SOL

Uma nova ‘política do espírito’?

Publicação: 09 February 07 09:07 AM

Na semana passada, a Tabu dedicou oito páginas a uma grande entrevista com Paulo Branco. Não é a primeira vez que este produtor e cavaleiro tem espaço livre para opinar sobre a política do cinema, aproveitando normalmente para zurzir nos Ministros, sempre que considera que o dinheiro que lhe dão (a que ele chama «as fichas» para jogar) é escasso para o enorme trabalho que generosamente desenvolve em favor da cultura portuguesa. Desta vez, nem mesmo Carrilho que, na altura, lhe deu um forte apoio, nomeadamente transformando empréstimos em subsídios a fundo perdido, escapa às suas críticas.

Está por fazer a análise do que foram os efeitos da actividade deste produtor que durante duas décadas dominou praticamente o cinema português. A dependência total dos subsídios a que se condenou a nossa indústria, sem que ninguém mexesse um dedo para travar esta sovietização do cinema português, favoreceu a emergência de produtores parasitas e de realizadores acomodados, e provocou o divórcio dos filmes com os primeiros responsáveis pela sua divulgação: distribuidores, salas e operadores de televisão. Por sua vez, os jogos de bastidores, a complacência com práticas terroristas e o silêncio cúmplice de muitos profissionais não contribuíram para que se discutisse a política de apoio ao nosso cinema, que assim se condenou a ser, de muito longe, o mais pobre da Europa.

Nada do que diz PB nesta entrevista é novo: os ataques aos Ministros do dia (desta vez é Santos Silva e Isabel Pires de Lima que levam por tabela), o auto-elogio, a crítica das elites, o desprezo por quem paga bilhetes, a ideia absurda de que a indústria do cinema é a «que mais retorno traz ao país, com menos investimento».

O que é novo, e que vale a pena analisar, é a declaração terrorista de que filmes feitos à margem do sistema, sem dinheiros públicos e que foram grandes êxitos de bilheteira (O Crime do Padre Amaro e Filme da Treta) deveriam «desaparecer [sic], porque não são filmes, são operações de marketing»; e, por antítese, o elogio de António Ferro, que foi o ideólogo do salazarismo para a cultura, não hesitando em afirmar que, «depois [dele] não houve mais ninguém a pensar Portugal em termos de formação artística e cultural».

Esta confissão, vinda de alguém que, ao longo de vinte anos, foi, de longe, o maior beneficiário do regime de subsídios, é reveladora. Não é por acaso que a execrável ‘política do espírito’ de AF gerou monstros como Camões ou A Revolução de Maio; e que o ideólogo de Salazar considerava a comédia, que deu obras como A Canção de Lisboa ou O Costa do Castelo, «o cancro do cinema português». Aquilo que PB parece lastimar, com nostalgia e frustração, é que o Estado não lhe confie o poder e o dinheiro suficientes para ele ser o juiz do gosto e o educador do povo e das elites.

apvasconcelos@gmail.com

Comentários

# sajose said on February 12, 2007 9:38 PM:

Caro Senhor,

Como habitualmente, para muitos sectores da vida portuguesa, opta-se pela insinuação em vez da denúncia. Democrata sim, jamais bufo. Sovietização? Diga lá antes corrupção que os dados são públicos e não vai preso ou é processado por isso. Não foi completamente preciso relativamente ao apoio que refere de MM Carrilho. Os empréstimos estão lá para pagar, o Tribunal de Contas denunciou a ilegalidade no seu parecer da Conta Estado para 2004: https://www.tcontas.pt/pt/actos/parecer/2004/pcge2004-v1.pdf

São 22 milhões de euros enviados para baixo do tapete, são empréstimos ilegais, são subsídios entregues consecutivamente ao atropelo das regras da sua atribuição, designadamente, no que se refere ao cumprimento dos compromissos financeiros assumidos pelos produtores.

Para depois vermos as produtoras e distribuidoras altamente subsidiadas pelos portugueses pagadores de impostos mudarem de residência para paraísos fiscais ou desaparecerem sem qualquer explicação pública substituídas por outras que lhes capeiem as ilegalidades. Nem que tivessem milhões de espectadores, o que não é manifestamente o caso.

Eles lá sabem por que se calam perante as críticas.

Melhores Cumprimentos

José Sá

# mcardoso said on February 17, 2007 4:43 PM:

Gosto imenso de cinema e de filmes. Nem todos, é claro. Mas não percebo nada de política de cinema e muito menos de política de cinema em Portugal porque quer a política quer o cinema, em Portugal, são sempre temas normalmente muito difíceis de vislumbrar! Mas não posso deixar em claro uma coisa que vem neste seu post. É a utilização de António Ferro como arma de arremesso. Apesar do apelido sólido - e sobretudo pelo apelido sólido - não me parece que seja de usar como arma de arremesso. Sobretudo com o adjectivo de "o ideólogo" etc. com que o faz. É que António Ferro podia ter todos os defeitos que lhe queira atribuir mas tinha uma virtude, virtude essa essencial para os lugares que ocupou durante tantos anos: era culto. E como pessoa de cultura, como, aliás, qualquer pessoa qualquer, podia ter opinião, como nós a temos, sobre qualquer coisa. Até para considerar maus os filmes que o António Pedro Vasconcelos considera bons e vice versa. Isso é uma liberdade de opinião e expressão que assiste a todos. E parece-me que o convívio de AF com numerosos intelectuais contemporâneos desmente à saciedade a perspectiva que dele nos apresenta e que dele usa para o usar como arma de arremesso neste seu artigo. Desculpe-me dizê-lo mas podia e devia - porque tem bagagem para isso - ter pegado no assunto de uma outra maneira. Ter feito a crítica da entrevista ao PB de uma outra maneira. Sem ter necessitado de recorrer ao déjà vu do uso do Estado Novo como justificativo das nossas incapacidades actuais. É pouco. É muito pouco. Até porque há um episódio, relacionado com o António Ferro e com o António Botto (suponho que conhece o episódio) que fez com que hoje possamos ter essa versão extraordinária do IF de KIPLING que nos preencheu muitos posters de muitos dos quartos da nossa juventude. O António Ferro podia ter sido, e foi, apoiante e inspirador do regime de Salazar e isso, para si, era um defeito. Mas tinha uma coisa além da de ser culto: era inteligente. Era pessoa para pensar duas vêzes se deveria, numa crítica de jornal, enveredar pelo elogio ou exercer a corrosão. Porque para se dizer bem de uma coisa não é preciso dizer-se mal de outra. António Ferro sabia-o. E fazia-o. Também Kipling. Deixou-no-lo no IF. Que nos foi traduzido pelo Botto. Porque o AFerro lho pediu. Às vezes faz bem ler o IF antes de escrever um artigo. Desculpe-me o atrevimento deste comment. Não é sobre política nem sobre cinema. Mas é sobre a ideia de que a "política do espírito" não é nova nem velha. Pode ser como o IF. Que hoje é o mesmo "Se" que um dia o António Ferro leu, traduzido pelo António Botto, e mandou publicar.

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