Totalmente financiado e realizado em Portugal, o estudo que será publicado sexta-feira na revista Science utilizou uma técnica para identificar as mutações das bactérias que lhes conferem vantagens em termos da capacidade de resistência, concluindo que estes organismos «têm um potencial adaptativo extraordinariamente elevado».
Isabel Gordo, umas das quatro investigadoras do Instituto Gulbenkian de Ciência, explicou que as bactérias «adaptam-se muito mais rapidamente do que até agora era admitido».
«Pensava-se que tinham uma capacidade de adaptação mil vezes inferior ao que observámos. Este estudo é um contributo substancial para a compreensão de um problema central na teoria da evolução», afirmou.
De acordo com a responsável, as conclusões desta pesquisa «têm implicações importantes ao nível da saúde pública, nomeadamente na resistência a antibióticos e medicamentos».
A descoberta pode «servir de alerta, pois significa que vai ser mais difícil controlar estes microorganismos do que se pensava», disse Isabel Gordo.
O estudo é também um contributo importante para as investigações relacionadas com o cancro, já que perceber o processo adaptativo dos organismos contribui também para compreender o processo de mutação e a rapidez com que ocorre nas células, explicou a cientista.
Isto porque, explicou, «os princípios de adaptação das bactérias são válidos para qualquer organismo».
«Seriam precisos cerca de vinte mil anos para tirar conclusões de um processo semelhante na espécie humana, já que o estudo analisou mil gerações de bactérias e, em humanos, cerca de 20 anos separam cada geração», explicou.
A investigação foi feita usando 'E. coli', uma bactéria de laboratório que se encontra no organismo humano, tendo sido analisadas mil gerações de bactérias.
As mutações espontâneas ou induzidas pelo meio ambiente produzem frequentes alterações na molécula de DNA.
Estas modificações da informação, que determinam a capacidade adaptativa dos organismos, têm habitualmente consequências negativas, mas podem também resultar em mutações benéficas, levando ao ganho de novas capacidades.
As investigadoras calcularam as taxas de mutações de efeito neutro, deletério (negativo) ou benéfico e descobriram que a frequência de mutações benéficas é cerca de mil vezes mais rápida do que se supunha.
O estudo ajuda, por isso, a explicar o rápido aparecimento de resistências por parte de microorganismos patogénicos quando estes são sujeitos a pressões selectivas do ambiente (por exemplo, na presença de antibióticos ou de respostas imunitárias do hospedeiro).
Este é o primeiro trabalho da investigadora que será publicado na revista Science, motivo de enorme satisfação e orgulho para Isabel Gordo, bem como para as três colegas que consigo trabalharam neste projecto.
«A Science é tudo o que um investigador pode querer no seu currículo», afirmou.
A investigação foi realizada por Isabel Gordo, Lília Perfeito, Lisete Fernandes e Catarina Mota, do Instituto Gulbankian de Ciência, que contaram com o apoio de bolsas e contratos de investigação da Fundação para a Ciência e Tecnologia.
Esta será a quinta publicação do Instituto Gulbenkian de Ciência na Science e nas revistas do grupo Nature, só em 2007.
Lusa/SOL