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Talvez nem toda a gente saiba que a indústria alimentar, a farmacêutica, algumas áreas da cosmética e sectores específicos de outras indústrias, são obrigados a garantir a tracibilidade ou rastreabilidade de todos os seus produtos. Se tiverem pachorra para abrir o link ficarão com informação completa, mas, para os menos disponíveis, tentarei resumir a coisa.
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A tracibilidade permite seguir a história de um produto até à “terra”. Imaginemos um qualquer pacote de cereais com frutas. Na sua composição entram farinha, açúcar, gorduras, cacau, frutas desidratadas, etc. Para todos estes componentes o fabricante tem de receber dos seus fornecedores a garantia de que saberão onde foram produzidas as matérias-primas, e, mais importante, em que condições. No caso das frutas e cereais, o agricultor pode ter que identificar que tipo de fertilizante ou pesticida utilizou.
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A chave que permite abrir este conjunto de “bonecas russas” é o lote de produção, aquele conjunto de letras ao lado da validade, que, podendo ter vários formatos, tende a ser algo como Lannnlltt , em que L quer dizer lote, a é o último digito do ano, nnn são três dígitos que identificam o dia juliano, ll são dois dígitos ou letras para identificar a linha de produção, e tt identificam o turno. Um produto com o lote L92540301 teria sido produzido na noite de 10 de Setembro de 2009 (o turno 01 começa habitualmente às 23H00) na linha 03.
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Desde os primórdios da indústria que sempre houve um qualquer tipo de registo de procedências e características das matérias-primas utilizadas na produção, mas foi só com o advento da informática, complementada com a comunicação instantânea, que se tornou possível garantir a informação da cadeia total, e dispor dessa informação em tempo útil. É frequente um fornecedor ter a possibilidade de indicar a tracibilidade completa de um produto no prazo de 4 horas. E isto implica receber resposta dos seus fornecedores, que por sua vez a receberam dos seus fornecedores, depois destes contactarem os seus fornecedores, até ao agricultor. Este é um verdadeiro exemplo de trabalho em cadeia, pois cada um só guarda os registos da sua própria actividade. O fabricante dos cereais tem na sua base de dados, para cada lote de produção, o registo de todos os lotes das matérias-primas que foram incorporadas. O fornecedor das matérias-primas terá o registo da sua própria actividade, etc, etc. até à última bonequinha russa…
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E para que diabo serve todo este trabalhão e gasto de recursos. Todos nos lembramos da história recente do leite chinês, do óleo de girassol Ucraniano, e, os mais antigos, talvez se lembrem ainda da história da água Perrier. Pois em todos estes casos, a tracibilidade permite identificar e confinar um qualquer problema, de modo a poder-se agir e informar de modo conveniente. E a comunicação flui nos dois sentidos: do consumidor até ao agricultor, quando o problema é detectado no consumo, ou do agricultor até ao consumidor, quando a incidência é detectada na origem.
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A grande vantagem deste sistema não é tanto permitir a recolha selectiva de produto do mercado (recall), que acontece de vez em quando, mas sobretudo obrigar todos os intervenientes na cadeia logística a terem especial cuidado com a qualidade dos seus produtos, pois sabem que serão responsabilizados em caso de incidente grave.
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Kuriosamente, esta divagação sobre a tracibilidade foi-me sugerida pela leitura da seguinte nota, numa revista da especialidade:
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Um dos paradoxos da vida moderna, é o facto de a Internet ser considerada uma área de anonimato total quando, na verdade, é um mundo onde TODAS as nossas pegadas ficam registadas em múltiplos sítios e guardadas por tempo indeterminado.
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Quando nos sentamos aqui, depois de vestir o nosso fato de “conquistador”, de “palhaço”, de “bandido” ou de “santinho”, e partimos para visitar o mundo anonimamente, estamos de facto a deixar um rasto mais evidente que as pegadas duma gaivota numa praia deserta. E aqui não virá a maré apagá-las!
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E desenganem-se se pensam que só as autoridades poderão ter acesso às coscuvilhices do nosso IP. É claro que o eventual contratado pelo nosso ISP (Internet Service Provider) para efectuar todos os infindáveis backups que permitirão guardar as nossas pegadas, se tiver “dois dedos de testa”, vontade, e uma pen, vai poder copiá-los e…
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Sempre se podem utilizar os Cibercafés, mas, ou eu me engano muito, não tardará que peçam identificação aos seus clientes, e sejam obrigados a manter um registo de todas as utilizações. A bem da segurança global, é claro!
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Kurioso