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Face Oculta
Sócrates mentiu ao Parlamento sobre a TVI
As escutas do processo ‘Face Oculta’ provam que o primeiro-ministro faltou deliberadamente à verdade quando disse no Parlamento que desconhecia o negócio da compra da TVI  pela PT, avança a edição do SOL desta sexta-feira
 
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Segundo o SOL apurou, as conversas entre Armando Vara e o primeiro-ministro  sobre a questão PT/TVI, que constam no ‘processo Face Oculta’, ocorreram em Março – constituindo a primeira das nove certidões extraídas pelo DIAP de Aveiro.

Ora as declarações de Sócrates no Parlamento sobre este tema ocorreram a 24 de Julho. Esta semana, o procurador-geral da República (PGR)  afirmou que soube do assunto «numa reunião, entre Maio e Junho», com o procurador do DIAP de Aveiro, titular do inquérito, e com o procurador-distrital de Coimbra.

Consultando a agenda oficial de Pinto Monteiro, o SOL constatou que essa reunião ocorreu no dia 24 de Junho, às 11h. Segundo o PGR, a primeira certidão (negócio  PT/TVI) foi-lhe remetida no dia 26 de Junho, estando as conversas de Vara e Sócrates  gravadas há algumas semanas.

Ora, Sócrates negou saber o que quer que fosse sobre o envolvimento da PT precisamente na tarde de 24 de Junho – dia do debate quinzenal com os partidos da oposição na Assembleia da República (e, curiosamente, o mesmo dia da reunião do PGR com os seus adjuntos).

No hemiciclo, e tendo em conta o historial recente de ‘guerra’ de Sócrates com a TVI, o CDS perguntou se o Governo estava a par do envolvimento da PT na compra da estação, que os jornais tinham revelado no dia anterior e que a própria PT já tinha assumido. José Sócrates foi peremptório a negar e até ironizou:

«O Governo não dá orientações nem recebe informações da PT. Mas qual é o interesse que o senhor deputado tem na linha editorial da TVI? Está preocupado com alguma coisa? Como eu o percebo: como a linha editorial é contra o Governo, não tirem de lá ninguém, pois assim é que está bem».

À saída do debate, Sócrates foi interpelado pelos jornalistas e voltou a responder: «Nada sei disso, são negócios privados e o Estado não se mete nesses negócios. Não estou sequer informado disso, nem o Estado tem conhecimento disso».

Conforme o SOL então noticiou, nesse mesmo dia a Prisa já tinha tudo acertado para José Eduardo Moniz abandonar a direcção da TVI, pagando-lhe a devida indemnização. No dia seguinte, 25 de Junho, tudo mudaria, com a Prisa a recuar na demissão de Moniz.

É que a reacção dos comentadores políticos e dos partidos da oposição tinha entretanto atingido o climax – com a líder do PSD, Manuela Ferreira Leite, a dizer que não acreditava que Sócrates estivesse a falar verdade, uma vez que o Estado tem uma golden share na PT. E até o Presidente da República, abriu «uma excepção» para falar do assunto: «Face às suspeitas que estão instaladas, é importante que os responsáveis da PT expliquem o que se está a passar entre a PT e a TVI. É necessário haver transparência e ética nos negócios».

Conforme o SOL noticiou na altura, a própria PT, percebendo a delicadeza do momento, diligenciou junto da Prisa para que suspendesse o afastamento de Moniz. Na noite do dia 25 de Junho, após a intervenção de Cavaco, Zeinal Bava, presidente executivo da PT, foi entrevistado por Judite de Sousa (a segunda entrevista no espaço de um mês) e repetiu à exaustão:  existia apenas «um interesse» da PT na TVI, pois precisa de arranjar conteúdos para o cabo, e não já uma negociação.

No dia seguinte, 26 de Junho, Sócrates anunciava que já tinha enviado Mário Lino, ministro das Obras Públicas, reunir com Henrique Granadeiro, presidente da PT, para lhe comunicar que o Estado usaria a golden share para vetar o negócio se este fosse por diante.

«O Governo não quer que fique a mínima suspeita de que há uma qualquer tentativa de alterar uma linha editorial de qualquer órgão de comunicação social» , disse Sócrates.

(Nesta altura, segundo o SOL apurou, alguns dos arguidos no ‘Face Oculta’, mudaram os telefones com que habitualmente se contactavam – o que explicará por que o PGR disse, nos últimos dias, que já tinha pedido informações sobre alguns dos alvos que se encontram nos 50 CD enviados pelo procurador distrital de Coimbra.)

O que se seguiu ganha outra luz, tendo em conta o que se sabe do ‘processo Face Oculta’.

No dia 5 de Agosto, a Ongoing – liderada por Nuno Vasconcellos e que é também accionista da PT – anunciou que contratara Moniz para a vice-presidência da sua holding de media. E admitiu o interesse em comprar a TVI.

No dia 3 de Setembro, a administração da TVI acabou com o Jornal de Sexta de Manuela Moura Guedes.

No início de Outubro, o Jornal de Negócios noticiou que a PT tinha feito, nos primeiros seis meses deste ano, investimentos de 75 milhões de euros em fundos geridos pelo grupo Ongoing. Dias depois, o Público explicava que as aplicações foram feitas sob responsabilidade de Fernando Soares Carneiro, um dos administradores executivos da PT – e sem que o assunto tivesse sido levado ao comité de investimentos desta empresa, o que levara o administrador representante da CGD na PT a questionar a matéria. Soares Carneiro garantiu depois  que o comité de investimentos (no qual tem assento também Nuno Vasconcellos, líder da Ongoing) sabia. O representante da CGD, Jorge Tomé, demitiu-se da PT.

«Não temos nada a esconder e não temos telhados de vidro» , reagiu, por seu turno, Nuno Vasconcellos, negando que as aplicações da PT na Ongoing International fosse uma forma encapotada de financiar a compra da TVI.

Falta saber o que vai acontecer com o grupo de Joaquim Oliveira (sócio com a PT na Sport TV), sabendo-se há muito que este quer vender o seu grupo editorial e que precisa de capital.

paula.azevedo@sol.pt e felicia.cabrita@sol.pt

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