«Vermos uma instituição pública fazer formação numa área regulada por outra instituição é de facto espantoso. Estão a ser utilizados fundos públicos, humanos e financeiros, para fins ilícitos», disse hoje à agência Lusa o dirigente sindical Almerindo Rêgo.
Acrescentou que as acções de formação foram justificadas por Helena Gonçalves, directora do Centro Regional de Sangue, com a realização de um estudo de detecção precoce da viabilidade de potenciais dadores, afirmação que contesta, reclamando a demissão da responsável.
Para o presidente Sindicato das Ciências e Tecnologias da Saúde, a realização de estudos de diagnóstico ou de caracterização da população está reservada aos técnicos superiores de análises clínicas.
«Isto [a formação de enfermeiros] não faz sentido nenhum. O normal na abordagem aos dadores é o médico realizar um exame clínico remetendo o dador para um laboratório para efectuar as análises», explicou.
Contactada pela Lusa, Helena Marques, manifestou-se «surpreendida» pela posição do Sindicato das Ciências e Tecnologias da Saúde, garantindo que a iniciativa do Centro Regional de Sangue de Coimbra se insere num projecto-piloto e não põe em causa as competências dos técnicos.
«Querem dar a ideia que estamos a entrar nas competências dos técnicos de laboratório e não estamos de todo. É um projecto-piloto inovador que não tem nada a ver com o conteúdo funcional dos técnicos que fazem toda uma bateria de análises clínicas«, argumentou.
Aquela responsável explicou que a ideia passa pela efectuação de uma pré-análise pelas brigadas de colheita de sangue, constituídas por médicos e enfermeiros, «mas que não possuem técnicos de análises, que estão nos laboratórios».
O teste, disse, possibilita saber se uma pessoa pode ou não ser dador, através da utilização de uma enzima «sem ser necessário fazer uma recolha de sangue».
«Há casos como o de obesos, pessoas com problemas de consumo de álcool ou doentes hepáticos em que se a enzima estiver elevada são rejeitados como dadores. É o que as brigadas já fazem para a hemoglobina, se uma pessoa a tiver muito baixa não pode ser dador de sangue», frisou.
As acções de formação irão abranger cerca de 30 enfermeiros da região de Coimbra e estão agendadas para 22 e 31 de Julho, apesar da contestação da estrutura sindical.
O sindicato anunciou ter apresentado queixa à Inspecção-Geral das Actividades em Saúde e ameaça levar o caso à ministra da Saúde, Ana Jorge, «caso a formação se mantenha».
Almerindo Rêgo admitiu ainda que Sindicato das Ciências e Tecnologias da Saúde poderá apresentar queixa ao Ministério Público, contra os enfermeiros participantes na formação, «por usurpação de funções», caso estes venham a exercer funções «para as quais não estão legalmente habilitados»