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O PROCESSO chamado ‘Face Oculta’ tem as suas raízes longínquas num fenómeno que podemos designar por ‘deslumbramento’.
Muitos dos envolvidos no caso, a começar por Armando Vara, são pessoas nascidas na Província que vieram para Lisboa, ascenderam a cargos políticos de relevo e se deslumbraram.
Deslumbraram-se, para começar, com o poder em si próprio.
Com o facto de mandarem, com os cargos que podiam distribuir pelos amigos, com a subserviência de muitos subordinados, com as mordomias, com os carros pretos de luxo, com os chauffeurs, com os salões, com os novos conhecimentos.
Deslumbraram-se, depois, com a cidade.
Com a dimensão da cidade, com o luxo da cidade, com as luzes da cidade, com os divertimentos da cidade, com as mulheres da cidade.
ORA, para homens que até aí tinham vivido sempre na Província, que até aí tinham uma existência obscura, limitada, ligados às estruturas partidárias locais, este salto simultâneo para o poder político e para a cidade representou um cocktail explosivo.
As suas vidas mudaram por completo.
Para eles, tudo era novo – tudo era deslumbrante.
Era verdadeiramente um conto de fadas – só que aqui o príncipe encantado não era um jovem vestido de cetim mas o poder e aquilo que ele proporcionava.
Não é difícil perceber que quem viveu esse sonho se tenha deixado perturbar.
CURIOSAMENTE, várias pessoas ligadas a este processo ‘Face Oculta’ (e também ao ‘caso Freeport’) entraram na política pela mão de António Guterres, integrando os seus Governos.
Armando Vara começou por ser secretário de Estado da Administração Interna, José Sócrates foi secretário de Estado do Ambiente, José Penedos foi secretário de Estado da Defesa e da Energia, Rui Gonçalves foi secretário de Estado do Ambiente.
Todos eles tiveram um percurso idêntico.
E alguns, como Vara e Sócrates, pareciam irmãos siameses.
Naturais de Trás-os-Montes, vieram para o poder em Lisboa,inscreveram-se na universidade, licenciaram-se, frequentaram mestrados.
Sentindo-se talvez estranhos na capital, procuraram o reconhecimento da instituição universitária como uma forma de afirmação pessoal e de legitimação do estatuto.
A QUESTÃO que agora se põe é a seguinte: por que razão estas pessoas apareceram todas na política ao mais alto nível pela mão de António Guterres?
A explicação pode estar na mudança de agulha que Guterres levou a cabo no Partido Socialista.
Guterres queria um PS menos ideológico, um PS mais pragmático, mais terra-a-terra.
Ora estes homens tinham essas qualidades: eram despachados, pragmáticos, activos, desenrascados.
E isso proporcionou-lhes uma ascensão constante nos meandros do poder.
Só que, a par dessas inegáveis qualidades, tinham também defeitos.
Alguns eram atrevidos em excesso.
E esse atrevimento foi potenciado pelo tal deslumbramento da cidade e pela ascensão meteórica.
QUANDO o PS perdeu o poder, estes homens ficaram momentaneamente desocupados.
Mas, quando o recuperaram, quiseram ocupá-lo a sério.
Montaram uma rede para tomar o Estado.
José Sócrates ficou no topo, como primeiro-ministro, Armando Vara tornou-se o homem forte do banco do Estado – a CGD –, com ligação directa ao primeiro-ministro, José Penedos tornou-se presidente da Rede Eléctrica Nacional, etc.
Ou seja, alguns secretários de Estado do tempo de Guterres, aqueles homens vindos da Província e deslumbrados com Lisboa, eram agora senhores do país.
MAS, para isso ser efectivo, perceberam que havia uma questão decisiva: o controlo da comunicação social.
Obstinaram-se, assim, nessa cruzada.
A RTP não constituía preocupação, pois sendo dependente do Governo nunca se portaria muito mal.
Os privados acabaram por ser as primeiras vítimas.
O Diário Económico, que estava fora de controlo e era consumido pelas elites, mudou de mãos e foi domesticado.
O SOL foi objecto de chantagem e de uma tentativa de estrangulamento através do BCP (liderado em boa parte por Armando Vara).
A TVI, depois de uma tentativa falhada de compra por parte da PT, foi objecto de uma ‘OPA’, que determinou a saída de José Eduardo Moniz e o afastamento dos ecrãs de Manuela Moura Guedes.
O director do Público foi atacado em público por Sócrates – e, apesar da tão propalada independência do patrão Belmiro de Azevedo, acabou por ser substituído.
A Controlinvest, de Joaquim Oliveira (que detém o JN, o DN, o 24 Horas, a TSF) está financeiramente dependente do BCP, que por sua vez depende do Governo.
SUCEDE que, na sua ascensão política, social e económica, no seu deslumbramento, algumas destas pessoas de quem temos vindo a falar foram deixando rabos de palha.
É quase inevitável que assim aconteça.
O caso da Universidade Independente, o Freeport, agora o ‘Face Oculta’, são exemplos disso – e exemplos importantes da rede de interesses que foi sendo montada para preservar o poder, obter financiamentos partidários e promover a ascensão social e o enriquecimento de alguns dos seus membros.
É isso que agora a Justiça está a tentar desmontar: essa rede de interesses criada por esse grupo em que se incluem vários boys de Guterres.
Consegui-lo-á?
Não deixa de ser triste, entretanto, ver como está a acabar esta história para alguns senhores que um dia se deslumbraram com a grande cidade.
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ESTE espaço tem uma enorme vantagem: aqui posso escrever sobre tudo. Posso escrever sobre experiências pessoais, sobre pessoas que conheci, posso dar opiniões, dissertar sobre o quotidiano, falar sobre hábitos e costumes, filosofar sobre a Civilização.
Tudo aqui me é permitido.
Mas poder escrever sobre tudo é muito difícil – porque o tudo está muito próximo do nada. Às vezes sinto-me a escrever sobre tudo e sobre nada, ou seja, sobre coisas a que outros não dão a mínima importância mas das quais faço, de repente, o centro de todas as preocupações.
E a dificuldade, aí, reside em captar a atenção do leitor, em motivá-lo para a leitura de um texto cujo tema lhe dizia pouco à partida – e, depois, ‘embalá-lo’ de modo a que não abandone a leitura a meio. Há escritores que dizem que não se preocupam com os leitores. Eu preocupo-me. O meu objectivo é que o leitor leia os textos da primeira à última linha. Por isso sinto-me tremendamente desiludido quando vejo um leitor não chegar ao fim de um artigo meu. ‘Onde terei falhado?’ – é a pergunta que faço a mim próprio nessas alturas. Para mim, cada leitor é importante. Quando, na praia, no café ou num transporte público vejo alguém a ler no jornal uma das minhas crónicas, sinto-me nervoso como se fosse para o exame da 4.ª classe.
A CRÓNICA de hoje é sobre ar condicionado. ‘Ar condicionado?’ – estranhará o leitor, não vendo que se possam encher duas páginas falando de um tema tão árido.
A ideia surgiu-me no Verão, numa ida à praia. À minha frente caminhava um jovem com um saco a tiracolo que tinha um pormenor que me intrigou: num dos lados do saco havia uma espécie de altifalante. Primeiro pensei que se tratasse de um rádio ou de um leitor de CD. Mas, observando com mais atenção, verifiquei que aquilo que me parecera ser a grelha de um altifalante tinha dentro uma ventoinha. E aí fez-se luz no meu espírito: aquela geringonça era um mecanismo de refrigeração! Um pequeno aparelho de ar condicionado!
F IQUEI fascinado com a descoberta. Um dos problemas que temos na praia, se levamos alguma coisa para comer e beber, é ficar tudo quente, sem graça. Quando ansiávamos por uma bebida fresca, sai-nos um caldo morno e desenxabido.
Mesmo os tradicionais termos não resolvem muitas vezes o problema – além de que, se levarmos mais do que uma bebida, o caso complica-se. Seria preciso um termo para cada líquido.
Com aquela caixa refrigerada, porém, pode levar-se tudo lá dentro: as bebidas que quisermos, sandes, saladas frescas, eu sei lá!
T IVE, assim, inveja do rapaz. Um saco com ar condicionado é obra! E digo-o com todo o à-vontade, pois nem sou grande fã do ar condicionado.
O ar condicionado nas habitações e espaços públicos só é agradável quando funciona na perfeição e está bem instalado. Caso contrário, é indesejável.
No tempo de canícula (que este ano se prolongou até meados de Outubro) sabe bem entrar numa loja ou na sala de estar de uma casa e respirar o ar fresco. Sucede que, muito frequentemente, o ar condicionado está mal instalado. Nos cafés e restaurantes verificamos isso a toda a hora. Quantas vezes não nos aconteceu sentarmo-nos e começarmos a sentir uma corrente de ar fria que parece orientada para cima de nós – deixando-nos gelados e com uma irritação na garganta ao fim de alguns minutos?
Em quantas ocasiões não tivemos de chamar o empregado e pedir-lhe em voz baixa: «Não se importa de desligar ou baixar o ar condicionado?».
O UTRO problema tem a ver com os quartos dos hotéis. A primeira coisa que hoje faço quando entro num quarto de hotel é desligar o ar condicionado. Quando me esqueço de o fazer, é certo e sabido que na manhã seguinte acordo adoentado. Durante a noite destapo-me, o corpo arrefece com a corrente de ar gelada – e aquilo que às vezes poderiam ser uns agradáveis dias de férias tornam-se uns penosos períodos de luta contra a gripe, ainda mais difíceis de suportar por estar rodeado por pessoas com ar feliz e saudável.
Algumas más experiências levaram-me a ser cada vez mais cauteloso. Mesmo em países quentes, quando hoje entro num quarto de hotel uma das primeiras coisas que faço é procurar o comando do ar condicionado e carregar no stop, confirmando depois que o aparelho ficou bem desligado.
M AS o ar condicionado tem outras desvantagens. Como aquela ‘mania’ que têm os aparelhos colocados nas fachadas dos prédios de pingar sobre os peões que passam na rua. Vamos a andar pelo passeio e zás! – levamos com um pingo em cima. E se a sensação não é boa quando o pingo nos cai na cabeça, pior é quando nos entra pelo colarinho da camisa e escorrega pelas costas abaixo.
Às vezes não percebemos o que se está a passar. Mas, quando olhamos para cima, lá está o inevitável aparelho de ar condicionado preso à parede, com um tubinho de plástico a pingar.
E isto, sendo incómodo, ainda não é o mais grave. Mais grave – muito mais grave – será o leitor apanhar não com um pingo mas com o próprio aparelho em cima. É que em muitos casos os aparelhos de ar condicionado estão presos às fachadas dos prédios com armações de ferro ferrugentas, a cair de podres, que em qualquer momento poderão partir-se ou desconjuntar-se.
Não se percebe que a ASAE, que se preocupa com tanta coisa que não interessa absolutamente nada, não se preocupe com isto – que representa uma gravíssima ameaça à integridade dos cidadãos.
Como não se percebe que não haja legislação sobre o assunto. É que, para lá do perigo que os aparelhos de ar condicionado representam, eles desfeiam horrivelmente os edifícios, transformando as fachadas de prédios por vezes lindos em amontoados de ferro velho.
Com a agravante de que muitos desses aparelhos já não funcionam, estão desactivados há anos, tendo sido substituídos por outros que foram montados sem desmontar os antigos. Enfim, um caos!
E AQUI tem o leitor a prova de como este espaço serve para escrever sobre tudo e sobre nada.
A partir de uma curiosidade – um saco de praia com ar condicionado – acabei por tratar um tema importante para a estética das cidades e a segurança dos seus habitantes. Que esta reflexão sirva de alguma coisa para os legisladores – e para todos os autarcas que foram eleitos no mês passado.
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Sobre o Programa do Governo, tenho a dizer duas coisas.
Primeiro, que é naturalíssimo que Sócrates tenha apresentado como Programa do Governo o programa eleitoral do PS.
O contrário é que seria _estranho.
Seria normal um partido apresentar um programa ao eleitorado – e depois mudá-lo quando se tratasse de governar?
Dir-se-ia, com toda a razão, que o programa eleitoral só fora feito para ganhar as eleições, abandonando-se a seguir.
A segunda coisa que gostaria de dizer é que os discursos dos partidos da oposição não foram os mais adequados.
Já se sabe que eles têm posições diferentes em relação a muitas coisas – mas essas posições foram derrotadas nas urnas.
A posição que venceu foi a do PS.
Assim, pedia-se ao PSD, ao CDS, ao BE e ao PCP que fizessem críticas pontuais e não genéricas, críticas dirigidas, cirúrgicas, sublinhando os pontos de maior discordância.
‘Estamos contra as grandes obras públicas e defendemos as pequenas obras de recuperação’; ‘estamos contra este modelo de avaliação dos professores e defendemos outro assim-assim’; e por aí fora.
As críticas genéricas implicam uma rejeição genérica; ora essa rejeição genérica é inútil, porque não há nenhuma alternativa a este programa de Governo.
Dito isto, gostava de falar sobre um discurso que me impressionou: o do ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado.
Na parte substancial da sua intervenção, o ministro pôs-se a falar dos problemas internos do PSD, a comentar as lutas de facções, a notar que «já vai para o sexto líder em seis anos».
Ora, será este o papel de um ministro de Estado?
Será correcto – para não perguntar se será elegante – um destacado membro do Governo envolver-se nas questões internas de outro partido?
Nem nos clubes de futebol isto acontece...
O que se pede a um governante é que diga o que vai fazer – não é que critique os outros, para desvalorizar e desacreditar as críticas que lhe fazem.
Não me parece, entretanto, que esta forma de agir tenha partido de Luís Amado.
Não está na sua natureza fazê-lo.
Em crónica anterior, referindo-me ao ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos, também assinalei que não lhe ficava bem envolver-se em questiúnculas partidárias e atacar os dirigentes de outros partidos.
E adiantei que não o sentia à vontade nesse papel.
Ora digo o mesmo em relação a Luís Amado.
Sou por isso tentado a pensar que o envolvimento de ambos neste tipo de tricas só é explicável por pedido expresso de José Sócrates.
Sócrates tem esse lado agressivo, quezilento, roçando por vezes o mau gosto na forma como ataca os adversários.
E, para não ser sempre ele a fazer esse papel, pedirá aos dois ministros de Estado – que têm uma imagem mais ‘respeitável’ – para o substituírem de vez em quando nos ataques à oposição.
Esse tipo de ataques, porém, em nada dignifica quem os faz – e muito menos dignifica o Estado.
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Há quem diga que o futebol é uma religião. E, de facto, por uma daquelas extraordinárias coincidências com que por vezes nos deparamos, os nomes dos treinadores dos chamados ‘três grandes’ estavam, até há oito dias, todos relacionados com a Igreja.
E digo até há oito dias porque, entretanto, um deles saiu.
O que saiu chama-se Paulo Bento. Foi treinador do Sporting durante quatro anos e uns meses. E, para lá de ter nome de apóstolo – Paulo –, tem apelido de Papa – Bento. Um apelido tão vulgar no líder da Igreja Católica que já vamos no 16.º Papa com este nome.
Além disso, Bento quer dizer benzido. Água benta é água que foi benzida. Mas nem este facto livrou o treinador de uma verdadeira chuva de impropérios e palavrões saídos da boca de sócios e adeptos do seu próprio clube, mostrando o primarismo e a boçalidade das claques.
Mas se o treinador do Sporting estava ligado à Igreja pelo nome, o do Benfica não o está menos: Jesus. Só que, aqui, os resultados têm ajudado: a equipa de Jesus está bem melhor do que a de Bento. E foi principalmente isto que desesperou os adeptos leoninos e os pôs contra o treinador.
É que o Sporting pode ficar sem qualquer problema em penúltimo lugar numa competição – desde que o último seja o Benfica.
– O nosso rival é o Benfica – dizia-me há dias um sportinguista ferrenho. E explicava: – Sporting e Benfica estão ambos na mesma cidade. Lutam ambos pela hegemonia (e quem sabe se, a prazo, pela sobrevivência) na capital do país. O aumento do poderio do Benfica pode ser fatal para nós.
Quem está muito atento a esta rivalidade é o FC Porto, cujo treinador tem um nome bizarro mas que não está muito fora das nossas cogitações. Refiro-me a Jesualdo Ferreira.
Jesualdo terá que ver com quê? Embora pareça nome de jagunço brasileiro (a personagem central de Grande Sertão, Veredas, de João Guimarães Rosa, chamava-se Riobaldo), é uma mistura de Jesus e de Aldo, o masculino de Alda: Jesus+Aldo dá Jesualdo.
Por acaso conheci-o na juventude, pois estudávamos no mesmo café (o Ribamar, em Algés), embora nunca nos tenhamos falado. Eu andava em Arquitectura e dava-me com alunos de Agronomia, ele andava no INEF (actual Faculdade de Motricidade Humana) e namorava com uma colega, com a qual passava as tardes sentado à mesa a falar e estudar. Já tinha o ar sério e aplicado que tem hoje. Só não sonharia com a glória que conheceu já na idade madura, treinando um dos grandes clubes do mundo.
Bento, Jesus e Jesualdo: um trio curioso.
Devo dizer que simpatizo com todos.
Com Paulo Bento por ser um jovem que subiu a treinador da equipa principal do Sporting por um acaso, mas que soube impor-se como técnico e como homem. Nunca se deixou espezinhar, disse sempre cara-a-cara o que tinha a dizer, foi frontal, corajoso e obstinado. Afirmou-se por si, sem a ajuda de ninguém. E conseguiu o que talvez nenhum outro treinador teria conseguido naquele clube: ganhou quatro troféus em quatro anos, foi segundo no campeonato logo atrás do imbatível FC Porto e ficou sempre à frente do Benfica.
Só por manifesta ingratidão se pode apupar um treinador com este currículo.
Jesualdo tem outro percurso. Chegou ao Porto já com mais de 60 anos, depois de uma fugaz passagem sem honra pelo Benfica, e beneficiou do apoio decisivo de Pinto da Costa, com o qual qualquer treinador tem fortes probabilidades de sucesso.
Mas agarrou bem a oportunidade, manteve o Futebol Clube do Porto na senda das vitórias (o que não é pouco) e consolidou a imagem de homem rigoroso, honesto, inteligente, persistente e capaz. Muitos treinadores começam bem a carreira e acabam-na mal; Jesualdo começou muito discretamente mas vai acabar em beleza.
Falta falar de Jesus, que esta época tem sido a grande estrela do nosso universo futebolístico. Julgo que fui a primeira pessoa (numa coluna do Record onde à 4.ª-feira escrevo sobre futebol) a pôr a hipótese de Jesus ser este ano o treinador do Benfica. A minha fé em Jesus vem de muito longe. Um dia, ao cair da noite, a rádio do meu automóvel transmitia uma entrevista com um homem cuja voz não reconheci. Percebi que se lamentava. Percebi depois que era treinador de futebol e que tinha sido afastado. Mas percebi também que não era parvo. Disse de mim para mim: «Este tipo fala mal mas tem qualquer coisa lá dentro, ao contrário de outros que falam muito bem mas não têm nada na cabeça». Fiquei à espera do fim da entrevista para saber quem era. Era Jorge Jesus.
Desde aí fiquei com o olho nele. Quando há quatro anos o Belenenses – o meu clube do coração – foi ‘repescado’ após ter descido de divisão, contratou Jesus. A equipa era uma manta de retalhos. Comentei para amigos: «No ano passado safámo-nos de descer na secretaria, mas este ano não temos safa».
Pois Jesus – feito Deus – safou-nos. Não só nos safou como colocou a equipa num lugar europeu! E no ano seguinte, embora perdendo jogadores fulcrais, repetiu a façanha. A partir daí percebi que era um grande treinador.
No Benfica, Jesus está a mostrar tudo o que vale. Ainda há quem não acredite, quem diga que com tão bons jogadores qualquer um faria o que ele faz.
É pouco sério falar assim. Jesus tem grandes jogadores porque sabe motivá-los e tirar deles o melhor. No ano passado o Benfica também tinha Di María, Cardozo e Aimar. E onde estavam? Di María e Cardozo aqueciam o banco de suplentes, assistindo sentados a grande parte do jogo, e Aimar arrastava-se pelo campo.
Se Jesus tem grandes jogadores, o mérito em parte é dele: porque os valorizou ou os recuperou.
Uma última palavra de conforto para Paulo Bento.
Julgo que o espera um grande futuro.
Como disse Jesualdo, «está a começar agora a carreira». Não está no fim da linha, está no princípio. E não é um derrotado, é um vencedor: porque em quatro anos soube impor uma imagem e um estilo. Futebolisticamente era impossível pedir-lhe mais. Só saiu pela porta baixa porque o Benfica está muito forte – e o pior que pode acontecer a um sportinguista é ter o Benfica à sua frente.
Este ano, o sucesso de Jesus foi o fracasso de Paulo Bento. Dito de outra forma, o Milagre de Jesus no Benfica foi o Calvário de Bento no Sporting. Mas, com a ajuda do Senhor, o futuro há-de sorrir-lhe.
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O PSD é o único partido português que não tem originariamente uma cartilha.
O PCP tem a cartilha comunista (embora hoje em desuso), o CDS tem a cartilha da democracia cristã (embora revista), o PS a cartilha socialista (embora ajustada às novas realidades), mas o PSD não tem nenhuma.
Essa ausência de cartilha faz com que o Partido Social Democrata precise de um líder forte, com autoridade, para se afirmar e aspirar ao poder.
Só um líder forte e carismático pode disfarçar a falta de doutrina e unir o partido, conduzindo-o em direcção a um objectivo.
Sá Carneiro e Cavaco Silva foram os expoentes mais fortes dessa realidade.
Sem uma liderança forte, o PSD balcaniza-se, desconjunta-se, cada qual vai para seu lado e diz o que pensa.
É o que hoje sucede.
A dependência em relação ao líder faz com que a escolha deste seja um caso muito sério.
Não pode ser feita a trouxe-mouxe, tem de ser muito ponderada.
Assim, a ideia defendida por vários comentadores de que o PSD tem de substituir rapidamente Manuela Ferreira Leite é um rematado disparate.
Substituir rapidamente para quê?
Para o novo líder se queimar mais depressa?
E de que serve eleger um líder à pressa se não há eleições à vista?
Contrariamente ao que muitos dizem, a substituição de Ferreira Leite terá de ser um processo longo e lento, para permitir que emerja naturalmente no partido uma figura capaz de entusiasmar as bases.
O PSD já cometeu demasiados erros neste campo para se dar ao luxo de novo fracasso.
NOS últimos quatro anos, o PSD teve quatro líderes: Pedro Santana Lopes, Luís Marques Mendes, Luís Filipe Menezes e Manuela Ferreira Leite.
Será isto razoável?
Será aceitável que um partido com responsabilidades ande a brincar aos chefes?
Assim sendo, o mínimo que agora se pode pedir ao PSD é que não se precipite.
Que reflicta bem.
Que deixe o tempo fazer o seu trabalho – permitindo que da confusão hoje reinante surja uma figura capaz de se impor e se fazer respeitar.
Neste momento, duas pessoas perfilam-se no universo laranja: Marcelo Rebelo de Sousa e Pedro Passos Coelho.
Marcelo tem por ele a argúcia e o brilho mediático – mas tem contra ele o facto de já ter ocupado o lugar e de ter uma tendência excessiva para a conciliação.
A liderança do partido neste momento exige uma vontade inquebrantável e vai obrigar a algumas rupturas – e Marcelo não gosta do conflito.
Pedro Passos Coelho é uma pessoa que conheço mal.
Parece-me que tem uma pose superior à sua substância.
Tem um ar importante, emproado, mas nunca disse verdadeiramente nada que tenha ficado.
Pode ser, entretanto, que surjam outros nomes.
Ou que algum daqueles dois se imponha claramente, tornando-se indiscutível.
Mas, para isso, é preciso dar tempo ao tempo.
A precipitação, neste caso, pode ser uma vez mais a morte do artista.
O PSD não pode continuar a ser uma fogueira onde se queimam líderes.
Desta vez, está obrigado a não falhar.
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O casamento entre homossexuais tornou-se um dos ex libris do PS. Melhor: um dos ex libris do PS de Sócrates – visto que o PS de Guterres era muito mais cauteloso em matéria de costumes. Não fosse Guterres católico praticante.
Julgo que, para esta abertura de Sócrates aos novos ventos, muito contribuiu a sua relação com Fernanda Câncio – que curiosamente chegou a ser minha jornalista no Expresso. Era na altura uma jovem vistosa mas profissionalmente discreta, que escrevia (e assinava) a duas mãos com uma colega, pelo que nunca se revelou.
Saiu dali para trabalhar na Elle, na época em que esta era dirigida por Margarida Marante. E foi Marante quem um dia me disse: «Tenho cá uma excelente jornalista que veio aí do Expresso». Fiquei à espera do nome. E confesso que me surpreendi quando ela disse: «A Fernanda Câncio».
Segundo julgo, foi também Margarida Marante quem apresentou Câncio a Sócrates. Este era um dos colaboradores residentes de um programa de Marante na SIC chamado Sete à Sexta, e Fernanda Câncio fazia parte da equipa do programa – o que propiciou a aproximação. Esta época revelar-se-ia, aliás, decisiva para o actual primeiro-ministro, não só porque conheceu a futura namorada mas também porque foi aí que iniciou a sua ascensão rumo ao poder.
Como?
Na sequência dessa colaboração na SIC, Sócrates foi convidado por Emídio Rangel (que entretanto se mudara para a RTP) para um programa semanal de debate, em que tinha como adversário Santana Lopes. Os debates correram bem a Sócrates, que desse modo foi catapultado para a ‘primeira divisão’ da política portuguesa.
‘P OR trás de um grande homem está sempre uma grande mulher’, diz o ditado. No caso de José Sócrates, está uma mulher que o tem influenciado no sentido do apoio a rupturas sociais.
O problema não teria importância se Sócrates não fosse primeiro-ministro e não quisesse transformar essas ‘causas’ em ‘assuntos de Estado’. A verdade é que, se pudesse, Sócrates já teria feito aprovar o casamento entre homossexuais, a adopção por casais homossexuais, a eutanásia, etc.
Sou em geral contra estas rupturas – e logo à partida contra o casamento entre homossexuais. Uma sociedade organizada vive de referências. E uma das principais referências é a família, da qual o casamento é o acto fundador.
Ora uma relação entre homossexuais é uma coisa diferente. Não é o acto fundador de uma família. Tem um carácter mais efémero, até porque não pode haver descendentes: dois homens ou duas mulheres que decidam viver juntos renunciam a ter filhos comuns.
Mexer nestas coisas é baralhar referências – e representa abrir uma caixa de Pandora.
Quando se debate homossexualidade convém separar duas coisas: a ‘propensão genética’ e o ‘fenómeno de moda’ ou de imitação.
Não há dúvida de que existem pessoas com inclinações homossexuais naturais. Contava-me uma empregada minha que numa casa onde em tempos trabalhou havia um menino que só gostava de brincar com bonecas, tachos e panelas. A minha empregada começou a achar aquilo estranho. E a verdade é que, na saída da adolescência, o menino revelou a sua inclinação homossexual. Este caso deverá ser extremo, mas não há dúvida de que em certas pessoas a inversão sexual se manifesta muito cedo.
Inversão que, aliás, também se verifica no reino animal. Diz-se que nas relações entre animais há cerca de 10% de práticas homossexuais.
Discutir a homossexualidade não é fácil, por pressão do ‘politicamente correcto’. Instituiu-se uma espécie de ditadura que impede um debate aberto e descomplexado sobre o assunto. As pessoas têm medo de o abordar publicamente, receando represálias. Veja-se o que sucedeu a Manuela Ferreira Leite quando disse espontaneamente que «o casamento é para ter filhos»: foi ridicularizada na praça pública, como se fosse do tempo das cavernas. E a partir daí a líder do PSD passou a falar do tema a medo e com pinças.
Mas por que não haveremos de falar abertamente da homossexualidade e das questões que coloca?
Como eu dizia, há uma homossexualidade decorrente de ‘propensão genética’ e outra induzida por fenómenos de moda e de imitação. Em Paris visitei recentemente uma zona – o Marais – frequentada à noite por multidões de homossexuais, e confesso que fiquei muito impressionado com o que vi: milhares de jovens, alguns no início da adolescência, exibiam ostensivamente a sua atracção (real, forçada?) por pessoas do seu sexo.
Em certos meios, ser homossexual pode ser hoje sinal de modernidade, de desinibição, de desafio às convenções. No mundo da moda, por exemplo, a homossexualidade é hoje a regra.
E aqui é que importa parar para reflectir.
Estas modas que enfrentam regras e convenções, e que alastram em certos ambientes generalizando comportamentos minoritários ou marginais, não serão um sinal preocupante?
Olhando para a História, não é verdade que os fenómenos deste tipo ficaram a assinalar períodos de declínio?
E depois há o problema dos filhos.
Dir-se-á que um casal homossexual poderá sempre ter filhos adoptivos. Mas, com a vulgarização do aborto, a cedência de crianças para adopção tenderá a diminuir. E depois, não é a mesma coisa. Não é a mesma coisa ter um filho natural ou adoptado. Nem para os pais adoptivos nem para as crianças – que, para começar, não terão um pai e uma mãe mas dois pais ou duas mães.
E que dizer de casos como o de uma apresentadora de TV chamada Solange F, que só teve relações sexuais com um homem para engravidar, sonegando deliberadamente ao filho o direito básico a ter pai?
Sempre condenei a homofobia. Sempre defendi a tolerância. Trabalho com homossexuais e tenho amigos que assumidamente o são. Mas fazer da homossexualidade uma ‘moda’ é uma parvoíce. E exibi-la publicamente – falando do ‘orgulho gay’ – é ridículo.
Como dizem os homossexuais, é preciso ter sempre presente que não somos todos iguais. Que há diferenças entre as pessoas. Os ‘casais’ homossexuais são diferentes dos heterossexuais – e para situações diferentes deve haver legislação diferente.
Para rematar, uma clarificação: fala-_-se hoje muito em ‘opção sexual’. Ora fará isto algum sentido? Será que uma pessoa chega a certa idade e interroga-se: ‘Qual irá ser a minha opção sexual? Optarei por ser heterossexual? Ou vou optar antes por ser gay?’.
As inclinações homossexuais não são uma ‘opção’.
Ou resultam de uma inclinação genética ou de fenómenos de moda ou de imitação. Mas aqui também não há propriamente ‘opção’: há seguidismo, há o ir na onda, há cedência ao ar do tempo.
Estes homossexuais sem propensão genética serão potencialmente os mais infelizes – porque não se sentirão bem na sua pele. E passarão ao lado da possibilidade de terem uma família, mulher e filhos. Em troca de quê?
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Na semana passada dissertei sobre o tipo de Governo que Sócrates deveria formar, e estive completamente de acordo com o caminho seguido: um núcleo duro forte e muito político – e depois ministros-técnicos nas pastas sectoriais.
Vou fazer uma confidência ao leitor: o artigo estava escrito antes de eu conhecer o Governo.
Este foi divulgado às 18h00 de quinta-feira – e o artigo fora escrito na tarde de terça.
Mas era óbvio – apesar das opiniões disparatadas que se ouviam – que a estrutura só podia ser esta.
Passando a um outro nível de análise, é muito difícil avaliar o valor desta equipa, porque há muitos nomes que não deram quaisquer provas do que poderão valer à frente de um Ministério.
Tudo o que se diga nesse sentido – para elogiar ou para criticar – é gratuito.
António Serrano (Agricultura), António Mendonça (Obras Públicas), Dulce Pássaro (Ambiente), Helena André (Trabalho), Gabriela Canavilhas (Cultura), são melões por abrir.
Uns serão mais doces, outros saberão a pepino – mas mesmo quem os conheça melhor não poderá antecipar o que valerão como ministros.
O que pode dizer-se é que a ‘personalidade’ do Governo vai ser a mesma, porque o núcleo duro se mantém inabalável: Sócrates e os três Silvas – Silva Pereira, Vieira da Silva e Augusto Santos Silva.
Curiosamente, nenhum deles é ministro de Estado.
Essa honra cabe a Luís Amado e Teixeira dos Santos.
Que, segundo penso, não pertencem ao círculo íntimo de Sócrates.
E aqui reside a primeira curiosidade do Governo (que, aliás, já vinha da segunda fase do Executivo anterior).
O título de ministro de Estado é puramente honorífico.
É uma pena no chapéu.
Ao atribuí-lo a dois ministros que têm uma imagem de alguma independência, Sócrates quererá mostrar que não se rodeia só de incondicionais.
No fundo, Amado e Teixeira dos Santos são ministros de Estado para inglês ver.
Situação inversa é a dos três Silvas.
Silva Pereira, Santos Silva e Vieira da Silva não têm títulos honoríficos, mas têm poder político que lhes é delegado pelo primeiro-ministro.
São ministros de combate – para afrontarem a oposição, para dizerem umas frases bombásticas ou mesmo para atirarem umas granadas ao Presidente da República.
Se os ministros de Estado são a face institucional do Executivo, estes são a tropa de choque.
Há agora dois casos que me suscitam dúvidas: Rui Pereira e Alberto Martins.
Rui Pereira não é tão mau ministro como a comunicação social por vezes disse.
É um típico homem de gabinete, mas teve atitudes corajosas, dispõe de influência na Maçonaria – e tem em mãos o dossiê da reestruturação das forças de segurança, cuja execução o primeiro-ministro não terá querido interromper.
Caso diferente é o de Alberto Martins.
Enquanto Rui Pereira dificilmente falhará na tarefa que tem em mãos, Martins pode naufragar rotundamente na Justiça.
Tendo em conta os perigosos cruzamentos entre a política e a magistratura, e considerando as constantes suspeitas que envolvem esta área, não me parece boa ideia Sócrates ter posto à frente da Justiça o homem que chefiava os deputados do PS.
Alberto Martins está muito conotado partidariamente e não tem a imagem de independência que neste momento se exigiria ao detentor deste Ministério.
A menos que a ideia seja mesmo essa: governamentalizar a magistratura.
Uma palavra para uma das maiores surpresas desta equipa: a entrega dos Assuntos Parlamentares a Jorge Lacão.
Lacão é um negociador experimentadíssimo mas tem um diminuto peso político.
Ao trocar Augusto Santos Silva por Jorge Lacão no Parlamento, Sócrates quis dizer claramente isto: no Parlamento pode discutir-se tudo, mas não se decide nada.
Lacão tem toda a margem para discutir – mas não tem nenhuma margem para decidir.
Assim, será uma espécie de mensageiro – discutindo pacientemente no Parlamento com toda a gente e levando depois ao Governo o resultado desses contactos, ou transportando para o Parlamento as mensagens que o Executivo pretender enviar.
Mas quem decidirá, sempre, será o núcleo duro _político.
Não quero terminar este texto sem deixar um recado ao PSD: este não é o seu tempo – é o tempo do Governo.
Os militantes (mais ou menos ilustres) estejam calmos, não se enervem, não há nenhumas eleições nacionais no horizonte próximo, pelo que não vale a pena acelerar o processo de discussão da liderança.
Dêem ao país um sinal de maturidade, de responsabilidade e de capacidade para pôr o interesse geral à frente do interesse partidário.
E o interesse geral, no próximo futuro, é discutir o Programa do Governo e o Orçamento do Estado.
Faria algum sentido o PSD envolver-se numa disputa eleitoral interna na altura em que a atenção dos portugueses deve centrar-se no Programa do Governo e no Orçamento?
Finalizada esta fase, então sim, há muito tempo para discutir a liderança e a sucessão de Manuela Ferreira Leite.
Mas não cometam os erros do passado: não elejam o novo líder numa lufa-lufa.
Pensem bem.
O futuro recente mostra até que ponto não serve de nada ao PSD mudar de líder – se não conseguir escolher a pessoa certa.
Tenham calma, dêem tempo ao tempo, porque já erraram vezes de mais.
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O segundo best-seller de Margarida Rebelo Pinto (depois do gigantesco sucesso do Sei Lá!) chamava-_-se Não Há Coincidências. Eu nunca escreveria um livro com este título, porque penso exactamente o contrário: penso que as coincidências existem e estamos sempre a tropeçar nelas.
Já não sei o contexto em que a expressão é usada no livro, mas lembro-me de uma frase em que a autora diz mais ou menos o seguinte: «Esses toques aparentemente casuais por parte das mulheres nunca acontecem por acaso; são sempre intencionais».
Para Margarida Rebelo Pinto, não há acasos na vida. E, sendo assim, devemos estar sempre em alerta máximo – interpretando os mais pequenos sinais, observando as mais ínfimas coincidências. Se tudo tem uma intenção, uma justificação, um sentido, não podemos estar distraídos.
Há muita gente que pensa assim. Um dia fui almoçar com Manuel Maria Carrilho ao restaurante Já Sei (nome que bem poderia ser de um livro de Rebelo Pinto…), em Belém, junto ao Padrão dos Descobrimentos. O restaurante ainda lá está – mas agora tem outro nome e serve comida italiana em vez do antigo peixe grelhado.
Nesse almoço, em que também participou a jornalista Cristina Figueiredo, discutiu-se a cedência ao Expresso, em exclusivo, das fotos do casamento de Carrilho com Bárbara Guimarães – casamento esse marcado para dois ou três meses depois e que faria correr rios de tinta, por um facto insólito.
Quando a data da boda se aproximava, surgiu na imprensa a notícia de que existiria um registo de casamento, num destino exótico, entre Bárbara Guimarães e Pedro Miguel Ramos, seu antigo namorado. E, como esse casamento não fora anulado, Bárbara não poderia voltar a casar – sob o risco de ser acusada de bigamia…
Uma outra peripécia envolveria este acontecimento, exactamente relacionada com as fotos. Tendo ficado estabelecido que as imagens seriam cedidas em exclusivo ao Expresso, respeitando determinadas regras que ficaram definidas nesse almoço (Carrilho exigiu, por exemplo, que as fotos fossem todas a preto e branco), elas acabariam por ser ‘surripiadas’ do nosso sistema informático, circulando na net antes mesmo de o jornal sair para a rua.
Isto daria origem a uma investigação da PJ e da Inspecção das Actividades Económicas – que, como geralmente acontece, acabaria em nada.
Mas, voltando a esse almoço no Já Sei, Manuel Maria Carrilho, já não sei a propósito de quê, afirmou que também não acreditava em coincidências – o que não me surpreendeu. É normal os políticos serem desconfiados, verem em tudo segundas intenções, conspirações, objectivos escondidos. Nada para eles acontece por acaso.
Isso está, aliás, na origem de muitas intrigas.
Quantas vezes o que escrevo não é interpretado de forma mirabolante, atribuindo-_-se-me intenções que só poderiam surgir na cabeça de mentes para quem não importa o que está escrito nas linhas mas o que se adivinha nas entrelinhas.
Sucede que, se os políticos são habitualmente desconfiados, Carrilho é desconfiado ao quadrado. Para ele tudo tem um segundo sentido, uma interpretação que não se resume aos factos descritos. Do seu ponto de vista, as coincidências nunca são acidentais. Têm sempre por detrás a mãozinha de alguém.
Parte da conversa ao almoço foi à volta deste tema.
Pois bem, saímos para a rua e fizemos um ao outro a pergunta sacramental:
– Tem carro?
Ele disse que sim, eu também, então onde é que o deixou, deixei ali, eu também, continuámos a andar, eu parei, expliquei o meu está para aquele lado, o meu também, retomámos a marcha – até que parámos.
– O meu carro é este – disse-me ele, apontando para um pequeno carro preto descapotável, modelo desportivo.
– E o meu é este – disse eu, indicando um carro estacionado justamente ao lado do outro.
Não desaproveitando a oportunidade, atirei:
– Está a ver? Isto é a prova acabada de que há coincidências. Estão aqui dezenas de carros, nós não chegámos ao mesmo tempo, não conhecíamos o carro um do outro, e estacionámos exactamente lado a lado!
Não podia, de facto, haver melhor exemplo.
Coisas destas, inexplicáveis, estão permanentemente a acontecer-me. Vejo uma pessoa na rua, parece-me outra – e logo a seguir vejo a pessoa que eu confundira com a outra. Penso numa pessoa, decido telefonar-lhe, e – quando começo a marcar o número – o telefone toca e é essa pessoa que está a ligar-me.
Como não sou supersticioso e não acredito em bruxas nem em bruxedos, concluo simplesmente que há coincidências.
Se disser ao leitor o que me aconteceu num dia da semana passada nem vai acreditar.
Tinha um julgamento (mais um! Quando é que a Justiça faz de mim sócio honorário e me desobriga de andar permanentemente nas salas dos tribunais?), desta vez no Parque das Nações, no novo Campus da Justiça, às 14h00, e não dispunha de tempo para almoçar. Passei pelo café da esquina, pedi um salgado e uma imperial, engoli-os a correr e apanhei um táxi. O julgamento acabou por não se realizar (quantas vezes já fui ao tribunal em vão?) e voltei para o jornal. Eram 16h30 quando entrei no edifício.
Ao chegar, a Carolina, minha secretária, fez-me como habitualmente a pecaminosa pergunta:
– Quer um cafezinho?
Ora, cheio de fome como estava, respondi por brincadeira:
– Preferia um bolo...
Levando à letra o meu pedido, a Carolina prontificou-se:
– Se quiser, vou à rua buscar-lhe um bolo...
Expliquei-lhe que era uma brincadeira, dado não ter almoçado. Mas ela, provando uma vez mais a sua dedicação, _insistiu:
– Eu vou lá abaixo e trago-lhe um bolo.
– Bom, se insiste, eu aceito. Mas então mais daqui a um bocadinho, à hora do lanche.
E agora é que o leitor não vai acreditar.
Dois minutos não eram passados quando vemos entrar pela porta do nosso andar um estafeta transportando nas mãos uma enorme caixa.
– O que é isso? – perguntou a Carolina.
– É um bolo – respondeu o rapaz.
– Um bolo para quem?
– Para o senhor arquitecto.
Parecia mentira! O que se passara? Uma empresa que fazia 22 anos – a Chronopost – resolveu oferecer a algumas pessoas um bolo comemorativo do aniversário. E ele ali estava, apetitoso, para saciar a minha fome!
Depois disto, poderei alguma vez dizer que não há coincidências?
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José Sócrates tinha duas maneiras de encarar o novo Governo.
A primeira era como um Governo de personalidades – um Governo integrando figuras mediáticas, capaz de agradar aos comentadores.
De um Governo destes poderiam fazer parte pessoas como José Miguel Júdice, Elisa Ferreira, Edite Estrela ou Isabel Alçada (já vão três mulheres...), ou até homens situados mais à direita como António Mexia ou Carrapatoso, para não falar em Freitas do Amaral, que ficou marcado pela saída forçada na anterior legislatura.
A segunda hipótese era um Governo com um núcleo duro muito político, sendo as pastas sectoriais ocupadas por técnicos respeitados nas respectivas áreas.
Ora, um Governo de personalidades tinha um risco muito forte, que era cada uma começar a correr em pista própria – dando uma imagem de descoordenação e falta de coesão.
A verdade é que seria muito difícil pôr Júdice ou Elisa Ferreira a dizerem exactamente o que Sócrates queria, escusando-se a emitir uma opinião da sua lavra.
E quando digo uma opinião refiro-me naturalmente a opiniões políticas.
Sucede que, num período que se prevê de luta política acesa – com um Governo minoritário e a aproximação de eleições presidenciais –, seria muito arriscado Sócrates apostar num Governo destes.
O próximo Governo tem de passar para a opinião pública uma mensagem política simples, coerente e articulada, e isso é sempre mais fácil de fazer se existir um núcleo duro pequeno e muito coeso.
Fora deste núcleo, os ministros deveriam ter um perfil mais técnico.
O ‘perfil ideal’, neste aspecto, era o de Ana Jorge – que não se mete em política, tem um discurso tranquilo que dá confiança às pessoas e faz-se respeitar na área que tutela.
Sócrates deveria, portanto, tentar arranjar outras Anas Jorges para os vários sectores: pessoas de low profile, não falando demais, agindo com serenidade e bom senso.
Estes ministros-técnicos teriam a vantagem de não arranjar trapalhadas políticas – podendo ser individualmente responsabilizados pelo andamento das coisas nos seus sectores.
Se numa área as coisas começassem a correr mal, Sócrates poderia mudar o ministro sem daí advirem grandes danos para a imagem do Governo.
O tipo de ministro meio técnico-meio político era o que não interessava nada.
Era o caso de Mário Lino, que arranjou imensas complicações.
Por um lado, porque não soube defender-se.
Por outro lado (é forçoso dizê-lo), porque os avanços e recuos do Governo na sua área – no novo aeroporto de Lisboa, no TGV, na terceira travessia do Tejo – o expuseram demasiado, deixando-o muitas vezes em situação ridícula.
O seu «jamais» nunca mais sairá do anedotário político.
Foi, no essencial, esta segunda via – um núcleo duro forte e ministros sectoriais com pouco perfil político – que José Sócrates escolheu.
Fez bem.
Se eu fosse primeiro-ministro, era o que faria.
Uma palavra final para o ministro de Estado e das Finanças, Teixeira dos Santos.
Elogiei-o aqui por diversas vezes – e não vou retirar o que disse.
É um homem sólido, seguro e que transmite confiança.
Mas julgo que não ganha nada com um envolvimento partidário excessivo.
Talvez querendo rentabilizar o seu prestígio, Sócrates pô-lo nas legislativas e nas autárquicas em iniciativas do PS onde não deveria ter estado.
O ministro das Finanças tem de transmitir ao país uma imagem de isenção e independência – e isso será tanto mais fácil quanto ele se colocar num plano de Estado, fora das polémicas e das tricas partidárias.
Também não caiu bem vê-_-lo envolver-se em ataques a Manuela Ferreira Leite, não apenas no plano técnico mas mesmo no plano do remoque pessoal.
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Um destes dias, fazendo zapping, caí num inabitual desfile de moda: as modelos eram todas invariavelmente gordas. Não anafadas, mas mesmo gordas. Decorria a Milan Fashion Week – e concluí que aquela noite era dedicada a roupa para mulheres com medidas generosas.
A diferença em relação a outros desfiles era abissal. As modelos ‘normais’ cultivam quase todas o estilo anoréctico – pernas altíssimas escanzeladas, peito quase chato, rosto encovado – e ver aquelas mulheres nutridas a desfilar descontraidamente era reconfortante. Era uma lufada de gosto pela vida!
Kate Moss foi um ícone da geração das mulheres que estão hoje na casa dos 30 – e é talvez o exemplo mais acabado de um tipo de beleza doentio mas que continua a fazer moda. Muitas raparigas em diferentes partes do Globo ainda acham que o paradigma da beleza está ali – no olhar triste, no rosto descolorido, no corpo esquelético.
É certo que o movimento já vinha de trás – dos anos 60 e 70. Mas, depois de Kate Moss, esse padrão foi erigido à condição de dogma. O supra-sumo da beleza, para muitas adolescentes de hoje, são aquelas jovens que fazem lembrar gafanhotos, com umas pernas compridas e magríssimas equilibrando-se sobre saltos altíssimos.
No entanto, nada é mais discutível do que associar a beleza à magreza. Sendo certo que muitas mulheres pensam isso – não é isso que os homens pensam. Lamento, mas não é.
As mulheres são em geral muito críticas umas em relação às outras. ‘Olha para aquele rabo!’, ‘Já viste bem aquele peito?’, ‘O que dizes daquelas pernocas?’. Mas não é assim que os homens vêem as mulheres. Uma mulher desejável precisa de ter alguma coisa a que um homem se possa agarrar. Qual é o homem que gosta de abraçar uma ‘carga de ossos’, descarnada, cheia de arestas?
Não será certamente por acaso que os grandes pintores clássicos escolhiam para modelos mulheres nutridas, de seios redondos, formas roliças e amplas coxas. E até há pouco tempo dizia-se que ‘gordura é formosura’.
Argumentar-se-á que os padrões de beleza mudam com o tempo. E até certo ponto é verdade. Sucede que o paradigma das mulheres muito magras não foi inventado nem imposto por nenhum homem: foi uma criação que floresceu num mundo à parte e artificial – o mundo da moda – onde se decretou que as mulheres não podem ter menos de 1,80 m de altura e são vistas como cabides ambulantes.
Há outra vantagem das mulheres mais gordas em relação às mais magras: são normalmente mais bem dispostas. Mais divertidas. Riem-se mais. Veja-se Odete Santos e Manuela Ferreira Leite. Enquanto uma dá gargalhadas, dança e representa, a outra tem sempre um ar austero, contrafeito, até zangado.
E isso talvez tenha a ver com o facto de as gordas estarem mais ligadas aos prazeres da vida, ao gosto pela comida, pela bebida e pelo divertimento.
Os gordos são mais associados ao prazer – os magros ao dever.
A gordura remete para a abundância, para a facilidade, para a abastança; a magreza é sinal de privações, de dificuldades, de sacrifícios.
A associação da gordura à abastança tem os seus efeitos a todos os níveis. Com uma mulher gorda em casa um homem terá sempre a ideia – porventura ilusória – de que não passará dificuldades; com uma magra sucederá o contrário. E o facto é que, puxando pela memória, verifico que conheço muito poucas mulheres gordas divorciadas...
Há ainda, claro, o aspecto maternal.
Na cabeça de cada homem, nas profundezas do seu ser, as mulheres são sempre vistas como potenciais mães. Às vezes, como possíveis mães dos seus filhos. E aí a excessiva magreza definitivamente não encaixa.
Em todas as civilizações as deusas da fertilidade, nas suas múltiplas representações, são carnudas, opulentas, de formas generosas e arredondadas. É a ideia de que uma mulher forte e anafada gerará sempre no seu seio um rebento mais saudável.
Aquela mania que tomou conta de muitas mulheres de que têm de ser magras, ou mesmo muito magras, para serem atraentes – e para isso fazem terríveis sacrifícios, passam fome, não tocam em gorduras, só ingerem produtos light ou zero, não comem doces, nem batatas, nem arroz, nem açúcar, nem pão, etc. – é, pelo que fica dito, um rematado disparate.
Claro que a obesidade também não é boa. Nada do que é em excesso é saudável. O que quero combater é essa ideia de que magreza é formosura. E sobretudo de que há um único padrão de beleza que todas as mulheres devem seguir, independentemente da sua natureza, dos seus genes, da sua constituição, das suas inclinações naturais.
Há mulheres que são naturalmente magras. É esse o equilíbrio do seu corpo. E há mulheres que são naturalmente gordas – e que não devem violentar-se para ser magras.
O que há que combater é o mito da magreza; e mostrar que as mulheres gordas podem ser bonitas, atraentes e desejáveis.
Fazendo o elogio das gordas, quis também combater um mito que pelo mundo fora provoca hoje dramas terríveis e muitas mortes. Um mito que se transformou em doença e dá pelo nome de anorexia.
E este é mais um dos absurdos do nosso tempo: enquanto pelas ruas de todas as cidades há mulheres que se arrastam sem dinheiro para matar a fome, nas casas das classes média e alta há outras a passar fome com comida a estragar-se à frente. Mulheres que não comem para ter um corpo esquelético – como se isso fosse bonito.
Ora não é bonito – é horrível. Perante algumas dessas jovens doentiamente magras é inevitável lembrarmo-nos de imagens dos campos de concentração nazis, com mulheres descarnadas caminhando para a morte.
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Há uma primeira regra nas eleições em Portugal que, estranhamente, muitos comentadores ainda não perceberam.
A regra, muito simples, é esta: ‘Quem está no poder, em geral é reeleito’.
Pode dizer-se isto e aquilo, fazer-se esta ou aquela especulação, mas a regra impõe-se com a sua crueza: os portugueses gostam da continuidade.
Isto só por si explica as reeleições de António Costa, Rui Rio, Luís Filipe Menezes, Isaltino Morais, Carlos Encarnação, Fernando Ruas, Fernando Seara, Valentim Loureiro, António Capucho, Moita Flores, etc., etc., etc.
Houve Câmaras que mudaram?
Claro que houve.
Mas essas mudanças quase poderiam ser explicadas caso a caso.
Faro mudou, porque Macário Correia é muito popular no Algarve (e mesmo assim só ganhou por 130 votos).
Leiria mudou, porque Isabel Damasceno foi imposta pela líder do partido contra as estruturas locais – e isso criou um péssimo ambiente entre os militantes do PSD, que prejudicou a campanha.
E assim por diante.
Este gosto dos portugueses pela continuidade não é, como tenho repetidamente dito, um exclusivo das eleições autárquicas.
Ele verifica-se em todas as eleições: nas presidenciais, nas legislativas e nas regionais.
Os Presidentes da República são sempre reeleitos, os primeiros-ministros são sempre reeleitos, os líderes regionais são sempre reeleitos, os presidentes de Câmara são geralmente reeleitos.
Esta regra recorda irresistivelmente a história do burro ao qual afugentaram as moscas.
Estava um burro coberto de moscas – quando passou por ele uma alma caridosa que começou a sacudi-las.
– O que estás a fazer? – perguntou o burro, aparentemente irritado.
– A afugentar as moscas que estão a importunar-te... – explicou o homem.
– Não o devias ter feito! – lamentou-se o burro. – Moscas à minha volta haverá sempre, e estas ao menos eu já conhecia.
Portanto, os eleitores votam em princípio em quem está.
Esses, ao menos, já eles conhecem.
Só em casos excepcionais, explicáveis um a um, a regra não se verifica.
Isto dito, não vale muito a pena falar do ‘significado nacional’ das eleições autárquicas.
Elas são o somatório de resultados locais.
Cinjo-me, assim, ao que se passou em Lisboa – palco onde decorreu a única peça que manteve os espectadores acordados até ao fim da noite.
E em que aconteceram factos estranhos.
Como se sabe, o PCP é o partido que possui o eleitorado mais disciplinado.
De eleição para eleição revela uma notável estabilidade, caindo percentualmente mas com muita lentidão.
Ora, em Lisboa, fugiram de repente da CDU 15 mil votos para o PS.
O que só é possível tendo havido uma directiva partidária nesse sentido.
Os sinais multiplicaram-se, aliás.
Foi Carvalho da Silva a aparecer numa acção de campanha de António Costa.
Foi Rúben de Carvalho a explicar que era preciso comparar os votos da CDU para as assembleias de freguesia com os votos para a Câmara Municipal.
Qual seria o plano do PCP? A meu ver, seria o seguinte: era preciso ajudar António Costa a ser eleito; depois, como este precisaria da CDU para formar maioria, ficaria refém dos vereadores comunistas.
Infelizmente – para o PCP – as contas saíram furadas.
E o único vereador que a CDU conseguiu eleger não serve para nada, porque – com a ajuda dos votos comunistas – o PS alcançou a maioria!
É o que se chama um tiro pela culatra.
Ou, em linguagem futebolística, um golo na própria baliza.
Deve dizer-se que, em futebol, esta prática é proibida.
Imaginemos que o Salgueiros ia jogar contra o Benfica – e este precisava de ganhar para não ser ultrapassado pelo Sporting.
Imaginemos, ainda, que _o Salgueiros preferia a vitória do Benfica à do Sporting.
Então, os jogadores do Salgueiros deixavam-se perder – e o Benfica era campeão.
No futebol, como disse, isto não é permitido.
É formalmente interdito um clube facilitar a vitória a outro.
Na política isto é legal – nem poderia ser de outra maneira, porque os votos são anónimos.
Mas não tenhamos dúvidas: em Lisboa não funcionou o ‘voto útil’.
Em Lisboa houve uma directiva do PCP para votar em António Costa.
Como sucedeu numas eleições há muitos anos, em que Cunhal mandou os comunistas taparem os olhos e porem uma cruzinha à frente de Mário Soares.
Só assim se explicam os 15 mil votos que, num eleitorado tradicionalmente disciplinado, voaram de um lado para o outro na noite de domingo passado.
P.S. – Para o leitor ter uma ideia exacta dos valores em causa, na votação para a Câmara houve uma transferência de 14.714 eleitores da CDU para o PS, relativamente à votação para as assembleias de freguesia. Sendo a diferença entre António Costa e Santana Lopes de 14.915 votos, o PS mesmo assim ganharia a Câmara por 201 votos, embora sem maioria absoluta.
Entretanto, tendo em conta que houve 5.358 votos transferidos do BE para o PS, sem estes votos António Costa teria perdido com Santana por 5.157 votos.
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Falar do ‘sentido de humor’ tornou-_-se moda. As revistas cor-de-rosa e do social estão cheias disso: «O Paulo tem grande sentido de humor…», «Para mim, o mais importante é o sentido de humor…», «Seria incapaz de namorar com um homem sem sentido de humor…», e por aí fora. O sentido de humor tornou-se a coisa mais importante do mundo. Lamento dizê-lo, mas para mim não é. Para mim, o importante é o carácter, a generosidade, a disponibilidade para os outros… e a boa disposição natural, que não precisa de fazer rir para se tornar agradável.
De que serve um fulano ter um grande sentido de humor se for um safado, se não pudermos confiar nele? De que serve ter muita graça se for desleal e mentiroso?
Com essa onda a favor do ‘sentido de humor’ veio uma grande importância atribuída aos humoristas. Herman José foi um fenómeno arrasador. Abria-_-se a televisão e lá estava ele num programa, ligava-se o rádio e lá estava a sua voz, andava-se na rua e lá estava um anúncio numa parede ou num placard com ele vestido de cozinheiro a anunciar um bacalhau congelado ou de riso muito branco a aconselhar um detergente para a roupa.
Já deitávamos Herman pelos olhos e pelos ouvidos, mas as pessoas continuavam a rir-se com as suas piadas. Penso que, às vezes, riam por obrigação. Achavam que tinham de se rir. Que estavam ali para rir – e, portanto, riam.
Quando Herman começou a cair em desgraça abriu-se um vazio. E tempos depois lá surgiram os Gato Fedorento a ocupá-lo. A primeira vez que ouvi esse nome – Gato Fedorento – não sabia bem o que era e fiquei horrorizado. É um nome horrível, nojento, que provoca repulsa. Fedorento é uma palavra feiíssima. Gato Fedorento é pior que Gato Nojento. É um gato que fede. Que tresanda mau cheiro.
Depois de os ver, pensei que nunca iriam sair de canais alternativos e marginais, como a SIC Radical. Que não passariam de fenómenos de culto de minorias urbanas, de ‘nichos’, como se diz agora. Nunca pensei que pudessem tornar-se fenómenos de grandes audiências. Até porque o humor que faziam não era propriamente um humor de massas.
Surpreendi-me igualmente quando vi uma crónica de Ricardo Araújo Pereira publicada com grande destaque na Visão. E, depois de ler as duas ou três primeiras, ainda mais surpreendido fiquei – porque não eram nem especialmente bem escritas nem muito engraçadas, apesar dos sublinhados a amarelo a indicar as passagens onde nos deveríamos rir.
Reconheço hoje que me enganei redondamente. Os Gato Fedorento tornaram-se mesmo um fenómeno de massas. A todos os níveis. Até na publicidade. Aparecem agora em toda a parte, a ponto de já provocarem cansaço. Abrimos a RTP ou a SIC e lá estão eles, com programas diferentes; fazemos zapping e lá aparecem eles, mascarados disto ou daquilo, num anúncio da MEO ou de uma qualquer promoção da TMN. É um fartote!
Quando estes anúncios surgem no ecrã, mudo rapidamente de canal. E, como isto não se passará apenas comigo, julgo que os Gato Fedorento, mesmo para os que deliram com eles, correm o perigo de desgastar rapidamente a imagem. Esta sobreexposição televisiva não poderá deixar de ter consequências. Dentro de algum tempo ninguém os poderá ver.
É provável, entretanto, que pensem: ‘Como os cómicos não duram sempre, vamos tentar sacar o máximo enquanto isto estiver a dar’. E é possível que estejam certos. Mas são demasiado novos para se reformarem. E o que poderão fazer depois? Viver dos rendimentos? Mas será possível serem felizes assim?
Um dia destes, numa entrevista, fizeram-me a seguinte pergunta: «O que o faz rir?». Achei a pergunta óptima. E, como nunca ma tinham feito antes nem eu me interrogara alguma vez sobre isso, tive de pensar um pouco. Acabei por responder: «Faz-me rir aquilo que não é feito para fazer rir».
Esta resposta corresponde exactamente ao que sinto. Não me sento em frente do televisor, nem vou ao teatro ou ao cinema para rir. Até porque as tentativas falhadas de humor são deprimentes. Os cómicos ou têm graça ou são patéticos. Não há meio termo.
Depois, as comédias transformam-se muitas vezes em farsas: as pessoas sentem necessidade de rir para fazer o jeito, riem-_-se por favor, sem vontade, com um riso amarelo que soa a falso.
Portanto, aquilo que é feito para fazer rir por obrigação não me dá normalmente vontade de rir – se assim o posso dizer. O riso genuíno é espontâneo – e tem que ver com o inesperado. Rimos de uma gaffe da qual o autor tardiamente se dá conta ou quando um fulano emproado tropeça no passeio e faz uma figura ridícula, perdendo toda a pose.
Uuma vez fui ao Diário Popular falar com um velho jornalista chamado Jacinto Baptista. À saída, quando descia a imponente escada de pedra que ligava o piso da redacção ao átrio, tropecei numa daquelas tiras de borracha que existem para as pessoas não escorregarem nos degraus – e precipitei-me positivamente no abismo. Voei. Felizmente caí bem, evitei no último momento bater com a cabeça contra uma parede também de pedra – e não parti nada. Mas ainda hoje sinto um calafrio quando penso nisso: percebo que poderia ter morrido ali.
Ora, depois deste valente susto, quando ainda me levantava, olhei para o lado e vi uma rapariga a rir descontroladamente. Quando o seu olhar se cruzou com o meu, tapou a mão com a boca e balbuciou: «Desculpe, eu sei que se podia ter magoado a sério, mas foi tão cómico...».
Fiquei furioso – mas percebi a rapariga. É irresistível rir em situações como estas.
Frequentemente interrogo-me sobre o êxito de certos programas de humor.
Cria-se uma onda que condiciona as pessoas. Ninguém tem coragem de dizer que não gosta dos Gato Fedorento, como no passado não dizia que não gostava de Herman José. São modas. Que o povo segue acriticamente, sem pensar muito. Uns riem com os Gato Fedorento porque os amigos também riem. E quem não se rir é porque não tem sentido de humor ou é estúpido. Até porque – diz-se – o humor dos Gato Fedorento é «inteligente». É a velha história do ‘Rei vai nu’.
Mesmo aqueles que são criticados ou ridicularizados sentem-se na obrigação de elogiar. Qual é o político, por exemplo, que tem coragem de dizer que não gosta do Contra-Informação? Todos dizem que gostam, claro. Para mostrar fairplay e porque, se disserem que não gostam, arriscam-se a ser ainda mais amesquinhados.
Com os Gato Fedorento passa-se o mesmo. Quem teve coragem de recusar o convite para ir ao seu programa de entrevistas aos políticos? Ninguém. E porquê? Será que vão por gosto? Tenho dúvidas. Vou mais longe: julgo que não deveriam ir. Que isso não é saudável para eles e para a política portuguesa.
Os portugueses já têm alguma tendência para a fantochada, para não tratarem as coisas seriamente, para reduzirem tudo à piada, à anedota, ao gozo.
Ora este tipo de programas, nesse aspecto, não ajuda nada. E a forma frívola, superficial, como se tratam certos assuntos – mesmo a brincar – também não contribui para uma discussão séria. Até porque os autores dos programas, dizendo-se irreverentes, quando falam de política raramente passam dos clichés.
Tudo, nessas entrevistas políticas feitas por humoristas, cheira a falso. O entrevistador tem obrigação de ter graça, os políticos sentem-se na necessidade de dizer coisas engraçadas. Será isto humor?
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Numa aula na Universidade Católica, uma aluna de mestrado fez-me a seguinte pergunta: «Acha que o Presidente da República vai nomear o eng. José Sócrates primeiro-ministro?».
Respondi: «Não tenho sobre isso a menor dúvida».
Poder-se-á dizer que a pergunta era ingénua.
Mas dá a medida do ambiente alarmista que os media criaram no país a propósito da ‘questão das escutas’.
Questão essa que muitos ‘comentadores’, em vez de a colocarem no devido lugar, ainda dramatizaram mais, contribuindo para a criação de um clima próximo da guerra civil.
Falando mais a sério – e estando o primeiro-ministro já designado – pergunta-se: quais serão agora as cenas dos próximos episódios?
A meu ver, Sócrates não fará coligações, que só lhe complicariam a vida, contando com a sua bancada parlamentar para conseguir acordos na Assembleia.
E isso não será muito difícil.
Como já se viu na primeira legislatura, o PS é um partido de centro-direita no plano económico – e de esquerda ou extrema-esquerda no plano dos costumes.
No plano económico protege os empresários e os banqueiros; no plano dos costumes propõe medidas ‘fracturantes’.
Ora, para as medidas económicas, Sócrates poderá contar com o apoio (ou pelo menos a abstenção) do CDS ou do PSD.
Não faria sentido que estes partidos obstaculizassem as medidas do Governo, designadamente se elas forem apoiadas pelo mundo empresarial.
Se o fizessem, o PSD e o CDS estariam a descontentar a sua própria base de apoio.
Além de que a liderança do PSD, qualquer que ela seja, estará numa fase de afirmação – não lhe interessando ser acusada de boicotar, obstaculizar ou paralisar a acção governativa.
Quanto às medidas de costumes, o PS contará naturalmente com o BE (e às vezes com o PCP) para as aprovar sem problemas.
Assim, Sócrates deverá ter um início de mandato relativamente tranquilo.
Mas daqui a um ano e pouco haverá um momento crítico, que será a eleição presidencial.
Aqui as coisas fiarão mais fino.
Por muito que alguns socialistas atirem para a arena outros nomes (como Jaime Gama), Sócrates não deverá poder fugir a apoiar Manuel Alegre.
O PS já tem a experiência das eleições presidenciais anteriores, em que apoiou Mário Soares e foi enxovalhado, pelo que não deverá querer repetir a experiência: terá mesmo de apoiar Alegre.
Mas a última coisa que Sócrates quer é ter Alegre em Belém.
No papel de Presidente, Manuel Alegre não se escusaria a atacar periodicamente o Governo (como agora já faz) e, além disso, dividiria a área socialista.
Cavaco em Belém leva o PS a unir-se em torno de Sócrates; Alegre em Belém provocaria divisões ideológicas dentro da área socialista, enfraquecendo o poder de Sócrates.
A eleição de Alegre para a Presidência da República seria vista por muitos como a desforra dos ‘verdadeiros socialistas’ em relação ao ‘desvio de direita’ protagonizado por Sócrates – o que seria péssimo para este.
Resumindo, José Sócrates está condenado a apoiar Manuel Alegre – mas, no fundo, deseja a reeleição de Cavaco Silva.
E isso vai dar lugar a uma campanha muito curiosa.
Até porque, do outro lado, passa-se um pouco o contrário.
O PSD não terá outro remédio senão apoiar Cavaco – mas, no fundo, muitos sociais-democratas estão de candeias às avessas com ele.
E se o PSD começar a pensar em ser Governo, preferirá que esteja em Belém um Presidente de esquerda.
Isso permitir-lhe-á explicar ao eleitorado as vantagens de eleger um Governo de centro-direita, para restabelecer certos equilíbrios.
As eleições presidenciais serão o momento em que tudo no país político se poderá complicar – precipitando também eleições antecipadas.
Os confrontos que vão ter lugar nessa altura, as tricas, os casos, as trocas de acusações, tudo contribuirá para adensar o clima político, conduzindo eventualmente à demissão do Governo e a novas eleições legislativas.
Sobretudo se, no PSD, uma nova liderança se tiver consolidado.
E ainda mais se se prefigurar uma coligação PSD-CDS, com hipóteses de vitória.
Aqui, porém, há um pequeno problema a resolver: se Marcelo Rebelo de Sousa for o próximo líder do PSD, uma coligação com Paulo Portas é muito improvável.
Para quem não se lembre, foi Portas quem fez cair a Alternativa Democrática – e Marcelo não quererá repetir a experiência.
Isto é que complica outra vez tudo.
P.S. – A campanha autárquica não consegue entusiasmar ninguém – porque, com o frenesim das eleições legislativas, as pessoas ficaram empanturradas de política. Na noite eleitoral o país político atingiu o clímax – e agora o que quer é descomprimir. Isso vai beneficiar a continuidade, facilitando a reeleição dos que já lá estão (António Costa, Rui Rio, Isaltino Morais, Mesquita Machado, Carlos Encarnação, Fernando Seara, etc.).
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Nesta edição do SOL – e aqui mesmo na Tabu – entrevisto o meu tio e padrinho José Hermano Saraiva. Depois de passar parte da vida a contar as histórias dos outros, ele conta a sua própria história. E faz algumas revelações que eu próprio desconhecia: como, por exemplo, que ajudou a pagar a hospitalização de Salazar no Hospital da Cruz Vermelha, porque este não tinha posses para pagar a conta.
Por coincidência, neste fim-de-semana reli algumas páginas de um livro belíssimo de Fernando Dacosta, Nascido no Estado Novo, onde também se avançam curiosíssimos dados sobre a vida pessoal de Salazar. Lá se conta que a governanta, D. Maria, falava ao telefone através de linguagem cifrada, por suspeitar que o telefone estava sob escuta! Isto, imagine-se, há 50 anos! E os suspeitos de escutarem o todo-poderoso presidente do Conselho não eram os adversários do regime mas a própria PIDE.
O tema das escutas não é, portanto, de hoje – e não se percebe como o episódio que envolveu o Presidente da República tenha dado tanto que falar.
Ou melhor, só se percebe tendo em conta que o PS dispõe hoje de uma grande e eficaz máquina de propaganda e contra--propaganda. Nenhuma gaffe, nenhum deslize, nenhuma contradição de um político da oposição passa hoje em claro – sendo depois explorada à saciedade. Mesmo episódios ocorridos em salas reservadas são recuperados e esmiuçados ao mais ínfimo pormenor.
Manuela Ferreira Leite foi, neste aspecto, uma vítima da máquina socialista. Qualquer coisa que dissesse fora do ‘politicamente correcto’ era objecto de divulgação em grande escala e de ridicularização pública. Quando disse que «a família é para ter filhos» – frase absolutamente banal – sabe-se o que aconteceu: foi como se tivesse dito uma enormidade. Ou como se o normal fossem os casamentos de pessoas estéreis, ou de homossexuais, ou de velhotes já fora da idade de procriar...
A história de Cavaco e das escutas também mostrou a eficácia da máquina de contra-propaganda socialista – que, como sempre acontece nestas situações, conta depois com alguns idiotas úteis. Para lá de dispor da colaboração de jornalistas e directores de jornais – e este é o dado novo.
Em alguns jornais perdeu-se o pudor. Até há poucos anos, os responsáveis dos jornais tinham cuidados redobrados nos períodos eleitorais. Nestes períodos, é usual choverem nas redacções as ‘notícias bombásticas’, procurando criar ‘casos’ que condicionem a votação. É a conhecida tentativa de fabricar ‘factos políticos’.
Assim, em períodos de campanha, os jornais evitavam dar à estampa pretensos escândalos de contornos duvidosos, recusando o papel de correias de transmissão de interesses partidários. Mas esse pudor desapareceu.
Um destes dias, já em plena campanha autárquica, um diário (o Correio da Manhã) vinha acusar Santana Lopes de ter pago 600 euros à hora ao arquitecto Gehry. Ora isso passou-se há oito anos, por que raio sai agora essa notícia?! Porque a máquina de contra-propaganda do PS a plantou, um jornalista a engoliu e o director aceitou fazer manchete com ela.
E se este caso era demasiado óbvio quanto aos objectivos que pretendia atingir, há outros que o não são tanto.
Voltemos à vaca fria – o caso das escutas. Verificaram-se coisas extraordinárias. Viu-se, por exemplo, Alfredo Barroso a atacar o comportamento de Cavaco Silva face ao Governo.
Ora como pode Alfredo Barroso – por quem tenho estima e que convidei, em tempos, a colaborar no Expresso – dizer honestamente uma coisa destas, sabendo como ninguém as intrigas que eram urdidas em Belém contra o primeiro-ministro Cavaco Silva no tempo em que Mário Soares era Presidente?
A memória é curta, mas não tanto.
Barroso era chefe da Casa Civil da Presidência e conhece por dentro as sucessivas ofensivas públicas de Soares contra o então primeiro-ministro.
Quem não se lembra do ‘Portugal: Que Futuro?’, congresso que Soares organizou expressamente para atacar Cavaco e as suas políticas – e que seria repetido três anos depois sob outro nome?
Quem não se lembra de quando Mário Soares falou do «direito à indignação», legitimando um bloqueio ilegal da ponte 25 de Abril? A propósito: seria normal um Presidente solidarizar-se com um acontecimento que configurava um acto pré-insurreccional?
E que dizer da Presidência Aberta em Lisboa – organizada, segundo a própria Estrela Serrano, na época assessora do Presidente, para atacar o chefe do Governo Cavaco Silva e a ideia do «oásis» que este lançara? Tem isto alguma comparação com a insinuação de um assessor de Cavaco de que há escutas a Belém?
Este lamentável episódio não colocou mal o Presidente da República – que, atacado em toda a parte com uma ferocidade e uma violência nunca vistas, soube manter a compostura e agir com dignidade.
Confesso que às vezes tive de apagar a televisão para não ouvir as enormidades que se diziam sobre um episódio que não continha a menor substância – e que só esteve tanto tempo na agenda mediática porque a contra-propaganda o foi alimentando.
O que eu ouvi nalguns desses debates e entrevistas! Até comentadores futebolísticos, como Rui Moreira, se debruçaram sobre o tema – com uma agressividade e irresponsabilidade já pouco aceitáveis no futebol, mas impensáveis quando está em causa o chefe do Estado.
Cavaco – repito – mostrou-se sereno. A nossa intelligentsia, pelo contrário, deu uma triste imagem de si própria. Deixou-se manipular, instrumentalizar, mostrou falta de memória e de ponderação, inexplicável nervosismo, irresponsabilidade extrema.
Não estava na cara que os ataques ao Presidente da República e a sua colagem ao PSD em vésperas de eleições só interessavam ao PS, que assim matava dois coelhos de uma cajadada?
Não está na cara que o enfraquecimento do Presidente só interessa hoje ao PS e ao Governo – já que, perante o estado de fraqueza do PSD, Cavaco Silva é o único possível obstáculo à prepotência governativa?
Não está na cara que, mesmo aqueles que não gostam de Cavaco, não têm a mínima vantagem numa fragilização do Presidente, que é o único garante de um certo pluralismo?
O certo é que, nestes tempos difíceis em que o sectarismo campeia, ninguém mais, além do Presidente da República, está em condições de só ter em vista o interesse comum.
Os partidos – como a própria palavra ‘partido’ indica – têm interesses parcelares, de grupo.
Ora Cavaco Silva, como todos reconhecerão, tem dado provas de que não se deixa instrumentalizar nem amedrontar por ninguém. E não pode ser acusado de partidarismo: basta ver como, nesta crise, todos os partidos o criticaram.
Será muito difícil ver isto?
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Se as eleições fossem uma prova ciclista, poderíamos resumi-la assim: o PS distanciou-se do PSD nos últimos quilómetros da subida da montanha, o PCP andou sempre na cauda do pelotão e não conseguiu descolar, o CDS ultrapassou o BE na recta da meta.
Numa leitura mais política, podemos dizer que o CDS foi o único partido que só ganhou.
O PSD perdeu porque foi claramente derrotado na luta pelo 1.º lugar.
O PCP perdeu porque ficou em último e foi (talvez definitivamente) ultrapassado pelo BE.
O BE não conseguiu tudo o que queria porque não agarrou o 3.º lugar nem alcançou os dois dígitos, ao contrário do que diziam as sondagens.
O PS não conseguiu renovar a maioria absoluta.
A tarefa do PSD era muito difícil porque o primeiro-ministro em exercício ganha sempre as eleições (só com Santana Lopes isso não se verificou, mas Santana já estava demitido pelo PR e portanto já não era primeiro-ministro quando as eleições se realizaram).
Os portugueses apreciam a continuidade e isso favorecia à partida o PS.
Mas é preciso dizer que, independentemente dessa ‘regra’, o PSD não conseguiu galvanizar os eleitores.
‘Não é com vinagre que se apanham moscas’, diz o povo.
Ora Ferreira Leite quis apanhar moscas com vinagre, fazendo uma campanha pela negativa, dizendo aos quatro ventos o que não queria fazer mas não apresentando alternativas concretas, não alimentando o sonho.
As nações precisam de sonhos.
Nenhum povo vai atrás de profetas da desgraça, por muita razão que tenham.
Um líder, para ganhar, tem de dizer ‘Eu vou fazer isto, vou apostar naquilo...’ e não ‘Eu não vou fazer isto, nem isto, nem isto’ – e depois calar-se.
Além disso, o PSD deu uma imagem de divisão interna que não tranquiliza ninguém.
De falta de unidade e de solidariedade entre as suas principais figuras.
Alguém vai entregar o poder a um partido onde as tricas internas estão constantemente na praça pública?
Onde um dia há um problema com Passos Coelho, no dia seguinte com Luís Filipe Menezes, depois com Morais Sarmento, mais tarde com Marques Mendes (para já não falar de ex-dirigentes como Mira Amaral ou autarcas como Moita Flores).
Nisso o PS tem dado lições: mesmo os ministros ‘saneados’ do Governo aparecem na primeira fila a aplaudir Sócrates.
Depois, o PS tem a máquina mais poderosa que hoje existe, cheia de dinheiro e disposta a actuar sem quaisquer escrúpulos.
Algum pudor que existia na política, não atacando pessoalmente os adversários nem organizando cabalas em tempo eleitoral, perdeu-se.
A máquina do PS é completamente despudorada, destituída de princípios e recorre a tudo.
Instrumentaliza jornalistas, usa golpes baixos, aproveita todos os deslizes dos adversários para fazer jogadas rasteiras.
E alguns dirigentes nacionais prestam-_-se a isso, dando o seu rosto e a sua voz (ou vozeirão) a essas campanhas sujas.
Além disso, o PS tem um bom líder – um ‘robô político’, como lhe chamei – que aguenta bem os debates e funciona sem uma falha em campanha, discursando de um modo simples, directo e eficaz.
A ultrapassagem do Bloco de Esquerda pelo CDS foi o facto mais marcante e inesperado da noite eleitoral.
E isso é mérito pessoal de Paulo Portas.
Enquanto o PS tem uma máquina capaz (se fosse preciso) de levar o líder ao colo, Portas leva a máquina do partido ao colo.
‘Menino prodígio’, produziu durante a campanha os discursos mais brilhantes de todos os líderes partidários.
Falou em temas populares: a insegurança urbana, a indisciplina nas escolas, a importância da família, o descalabro da agricultura e das pescas, o excesso de impostos, os benefícios a quem não trabalha, as dificuldades dos idosos.
Não tem papas na língua, sabe ir direito ao que interessa, tem boa presença.
Se na política houvesse transferências, como no futebol, há muito que não estaria no CDS – e teria sido comprado pelo PSD.
O Bloco de Esquerda também tem um bom líder, mas que começa a cansar.
Os seus truques (ou tiques?) de retórica são já demasiado óbvios e previsíveis.
Já nada nele é genuíno: é tudo ensaiado.
E nesta campanha começou a mostrar a careca, afugentando alguns iludidos.
Mas afinal ele é comunista? Mas defenderá mesmo as nacionalizações? E onde iria arranjar dinheiro para tudo o que promete? Para resolver os problemas do país basta tirar aos ricos e dar aos pobres?
Julgo que o BE está a atingir o seu patamar máximo – e, à medida que Louçã se for enchendo de empáfia e mostrando os dentes, como aconteceu na noite eleitoral, o seu eleitorado ir-se-á esvaziando.
Sobre o PCP já disse tudo o que tinha a dizer em crónicas anteriores.
Está morto, defende um modelo que já não existe, não consegue renovar-se nem encontrar alternativa para um discurso estereotipado.
Mas também já não lhe valeria de nada tentar mudar, modernizar-se: isso só lhe precipitaria a queda.
Está obrigado a resistir – assistindo ao seu próprio declínio de eleição para eleição.
Mas atenção: a principal força do PCP não está – nunca esteve – no voto.
A principal força do PCP está na máquina, na capacidade de mobilização e organização da sua máquina.
E nas células das fábricas e em alguns serviços.
Pensar que a força do PCP se resume aos votos é ilusório.
Aliás, eles durante muito tempo chamaram a estes actos eleitorais ‘eleições burguesas’. E lá tinham as suas razões para os temer.
P.S. – A querela das ‘escutas’, que esmiúço noutro local e não foi mais do que uma tempestade num copo de água, merece-me aqui a seguinte nota: o PS estranhou que assessores de Belém participassem na elaboração do programa do PSD. Não sei se isso é verdade ou não. O que sei é que há hoje uma promiscuidade enorme entre o PS e o Governo. Os ministros inauguram obras de manhã e à noite tiram a gravata e participam em inflamados comícios partidários. O próprio Silva Pereira, que tem sido a cara do Governo, foi a pessoa que o PS escolheu para responder a Cavaco. E faz confusão ver Teixeira dos Santos, que como ministro das Finanças deveria ser um referencial de isenção, envolvido em comícios de campanha (legislativa e autárquica) onde o sectarismo impera. Isto é que baralha o país, não são os assessores de Belém que ninguém conhece…