O protesto começou com um abaixo-assinado de 67 professores que disseram que o papa de origem alemã não era bem-vindo por ser um teólogo retrógrado, que coloca a religião acima da ciência.
«Lamento profundamente a decisão do Papa Bento XVI» , disse o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, após o anúncio do Vaticano. Prodi pediu que ele reconsidere. «Nenhuma voz deve ser silenciada no nosso país, principalmente quando se trata do Papa».
Os descontentes citavam um discurso proferido há quase duas décadas na universidade pelo então cardeal Joseph Ratzinger em que ele parecia justificar o julgamento de Galileu, ocorrido no século XVII, que foi considerado herege por defender que a Terra girava em torno do Sol.
Seguidores do Papa disseram que Bento XVI estava apenas a citar a opinião de um teólogo austríaco, mas sem concordar com o julgamento de Galileu.
A polémica reavivou as discussões em Itália sobre o papel do Catolicismo na vida do país. «Acho que a visita do Papa não é uma coisa boa porque a ciência não precisa de religião. A universidade está aberta a toda forma de pensamento, mas a religião não está», disse o professor Andrea Sterbini, um dos signatários do protesto.
«O Papa está a fazer a La Sapienza refém. Liberdade aos pensadores» , diz um cartaz deixado por estudantes.
Já aliados insuspeitos saíram em defesa do Papa. O Nobel de Literatura Dario Fó, crítico da Igreja, defendeu o direito do Papa à expressão
«Sou contra qualquer forma de censura, porque o direito de expressão é sagrado» , disse o escritor ao jornal La Repubblica.
Prodi e outros políticos queixam-se do clima de intolerância em Itália, mas os adversários do primeiro-ministro disseram que o governo deveria ter-se empenhado mais no discurso.
«É uma dolorosa surpresa que fere e humilha o Estado, que não pôde garantir a liberdade de expressão» , disse o ex-primeiro-ministro Silvio Berlusconi.
A La Sapienza foi fundada há 705 anos por um Papa, e o chanceler que convidou Bento XVI disse que o incidente serve para levar «crentes e não-crentes» a reflectir.
Em 2006, o Papa já tinha atraído protestos por causa de uma citação num discurso. Na ocasião, falava numa universidade alemã quando citou um imperador bizantino do século XIV segundo o qual o Islão é uma religião que se baseia na violência.
O discurso provocou violentos protestos no mundo islâmico, e o Papa posteriormente pediu desculpas pelo que disse ser um mal-entendido.
SOL com agências