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Já por aqui falei sobre uma das minhas eternas dúvidas e fonte de curiosidade: porque é que somos assim?
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Porque somos assim enquanto indivíduos, grupos sociais, países, regiões, etc. Há inúmeras teorias (e livros de auto ajuda) a dizerem-nos que podemos ser isto e aquilo, mas verdade, verdadinha, é que cada um de nós muda, intrinsecamente, muito pouco.
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Pois eu acredito que nós (indivíduos, sociedades, países) temos uma elevada dose de herança dentro da nossa maneira de ser, da qual a parte genética até será minoritária. O que nos faz ser como somos, é um acumular gradual de hábitos, costumes, valores, comportamentos, e até modos de pensar e solucionar problemas.
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A colonização de Angola e Moçambique foi feita com as mesmas pessoas, mas, um século depois, os retornados de cada uma das “províncias” eram bem distintos, pois tinham sido formados em realidades distintas, tendo por isso heranças diferentes. A diferença entre Portugueses Angolanos e Portugueses Moçambicanos ficará para outro post pois preciso ainda de procurar suporte factual para a minha opinião puramente subjectiva.
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Hoje, gostaria de vos mostrar um exemplo da herança que nós lá deixámos, num e noutro lado daquele continente imenso.
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As conversas com uma familiar que ainda reside em Moçambique, proporcionaram uma visita ao Google Earth para tentar localizar todas as casas onde fomos vivendo ao longo de 27 anos. Esta “visita” mostrou coisas extraordinárias: as “nossas” casas ainda existem quase todas; dentro da cidade há baldios que persistem ao fim de 50 anos; a área da cidade quintuplicou nestes 30 anos, com mares de barracas a estenderem-se por quilómetros. E a grande surpresa, e causa deste post, foram mesmo estes quilómetros de barracas a perder de vista, não pela sua quantidade, mas pela sua disposição.
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Um parênteses para explicar, de uma forma simplista, as principais diferenças da Angola e do Moçambique coloniais.
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Angola sempre esteve mais ligada a Portugal, quer pela proximidade, quer pelo relativo isolamento em relação aos seus vizinhos mais próximos, vizinhos estes que, devido a inúmeras convulsões internas e divisões tribais, nunca se tornaram nações de referência. O modelo, ou matriz, angolano era assim europeu continental (latino). Já Moçambique estava muito longe da “metrópole”, e, muito mais importante, tinha como vizinho o país mais desenvolvido de África. E se os diversos Congos nunca conseguiram, ou puderam, intervir e influenciar Angola, a África do Sul foi sempre um parceiro privilegiado de Moçambique. A “latinidade” que os portugueses pudessem trazer ao chegar a Moçambique, era rapidamente abafada pela fortíssima influência anglo-saxónica. Desde a condução pela esquerda, passando pelas actividades económicas até chegar à toponímia geográfica que converteu designações portuguesas em corruptelas inglesas. “Delagoa bay” era a tradução de baía da lagoa, e fazia parte do nome de uma série de empresas. Se espreitarem o link, verão que a wiki tem um artigo bastante completo em…Inglês.
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Não admira, por isso, que Lourenço Marques tivesse sido desenhada a “régua e esquadro”. Ruas largas perpendiculares formando quarteirões quadrados (pleonasmo???) com passeios largos, semeados de árvores de grande porte. Uma monotonia que era um regalo para a vista e…para se andar de bicicleta. Este urbanismo ortogonal foi sendo aplicado ao longo dos anos em todos os novos bairros até 1975.
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Após a independência era natural que os novos países quisessem ver-se livres de todas as “pesadas heranças”, esquecendo rapidamente os hábitos e costumes do colonizador. E, sendo o caos a forma natural de África, seria de esperar que a (auto)construção explosiva de centenas de milhar de barracas no prazo de duas décadas resultasse numa amálgama caótica semelhante ao que se vê nos arredores do Cairo , de S. Paulo, ou da cidade do México.
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Surpresa:
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Não queria acreditar no que estava a ver! Depois de vários zoom in e zoom out, tentando encontrar Lourenço Marques dentro de Maputo, consegui descobrir a “minha” cidade num cantinho daquele quadriculado imenso. Só quem conhece África pode perceber o quanto esta realidade é assombrosa. Este tipo de “urbanismo” em bairros de barracas é intrínseco aos seus habitantes. Os auto-construtores copiaram um modelo que acharam prático, funcional e económico. E copiaram-no de duas realidades distintas. Da cidade dos “ricos” lá ao pé da água, e das townships Sul africanas que conheceram quando trabalhavam nas minas. As townships eram “reservas” urbanas construídas pelo governo durante o apartheid para manter confinados os não brancos. Eram casas razoáveis construídas ao longo de ruas largas e rectas que, oficialmente, se destinavam a proporcionar uma habitação condigna e saudável, mas que também se destinavam a permitir o rápido acesso e circulação das forças de segurança em caso de “complicações”.
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Quando consegui fechar a boca, meia hora depois, fui espreitar Luanda.
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Aqui sim, encontrei o que estava à espera. Como o modelo base já era desordenado, ele simplesmente foi sendo replicado dando origem a um caos latino-africano. As duas imagens têm o ponto de vista à mesma altitude, e focam uma área distando cerca de 7 kms do centro de cada uma das cidades.
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Não me compete julgar qual dos modelos é mais válido, até porque não poderia ser isento. O meu ponto é tentar mostrar que também os países, tal como as pessoas, agem instintivamente de acordo com heranças que muitas vezes tentam renegar.
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Kurioso