
«Sabemos o que temos passado ao longo dos anos com as permutas e negócios deste espaço e por isso vamos continuar a tentar resistir», afirmou Júlio Gonçalves, o porta-voz dos últimos sete arrendatários resistentes no Parque Mayer.
A Câmara de Lisboa aprovou sexta-feira a proposta do presidente, António Costa (PS), para a autarquia passar a defender em tribunal a nulidade da permuta dos terrenos da Feira Popular com o Parque Mayer.
A proposta aprovada sexta-feira determina que, depois de «declarada judicialmente a nulidade da permuta» com a empresa Bragaparques pelos terrenos da antiga Feira Popular em Entrecampos, a Câmara mantém a intenção de «proceder à aquisição do Parque Mayer, por via de acordo ou, e caso seja necessário, mediante expropriação pública».
Os comerciantes e a única moradora no recinto «não aceitam a anulação da permuta dos terrenos para a Bragaparques» e querem que a situação seja resolvida pela Câmara Municipal de Lisboa.
«Não podemos reparar, melhorar ou arranjar, mesmo que queiramos, as instalações dos nossos negócios», em virtude dos imóveis não lhes pertencerem e «existe um total alheamento das autoridades responsáveis», explica Júlio Calçada, o representante das entidades ainda de portas abertas naquele espaço.
Questionado sobre uma solução para os últimos rendeiros, Júlio Calçada desabafa:«não faço ideia nenhuma, mas a câmara Municipal de Lisboa tem responsabilidade nisto tudo», acusando o desgaste e o cansaço de «tantas promessas» ao longo de todo o processo.
O gerente comercial do restaurante O Manel, fundado em 1952, alega que prefere a câmara de Lisboa como titular do espaço e cobradora de rendas, do que a Bragaparques, não reconhecendo à empresa de Braga a «vontade para resolver os problemas».
Vasco Morgado Júnior nascido, criado e um dos contestatários dos negócios dos terrenos do parque, apela para a recuperação do património, afirmando que «o Parque Mayer criticava o governo antes do 25 de Abril, agora faz cair câmaras», reforçando que já «não sabe o que acreditar» mas crê ainda que «o Estado é uma pessoa de bem».
O herdeiro de três gerações ligadas ao teatro de revista, Vasco Morgado, mantém a convicção de que «não se pode perder a tradição e a história» do Parque Mayer, e reafirma que fará tudo o que estiver ao seu alcance para «ajudar a que o património não se perca».
A gerente do restaurante Manecas situado ao lado do Teatro Maria Vitória, assume-se revoltada com «a falta de dignidade e respeito a que as pessoas, e o próprio parque, foram votadas», pelas autoridades.
«Os políticos só se lembram do Parque Mayer durante as campanhas eleitorais», reforçando que «o Parque dá, mas também tira as presidências, os gajos vão todos à vida, nós cá ficamos a sofrer, mas vivos», desabafa a Manecas de forma emocionada.
Mimi, nome artístico escolhido pela própria, de 72 anos, nasceu e foi criada no Parque Mayer, sendo a única «resistente» que ainda habita no parque, disse que ninguém a contactou ultimamente, «falaram comigo [Bragaparques], mas já há muito tempo e sem qualquer resultado».
A senhora afirma que «tem medo de sair das portas do parque, e que só recentemente foi a Campo de Ourique», conta com um sorriso nos lábios.
O receio de se «perder em Lisboa é constante», aguarda as decisões políticas acusando o desgaste e o tempo, apontando para o decrépito Capitólio, «não posso sair daqui, vi isto tudo quando era novo e agora é o que se vê».
O Guarda-roupa Paiva, que celebra 79 anos em Abril, é agora gerido por Helena a terceira geração da família Paiva, que recorda durante a conversa com a Lusa que a empresa fundada pelo seu avô, «vestiu os artistas de três teatros do Parque Mayer, mais o Avenida e o Apollo».
A responsável alega que as classes políticas e as autoridades do país «não têm respeito por ninguém» e que «nunca ligaram nenhuma às pessoas», explicando que o negócio é prejudicado diariamente em virtude da degradação dos imóveis e do espaço que envolve os teatro do Parque Mayer.
A ideia do possível regresso da titularidade do espaço à Bragaparques «é mais um sofrimento para nós»,bastando «ver à sua volta, o estado a que isto tudo chegou», desabafa o cenógrafo Zé Manel, que trabalhou toda a sua vida nos cenários dos teatros daquele espaço.
No Parque Mayer, localizado a meio da Avenida da Liberdade, onde durante décadas foi espaço de artistas e sátira ao poder e à sociedade, ainda funciona o Teatro Maria Vitória, três restaurantes, o Sindicato das Artes e Espectáculos, a Livraria Fumaça e onde habita a septuagenária Mimi.
Lusa / SOL
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