Uma nova ‘política do espírito’?
Na semana passada, a Tabu dedicou oito páginas a uma grande entrevista com Paulo Branco. Não é a primeira vez que este produtor e cavaleiro tem espaço livre para opinar sobre a política do cinema, aproveitando normalmente para zurzir nos Ministros, sempre que considera que o dinheiro que lhe dão (a que ele chama «as fichas» para jogar) é escasso para o enorme trabalho que generosamente desenvolve em favor da cultura portuguesa. Desta vez, nem mesmo Carrilho que, na altura, lhe deu um forte apoio, nomeadamente transformando empréstimos em subsídios a fundo perdido, escapa às suas críticas.
Está por fazer a análise do que foram os efeitos da actividade deste produtor que durante duas décadas dominou praticamente o cinema português. A dependência total dos subsídios a que se condenou a nossa indústria, sem que ninguém mexesse um dedo para travar esta sovietização do cinema português, favoreceu a emergência de produtores parasitas e de realizadores acomodados, e provocou o divórcio dos filmes com os primeiros responsáveis pela sua divulgação: distribuidores, salas e operadores de televisão. Por sua vez, os jogos de bastidores, a complacência com práticas terroristas e o silêncio cúmplice de muitos profissionais não contribuíram para que se discutisse a política de apoio ao nosso cinema, que assim se condenou a ser, de muito longe, o mais pobre da Europa.
Nada do que diz PB nesta entrevista é novo: os ataques aos Ministros do dia (desta vez é Santos Silva e Isabel Pires de Lima que levam por tabela), o auto-elogio, a crítica das elites, o desprezo por quem paga bilhetes, a ideia absurda de que a indústria do cinema é a «que mais retorno traz ao país, com menos investimento».
O que é novo, e que vale a pena analisar, é a declaração terrorista de que filmes feitos à margem do sistema, sem dinheiros públicos e que foram grandes êxitos de bilheteira (O Crime do Padre Amaro e Filme da Treta) deveriam «desaparecer [sic], porque não são filmes, são operações de marketing»; e, por antítese, o elogio de António Ferro, que foi o ideólogo do salazarismo para a cultura, não hesitando em afirmar que, «depois [dele] não houve mais ninguém a pensar Portugal em termos de formação artística e cultural».
Esta confissão, vinda de alguém que, ao longo de vinte anos, foi, de longe, o maior beneficiário do regime de subsídios, é reveladora. Não é por acaso que a execrável ‘política do espírito’ de AF gerou monstros como Camões ou A Revolução de Maio; e que o ideólogo de Salazar considerava a comédia, que deu obras como A Canção de Lisboa ou O Costa do Castelo, «o cancro do cinema português». Aquilo que PB parece lastimar, com nostalgia e frustração, é que o Estado não lhe confie o poder e o dinheiro suficientes para ele ser o juiz do gosto e o educador do povo e das elites.
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