SOL

Baú de Recordações - Não molhe o meu laço.

 

 

Imagem Google

 

No Domingo da Sagrada Família (pós Natal) houve na nossa Igreja paroquial o  baptizado de um menino de poucos meses. Já se endireitava no colo da mãe e no seu fatinho branco, de chucha na boquita, incorporou-se lindamente na Eucaristia, despercebido.

Decorreu a cerimónia muito bem e quando chegou a hora de receber a água - benta, eu no meu lugar, preparei-me para o berreiro habitual, ainda para mais que estava um frio de rachar nesse dia, consequentemente, batíamos o dente . Ora imagino que a água da pia baptismal estaria como o gelo também. Embora a ideia não seja ensopar os bebés, é de qualquer maneira, assustador levar com um pouco de água fria na cabecinha tão mimada e protegida. Então, quando a madrinha debruçou o garoto para a pia, ele levanta a cabeça e mira o senhor padre nos olhos, inquisitivo. Este sorriu e toda a gente na Igreja ao ver o ”atrevimento” do miúdo, e, nem quando lhe caiu a água em cima, ele se desmanchou. Estava determinado a mostrar que era forte e não se lhe ouviu pio durante o resto da Missa.

Foi emocionada, que me recordei de como tão diferente fora o meu próprio baptizado!!

Nascida  lá para o mato, em Angola, estava o meu baptismo aprazado para quando nós e os meus padrinhos viéssemos a Portugal. Não sei porquê, mas não fazia sentido para a minha Mãe baptizar-me lá. Não seria para ela a água tão benta como a da nossa terra…

O certo é que tal coincidência só se deu quando eu já fizera quatro anos e, entretanto, nascera uma nova criança que, de boleia, se baptizaria no mesmo dia economizando cerimónia e Padrinhos.

Era eu, segundo o testemunho desvelado da minha progenitora, uma”rabotinha” muito azada e espevitada. Os meus cabelos negros retintos traziam-me uma série de desgostos traduzidos em choros e  rabujice, pois ao serem muito encaracolados, para os pentear, víamo-nos, eu e a minha mãe, em sérias contradições. Ela porque cheia de zelo, sim, eu porque sofria os arrepelões, não .

Mas que fazer? Alguma vez eu vinha à rua sem os cabelos devidamente cacheados?

Era moda naqueles dias, enrolar em canudinhos os cabelos das meninas, parecendo, com o devido respeito o Senhor dos Passos. Se eu sofria e as lágrimas me rolavam cara abaixo, imagine-se as que, coitadinhas, tinham o cabelo espetado à sovela! Para andarem na moda o que não terão passado mas mãos das empenhadas mamãs!

Pois então, menina chique, era a que andava de mão dada com os seus orgulhosos papás, de caracóis badalando ao lado da carita e terminando no cocoruto com um belo laçarote. Tal e qual como eu andava em cada dia que Deus deitasse ao mundo! Só mudava a beleza e a excelência do dito laço.

Já no “Puto”, (para os que não conhecem o termo, era assim que carinhosamente designávamos Portugal) chegado o dia do baptizado, lá fomos em cortejo os pais, os padrinhos, provavelmente mais alguém, mas e especialmente eu e a minha mana de mão dada. Do Combro ao Adro ai são uns bons oitocentos metros, mas que importava isso? Íamos por gosto…!

Nós as duas à frente, sendo que eu quase arrastava a mais nova na ânsia de chegar. Vestido rodado bem armadinho com saiote de renda por baixo, sapatinho de verniz e um lindo laçarote de organza na cabeça, penso eu que fazíamos um figurão.

O povo prevenido e pouco habituado a ver os baptizandos ir a pé para a Igreja, de vez em quando metia-se connosco.

-Então Celestinha, vais-te baptizar?

-Vou agora, mais a minha mana. Tenho um vestido novo!

-Vais muito linda, sim senhora!

Quem ia folgada era minha Madrinha (Deus lhe perdoe) que não ia carregada com o “mestronço” ao colo!

Chegadas à Igreja já o Senhor Padre nos esperava à porta. Uma festinha na cabeça e vamos então em direcção à pia baptismal. De olhos bem abertos eu seguia a cerimónia atentamente. A minha mana mais pequenita estava era com um sono daqueles e foi necessário dar-lhe a chupeta para ela se entreter - dizia a minha Mãe.

-Tragam então as crianças para aqui – orientou o  Pároco.

E quando toda a gente espichou o pescoço para ver o culminar da cerimónia saio-me eu toda despachada puxando pela sotaina do meu prior:

-Ó Senhor Padre Hermínio, não molhe o meu laço!

Desatou tudo a rir incluindo o visado:

- Não te aflijas, eu não vou molhar o teu lacinho tão bonito. Deito assim de lado, estás a ver? E exemplificou.

Contente com a promessa, eu mesma inclinei a cabecita de boa vontade, numa aceitação da fé que até hoje me norteia.

Contudo, depois do acto, segundo me contaram, ainda levei a mão ao laçarote, certificando-me de que estava tudo conforme o prometido.

Há em Vilar de Maçada quem se recorde desta passagem e, passadas tantas décadas ainda brincam comigo por causa da minha preocupação com a estética tão cedo revelada.

Foi o que me recordou aquele bebezinho, nos braços da mãe, quando levantou o olhar para o sacerdote, como a ver em que sarilho o iriam agora meter.

Hoje, já não sou menina de laços e o cabelo preto encaneceu, mas apraz-me muito recordar pedaços ternurentos da minha meninice e que não poderia deixar desaparecer no tempo, sem deles deixar memória futura.

 

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Baú de Recordações - Arrede-se o Carvalho Araújo!

 

 

Carvalho Araújo, Herói Vilarealense

 

Conta-se que numa noite de Outono entradote, pela Avenida Carvalho Araújo acima, já a desoras, ia um passante em caminho enviesado, remocando consigo mesmo ou com outros seres da sua confusa imaginação, toldada com umas pinguitas a mais sem ter sido do seu considerado conhecimento.

Àquela hora e naquele tempo, já os pacatos concidadãos de Vila Real, tinham arreado persianas e trancado portas e no recesso do lar gozavam dos seus tranquilos serões familiares. É que dos lados do regelado Marão, vinha já um chiasco, de barbear o mais empedernido e não fosse a aragem crestar as peles macias dos citadinos, metiam-se os ditos em casa para prevenir estes e outros malfadados achaques como as gripes sazonais que também então as havia.

Mas… e nestas histórias há sempre um mas, que muita falta fazem para acrescentar a trama, a juventude parece minada pelo diabo no corpo que só lhe pede asneiras e aventuras azedias, às vezes com substanciais complicações, nem  temerosos  do frio nem da hora .

Não é pois de estranhar que, meia dúzia dos que às horas do dia roçavam a fatiota na esquina da Gomes, pela calada da noite se preparassem para animarem os serões mortiços das noites longas e frígidas , quase sempre longe das vistas dos progenitores, estes já como as galinhas, a dormitar nas aldeias de onde os rebentos tinham desertado para ocuparem as carteiras do saber, na cidade, no Liceu Camilo Castelo Branco ou na então chamada Escola Comercial e Industrial de Vila Real.

Eram useiros nas petiscadas ou tainadas que costumavam levar por horas mortas até que os anfitriões mui caridosamente os pusessem no olho da rua em nome das aulas do dia seguinte.

Não faltavam botecos onde se esconderem e escorrupicharem uns copos, em demasia. Mesmo ali junto à Gomes, no Largo do Pelourinho, a Tasca do Alemão, internacional lugar de bebedeiras das de caixão à cova; a Pensão  Avenida, dos de Vilar de Maçada em frente ao velhinho Teatro Avenida. Para a classe mais entradota na guita e na respectiva idade era o Clube.

Havia outras espalhadas pela cidade e ao gosto do grupo de compinchas que se juntava para a marosca. Ele era na entrada de ponte a Cardoa, era o Alírio na Estação etc, etc, etc. (Notas parcimoniosamente cedidas por alguém meu próximo que também andou nas mesmas ruelas e travessas, por assim dizer…)

- Meninos da “Bila”!!!

Quantas vezes, no dia seguinte se via algum encostado ao balcão da pastelaria, pálido e “desiolhado”:

- Ó senhor José dê-me aí um covilhete quentinho e um café bem forte.

- Bem precisa! Ò menino, essa foi das boas!

- IH! Nem me fale!

- Pois trate de ir espairecer que ainda não eram nove horas já aqui estava o seu paizinho.

- Nem me diga! E instintivamente, levava a mão lambida ao cabelo no desejo de o tornar apresentável.

- Digo, digo. Por isso veja lá.

- Vou-me embora para as aulas pela rua de trás, mas não lhe diga que me viu.

- Vá sossegado. E num aparte: -Esta mocidade…

Pois a personagem mencionada no início vinha já corrido de um desses cantinhos, dado o adiantado da hora e, coitado, ia-se-lhe a razão num suspiro de vento roçagante que era o que lhe valia para, mesmo aos ziguezagues, prosseguir no caminho ( encafuado à força da experiência na cachimónia), de casa.

Não ia contudo satisfeito, pois a razão dizia-lhe que grandes acontecimentos se teriam dado na sua curta ausência das ruas da cidade que conhecia como a palma da mão. Pudera a cidade por aquela época cabia num lenço de assoar…!

Teria havido um motim? Um terramoto desgraçado que assim mutilara a sua terra?

Estava tudo fora do sítio! Não é que tinham tirado o Carvalho Araújo do lugar? E ninguém fazia nada? Bando de cobardolas que consentia num desmando destes!

Pois ele era muito homem para o voltar a pôr onde lhe correspondia pela patriótica acção que o entronizara! Não era agora uma estátua de bronze assente num bloco de mármore qualquer que se lhe punha à frente! Já andara muito ano atrás do rabo (com sua licença) do macho do pai, e músculos não lhe faltavam.

Vai daí, forçalhudo, tira o casaco, espeta com ele para cima do banco de ripas que bordeava o jardim , incha o peito, esforça os pulmões numa economia labrega de ar , encosta o ombro à esquina do plinto marmório e força, que aí vai disto!

Escorrega na erva do canteiro, mas arremete com mais força ainda, naquela teimosia própria dos eflúvios da vinhaça que tinha no bandulho.

E empurra, empurra, empurra…

Ora a apreciar a gesta deste consciencioso cidadão, estava um outro grupo, tardio de andanças também, mas estes por razões mais meritórias: eram os taxistas da Avenida, que à mesma hora ainda por lá andavam na mira que na Carreira do Cabanelas ainda viesse  algum  passageiro do Porto a precisar de transporte para si e para o carrêgo.

Ao verem o preparo do outro, toldado do conhecimento, logo se lembraram de lhe pregar uma “peça” e silenciosamente, tiram-lhe o casaco e mudam-no de banco.

Quando o esfalfado notívago, quase a deitar os bofes pela boca, se convence que cumprira a seu contento a missão, limpa com a manga o suor do rosto corado como um pimento e procura o casaco para, desta feita, se ir.

Não o vê.

Procura, procura e, por fim, lá dá com ele num banco  bem desviado .

- Ora essa!  Puxei como um burro, mas nunca pensei que o tivesse arredado tanto!

 

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Baú de Recordações - O Largo da Fonte ( Vilar de Maçada)

 

A Fonte

 

   

Entra-se em Vilar de Maçada ou pela Rua da Fonte ou pelo Adro.

No tempo em que este episódio se enquadra, era a minha terra uma formosa aldeia que se espreguiçava ao longo da estrada nacional. Desde o Pontão até ao Adro da Igreja, por ali acima, erguiam-se altaneiras árvores de tília e de cerejeira que eram o cartão - de - visita a todos que, no Verão (acolhendo de bom grado a frescura da sua sombra) ou no Inverno (mirando as escultóricas formas dos seus troncos e ramos, na saudade de as ver repletas de folhagem viçosa), por ali iam de passagem ou vinham de visita matar saudades dos seus e do nosso Santo.

Nasceu orientada a Sul, bordejando a estrada que a dividia em duas funções específicas: para N, a parte habitacional, para S, os lameiros e vinhas do seu sustento. Beija-a o sol de manhãzinha reflectindo no alvo das casas caiadas, até ao seu deitar, cansado de iluminar e aquecer a beleza daquela terra e a singeleza das suas gentes risonhas e fagueiras.

Era também conhecida pelas muitas e bonitas moças casadoiras tal como diz a canção:

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“A nossa terra é linda

 Tem raparigas de apetecer

 Têm bocas de cereja

Que dá vontade de as comer”

(Letra da Drª Edwiges de Sousa e Música do Padre  Ângelo Minhava - marcha de Vilar de Maçada)

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e pela arte cénica famosa em todos os arredores.

  O Largo da Fonte ou Fonte da Rua, como carinhosamente lhe chamamos, era a sala de receber para os que viviam desde ali até ao Senhor da Capelinha, nosso Santo Padroeiro.

É, ainda hoje, felizmente, um largo espaçoso, cercado de belas casas senhoriais e mais modernas,e tinha como chamarizes, a fonte propriamente dita, como está bom de ver e o chafariz ou fontanário construção do Estado Novo.

Ora é sobre a “fonte” de que aqui hoje vou falar.

Juntava-se lá o mulherio. Por uma simples razão: todas careciam de lavar a roupa, já que tanques particulares e água canalizada poucas os possuiam na altura e a água da fonte tinha fama de ser quentinha, mesmo quando o gelo solidificava as águas desde as poças e até o ribeiro.

Para desencardir a roupa dos homens, fossem elas de caqui ou fazenda, era preciso gastar as unhas quase até ao sabugo e esfolar a pele dos dedos e pulsos das esfregadelas à moda antiga. E a da canalha então? Por isso, logo que acendiam a fogueira e deixavam o pote do caldo com o feijão ao lume, do lado oposto ao da lavagem dos porcos a cozer as cascas, as batatas e as abóboras para os bichos, aí iam elas de bacia de zinco à cabeça ou debaixo do braço, para o tanque.

O TanqueO tanque, enorme quadrilátero de granito, recebia as águas cristalinas ( era um gosto chegar de manhã e vê-las límpidas e serenas à espera das primeiras ceroulas que lhe maculassem a imagem) da Fonte. Aí está!

A Fonte! Rebentou a nascente lá para a Muralha, na serra, a meu ver, que nunca fui à nascente. Sempre em descida desembestou no Largo onde, nos antigamentes, os sabidos da época a recolheram num tanque (reservatório) desnivelado da rua. Levantaram-lhe um mural ensimado com ameias a fazer dela a fidalguia do lugar. Profundo, o tanque rapidamente enchia com o jorro impetuoso da corrente e, quando extravasava, deixava correr as águas por um rego até ao dito tanque da roupa. A restante seguia para a rega das hortas, bem descriminadas as horas de regadio por leiras e extensões. Vinha tudo no rol do senhor Raul Lareno que Deus haja. Muito aproveitadinha porque no Estio era preciosa para o desenvolver da agrícola e também, tudo há que dizer, se não fosse assim, não faltariam sacholadas por fulano ter roubado a água a sicrano.

-Que não. Fora só um fiozinho para regar uns pés de alface que estavam mirradinhas com a sede e mesmo assim fora só quando ele a trazia de pousio.

-Que nada! Era dele e pronto! Fosse lá entender-se! Agora roubar a água, não senhor. Somos ou não somos homens de palavra? Olha agora!

Pouco tempo depois e pela manhã adentro enchia-se o tanque a rebentar de mulheres e raparigas na lavagem das roupas. Ali saía de tudo. Desabafos, diz – que -  diz - que, novidades e maledicências.

-Ò Marquinhas, tu vens toda pisada rapariga. O teu Zé bateu-te “onte” à noite?

-Bateu, aquele excomungado! “Rais” o partam. Enche as ventas de vinho e depois eu e a canalhinha é que pagamos. Tem sido a semana toda a eito.

-Credo, até parece que tem dinheiro para gastar com os copos!

-Eu é que depois ando nas mercearias a ver quem me vende fiado até ter algum para pagar. E olhe que o rol já vai largo… Triste sorte a minha.

-Realmente! Ainda se fosses das que andam a roçar o cu pelos soalheiros!

-É p’ra que veja.

As outras ouviam esta conversa e respondiam cada uma sentindo as dores da outra e dizendo de sua justiça.

-Ó Felismina põe-me aí esta camisa a corar! Não a deixes cair no rego!

Então lá do outro lado do tanque vem uma conversa que deixa tudo alerta. Algumas mulheres levantam as costas e fingem que esfregam na  mão as peças de roupa ensaboada.

-Ouvi dizer que fulana anda p’raí metida com um homem casado.

-Tu que dizes?

-Eu não acredito…!

-Pois que ouvi, ouvi . Lá se é verdade ou não…

-Olha lá, ó Palmira. Tem mas é relêgo na língua. A gente p’ra dizer uma coisa tem que ver três vezes.

-Abem, até parece que é alguma novidade! Logo quem ela é!

-Seja o que for. Não se difama assim uma pessoa, ouviste? No melhor pano cai a nódoa e elas pagam-se até à quinta geração. Qualquer uma pode passar uma fama. É só lembrarem-se. Há quem as sonhe de noite e venha contá-las de manhã. Tem cuidado!

-Vocês me dirão. Quando se falar à “boca-cheia”.

E esta e outras conversas iam desfilando de canto em esquina para logo de seguida correrem ruas e canelhos da povoação.

Assim se divulgavam as notícias enquanto as roupas esfregadas, coradas e torcidas vinham para casa escaroladas, a cheirar ao sabão em barra e à água fresquinha da fonte.

Era também à Fonte que vinham crianças, moçoilas e mulheres acartar a água em canecos e regadores para o abastecimento doméstico. Água saborosa aquela! No Verão com ela mitigavam a sede os que vindos da eixa  por ali passavam e de boina na mão se acocoravam na beira a refrescar as goelas ressequidas pelo pó da terra, esventrada à custa da enxada e da sachola. Os miúdos ajoelhavam-se na beira da fonte e bebiam-na às mãos cheias e, de vez em quando, era um Deus nos acuda, porque algum pequenito escorregava e ia de cabeça ao fundo. Era um alvoroço a gritaria da pequenada até que alguém acudia, ás vezes a senhora Alda do Gentil ou ele mesmo que corriam a puxar pelas golas o raparigo e trazê-lo à superfície, a abocanhar ar como um sapo.

-Anda lá anda que desta escapaste!

Pois esta fonte de tantas recordações para todos nós, teve no século dezoito, depois do terramoto de 1755 o seu episódio a contar para a história. Tendo sido por ordem do rei D. José   mandadas fazer “Inquirições” sobre os estragos sofridos por esse Portugal fora , por causa do dito sismo, foi-lhe de Vilar de Maçada respondido pelo seu  pároco da altura o Reitor António Vieira e Brito que a Fonte, (coisa nunca vista até então! ) -“… se toldou  toda de água, mudou de cor e cheirava a enxofre e esteve muitos dias da cor de leite e de repente secou e  mingou três partes da corrente comua da dita fonte e coazi seis meses assim esteve porém já e no anno de 1756 tornou a sair com a sua corrente e assim se vê sem diminuiçam alguma”.

Deve ter sido uma provação e tanto para o Povo de Vilar de Maçada  ficar sem a água da sua velhinha fonte.

Não fui muito assídua do tanque da Rua, mas dela falo com o conhecimento de por ali passar durante tantos anos da minha infância e juventude e ver a azáfama  das lavadeiras de mangas arregaçadas a ensaboar, algumas salpicadas de espuma que limpavam à manga da camisola, a esfregar , a bater e por fim a torcer para a bacia e de seguida em força, pô-la à cabeça a caminho de casa, acabar o caldo e fazer o apresigo para o almoço. E se o fôlego chegasse ainda se esganiçava a cantar:

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Eu sou o Bairro da Fonte

Onde tudo vai bater.

Toda a gente me visita

Todos gostam de me ver.

Sou o bairro preferido

Dos homens e da canalha

Onde se fala de tudo

Quando a tesoura trabalha.

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(Letra e música de António Grande, encenador de uma revista levada à cena em V .de M. em 1945-Mário Sampaio)

 

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Baú de Recordações - Consoadas do meu contentamento.

 

 

 

Chegado que era o dia 24 de Dezembro, andava a criançada num alvoroço pela casa e quando  a mãe, fartinha de os aturar, os queria ver pelas costas, metia a mão no bolso do avental de chita ou de riscado e dizia-lhes, escondendo num punho a riqueza que lhe daria o merecido descanso da algazarra dos petizes:

- Pegai lá cinco tostões (como poderia dizer: uma c’roa, cinquenta centavos) e ide ao sr. Guilherme comprar confeitos.

  E a moeda sacolejada de mão em mão (eu levo ,eu levo…),seguia apertadinha afagando as salivares dos miúdos na mira da guloseima, até ao tasco vizinho onde, num cartuchinho de papel, lhes deitavam, a olho, as coloridas e reboludas iguarias todas aos piquinhos.

Enquanto o vendedor de dentro do balcão se preparava para servir a freguesia miúda, estes do lado de fora, “bebiam” todas as operações já a saborear a doçaria. Mal o taberneiro pegava na folha de papel manteiga,  os olhos da pequenada  não o  largavam. Então ele enrolava-a na mão e assim fazia um cone que depois apertava no fundo com uma dobradela ou duas do papel. Os garotos, mais atentos que nunca, fixavam-se agora no frasco onde estavam guardados os doces. Lá vinha uma mão cheia deles e depois mais outra e os miúdos a contarem e, como o  ti Guilherme nesse dia não aviava à remisga, deixava cair mais um ou dois, os olhos quase saltavam de alegria.

  -“Visteis?”, ainda deitou mais três!

Já fora da taverna contavam e recontavam e dividiam por todos a colheita que deveria durar até regressarem mais tarde a casa, todos lambuzados dos doces derretidos na palma da mão bem fechada, não fosse algum deles escapar-se-lhes por entre os dedos.

Pelas ruas, as portas abertas deixavam passar o cheiro à canela e ao ramo da salsa que a Maria colhera agorinha mesmo no quintal. Pedira-lha a senhora Glória que não tinha lá nenhuma para os bolos de bacalhau. Natal é Natal e há que dar uns aos outros. Chegava para todos.

Em casa as mulheres atarefavam-se. Ferviam os potes com as batatas e o bacalhau e as frigideiras frigiam ardorosamente em cima do tripé, nas brasas que se puxaram mais para fora da lareira. Tinha que ser que o brasume da fogueira parecia um forno e não fosse alguém chisnar o cabelo, era melhor trazer as brasas para trás. As fritas de abóbora iam saindo uma a uma para a travessa, bem embrulhadas em açúcar e canela.

Seguiam-se as rabanadas do nosso pão em cacetes ou, quando este faltava, até do pão cachado, já com dois dias. Era a vez de trazer o cesto dos ovos que não haviam de ser poucos pois para a época andara a dona de casa a poupar o saque diário do galinheiro. Embora o Povo diga que : -gado de bico não faz o dono rico – era para os fritos do Natal que eles mais se requeriam se se quisesse poupar algum. Havia quem fizesse logo a calda para molhar as rabanadas, era trabalho feito, mas em minha casa elas desapareciam sem calda nem nada. Eram travessas e travessas de rabanadas douradinhas que se juntavam no aparador aos fritos que já havia.

Cabia-me a mim cobrir as travessas ou pratinhos da aletria com canela decorando-os com pinheirinhos, sinos, corações, monogramas, etc. Às vezes não dizia o resultado do meu esforço com a intenção, era com se eu quisesse desenhar um sino e me saísse uma cabaça, mas tudo era motivo de risota.

Umas faziam sonhos, bolos de toda a qualidade, leite - creme torradinho, pudins…. Naquela noite não faltaria nada aos mais afortunados.

Na altura eu ainda não pensava muito nos “outros”. Bastava-me que a minha mãe me mandasse levar um pratinho disto ou daquilo a A B ou C .

Depois das doçarias, vinha a preparação dos salgados e em minha casa mandava a tradição fritar pedaços de polvo envolvido em ovos de que eu gostava especialmente. Depois, faziam-se os pastéis de bacalhau, roladinhos nas colheres e a rebolarem no azeite ou óleo a ferver.

Estes eram os fritos propriamente ditos. Cada um em sua casa tinha depois as suas preferências, mas chegadas aqui as donas de casa respiravam fundo e sentavam-se um bocadinho a “provar” os seus acepipes e até a acompanhá-los com uma pinguita de tratado. Agora já só lhes faltava fazer o jantar!!!

Indiferente a toda esta azáfama, eu matutava nas prendas que iria receber do Menino Jesus e rebuscava na memória se teria cometido alguma travessura que me impedisse de as receber neste ano. Contas feitas, pensava que não me tinha portado mal de todo. Não fossem as operações de dividir e a tabuada…até que me safara muito bem. Mas mesmo assim, andava com o coração apertadinho num punho.

Era filha única, na época, mas às vezes vinham consoar connosco os meus primos de Perafita e aí é que a reinação era de estrondar! Por aquele casarão fora, correrias e travessuras não faltavam, pois eu, era falta de companhia e eles faltos de tanta largueza. O meu pai cheio de paciência fazia-nos uma fogueira na cozinha do outro extremo da casa, só para nós. Punha-nos lá de vez em quando mais um capão de vides e duas zogas de cada lado de modo que suávamos da brincadeira e do calor daquela noite abençoada. Volta e meia fazíamos uma razia nas travessas e tornávamos para o nosso canto.

Para o jantar acrescentava-se mais uma mesa e com o meu Pai à cabeceira, comia-se então o arroz se polvo malandrinho; o bacalhau assado nas brasas com batata cozida e couve- troncha; pastéis de bacalhau com couve refervida; polvo cozido com batatas ou frito conforme o apetite de cada um.

Havia fartura!

Nessa noite em minha casa e na maioria das casas de Vilar de Maçada não se comia carne. Ainda hoje preservo essa tradição e só no dia de Natal se come o perú, leitão, cabrito, ou que for.

Saboreavam-se as sobremesas e o mais apreciado corria de mão em mão como para se comprovar a sua excelência.

Depois do jantar, era a hora da convivência. Reforçada a fogueira, todos os grandes se sentavam à sua volta para a conversa e os mais novos, mortinhos para que chegasse a  Meia-Noite, arrastavam bancos e mesas para os jogos de entretém até que o” momento “ chegasse.

Naquela altura éramos tão ingénuos que nem nos preocupávamos em espreitar a ver se víamos o Menino a trazer as prendas. Quando chegou a vez dos meus filhos, era vê-los de tempos a tempos a dar uma vista de olhos. Chegaram a ver o Menino Jesus a sair pela janela do quarto…!

Mas nós, não!.

Sentados ou de joelhos, jogávamos ao “rapa”, perdendo ou ganhando confeitos e amêndoas cobertas, segundo a nossa sorte. Quando nos cansávamos, recorríamos ao “par e pernão”, dando tempo a que os adultos se esgueirassem e fossem fazer a sua parte colocando as prendas ao pé do presépio feito num lugar adequado.

Nunca mais era a meia-noite! E por isso lá vinham as cartas ou o jogo do loto em que nós com feijões de diversas cores procurávamos encher os cartões e ganhar aos restantes. Eu gostava era de ler os números !!!

Até que, finalmente! …soavam as badaladas na torre da Igreja e nós saltávamos de expectativa.

-Ide ver se já passou o Menino Jesus!

E todos nós corríamos a empurrar-nos uns aos outros a ver quem via primeiro.

- Já veio! Já veio! Já veio!

Chegavam então os adultos para nos rodearem e, também eles se deleitarem com as expressões do nosso contentamento.

O rasgar dos embrulhos, o encontrar os nossos tão apetecidos brinquedos, faziam-nos corar de felicidade. Os olhos reluziam de encanto e alegravam os corações dos pais, que, com sacrifício quantas vezes, nos davam a prenda que fariam as delícias do nosso Natal.

Mais tarde, quando já a hora convidava ao silêncio, na minha caminha, meia enlevada pelo sono eu ainda cumpria a minha parte nesta festa de Amor e Alegria:

-Obrigada Menino Jesus, gostei muito deste Natal!

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Baú de Recordações - Boas Festas

 

 

 

 

Com esta neve fresquinha

Boas-Festas venho dar.

Traga o Ano tudo Bom

Mais não posso desejar

 

 

 

 

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Baú de Recordações - Feliz Natal. Bom Ano

 

 

Presépio

 

 

 

 

Que Jesus pequenino vos cubra de bênçãos neste Natal.

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Bom Ano

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Baú de Recordações - O Sonho da Caracóis [homenagem à minha Amiga Irene Borges ( Daniela"Portocego"]

 

Naquele dia, descendo das Corgas, a Caracóis, agora com sete anitos traquinas e buliçosos, acompanhava os irmãos na brincadeira e, enquanto eles se rebolavam ladeira abaixo, ela deixara-se arrastar por uma borboleta amarela que, saracoteava à sua volta, ora pousando-lhe suavemente nos bastos caracóis dourados, ora arreliando-a, à frente das mãos estendidas na ânsia vã de a apanhar. De um lado para o outro, os seus passos iam-na guiando numa direcção de que não aparecera e quando deu por si, estava defronte da entrada da gruta. Eis senão quando, nos braços do vento que passa, ela escuta um  suave rumorejar, que lhe lembrava o som do seu nome:

Ca-ra ... ... Cóis ... ... Óis ... Óis ...

Sem querer, deu uns passos adentrando a escuridão do lugar. Pé ante pé, temerosa, mas esquecida das recomendações familiares, ela vai entrando e quando o negrume a envolve completamente, tem um íassomo de lucidez, e vira-se para regressar.

É então que ao fundo da gruta  surge uma luminescência e uma voz suave lhe diz:

-Regressa. Não tenhas medo.

Ela volta  e apercebe-se e de uma presença indistinta que a olha e murmura docemente. Meio  alheada, compreende que é uma silhueta de homem que se lhe dirige:

-Com que então tu és um Caracóis.

-Sou sim senhor.

-Há muito que te espero.

-A minha tia não me deixa vir aqui.

-Tem razão a tua tia, mas hoje não precisas de ter medo. Eu estou aqui.

-E quem o senhor é?

-Eu sou o Januário, lembras-te?

-O dos rebuçados?

-Sim, esse mesmo.

- E porque está aqui?

-As pessoas pensam que esta é a minha casa, por isso vim para cá para te encontrar. Quero falar contigo.

-O que é?

-Tu sabes o que é uma fada?

-Sei sim senhor.

-Pois eu sou uma espécie de fada.

-Não é nada. Não há fadas homens!

-Claro que há! Só é preciso ter imaginação. Mas agora não te preocupes com isso, porque eu tenho algumas coisas para te dizer.

 -Está bem.

- Como te disse, eu sou como uma fada e como elas tenho poderes para conceder dons às pessoas. Vou-te conceder um dom  a ti, por seres uma linda menina educada e obediente.

-Vou ser princesa?

-Vais. Serás sempre uma princesinha para a tua família.

-Vou ser feliz e rica?

-Rica serás de muitas virtudes e algo mais que a vida te possa dar . Feliz ... haverá momentos de muita alegria, mas, minha querida ... não posso dar-te uma felicidade completa aqui neste mundo. Algumas tristezas chegarão por sua vez à tua porta.

Terás de ser forte e vencer essas nuvens que empanarão o teu regozijo.

Agora escuta-me com atenção. Vou deixar contigo um bem muito precioso, algo que nem todas as pessoas têm. É como se fosse um dote, percebes?

-Como as madrinhas fadas dão às princesas?

-Exactamente.

-Ao saires desta gruta levarás contigo o dom de escrever bem e melhor ainda, de desenhar bem.

-Mas eu desenho muito mal! Nem sei fazer a cara aos bonecos!

 -Não te preocupes. Mesmo assim, será muito bom. Um dia, quando a hora chegar, serás capaz de Cumprir a missão que agora te dou: haverás de escrever a minha história. A história do Januário que vive na gruta entre a carreira e o Alqueirão.

-E para quê?

-Para que não se perca uma ilusão nas crianças. Para que sejam capazes de descobrir as histórias bonitas que há dentro do coração do Homem. Enfim! Para que sejam verdadeiramente crianças de imaginação colorida a voar nas asas dos sonhos. É isso que eu quero. Que com as tuas histórias, os teus lindos desenhos ajudes a sorrir os meninos de Portugal.

Disto que te contei, não guardarás recordação. Até um dia em que cumprires a promessa disseres esta frase: - Um "É sonho que se está a Cumprir". Então recuperarás a memória desta conversa.

Vai minha filha e dá de ti aos outros, os talentos que agora te entrego.

Caracóis despertou aconchegadaa uma uma pequena rocha, onde, com a cabeça pousada no braço, percebeu que tinha adormecido.

Estranho. Tinha sonhado com uma coisa ... Bem, não se lembrava.

....

Passaram os anos. Dentro do peito, a Caracóis guardava um desejo infindo de escrever e pintar. Assim fez já numa idade em que as ilusões infantis  há muito se tinham afastado do seu imaginário.

Em dada altura, o esboço de um pequeno conto transmitiu-lhe uma vontade férrea de o revelar a quantos procuram o entretenimento e saber. E vai daí, num dia ditado pela sorte, encontra alguém que gosta da história. Alguém importante, capaz de mandar que um rascunho solto no fundo duma gaveta se transforme num colorido livro de capas azuis parecido a muitos outros que tem na estante.

Foi ela que o escreveu e ela também que o pintou e na capa desenhou uma linda boneca de cabelos cacheados, que encantava todos que passavam pela livraria.

.- Ó Mãe, compra-me aquele livro.

No dia da apresentação ao mundo desta pequena obra literária, ouvia-se:

-Muitos parabéns.

-Sim senhora, que livro tão bonito!

-Mas que história linda!

Diz então a autora:

-Esta é a história do "Januário e da Menina dos Caracóis", que se passou na aldeia onde eu nasci, há muitos anos, também quando eu tinha lindos cabelos de oiro. Hoje já tenho os cabelos brancos, mas foi agora que consegui: FOI UM SONHO QUE SE REALIZOU!

Nesse momento toda uma assembleia ficou curiosa ao ver o olhar distante da escritora.

E a ela, pareceu-lhe ver uma imagem fugidia no vão da porta, que lhe sorria e lhe disse adeus em despedida. Ela sorriu também e é esse sorriso de felicidade que se lhe vê nenhum rosto tantas fotografias tiradas em que ficarão para a história.

 

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Baú de Recordações - Percalços de uma jovem Professora

 

 

O Reguila - Cartoon

 

Com vinte e um anos fui colocada numa escola de Murça sendo este o meu ponto de partida para uma vida dedicada ao ensino que durou quase trinta e quatro anos.

Estava o ano a chegar ao fim quando a titular da escola (naquele tempo dizia-se profª efectiva), meteu atestado médico por tempo indeterminado. Isto nos finais de Maio.

Fui então chamada a “acumular” o serviço, pois tinha uma turma de rapazes e, não sei que critério existia então, tinha prioridade sobre as colegas que trabalhavam com o sexo feminino.

Quer isto dizer que, com aqueles verdes anos, fiquei responsável por uma turma de 25 rapazes, da escola que me correspondia e ainda de outra turma se calhar com outros tantos, numa aldeia vizinha. É bom de ver que falamos de turmas com todos os anos lectivos.

Faziam-se ainda os exames da quarta classe, por isso, nas escolas professores e alunos limavam as últimas arestas e, sobretudo as crianças, andavam cansados.

Ao ser colocada noutra escola o horário ficava completo, das oito e quinze às treze e quinze e começava na outra escola às catorze e terminava às dezoito.

Acontece que o percurso era feito a pé, já que, primeiro não tinha carro e segundo as estradas eram em terra batida. Demorava mais de meia hora a chegar pelo que engolia qualquer coisa à pressa e por aí ía eu de chapéu na cabeça ou não estivéssemos na chamada “terra quente”.

Pelo caminho, ainda dentro da povoação, juntavam-se a mim os meus três alunos da 4ª classe que assim, para além de me fazerem companhia, reforçavam os estudos na outra escola. Eram jornadas intensivas para todos.

Caminhávamos por entre vinhedos e matas frondosas e valia-me pelo caminho o tagarelar dos miúdos e as brincadeiras do Victor, o meu pequeno aluno anão que tinha umas tiradas engraçadíssimas. Ainda me recordo dele, com perto de catorze anos, menos dum metro de altura, com a “saca” a tiracolo que apesar de a mãe lhe ter cortado as alças ainda lhe batia por baixo dos joelhos. E eu, atrás deles, via o sacolejar da pasta, a ritmo com as suas curtas passadas, batendo contra as pernas tortitas dentro dos socos fechados.

Fazíamos da viagem também lição de ciências da Natureza, portanto quando todos os dias aquele sardão verde (lagarto grande), nos aparecia esparramado ao sol numa laje à beira do caminho, eram eles que procuravam vê-lo primeiro e tentavam encontrar as características de que eu lhes ía falando. Era o nosso primeiro encontro. Havia depois os melros, o cuco, as lagartixas, toda uma panóplia de seres que nos habituámos a ver diariamente e que aprendemos a admirar e respeitar. Numa altura encontraram uma moeda antiga que me ofereceram e que guardo até hoje.

A meio do mês de Junho de 1971, eu vi que as crianças andavam derreadinhas de canseira e achei que não devia sacrificá-las mais passando então a ir sozinha.

Um dia, eram já passadas as três horas da tarde, alterou-se o ambiente de paz e sossego de que desfrutávamos nos outros dias.

A escola fora feita num olival em socalcos e para que a luz lhe batesse do lado conveniente, foi necessário que a fachada virada a Sul ficasse em desnível bem acentuado. Por isso naquele dia, ao virar-me, dei de caras com uns rapazes dos seus vinte anos, debruçados no parapeito da janela, bem em frente ao quadro onde estávamos a trabalhar.

De princípio não liguei julgando que alguém de passagem ali estava a espreitar. Mas não. Aquilo era um corrupio. Saíam uns e vinham outros, a olhar para mim, de sorrisos deslavados e olhos de carneiro mal morto.

Mau. Mas,  que vinha a ser aquilo?

Dentro da sala os garotos desarvorados, todos torcidos a espreitar também para os “espreitas” da ocasião.

-São os da tropa - diziam eles, consolados por esta interrupção intempestiva.

E eu com uma cara…Mas também que podia eu fazer? Eles nada faziam que não fosse olhar e dizer alguma baboseira lá entre eles. Esperei que desandassem.

Qual o quê? Os indivíduos não saíam dali.

Eu não quis perder a pose e mandei um dos maiorzinhos pedir-lhes que fossem embora porque assim não podia trabalhar. Pouco a pouco desapareceram e eu pude então saber que eram os rapazes da freguesia que tinham sido chamados para irem à Inspecção Militar a Murça.

Vieram de todos os lados e ao saberem que havia uma professora “nova”, os “papa-açorda” lembraram-se de se ir pespegar à janela, avaliadores…

As crianças estavam destabilizadas e com assembleia, no recreio andaram às bulhas perante os incitamentos dos matulões. Um deles rapou de um canivete para o outro e aos gritos da canalha lá fui eu apartar e fazer a paz. Tirei o pequeno canivete, estragado e sem mola, mesmo assim perigoso, ao garoto e meti-o no bolso.

No fim das aulas preparei-me para voltar a casa consciente de que aquele era um dia complicado para quem tinha de ir sozinha. Pus o meu chapéu e de carteira a tiracolo, atravessei a povoação e quando estava quase a chegar ao desvio e entrar no caminho de regresso, vinda não sei de onde, tive uma percepção de insegurança, um arrepio na alma, um não sei quê, que me levou a meter a mão ao bolso e tirar o canivete que lá tinha metido no recreio. Fechei-o na mão.

Ocorreu-me, logo a seguir, que um canivete fechado na mão não me serviria de nada assim que o abri ( estava estragado, lembram-se?) e pelo caminho abaixo pus-me a cortar as ervas da beira , altas e espigadas.

O carreiro era circundado de muros e do lado nascente a vinha estava a uma altura muito grande de modo que lhe fizeram um passeio por onde as pessoas andavam no Inverno quando a água enchesse o córrego. Fazia uma curva na junção deste com os que vinham de outros lados e ali se juntavam criando uma poça no tempo das chuvas.

Ia pois eu por ali abaixo, do lado direito quando ao aproximar-me vejo uns pés calçados de chinelos, de alguém que eu não via sentado no tal passeio, do lado contrário.

-Pum! Cai-me o coração aos pés!!!

Nem tenho tempo para raciocinar e levanta-se de lá um rapagão dois palmo acima de mim que se põe na minha frente.

-Olá, senhora Professora, permite-me que a acompanhe?

-Para quê?

-Faço questão de a acompanhar. Dava-me gosto.

-Pois acredito, mas eu já estou habituada a ir sozinha, por isso…

-Mas hoje não vai - diz ele sempre em aproximação e eu recuando.

- Agradeço muito mas não vale a pena.

-Não diga isso. É com muto gosto. E depois os caminhos não são seguros e andar por aí sozinha…

VEM- ME ASSIM UMA INSPIRAÇÃO E EU REPLICO:

-Ah, mas eu não tenho medo! Aqui toda a gente me conhece e eu venho prevenida - e mostrei-lhe só a ponta do canivete que levava  apertado na mão.

O rapaz deu logo um passo para a retaguarda e eu inspiradíssima olhei para ele nos olhos e digo:

-Olhe, você entrou hoje para o exército. Sabe o que com isso não se brinca. Não estrague a sua vida nem a minha e por favor, vá com Deus.

Ele olhou bem para mim e eu fiquei em suspenso…

-Tem razão, senhora professora. Vá com Deus.

-Obrigada.

E parti. Com passos normais enquanto ele me estava a ver.

Logo que se me escondeu ao olhar, corri, corri quanto pude. Só parava para dar descanso ao meu pobre coração que quase me saía pela boca.

Cheguei a casa esbaforida e sem pinta de sangue.

De boa, me tinha escapado!

Tenho tão vívida esta memória que neste preciso momento, uma angústia se me enrola no peito.

E pasmo do meu discernimento na altura, porque embora eu seja mulher de encarar “olhos nos olhos”, era tão novinha na altura…

E agradeço ao poder do alto que me iluminou e ditou os meus passos numa hora tão adversa.

Foi trauma que me ficou para sempre, daí que quando me cruzo com uma mulher que faz a sua caminhada preventiva, me apetece parar e dizer-lhe:

-Ó minha senhora, pela sua rica saúde, vá para casa. Não ande sozinha, a desafiar a sorte.

AH! Nunca mais tornei à escola.

Vim a Vila Real falar pessoalmente com o meu Director Escolar e meti também eu um atestado médico.

Mas no dia do exame fui acompanhar os meus alunos a Murça.

Na aldeia nunca ninguém soube do caso.

 

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Baú de Recordações - As tripas do Mata - Lobos.

 

Vilar de Maçada - Igreja Matriz ( Foto Google)

 

Das feiras dos doze e vinte e seis, muita gente ainda se lembra em Vilar de Maçada. Os mais idosos e os da minha geração que as apreciaram quando eram infanto-juvenis, sem se aperceberem que assistiam aos estertores  dessas reuniões mensais, pelo menos nos moldes em que se faziam.

Nessa altura iam para a feira atrás das mães e já pelo caminho era uma pedinchice só:

-Ò mãe, a senhora compra-me um panavento ?

-Ò mãe, dê-me um assobio de cuco, como os da Senhora da Saúde ...

-Ò mãe, eu queria um carrinho de madeira daqueles que batem as asas ...

E as raparigas, não se ficavam atrás:

-Ò mãe, dê-me uma boneca (das de cartão).

-Ò mãe, eu quero umas socas novas.

_  mãe, ó mãe! Rais parta a canalha, que inda agora saí de casa já estão a pedinchar!

-Dá-lhe lá, alguma coisa mulher, senão não te largam - dizia a senhora Bebiana sentada nas escaleiras  da Queta.

-Bom é de falar, mas vocemecê  bem sabe que o Inverno foi grande e os homens andaram meses ao alto. Já devo 5 sémias na senhora Alcina  do forno, e tenho uma conta calada na venda do sr António.

Entretanto os miúdos calavam-se de ouvido à escuta, a ver se a conversa lhes corria de feição. Quando a mãe olhava, tornavam a fungar e limpavam lágrimas de crocodilo e ranho, à mistura, na manga da camisa ou da camisola

-Pois é minha filha, mas a canalhinha não sabe de contas. Do bom se lhe regala a vista.

Estamos no tempo da miséria. Deus nos acuda! Parecem os tempos da guerra.

- Bem, deixa-me lá ir, que vou buscar um metro de chita para fazer um bibe ao meu Zé que o dele já se não aproveita.

-Vai, vai e olha se trazes uma malga de tripas do "Mata - Lobos".

-Bem as comia, mas ... só com os olhos.

A feira realizava-se no amplo largo da Igreja bem central ao povoado e para lá concorriam todas as mulheres e todos os homens da aldeia naqueles dias festivos.

Sim claro, era uma festa, pois as mulheres punham como camisas lavadas, as calças e as meias  aos homens em cima da cama, tal qual fosse Domingo. E elas passavam um pano molhado na cara e nas orelhas, penteavam os cabelos para trás em grandes ondas, vestiam a saia travada e em cima o avental de folho que a tia Emília lhes fizera.

As que tinham sapatos  não deixavam os seus créditos por mãos alheias ... e meia de vidro com a risca bem direita,  aí iam elas alegres como quem vai para uma romaria. Mas não levavam o avental!

No Adro dispunham- se as tendas sempre da mesma maneira, com se ao longo dos anos os feirantes tivessem adquirido direito ao terreno onde enterravam os espeques das suas barracas. Assim, por baixo da tília grande, mesmo em frente à escola do sexo feminino, ficava a "Borrona ou Borroa". Depois  em frente às grades da Igreja era a enorme tenda do Sr Martinho de Alijó. Também lá estava o Ourives, em frente ao Rodrigo e, assim por ali fora até por trás do fontanário, se iam estabelecendo outras tendas menores mas muito importantes.

Potes  de ferro ao lumeO sr Martinho era o rei do mercado, porque nas suas bancadas havia toda uma gama de variados e modernos tecidos   que eram o chamariz da multidão. Claro está que rivalizando com a Borroa. Então era ver as mulheres que segundo as suas posses, compravam um metro de riscado ou chita  no propósito de fazer os indispensáveis aventais, ou levavam o caqui necessário para as calças de uso dos maridos e dos rebentos.

Havia também quem, com algum dinheiro, namorava os tecidos e apalpava as fazendas para escolher , levando o seu tempo, tendo em conta a relação mercadoria e preço, não fosse o orçamento sair do esperado.

-Ò "Dozinda", fazes-me o vestido p'rá Festa? Já aqui levo o pano.

E estrada abaixo, estrada acima, naquele dia era um ir e vir de matraqueado das socas, que nós , na escola, escutávamos e quase nos arrepelávamos de não andar lá também.

Os homens, esses ficavam-se pelo cimo do Fontanário, na mira do que se passava e aproveitando a ocasião para fazer os seus negócios se era caso disso. Mas muitos iam só ver como corriam  as modas, fazendo tempo para o meio-dia.

Entretanto, já numa comprida baiúca térrea, sem janelas nem postigos, mesmo ao lado do Marques do Adro, decorria uma azáfama de trabalhos, entre o lavar das tripas, potes ao lume e lenha para a fogueira e homens que  em cavaletes assentavam  longas  tábuas que seriam as mesas improvisadas .

Quem olhasse lá para dentro o que  via, do que me recordo?

Ao fundo uma enorme fogueira onde os potes de ferro, de pernas em brasa, ferviam no lume atiçado , tanto que as mulheres ao levantar o testo, muitas vezes chisnavam os dedos, tal era o brasume.

Iluminavam o espaço umas gambiarras penduradas do tecto e, lá dentro, numa dirandina andavam a mulher do Mata - Lobos, as filhas, o genro e alguns netos, que eram a prata da casa, mas ainda se via a Adelaide do Irineu (a  Irinoa) e mais uma ou outra, porque braços , não eram demais . Uma, com um pau chiscava a fogueira, que o lume tinha que estar esperto "; outra ia à água;outra metia as tripas no pote ... Sei lá! Uma barafunda!

Porém tudo se conjugava para que ao bater do meio - dia na torre, as mesas reluzissem nas suas toalhas brancas de algodão ou de quadradinhos verdes e vermelhos, clubistas. Então a "chusma "de "esgazeados com a fome" que  já esperava à porta, tinha permissão para entrar e entre amigos iam enchendo as mesas, acotovelando-se para serem os primeiros, que a barriga dava horas.

Já as mulheres afogueadas, preparavam as malgas e uma mais despachada pegava na concha sopa e despejava para dentro delas a delícia mais esperada do mês:

 .... as tripas à Mata - Lobos.

Fumegavam  as mesas com  as tripas a ferver e os nacos de pão de Vilar de Maçada, (o melhor dos arredores, só rivalizava com o de Favaios), derretiam-se dentro do môlho com que o pessoal se alambazava, tantas vezes chupando os dedos , bem regados o pão e as tripas, com o tinto do Morais ou o branco das Saínças.

Se o apetite era grande e as  finanças o permitiam, em vez de uma iam duas  malgas e as rodadas do briol corriam  a contento.

Saíam de lá corados como tomates, satisfeitos da pança e, de mais uma vez cumprirem a tradição das tripas do Mata - Lobos.

Mas também as mulheres alinhavam na comezaina. As de lá e as de fora. Por vezes, à entrada da porta, ficavam as aguilhadas, enquanto eles e elas se desforravam da caminhada para ir e vir até Justes, Jorjais de Perafita ou Vila Verde.

Quando a Feira do Gado ficava para tarde, era já no calor da digestão da tripalhada que os negócios se faziam e não era raro que os eflúvios toldassem a razão. Daí que a cada passo acabava a feira à sarrafada e entre braços e narizes partidos e cabeças esfoladas lá ia a GNR de Alijó apartar os contendores que, quando tocava à porrada, os da terra eram de respeito.  Zuniam os varapaus, as mulheres gritavam, a canalha fugia e era um ver se te avias.

Era a Feira, estava tudo dito.

Ditosa eu que me recordo destas e doutras cenas, talvez menos edificantes mas que fazem parte da nossa tradição e sei que, muito boa gente que este texto lesse, teria outras coisas para acrescentar e histórias choveriam para completar este relato.

Apenas cumpro o meu dever de relatar e hoje assim aconteceu, porque este ano fui à feira da Senhora da Saúde onde, por tantos anos, o Mata - Lobos,  montou  a sua barraquinha.

Também tenho ainda memória de outras coisas.

Os cheiros da minha terra.

O perfume das mimosas; o aroma da terra lavrada; o cheiro a ozono quando as gotas de chuva caiam no chão seco do Estio ...

Saudades ... é o que é.

 

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Baú de Recordações - Valente tombo.

 

Marmelos

 

Quando os meus pais compraram ”o casal” na rua do Paço em Vilar de Maçada, havia muitas árvores de fruta, mas, havia uma que faltava e começámos a ouvir a minha Mãe:

-Não haver um marmeleiro! Deixa estar, não perde pela demora.

-Tu que tens mulher que estás tão arreliada?

-É que fui comprar uns marmelos à feira e sabes quanto paguei por eles? Ainda se fosse coisa que se visse, mas são todos “encurrilhados” e cheios de nós. Tira-se a casca e o caroço e não sobra nada.

É uma ladroeira! Nem só na estrada é que se rouba!

Assim descontente, pôs mãos à obra e ela mesma, plantou no quintal, bem à beira da porta, um marmeleiro. Resulta que, ou foi das mãos que o lá puseram ou tinha-o na origem, o marmeleiro não deixou o seu crédito por mãos alheias. Carregava até as pernadas ficarem vergadas com o peso da fruta.

De lá para cá, todos os anos é uma fartura de marmelos a pingar. Este anos trouxe mais de vinte kgs. deles, já deu para o caseiro e se lá não estiverem ainda mais de três arrobas…

E então enormes e lisinhos que são uma maravilha. Não há razão de queixa.

O certo é que logo que ele começou a produzir, regalava-se a matriarca (apesar da trabalheira) a fazer marmelada e a geleia, tudo de uma vez, porque nós agora temos as arcas mas naquele tempo, faziam-se as compotas para todo o ano.

Dizia assim a minha mãe:

-Ora andava aqui eu a fazer marmelada à ” remisga”. Olha agora, tenho para comer e dar a quem vier.

De facto, quando o meu pai me ia buscar ao Liceu Camilo Castelo Branco, em Vila Real, chegava e via as malgas e os tabuleiros no terraço ao sol, em tábuas atravessadas nos cantos das grades.

Eram tantas!

Calculo eu, pelo que sei dos costumes da terra, que não faltaria quem olhasse de revés e se algumas gabavam a previdência doméstica da minha mãe, outras ficariam com dor de cotovelo. Sempre assim foi e presumo que assim será.

Naquele ano ao sair do carro (um Fiat 1600,cinzento) chegando a casa, o terraço estava vazio.

-Não tenho tido tempo. Estive toda a semana com gripe e não fiz a marmelada.

Por isso de tarde fui chamada a colaborar na recolha do fruto. Bem chateada fiquei, porque a Cacilda do Roque tinha-me emprestado uma Fotonovela e apetecia-me mais lê-la do que trabalhar, mas não tive remédio.

Nunca fui grande trepadora mas desta vez quis experimentar e lá subi com facilidade pois o marmeleiro ainda hoje não é alto. Agarrei numa cesta e ponho-me a catar os marmelos.

- Apanha os melhores que depois os miúdos ficam para as galinhas.

Ora a árvore estava carregadinha e uma mocetona com uma cesta cheia no braço, …traz… o ramo quebrou, e eu “esbandalhei-me” até ao chão batendo com o braço na pedra de vinha que lhe ficava mesmo por baixo.

-Ai, Jesus, que a miúda magoou-se!

E eu, cheia de terra no chão, gemia agarrada ao braço. Não era só isto. A cara e os braços estavam cheios de arranhões de passar pelos ramos e a cabeça estalava com as dores. Pudera, fizera cá um galo! Desconfio que foi dessa vez que eu fiquei com déficit de…juízo.

À falta da senhora Aninhas Cascalheira, que já tinha ido para melhor lugar, fomos de carro até Vinheiros à Sra. Drª Edwiges e ela mandou-nos para o hospital tirar uma radiografia.

Mas o meu pai que tinha ficado com um pulso rígido (de um tombo que dera na caça), após tratamento hospitalar em que andara com gesso e tudo, estava de pé atrás.

-E se levo lá a miúda e ela me fica deficiente?

-Então se não queres ir ao hospital, onde a levamos?

-Só se for ao Dr Júlio, a Sabrosa.

-Ó senhor Arnãni (Hernâni), desculpe de me meter na conversa, mas olhe que os médicos, de ossos não percebem nada! Porque não vai com ela à Lage? – aconselhou a senhora Lucinda.

-_À Lage? E o que há lá nesse lugar? Nunca ouvi falar!

-Há lá uma “endireita” que tem umas mãos abençoadas. Ela ainda é novita mas, tem um jeito que só visto. Foi ela que valeu ao meu Xico que andou que tempos de braço engeçado ao peito e estava a ficar com o braço torto. Olhe fui lá e o rapaz já veio a mexer o braço para casa.

-Tu que dizes ? - consultava o meu pai a minha mãe.

-Se temos que ir, vamos já, que a rapariga está cheia de dores!

Ora ainda bem que alguém se lembrava de mim!

-Eu vou lá com vocês, se quiserem.

E fomos. A “endireita” era de facto nova, mas pôs-me as mãos no braço, umas mãos de toque leve e, de repente, sinto um estalo nos ossos, dei um grito, e o suor frio escorreu-me pela cara.

-Pronto já passou! Senta-te aí um bocadinho que estás branca como a cal.

Pudera!

Mas o certo é que fiquei bem. Dei logo conta que tinha ficado sem dores e parecia tudo nos lugares.

Pagou o meu pai 50$00 mas deu-os de boamente, por me ver boa.

Para concluir a história, o melhor foram os dias de repouso que tive a seguir, pois não era eu que ajudava a carregar com a marmelada para o sol no terraço nem que tinha de a ir buscar ao anoitecer.

Também tenho andado a fazer a marmelada e, vai daí, marmelo atrás de marmelo, fizeram-me eles lembrar deste pequeno acidente doméstico.

Pelo marmeleiro do meu quintal tenho afeição, porque me traz à ideia quem lá o plantou e olhando-o, dirijo ao céu uma prece muda de amor filial.

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Baú de recordações - Um adeus que ainda o não foi.

 

A Fofinha

Escrever na primeira pessoa pode em muitas circunstâncias parecer uma pieguice se não um exagero. A esse tipo de julgamento me tenho afoitado desde sempre, por isso, desta vez, para dar mais credibilidade ao texto direi apenas…

Era um Outono ruim de chuvoso e a protagonista desta história (na verdade era um casal, mas ela é mais activa nisto dos animais), chegava a casa e não lhe faltavam afazeres. Porém antes de tudo o mais, pegava numa tigela e metia-lhe todos os pedacinhos de comida que arranjava ou já tinha guardado para esta eventualidade. Acrescentava ainda um pouco de ração e, fizesse ou não chuva, pelo caminho que rodeava a sua habitação, entrava no mato rasteiro e deixava de comer e água a uma cadelita abandonada que todas as noites e madrugadas fazia coro com os dela a guardar a casa a que se encostara na perspectiva de um aconchego que perdera. Alguém a tinha abandonado e ali viera ter na mira de um afago ou de alguma côdea que lhe mitigasse, pelo menos momentaneamente, a fome.

Esta personagem, Maria, digamos assim, ia depois a correr para a janela do quarto verificar a sofreguidão com que a comida era engolida.

Vale a pena dizer que de princípio achou o animal estranho se não mesmo um pouquinho feio. Branca, com manchas grandes arredondadas, de cor preta e castanha e pelo eriçado que se esparramavam pelo lombo. Lembravam-lhe, aquelas manchas, os anéis do corpo de uma lagarta das couves, mas coloridos. A cada vez que a via, era esta imagem que lhe surgia na mente!

Veio mais tarde a saber que afinal ela era uma cadelinha de raça, uma Fox Terrier de pelo de arame. Estava explicado aquele pêlo hirsuto.

Muito fugidia de princípio, pouco depois já lhe saltava às pernas em busca de uma carícia que não lhe era negada. Esta timidez durou-lhe para toda a vida e era característica da sua personalidade calma e meiga.

Caía uma vassoura e ela refugiava-se na sua casinha. Ralhava aos outros e ela corria aflita…

O Inverno atiçava-se e pelas tardes descaídas lá ia a Maria, tratar da cadelita da rua e a tanto chegou a sua amizade, de pouco tempo mas já forte, que lhe fez no monte, mesmo por cima de sua casa um abrigo de plástico coberto de ramos de pinheiro, para ser mais natural e atapetou-lhe o chão de camisolas velhas de lã quentinhas. O interessante é que ela percebeu logo que seria aquele o seu abrigo, que, embora precário, ficava mesmo em frente da casa de quem lhe matava a fome.

Aqui para nós que ninguém nos ouve, ao ver tudo isto, parece que a mulher não tinha os cinco alqueires bem medidos…

Tempo depois do início desta convivência, a cadelita apareceu com uma pata muito ferida, com uma das almofadas dos dedos quase cortada e uma inflamação terrível. Caía intensamente a neve, mas o sangue aqueceu de fúria o rosto desta nossa amiga Maria por pensar que alguém tinha feito mal à sua protegida. Deu por paus e por pedras.

Fez-lhe o curativo e envolveu-o muito bem prendendo-o com uma meia para que ela não retirasse o penso. De nada serviu porque aquela dentadura forte, desfez num ápice todos os nós que lhe tinha dado. No dia seguinte a pata estava pior e agora eram já os dois membros da frente que se encontravam magoados.

 A neve tinha-se acumulado por todo o lado, embora menos por baixo dos pinheiros, onde a cadelita se mantinha deitada por não poder andar.

O que pensou a Maria? Muito naturalmente que a cadelita, com as patas em carne viva, estaria cheia de febre e à intempérie e, vai daí, pegou nela em braços e trouxe-a para a sua casa. Nos dias consecutivos, estando de vigia para que ela não tirasse os pensos, a nossa protagonista viu com os “olhos que a terra há-de comer”, como diz o nosso povo quando quer reforçar a expressão de seriedade com que fala, que era a cadelita que roía as próprias patinhas, coitadinha, num prenúncio do seu sofrimento pelo abandono a que tinha sido votada e à falta de carinho que tanto sentia.

Poucos dias depois, apercebeu-se que a sorte lhe tinha batido à porta e nunca mais roeu as patinhas. Foi com muita alegria que a Maria a viu brincar e pegar-se de amizade com o Bógui o seu amigo de eleição. Até há bem pouco tempo, brincava com ele e conseguia, com a sua pequena estatura, meter os machos na ordem.

Aqui começou uma bela amizade retribuída mil vezes com o seu afecto canino.

Uma criatura dócil e extremamente meiga, de maravilhosos olhos castanhos amendoados que faziam derreter o coração da Maria que nunca vira olhos assim. A cauda amputada, dançava em ritmo frenético quando os seus novos donos chegavam.

Passaram a chamar-lhe Fofinha à falta de imaginação que a dotasse de nome mais pomposo. Mas não fazia mal. Dizia à letra com a portadora e fofinha será eternamente nos nossos corações. A minha doce e linda Fofinha.

Dez anos se completaram em Outubro que veio parar a esta casa. (A esta altura, já não posso esconder mais o nome real desta Maria). Quando aqui chegou era já velhinha, de modo que se calcula que tenha aproximadamente dezoito aninhos!

Neste período de tempo, diversas vezes foi tratada e há meio ano que sabemos ter sintomas de síndrome de Cushing (tipo Parkinson) doença degenerativa. Mas ela estava bem. Apesar de ter de tomar medicação diária vivia feliz e o seu olhar nunca perdeu o brilho nem a ternura que lhe era inerente. Minha querida!

A alegria e os “gorgeios”(uns sons roucos que fazia na garganta que parecia que falava), quando aportávamos a casa, os saltos para nós…

Há dias ficou mal.

 Muitos anos! Nem os carinhos, nem o bem – estar obstam a que os dias passem e sobrecarreguem de anos quem já deveria parar de os contar.

Temos vivido momentos dramáticos.

Pouco faltará para esgotar as lágrimas que os meus olhos possam ainda verter. O meu coração está pesado e uma tristeza profunda se apoderou de

mim. Na expectativa de a ver partir temos estado pendentes, ainda mais porque nos olha e nos reconhece. Parte o coração.

Há uma semana que não se levanta e a comida é forçada. Poupo-vos a outros pormenores dolorosos.

Ontem, sabe Deus como, chegámos à conclusão que não vale a pena este viver vegetativo. Com a dor de a ver partir, tivemos ainda de ter a coragem de decidir ser melhor para ela adormecê-la indolormente.

Todos estes dias, apenas os olhos manifestavam vida e o reconhecimento da nossa presença junto dela.

Hoje, com as forças quebradas, mas para a não ver sofrer, preparo tudo e chega o meu Pedro para a levarmos ao hospital.

Ela lá está cada vez mais prostrada e eu na esperança e no desespero de ao acordar ver que já tinha partido. Ao abrir a porta de casa o seu olhar desfazia as minhas dúvidas e eu ficava feliz de a ver, e triste, por ver que até a resolução definitiva, nem essa me seria poupada de tomar. Nesse dia eram quatro da madrugada quando me levantei e fui ao pé dela. Estava vivinha. Fiz-lhe umas festinhas e fui para a cama a engolir as lágrimas neste desespero que não podia partilhar para não afligir mais os que me rodeiam.

Era ainda manhã cedo, avisei o hospital de que íamos .

Quando abro a porta e chego à varanda… vejo a Fofinha de pé!!!

Nem queria acreditar nos meus olhos!!! De espanto, travaram-se-me os passos e fiquei presa a gesticular mostrando ao meu filho o que estava a acontecer.

Ele aproxima-se e ela, toda trémula, vem até próximo dele e depois mantém-se de pé, pelo menos meia hora até eu ir depois deitá-la para descansar!

Todos ficámos cientes de que ela ali queria terminar os seus dias.

Não foi possível levá-la daqui! Os nossos corações quebraram perante este facto extraordinário.

Voltou logo a seguir a ficar letárgica e não mais recuperou a mobilidade.

Ela vai ficar connosco até que a Natureza siga o seu curso.

Sinto-me apaziguada por ela, de algum modo, manifestar a vontade de ficar aqui ainda mais algumas… horas? dias?

Não sei o que pensar do sucedido. Aceito apenas.

E espero.

…………………………….

Partiu.

Um pedaço de mim foi com ela,

Mas ela, a minha Fofinha, permanecerá eternamente no meu coração e a sua lembrança povoará os meus sonhos, já que a saudade…essa não mais se apartará de mim.

 

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Baú de Recordações - Robin Hood, precisa-se!

 

 

Preservo de uma visita à grande cidade, memória de duas experiências que foram traumatizantes o suficiente para ainda hoje me afectarem. Bastou uma pequena (?) circunstância e …zás, de novo revivi essas lembranças.

Vindo a sair um dia do Metro, trazendo os meus filhos pela mão, no último lance de escadas, quase a meio, um homem debruçava-se sobre si, amarfanhado, com a cabeça encostada nos degraus, numa imagem trágica que me perturbou o coração.

Não sei se é porque sou destas cepas enraizadas em terra boa porque produtiva, ou se é dos genes, quando dei por mim já tinha arrastado comigo os meus ganapos e aproximava-me samaritanamente do homem ali tombado. Eis então que a minha acompanhante me puxa por um braço e me diz:

- Ó Celeste, que está a fazer?

- Aquele senhor precisa de ajuda!

- Qual o quê? Você sabe lá quem ele é? Ele pode estar a fingir!

E eu, atónita, rendi-me à sabedoria de quem passara a vida nas urbes capitais. Não saía do meu assombro por ver, ou melhor, não ver, prestar ajuda a quem precisava e espantada com o juízo de valor tão ligeiro feito por aquelas pessoas passantes, pois que nenhuma lhe deitou a mão.

Levaram-me dali para fora e eu comigo a pensar que tinha dado bandeira de provinciana, ao mesmo tempo arrependida de não ter feito o meu dever, fosse quem fosse o pobre coitado. Mas naquele tempo, não tive”pulso” na situação. Se fosse hoje…!

Numa outra viagem, também à capital, viajando no meu flamante Toyota Corolla, na companhia dos meus entes queridos, não queria acreditar nos meus olhos quando vi um homem remexendo no caixote do lixo e retirar algo de dentro levando-o à boca!!!

Precisei de perguntar ao meu marido se eu tinha mesmo visto o que acabara de ver. Em resposta, recebi a confirmação com aceno de cabeça, também ele compungido com a cena.

Olhei para o banco de trás, onde os meus filhos com a barriga abarrotar de termos comido num bom restaurante, ainda saboreavam um delicioso gelado em taça que, naquele dia lhes déramos. Os meus olhos arrasaram-se de água e… mais uma vez, eu impotente…

Os anos passaram, mas a lembrança ficou.

Há dias numa grande superfície, não sei que me conteve, mas também não reagi. Quer dizer, o que me conteve eu sei: medo de ofender; medo de falar; medo de …

Andava eu na secção dos legumes, escolhendo cuidadosamente algum feijão verde, quando me apercebo dum movimento sub-reptício ao meu lado esquerdo. Olhei por cima do ombro e que vi?

Um homem na casa dos setenta, alto e magro, vestido com simplicidade mas muito decente, trazia um saco plástico na mão com alguma coisa no fundo e, ao meu lado, cortou timidamente uma folha exterior de uma alface e meteu-a dentro do saco. Fez o mesmo com um pedaço de cenoura partida que estava no expositor.

Eu fiquei em suspenso! Que era aquilo?

As vagens ficaram em equilíbrio instável na minha mão, pois eu não sabia o que havia de fazer.

O homem estava a roubar ou simplesmente apanhava alguma coisa para em casa poder meter na panela e saciar as exigências do corpo já em declínio?

Foi uma situação terrível! Queria ir atrás dele e meter-lhe no saco algo substancial que desse ao menos para uma refeição.

E se não era nada disso?

Mas tirar aqui e ali uma folha de alface, uma maçã, uma metade de cenoura…?

E como passava na caixa ?

Estava sozinha. Não tinha com quem compartilhar esta dúvida.

Virei-me e vi o senhor seguir muito direito pelo meio dos expositores e eu fiquei a pensar:

-Para onde irá agora, para o peixe? Levará uma sardinha? Dois carapauzinhos?

-Conseguiria levar um punhado de arroz depois do saco arrombado?

-Que faço? -perguntava-me.

-Sigo-o até à caixa e pago-lhe a despesa?

-Vou envergonhar o homem? Ou se falo denuncio-o e pior a emenda que o soneto?

Optei por não fazer nada, com um nó na garganta, embaraçada pela minha timidez, ou por uma cobardia que permitiu que alguém, na minha frente, usasse de pequenas subtilezas para levar de comer para casa.

E, em casa, quiçá alguém aguardasse com esperança:

-Ó Manel, então trouxeste alguma coisa?

-Não pude trazer nada que prestasse, estava lá uma senhora a olhar para mim…

Vim para casa cheia de remorsos, por não ter acrescentado nada àquele pequeno saco de mão.

Nunca vira nada assim na minha terra!

Lameiros e lameiros de hortaliça que vai para os porcos ou para o lixo e alguém a precisar de uma folha de alface?

Mas como está este País?

Desde que me conheço que a experiência que tenho é bem diferente:

-Ó Maria pega lá umas folhas galegas para o caldo.

-Ó fulana pega lá um saco de batatas para cozer. São das mordidas, mas são tantas que ainda se estragam.

E também:

-Olha lá ó Adozinda, dá-me aí uma cebola que depois dou-te das minhas.

Era assim. Não se passava necessidade, contanto que o Povo soubesse.

As coisas são um pouco diferentes, mas ainda se dá aos vizinhos.

Agora assim uma coisa?

Nunca tal tinha visto! Pobreza envergonhada de gente a quem as míseras pensões não chegam para os medicamentos.

Fiquei muito triste!

Por isso o meu grito :

- Venha lá o Robin dos Bosques! Precisamos aqui muito dele.

 

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Baú de Recordações - Capela de Nª. SEnhora da Azinheira - S. Martinho de Anta

 

Tecto da Capela de Nª Senhora da Azinheira

 

Um evento social cá em cima, (protocolo entre a Câmara Municipal de Sabrosa e a Gulbenkian - espaço Miguel Torga) fez-me estes dias pensar que ando há anos a falar da Serra e que nunca até hoje, vos falei da minha vizinha dilecta e sempre presente a Santa que, no cume dela, abençoa o seu povo, logo de manhãzinha, ao fulgirem os primeiros raios de sol: a SENHORA da AZINHEIRA.

Mora numa solitária capela no fresco ar da montanha, onde o magnífico panorama, enche a vista dos que lá se refugiam em meditação ou dos passantes que poisam naquele mirante natural, numa amplitude de 360º.E… vejam bem se não vale a pena: de lá se enxerga até a Serra da Estrela, quando em dias claros espraiamos o olhar até ao mais longínquo horizonte! Mais, abarcam-se treze Concelhos!

È pois uma dádiva ímpar da Natureza, que, segundo a hora, nos permite observar as tonalidades de verde até aos confins, encantar-nos com os tons esbatidos de cinzentos, azuis e magenta, quando ao entardecer subimos a serra e olhamos para poente, enfrentando o Marão.

 Mas difícil, difícil mesmo, seria descrever-vos os esplendorosos pôr – de - sol, que todos os dias temos o privilégio de poder contemplar.

Já temos falado que, se com as cores de determinados dias, pintássemos esses ocasos, pareceria uma tela surrealista. Ninguém acreditaria que apenas copiáramos a realidade.

Foi então, nesse dia, bem a meio da cerimónia que mais uma vez evoca o nosso nome maior MIGUEL TORGA, que me propus escrever sobre esta Capela e a nossa Padroeira.

 E aqui estou, a cumprir a minha promessa interior.

Faço-o com todo o gosto, lamentando não poder impregnar este meu escrito com os odores do serpão, da urze, da erva brava que brota solta aos nossos pés; do forte perfume das maias nos seus dias de dourada floração, ou ainda com a pureza do ar que nos revigora; ou com a beleza deste lugar de eleição.

Não virá longe o dia em que tudo isso seja possível. Até lá, tereis de fazer boa fé na minha palavra.

Altar MorTrago-vos então até cá, ao alto de uma pequena colina, onde começa a cordilheira a que chamamos “ Serra da Senhora da Azinheira” por ela não ser de grandes proporções que mereçam nome próprio. Mais adiante será a Serra da Garganta e até mesmo a Serra da Arcã que se dispõem paralelas umas às outras. Esta será a Serra do Meio, muitas vezes cantada pelo nosso reconhecido Poeta. Serra que se encontra cheia de vestígios arqueológicos que todos temos o dever de preservar e respeitar.

Foi aqui que pelo século XVIII se construiu ”…fora deste povo em distância de três tiros de mosquete para a parte do Norte huma formoza capella com a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, que dizem se chama assim por haver no dito sítio antiguamente huma arvore chamada Azinheira…”; “… tem a capella aparências de Matriz…”; “…finalmente não se encontra nesta Província capella de serra com mais custo e galhardia…”.

Assim reza um documento datado do séc. XVIII e longe de mim desmentir tão ancestrais palavras, que aliás descrevem na perfeição a harmoniosa ermida.

Possui a capela uma pequena nave, capela - mor, sacristia e toda ela foi construída em granito, que também forra o chão. As janelas abertas na parede mostram a sua espessura e explicam a frescura que no Verão suaviza da canícula exterior, mas que no Inverno enregela os ossos de quem assiste às cerimónias.

Antecede a entrada na capela uma galilé de boas proporções com três portas de arco perfeito, duas laterais e a principal na sua fachada poente.

Na capela - mor existe uma”…fermoza tribuna com seu trono, onde está Nossa Senhora ao lado do Evangelho na mesma tribuna a imagem de Sam Domingos de Gusmão, no da Epistola Sam Gonçalo, no altar colateral da parte do Evangelho Sam Jozé e no colateral da Epistola Santa Rita de Cássia, todos os retábulos dourados primorozamente e o tecto tanto da capella mor, como do corpo da igreja, todo pintado com perfeição…

Na verdade na capela - mor a tribuna tem ao cima a representação da Santíssima Trindade, com Nossa Senhora ao meio e duas imagens ladeando-a que são Deus Pai e Deus Filho, Jesus. Por cima, uma pomba branca representando o Espírito Santo, que  teve em tempos no bico uma coroa para pousar na cabeça da Senhora coroando-a como Rainha do Céu e da Terra.

Neste retábulo, estão inseridos à direita e à esquerda de quem entra, as imagens dos Santos já referidos em pequenos mísulas e não propriamente na tribuna.

Entre o altar de S. José e o arco divisório da capela - mor há uma coluna cilíndrica de granito, alta, onde, em cima de uma peanha , se encontra a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, de pequenas dimensões, policromada, que sai na procissão no seu andor de cetins, no dia 15 de Agosto, o dia da festa anual.

Todos os altares, de estilo barroco português, estilo que se iniciou em princípios do séc. XVIII, são de bonita talha dourada. Apresentam uma exuberante profusão de mais de trinta anjinhos bonacheirões e rechonchudos, aqui e ali intercalados com brancas pombas. As colunas ornadas de motivos vegetalistas de acantos e volutas, seguem um estilo escultórico internacional. As mais centrais, são estilo salomónico nacional ao mostrar parras e cachos de uvas que se desenvolvem nos enrolamentos das colunas, bem ao gosto português.

  As intensas cores das pinturas dos tectos ainda hoje nos oferecem o colorido original e retratam a Assunção de Nossa Senhora. Um tecto profusamente decorado, maravilhoso e que será do séc. XVIII.

 A decoração das laterais das janelas (parecem frescos), provavelmente original, será da mesma época, com motivos florais e aves, mas apresenta já evidentes sinais de degradação.

Não posso deixar de referir também o púlpito, todo ele em talha dourada, muito bonito, coberto por um dossel cuja parte inferior tem esculpida uma pomba, mais uma vez um simbolismo muito próprio deste lugar. Há ainda os dois cadeirões, recentemente restaurados, pintados com medalhões representando cenas bucólicas, muito belos e antigos. As escadas, em apertado caracol, levam ao coro todo em madeira suspenso sobre a porta principal.

Pertence ao recheio da capela um painel de madeira pintada, semi-circular, muito antigo, de que se desconhece a data e o nome do autor. Esta pintura evoca mais uma vez a coroação de Nossa Senhora em belíssimas cores e em que a figura de Jesus se distingue da de Deus Pai, por ter no Seu braço direito a Cruz. Aos pés das figuras principais encontra-se uma cercadura de anjos e por baixo destes, singularmente, aparecem três dísticos com as palavras “mistura”, “dinheiro” e “trigo”, que intercalam a frase: aqui se lançam as esmolas para as obras de Nossa Senhora da Azinheira.

 JanelaFazia esta pintura jogo com um móvel de castanho que possuía, levantado o tampo, três compartimentos, segundo a sua função (tal como se encontravam descriminadas na pintura do painel), onde se recolhiam as esmolas destinadas à Santa.

Actualmente este móvel já não condiz com o retábulo, pois ao sofrer remodelações foi o seu interior completamente desfigurado.

Refiro as duas pias de água benta, ambas ao lado das portas, também elas com gravuras incisas.

  O exterior

Como já vimos a capela de Nossa Senhora da Azinheira está implantada numa colina a 750m de altitude.

Rodeiam-na imensos blocos de granito, na maioria dos quais aparecem grandes covas,

que mais não serão do que o resultado de  um fenómeno geológico que provocou o rebentamento de gases à superfície dos rochedos.

São muito curiosas pois algumas sugerem ligações intencionais entre si, provavelmente para alguma utilização que de momento se desconhece.

Aparecem também outras “covinhas” essas já feitas pela mão do homem e que remontam a tempos antiquíssimos da Pré-História.

Há ainda outros vestígios arqueológicos que espero dar a conhecer e a conseguir para eles uma datação cronológica correcta. Para isso tenho contactado alguns arqueólogos no sentido de que, algum dia, possam dar início ao estudo desta região.

É pois primordial que se preservem todos os vestígios para valorizarmos o nosso património arqueológico.

Dado não possuir a data certa da construção deste pequeno templo baseado em documento oficial, ao momento, direi que pela sua decoração interior é do séc XVIII.

O que posso afirmar é que o local apresenta vestígios de ocupação romana, com tégula em que encontrei uma marca provável de oleiro e pedaços de tijolo romano, em que há incrustações de material de fundição.

É muito possível que no espaço envolvente, próximo da igreja, tenha havido uma forja e seria de grande importância poder localizá-la.

Exterior ao recinto, vêem-se grandes castanheiros que são seculares conforme documento antigo que já nessa época os refere falando ainda”…pouco abaixo da capella se encontra huma fonte christalina, bem guarnecida de pedra lavrada com primor de arte, rebentou de huma penha esta fonte haverá trinta annos, tempo em que Nossa Senhora neste sitio ou capella vizinha comessou a fazer prodígios. E desde então até ao tempo presente nunca secou, das suas agoas se valem os enfermos nas suas affliçoens.”…

A fonte referida é a que está mais ou menos a meio da calçada que, de facto, apresenta as características referidas e possui uma carranca por onde verte a água que cai na pia.

Hoje conhecemos uma outra fonte, situada a nascente da capela um pouco mais em baixo e que, também ela, tem a sua calçada até ao sítio.

GaliléNão podemos esquecer a calçada!

O Sr Padre Avelino disse-me que era medieval, portanto mais antiga que a capela, no entanto é meu convencimento que será contemporânea desta. Se fosse anterior a este período, seria consistente com outros vestígios encontrados. É no entanto necessário um estudo de toda a área envolvente para se fazer uma datação mais aproximada.

À falta de documentos comprovativos neste momento, ficamos com esta referência que nos leva a pensar como devemos preservá-la, pelo menos como se encontra. Alguns desportos que por ali se praticam são causadores de estragos que podem ser irreversíveis.

Seria de muito lamentar tal circunstância. O conhecimento do valor inestimável deste património, evitaria que as pessoas, no seu desconhecimento, estraguem este bem comum e o passem adiante aos vindouros.

Quero ainda mencionar que nesta capela existia “…huma copioza e digníssima irmandade, com coatro dias solemnissmos de indulgência ou jubileo por bula ponteficia, o primeiro e mais principal em os quinze de Agosto dia em que se festeja a Senhora, o segundo na segunda oitava do Natal, o terceiro em dia de Nossa Senhora dos Prazeres, o coarto na segunda oitava do Spirito Sancto, nos quaes dias concorre tanto numero de irmaons, fieis e devotos a conffessar-se, comungar e vizitar a Senhora, que excedem comummente o numero de seiscentas pessoas. E neste ministério se occupam desde a luz da manhã athé o meio dia vinte e sinco e as vezes trinta conffessores.”…!!!

É interessante fazermos a comparação com os dias que correm!

Pois bem, foi à sombra destes velhos castanheiros que se assinou o protocolo que trará muitos benefícios futuramente à nossa terra.

Foi escolhido este local na Serra, por ser um lugar emblemático, sabendo que tanto nela pensou e sobre ela escreveu o Poeta e grande escritor Miguel Torga. E foi neste lugar, nesta capela, que ele quis imaginar um dos seus contos mais bonitos: Natal.

A ele se deve a projecção desta terra tanto no nosso País como também a nível mundial.

Espaço exterior da Capela- Vertente SulNa singeleza deste bucólico cenário, mais uma vez pela grandeza do seu nome e do legado que nos deixou, será S. Martinho de Anta favorecido com este acordo de colaboração de que todos, sobretudo a juventude, pode recolher muitos e férteis benefícios.

Saibamos pois reconhecer o nosso património, quer histórico quer humano, em tudo o que ele representa, para valorizarmos a nossa terra e sentirmos orgulho também de os sabermos preservar com o interesse respeito merecidos.

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Baú de Recordações - Há dias assim!

 

 

Era para ser um dia de desfrute de amizade e, uma vez que era distante , seria também um agradável passeio pela A24, que oferece a todos umas vistas que encantam, até mesmo os de cá, quanto mais, (digo eu), aos que estão de passagem. Refiro-me aos verdejantes socalcos do Douro a perder de vista e, mais ao longe, aos contrafortes rudes e solitários do Marão, nossa Serra primeira. Quantas vezes por ali passar, tantas serão as vezes em que me deleitarei a absorver tão lindo panorama.

Era para ser…!

Mas foi um dia de surpresas tão diversificadas, que me “lavaram a alma” ao contemplarem três vertentes muito caras da minha personalidade:

-a cultura da amizade

-o meu gosto pela História

-o meu amor pela Natureza.

Foi com alegria que revimos os nossos amigos Clara e Alfredo e depois de um saboroso almoço beirão, bem lá no alto da serra do Mezio, foram eles que nos surpreenderam com a sugestão de um passeio para irmos à Ermida.

Normalmente somos nós que arrastamos os amigos daqui para ali na ânsia de tudo lhes mostrarmos. Desta vez foi o inverso e aí vamos todos ao encontro do Passado, eu já a antever um momento bem vivido.

Mas confesso que não estava à espera daquele templo maravilhoso do Séc. XII!

 Lindo, lindo e um património importante a preservar.

Ainda por cima a simpatia do nosso amigo (parece transmontano, o homem!!!) tinha já conquistado a amizade da Dulce, que tudo deixou para nos vir mostrar aquele   tesouro, que faz a devoção de zelar e florir com mimo para as cerimónias religiosas.

Fica pois aqui o meu reconhecimento por aquela encantadora senhora que ainda mais nos surpreenderia, desta vez aos quatro, ao propor-nos uma visita ao Pisão.

Aceitamos prontamente, eu convencida que iríamos ver artefactos de moagem que alguém tivesse preservado no tempo.

Acompanhámo-la até um portão que estava fechado e pensámos ver frustrados os nossos prometedores projectos. Mas não, que ali as coisas não se fazem a meias! De novo a Dulce se pôs a caminho e regressou acompanhada por uma simpática vizinha. Fina como uma vergôntea de giesta, despachada e moderna apesar das cãs que revestiam como neve toda a sua cabeça.

Recebeu-nos como amigos de longa data a Laurinha!

Valha a verdade logo sentimos o mesmo e juro, do fundo da alma, que me parece o mesmo se ter passado com a Clara e o Alfredo, estes pouco habituados ao recebimento das gentes do Norte.

Mas mantínhamo-nos na expectativa, sem sabermos o que ali iríamos fazer. Não deixei escapar porém um desabafo da Laurinha, quando nos disse:

-Querem ver o meu Paraíso?

Uma pista.

O que é o Pisão? O Pisão é um pedaço da alma, o ritmo do coração desta nossa nova amiga. O seu viver, o seu sonho para atingir a felicidade dela e dos seus.

O Pisão é quase uma ilha. É um pedaço de terreno em socalcos, entalado entre dois   rios menores, afluentes do Rio Paiva. Logo à entrada uma pequena ponte deixa que os dois se abracem mesmo ali, ao olhar extasiado dos visitantes, a coberto de verdejantes árvores que pendem à volta de nós. E a gente, ainda não refeita daquela frondosidade, já recebe o som da água cristalina, que de pedra em pedra rumoreja e reflecte a luz brilhante do sol àquela hora da tarde.

Ao aproximarmo-nos, temos a surpresa de ver o rio a nossos pés, escapando-se ( agora com menos água pois é o pino do Verão)  ligeirinho de charca em charca, trepidante e convidativa a puxar-nos para lá.

 Reina o granito em grandes fragas desgastadas pela erosão do ribeiro corrente, docemente arredondadas e calcinadas pelo ardor do sol ao longo de tantíssimos anos de existência! A aragem arrufa as folhas do arvoredo, tão silenciosamente que nem damos conta que passa e só me apercebo dela ao desfazer os fios do meu cabelo.

E vamos de cachoeira em cachoeira, marginalizando agora pela esquerda o rio que atravessa a propriedade por aquele lado. As encostas são íngremes de pendor agressivo, cobertas de vegetação que ensombrece aquele rincão.

E depois vimos a piscina natural!

Centenas e centenas de litros de água que subtilmente represados, criam uma formosa piscina que dá arrepios de prazer e de vontade de poder desfrutar e sentir como nossa.

 Que coisa linda!

Subindo, subindo, há de tudo: frutos silvestres e tratados, caminhos serpenteantes, paralelos ao rio e na sua perpendicular, devidamente protegidos e sempre, recantos belos, a água murmurante, a erva dos rios retouçante de frescura…

Enfim!

A Laurinha fez questão de nos mostrar todo o seu empório.A própria diz, que há ainda muito por fazer, mas ela é uma mulher jovem, com um espírito de invejar, que arregaça as mangas e enfrenta as dificuldades com coragem, na vontade imensa de ali construir o seu lar, o seu pedacinho de céu na Terra. A alma canta-lhe já a saudade de algum dia ter de partir e deixar o seu Eden. É então que se imagina repousando ali eternamente, para minorar essa devastadora perda que sentiria ao desenraizarem-na de lá. Antecipa autorizações de que carece para atingir o seu desejo final. Alegremente.

Ainda nos ralha por chegarmos sem aviso. Outra coisa não tem para nos oferecer a não ser água pura das suas fontes, fresca e leve e, enquanto nos dessedentamos, mais uma surpresa nos aguarda: a Laurinha com desenvoltura abraça um velho companheiro de muitas horas solitárias e felizes: um acordeão!

Imagino-a ali sentada, olhando para o rio que corre, tocando à desgarrada com a cantoria das águas passantes. Sons de música suave e calma no Verão e em vigorosos e bravios tons maiores, quando as águas turbulentas rolam zangadas a seus pés.

Vejo-a ali.

Para nós, tocou a Marcha de Vila Real, ou em nossa homenagem e dela própria porque é também transmontana, ou porque lhe lembrou, mas calhou bem. Para os Lisboetas soaram algumas Marchas Populares e… num rasgo de romantismo, só podia terminar com “Encosta a tua cabecinha…”

Cantámos, dançámos…

E meu Deus que dizer mais?

Eu ficava já ali a dormir ao relento, numa manta de retalhos coloridos e enquanto o rio cantasse e as estrelas brilhassem, também eu quereria ter ali o meu paraíso!

Graças, muitas graças, por vivermos esta oportunidade!

Longa vida aos protagonistas desta sucinta história, porque ficou ainda muito por dizer!

 

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Baú de Recordações - Romaria da Srª. da Saúde

 

Nª.Srª da Saúde- Saudel, S.Lourenço, SABROSA

 

NOTÍCIA: No dia 26 de Julho, realizou-se no santuário de Nossa Senhora da Saúde em Saudel, Sabrosa a tradicional festa da FAMÍLIA COUTINHO, originária de Sedielos – Peso da Régua, mas que estendeu as suas vergônteas a toda a zona do Douro e actualmente aos países da comunidade Europeia.

Com muito agrado se registou a presença de 50 pessoas e se lembraram os ausentes que motivos pessoais impediram de comparecer.

Celebrou a Santa Missa o Senhor Padre Manuel Coutinho, digníssimo membro da família e da Igreja.

Seguiram-se os “comes e bebes” e todos pareceram saciados e prontos para a animação musical a cargo do primo Joaquim Coutinho, com a sua já conhecida habilidade para esta missão.

Ao entardecer partiram para as suas vidas seguindo rumos diferentes, mas unidos na vontade de, para o ano, se Deus assim o quiser, de novo se reunirem para mais um fraternal convívio”.

Não foi sem alguma nostalgia que recebemos os nossos parentes neste espaço de lazer onde há 34 anos demos o nó e nos comprometemos a fazer uma família feliz. Ao sabor da vida lá temos ido cumprindo esta promessa e apenas algumas preocupações empenam um pouco a nossa tranquila felicidade.

Mas a saudade foi também pelos meus tempos de meninice e juventude quando a festa da Senhora da Saúde era o evento mais notável dos arredores.

E foi dessas recordações que falei um pouco aos comensais. Do então…

Naquele tempo, mal abriam os primeiros alvores, a gente de Vilar de Maçada carregava os burros ou carros de bois (quem os tinha) com tudo o que era necessário para três dias de romaria. Nas lojas e nos cercados os animais ficavam pensados para tão longa ausência dos donos. Nos quinteiros as pitas recebiam milhão, farelo e braçados de couves a triplicar e as vasilhas com água à fartura para que todos ficassem confortáveis até ao regresso. E depois faziam-se ao caminho com a canalha adormecida deitada no carro ou aos solavancos montados nos burros. Não era longe, mas para quem vai a passo dos animais de carga era quase um dia. Depois ao passar por Parada do Pinhão, para atalhar, ouviam os comentários zombeteiros dos locais:

-Aí vai Vilar de Maçada, cesto grande, comida nada…

Ao que os citados respondiam à letra sabendo que quem falava era de emulação, pois naquele tempo eram mais ricos os da minha terra. Os outros é que até do pão eram dependentes de nós.

Era como a história dos sinos. Tocavam os de Parada  afrontando os de Vilar de Maçada:

-Tem lêndeas, tem lêndeas  ( toque de cana - rachada)

_Tirai-lhas, tirai-lhas (eram os de S. Lourenço, roufenhos de todo)

-Com quê , com quê? (volviam os de Parada)

E, já picados com o desafio, respondiam os de Vilar de Maçada:

-C’um pau! C’um pau!

 E os outros aninhavam-se envergonhados com o som grave e macho do seu vizinho e rival.

Quem não tinha outro meio de transporte…ia a pé, que não tinha outro remédio, mas faltar à festa? Coitado!

 Punham os cestos de carga à cabeça (que não era pouco carrego) e os garrafões de vinho na mão e aí vão eles pelos caminhos abaixo até ao rio Pinhão no sopé da nossa aldeia. Escusavam os de Parada de falar. Tomaram eles! Dentro dos cestos iam as bolas de carne, o arrozinho de forno de lenha, bem tostadinho por cima, o cabrito e as batatinhas redondinhas tudo do mesmo lote de assados ( para isso estiveram as mulheres toda a noite à espera de vez no forno do Sebastião ou da Senhora Alcina que Deus haja).

E o presunto, o salpicão ou a linguiça caseiros, para não falar das pão cachado da terra o famoso “pão de Vilar de Maçada”. Era pão afamado ou pela água, ou pelas mãos que o amassavam e lhe conferiam um sabor único. Só comparado ao de Favaios também feito nos fornos a lenha tradicionais.

Formava-se a procissão dos romeiros em grupos de vizinhos e amigos que esperavam uns pelos outros e assim iam cavaqueando até chegar às poldras. Falo disto com conhecimento próprio, pois tive a sorte de compartilhar esta aventura aí com os meus nove anos de idade. Se alguma coisa não bater muito certo é porque a minha memória infantil só o registou assim, mas não devo errar grande coisa.

As poldras punham-me medo! Eram os temores de Mãe que, receosas que nos nossos devaneios juvenis nos atrevêssemos a ir até ao rio, pintavam aquele passo como a passagem do Inferno. Assim eu fui-me ficando para trás no grupo dos miúdos que aguardavam para passar.

Imagem da Srª. da SaúdeNas ditas poldras, blocos de granito cravados no leito do rio à escancha  (passada) de um homem, do tempo dos romanos que assim cruzavam, os homens à frente levavam para a outra margem os garrafões do vinho, os cobertores, os cabazes de vime e depois davam as mãos às mulheres para elas passarem com os cestos á cabeça. A canalha ia no fim. Então um deles vinha até ao início das pedras e puxava-nos um por um e passavam - nos a outro que entretanto se aproximara do meio. No final outro nos pousava a seco já do lado de S. Lourenço.

Os rapazes e as raparigas novas, descalçavam as meias e os sapatos para chegarem secos e asseados ao outro lado. Penteavam-se e sacudiam-se, que eles investiam muito na sua imagem nestas festas anuais.

Por ali acima resfolegávamos com o calor e a subida até ao santuário porque ainda era um bom esticão e como ao cima nenhum Santo ajuda…

Esta romaria em Saudel, chamada de Nossa Senhora da Saúde, faz-se com os esforços das outras povoações e lugares que formam a freguesia e tem uma característica: no primeiro dia é a feira do gado, até às tantas. Há depois um dia de intervalo e só no dia nove é que é a festa propriamente dita. Daí serem necessárias muitas provisões para cada família.

Quando se chegava ao recinto, na época de terra batida, logo nos víamos cercados por um mar de cornos, tantos eram os bovinos que se apresentavam para venda! O gado cavalar era numeroso também e depois havia a raça miúda dos porcinos e ovinos. Fora a pitarada e coelhos, que em cestos se acrescentava ao negócio.

As famílias conforme chegavam logo se estabeleciam num espaço azado e lá estendiam as mantas como se em grandes camarotes se alapassem à espera do desenrolar das festividades.

Naquele dia os negociantes de gado de todo o distrito ali se apresentavam de samarra aos ombros, chapéu de feltro ou de palha ou boinas (trauliteiras), e aguilhadas nas mãos, e passavam o dia em grandes negociatas que oficializavam com um vigoroso apertar de mãos.

Quando o negócio não corria à feição ficava adiado para de tarde e até à noite era um discutir de preços e de qualidades dos animais para ver quem dava mais pelas reses:

- Então, ó Zé, dá lá  mais duas notas, olha que o boi é de qualidade.

-Não me parece! Ele até tem as costelas à mostra! Tu não lhes botas de comer? Trazes por lá os animais a cair de fome?

-Olha lá, tu não digas uma coisa dessas, que não há em…quem trate melhor os animais que eu!

-Pois olha que não parece. E mais a mais, não quero negócios contigo… bem te conheço.

Azedavam-se às vezes as conversas e, palavra puxa palavra, começavam os fueiros e as aguilhadas a cruzar-se e a porrada só acalmava quando vinha a GNR de Alijó para os apartar, quantas vezes já com costelas partidas ou cabeças a esguichar sangue. Eram os vapores do álcool, a excitação das discussões e os calores da digestão das tripas do Mata Lobos.

O Mata Lobos, comerciante de Vilar de Maçada, tirava a barriga e a família de misérias nestes dias de festas e, mais ainda, na Senhora da Saúde. Com três dias de antecedência já ele lá estava a levantar umas casqueiras e a cobri-las com toldes de apanhar a azeitona. Depois era só fazer umas mesas corridas do mesmo material, tapadas com vistosas toalhas aos quadrados azuis e verdes. No dia da feira, os potes iam para o lume de manhã cedo, mesmo dentro da barraca e todo o santo dia as mulheres não tinham mãos a medir, porque, sentados nos bancos corridos, todos, pobres e ricos, por ali faziam uma pausa para comer uma malga de tripas.

Era um sucesso!

Claro que tanta energia desandava depois nas tais zaragatas e os prevaricadores iam dormir a noite para lhes passarem os vapores à “casa do cão” ou debaixo do coreto, à falta de acomodações mais simpáticas. E a GNR à porta, para o caso de mesmo presos lá dentro, os contendores se agarrarem de novo.

Quando ao outro dia os tiravam de lá de dentro, vinham não só sóbrios como também envergonhados de dormir naquelas instalações.

Servia-lhes de emenda!

Mas este dia era ainda de outras compras, menores é certo, mas nem por isso menos importantes.

Era para a pequenada. Mal chegavam matavam a paciência ao pai e à mãe que queriam diversas coisas:

-Carrinhos de lata pintada; carrinhos de madeira para empurrar, com a forma de uma ave e que batiam as asas conforme rolava pelo chão de terra batida; gaitas de barro com riscas cor de laranja e um pífaro também de barro (era um passarinho que se enchia com água e, que, ao soprar, soltava uns trinados que faziam a maravilha dos miúdos e punham os cabelos em pé aos graúdos que os ouvissem horas a fio).

As meninas pouco mais tinham que umas bonecas de cartão vestidas de chita e as panderetas de lata. Esperaram por elas o ano inteiro!

Depois do almoço, às vezes feito mesmo ali debaixo dos castanheiros em potes de ferro, (cada família prevenida levava sempre um deles, para cozer as batatas e fazer o caldo, em pequenas fogueiras à volta das quais, como se fosse o lar, estendiam depois os cobertores e dormiam a sesta ou a noitada conforme fosse o caso, ao som da música ambiente que pela manhã anunciava as festividades):

-Alô, alô. Rádio Ideal Sonora de Justes. Manuel Monteiro dando início às festividades em honra de Nossa Senhora da Saúde. Tenho o prazer de anunciar o programa das festas…

E assim decorria o primeiro dia da festa, a feira. Lá pela noite já se bailava no “dancing” em cimento, mesmo na esquina da capela debaixo dos centenários castanheiros que sombreavam o espaço religioso. A cerca feita de cordas era o entrave para que os rapazes não entrassem sem pagarem os respectivos bilhetes. Para as meninas era grátis porque sem elas não se fazia a festa.

Ao outro dia descansava-se e ia-se comendo do que trouxeram de casa, mais o caldo e eventualmente mais umas tripitas se o Mata Lobos tinha o pessoal a postos. Passeava-se para baixo e para cima e, mais que tudo, cumprimentavam-se os amigos e sabiam-se as novidades.

No dia da Santa, nove de Agosto, juntava-se o povo dos arredores e de mais longe. Também esses traziam abonada comezaina e comiam-se as merendas debaixo de qualquer sombra, pois por essa altura já os que tinham carro, atravancavam qualquer nesga de espaço com os seus bólides para passar a tarde e o arraial.

Aguardava-se ansiosamente a Procissão presidida pelo Reverendo Pároco Sr Padre Hermínio Chaves, para que conste, para se cumprirem as promessas e regalar a vista com tão bonitos andores.

Nesse dia à volta da capela, eram muitos os que de joelhos evocavam os favores da Virgem ou lhe rendiam graças pelas benesses conseguidas. Já na capela se encontrava o andor principal para que todos tivessem oportunidade de o ver.

Era e é felizmente, uma bela tradição esta dos andores armados com panos de cetim e rendas.

O principal armador era o Sr Zé Pinto de Vilar de Maçada. Meses antes, na capela da Borba, os carpinteiros construíam as estruturas de madeira, segundo desenho do próprio (se era para uma Santa, fazia-se um andor em forma de capelinha). As mulheres cobriam então a madeira com o pano de cetim pregueado ou em forma de favo de abelha e depois enfeitavam-no com pérolas enfiadas em cordão, que balançava conforme os movimentos do andor aos ombros. Cobriam também as estruturas com franjas douradas e mais uma vez cordões enfeitados com espelhinhos que brilhavam durante a procissão e transmitiam beleza e algum misticismo à ocasião, pois só nos andores eram aplicados. Todos os restinhos e as pérolas perdidas eram catados por nós, laboriosamente, e com eles fazíamos colares com que durante dois dias, pouco mais, nos enfeitávamos a preceito.

Ainda hoje me comove os cetins azuis bebé, os rosas e os brancos que tanto me recordam este período da minha infância.

Vinha à tarde a Procissão e os anjinhos a acompanhar, vestidos com uns saiais tão pesados e quentes que as pobres crianças se desfaziam em suor. Em suor e em lágrimas porque alguns não queriam fazer aquela volta, muitas vezes para cumprir as promessas feitas pelas mães. Baba e ranho pingavam pelas faces vermelhas em protesto por pagarem eles as promessas alheias. E as mães que se esqueciam que iam na procissão, falavam alto e metiam-se no meio dos andores. Lá tinha o Sr Padre Hermínio de pôr ordem naquilo, senão gerava-se a balbúrdia.

 Quando recolhia a procissão, despediam-se os devotos da Santa até para o ano e recomeçava  o profano. Música e bailarico até à hora do arraial.

Dúzias de foguetes e morteiros arrebentavam pelos ares e iluminavam a cena  nocturna campestre. Depois vinham os foguetes de fantasia que embelezavam a noite e originavam ahs de espanto e regozijo. No final, lentamente se escoava a multidão como formigas em busca do seu buraquinho.

Juraria que, dos que agora se despediam, muito poucos não levariam debaixo do braço um saboroso melão ou uma deliciosa melancia. Quase todos levariam também um pedaço de doce da Teixeira, para acompanhar em casa com um cálice do tratado que tinham nas adegas. Desta vez, os cestos apenas levavam os garrafões vazios e nas carroças cabia mais gente que à vinda, mas valera a pena!

Que a Senhora nos guarde até para o ano!

Passadas horas já só se contavam os retardatários a fazer lembrar aquela historieta:

-Ó Maria, p’ra onde vais?

-Vou p’rá festa !!!

E no regresso:

-Ó Maria, donde vens?

-Aiii, vee…nho da…fees…ta.!

 

Publicado por aserrana | 9 Comentário(s)
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