sustentada da economia global?
Há estimativas, mas o quadro de incertezas é ainda muito alargado. Em termos puros de medida de estatística, as taxas trimestrais dos Produto Internos Brutos (PIB) de várias economias tiveram uma melhoria qualitativa, mas sem grande importância. São um consolo psicológico. Fico de boca aberta com a ingenuidade das pessoas. Não sei se são ou querem fingir ser.

 

Considera que há um aproveitamento político dos indicadores económicos?
Só sei que é de uma grande irresponsabilidade fazer uma grande festa com o facto de, em vez de descer 4,5%, descer 4%. É claro que a diferença tem alguma relevância, mas desce muito na mesma. Em álgebra, menos mau quer dizer bom, mas na vida real não. Passou-se de uma crise geral no sistema financeiro para a economia, que continua. A actividade económica ainda está a fazer um processo de ajustamento muito forte. Mas é na política e na sociedade que se vai arrastar por mais tempo e com consequências mais profundas.

Como vê as ajudas à economia dadas pelos Estados?
Travaram o descalabro total. Foi muito caro, triliões e triliões de dólares, mas serviu para travar. É preciso notar, porém, que nenhum problema de fundo do sistema financeiro foi resolvido. É uma ilusão pensar que sim.

 

Ao contrário dos EUA, Europa e Japão, em crise, os BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China, estão em força...
É verdade. São os pólos emergentes da economia mundial. Esta crise está a potenciar e a agudizar um processo de reestruturação de poder e riqueza à escala global. Como, porventura, não ocorre há vários séculos.

Portugal vai conseguir sair mais cedo desta crise?
Lamentavelmente, não. Acredito mesmo que sairá mais devagar e com maiores dificuldades, falando da actividade macro, medida pelo PIB. E, se falarmos sobre o emprego e questões sociais, não há nenhuma recuperação à vista. A evolução dos últimos anos implicou destruição de riqueza e emprego a níveis a que não se assistia há décadas à escala internacional. Resulta da conjugação do quadro macro – a evolução económica e financeira geral – com  a evolução tecnológica e a competição global.

 

A economia nacional tem crescido de forma anémica desde 2000. O que antecipa daqui em diante?
Nesta primeira década do século XXI verificamos que se instalou em Portugal um cenário de definhamento. É o problema mais imediato e que temos de matar. O problema é que não há maneira.

Este esvaziamento é apenas uma questão portuguesa?
A primeira década do século XXI no quadro europeu não é brilhante, mas a grande diferença é que a maior parte dos países é muito maior e muito mais rica. Agora ser pequenino e pobrezinho como Portugal é que não é bom para nenhum país.

 

Porque é tão crítico em relação a estes últimos anos?
Esta década revelou-se um registo muito pobre da vida portuguesa. É uma década sem garra, sem ideias, sem verdade, sem força, sem lucidez, sem substância, sem densidade política. Mostrou a predominância de banais tentativas de ilusionismo político. De incapacidade na visão estratégica e de fantasia na leitura das realidades económico-financeiras. Mostrou uma percepção materialista da sociedade portuguesa, sem rasgo para o futuro e sem verdade, numa atitude vulgar e interesseira, vazia e sem horizontes. Um permanente esforço exibicionista sem conteúdo e uma expressão sem nobreza. Trabalho desde a década de 60 e nunca vi nada assim. Mais do que perdida, é uma década historicamente esvaziada.

Neste período estiveram no poder socialistas e social-democratas...
Isto não tem a ver com partido A ou B.

 

Já defendeu um entendimento entre PS e PSD. Mantém essa visão?
Uma coligação dos dois maiores partidos – Bloco Central – teria vários pressupostos para fazer sentido, mas que não existem neste momento em Portugal. O primeiro seria o reconhecimento de uma situação aguda na vida do país, como a que vivemos. O segundo seria um tremendo empenhamento em termos nacionais e não partidário. Em terceiro, um mínimo entendimento recíproco.

Um governo minoritário como este está em condições de cumprir toda a legislatura?
Por princípio, sim. Se este em concreto terá condições? Não sei.

tania.ferreira@sol.pt

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