Operadores de call center, estagiários, trabalhadores a recibos verdes, bolseiros, contratados a prazo e estudantes manifestaram-se esta tarde, em Lisboa.
Ao todo, cerca de 250 pessoas desfilaram contra aquilo a que chamam precariado – termo derivado de ‘precário’, ainda não reconhecido pelo Dicionário da Academia – no primeiro Mayday em Portugal.
A iniciativa, organizada pela primeira vez em Milão há seis anos e que se tem alastrado por toda a Europa, visa chamar a atenção para as más condições de trabalho dos jovens de hoje em dia.
A ideia é «dar visibilidade ao precariado que pela primeira vez se juntou contra a insegurança no trabalho», explicou um dos organizadores, Tiago Gillot, ele próprio um estagiário.
Pelas 15h o grupo partiu sob escolta policial da Alameda D. Afonso Henriques, onde se juntou, para caminhar até Alvalade e se fundir com a manifestação da CGTP.
O Mayday é uma iniciativa apartidária com uma organização informal, explica Gillot: «Partiu de movimentos já existente nas faculdades – mas não associações académicas – como o ATTAC [Associação para a Taxação das Transacções Financeiras para a Ajuda aos Cidadãos]. Depois juntaram-se outros como os Panteras Rosas [Frente de combate à Homofobia], SINTTAV [Sindicato Nacional dos Trabalhadores das Telecomunicações e Audiovisual] e FERVE [Fartos d’Estes Recibos Verdes]».
Actriz desempregada, Catarina Príncipe faz parte desta última associação. Veio de propósito do Porto, onde é a sede deste grupo ainda não oficializado, para Lisboa a uma manifestação que considera «importante» e por «solidariedade à causa».
A ‘causa’, explica, é a «quantidade de estudantes que têm de ir para call centers para pagar os cursos e que quando saem das faculdades têm de lá voltar porque não arranjam trabalho».
Foi o que fez Markus Almeida: «Quatro anos de curso, quatro call centers diferentes». A finalizar o curso de História Contemporânea no ISCTE, o jovem de 23 anos ironiza, entre gargalhadas: «Posso vir a ficar permanentemente em trabalho temporário».
Para a organização do Mayday a precariedade no trabalho tem a particularidade de não depender da formação. A manifestação foi «tanto pelo telemarketeer que tem contratos de 15 dias, como pelo bolseiro de ponta que tem contratos de seis meses».
Pela rua foram entoados cânticos que aludiam à exploração dos jovens trabalhadores. Os cartazes incluíam frases como «trabalho temporário = máfia» ou o mais original «licenciado em engenharia, empregado do mês num call center».
A manifestação – ou ‘desfile’ e ‘parada’, termos preferidos pela organização – decorreu sem incidentes. A presença de um polícia à paisana, por coincidência de cabeça rapada, fez exaltar alguns ânimos.
«A tua manif é no Rato às quatro», gritou um popular equivocado, lembrando a manifestação do PNR agendada para a mesma tarde.
luis.miranda@sol.pt