SOL

Baú de Recordações - As tripas do Mata - Lobos.

 

Vilar de Maçada - Igreja Matriz ( Foto Google)

 

Das feiras dos doze e vinte e seis, muita gente ainda se lembra em Vilar de Maçada. Os mais idosos e os da minha geração que as apreciaram quando eram infanto-juvenis, sem se aperceberem que assistiam aos estertores  dessas reuniões mensais, pelo menos nos moldes em que se faziam.

Nessa altura iam para a feira atrás das mães e já pelo caminho era uma pedinchice só:

-Ò mãe, a senhora compra-me um panavento ?

-Ò mãe, dê-me um assobio de cuco, como os da Senhora da Saúde ...

-Ò mãe, eu queria um carrinho de madeira daqueles que batem as asas ...

E as raparigas, não se ficavam atrás:

-Ò mãe, dê-me uma boneca (das de cartão).

-Ò mãe, eu quero umas socas novas.

_  mãe, ó mãe! Rais parta a canalha, que inda agora saí de casa já estão a pedinchar!

-Dá-lhe lá, alguma coisa mulher, senão não te largam - dizia a senhora Bebiana sentada nas escaleiras  da Queta.

-Bom é de falar, mas vocemecê  bem sabe que o Inverno foi grande e os homens andaram meses ao alto. Já devo 5 sémias na senhora Alcina  do forno, e tenho uma conta calada na venda do sr António.

Entretanto os miúdos calavam-se de ouvido à escuta, a ver se a conversa lhes corria de feição. Quando a mãe olhava, tornavam a fungar e limpavam lágrimas de crocodilo e ranho, à mistura, na manga da camisa ou da camisola

-Pois é minha filha, mas a canalhinha não sabe de contas. Do bom se lhe regala a vista.

Estamos no tempo da miséria. Deus nos acuda! Parecem os tempos da guerra.

- Bem, deixa-me lá ir, que vou buscar um metro de chita para fazer um bibe ao meu Zé que o dele já se não aproveita.

-Vai, vai e olha se trazes uma malga de tripas do "Mata - Lobos".

-Bem as comia, mas ... só com os olhos.

A feira realizava-se no amplo largo da Igreja bem central ao povoado e para lá concorriam todas as mulheres e todos os homens da aldeia naqueles dias festivos.

Sim claro, era uma festa, pois as mulheres punham como camisas lavadas, as calças e as meias  aos homens em cima da cama, tal qual fosse Domingo. E elas passavam um pano molhado na cara e nas orelhas, penteavam os cabelos para trás em grandes ondas, vestiam a saia travada e em cima o avental de folho que a tia Emília lhes fizera.

As que tinham sapatos  não deixavam os seus créditos por mãos alheias ... e meia de vidro com a risca bem direita,  aí iam elas alegres como quem vai para uma romaria. Mas não levavam o avental!

No Adro dispunham- se as tendas sempre da mesma maneira, com se ao longo dos anos os feirantes tivessem adquirido direito ao terreno onde enterravam os espeques das suas barracas. Assim, por baixo da tília grande, mesmo em frente à escola do sexo feminino, ficava a "Borrona ou Borroa". Depois  em frente às grades da Igreja era a enorme tenda do Sr Martinho de Alijó. Também lá estava o Ourives, em frente ao Rodrigo e, assim por ali fora até por trás do fontanário, se iam estabelecendo outras tendas menores mas muito importantes.

Potes  de ferro ao lumeO sr Martinho era o rei do mercado, porque nas suas bancadas havia toda uma gama de variados e modernos tecidos   que eram o chamariz da multidão. Claro está que rivalizando com a Borroa. Então era ver as mulheres que segundo as suas posses, compravam um metro de riscado ou chita  no propósito de fazer os indispensáveis aventais, ou levavam o caqui necessário para as calças de uso dos maridos e dos rebentos.

Havia também quem, com algum dinheiro, namorava os tecidos e apalpava as fazendas para escolher , levando o seu tempo, tendo em conta a relação mercadoria e preço, não fosse o orçamento sair do esperado.

-Ò "Dozinda", fazes-me o vestido p'rá Festa? Já aqui levo o pano.

E estrada abaixo, estrada acima, naquele dia era um ir e vir de matraqueado das socas, que nós , na escola, escutávamos e quase nos arrepelávamos de não andar lá também.

Os homens, esses ficavam-se pelo cimo do Fontanário, na mira do que se passava e aproveitando a ocasião para fazer os seus negócios se era caso disso. Mas muitos iam só ver como corriam  as modas, fazendo tempo para o meio-dia.

Entretanto, já numa comprida baiúca térrea, sem janelas nem postigos, mesmo ao lado do Marques do Adro, decorria uma azáfama de trabalhos, entre o lavar das tripas, potes ao lume e lenha para a fogueira e homens que  em cavaletes assentavam  longas  tábuas que seriam as mesas improvisadas .

Quem olhasse lá para dentro o que  via, do que me recordo?

Ao fundo uma enorme fogueira onde os potes de ferro, de pernas em brasa, ferviam no lume atiçado , tanto que as mulheres ao levantar o testo, muitas vezes chisnavam os dedos, tal era o brasume.

Iluminavam o espaço umas gambiarras penduradas do tecto e, lá dentro, numa dirandina andavam a mulher do Mata - Lobos, as filhas, o genro e alguns netos, que eram a prata da casa, mas ainda se via a Adelaide do Irineu (a  Irinoa) e mais uma ou outra, porque braços , não eram demais . Uma, com um pau chiscava a fogueira, que o lume tinha que estar esperto "; outra ia à água;outra metia as tripas no pote ... Sei lá! Uma barafunda!

Porém tudo se conjugava para que ao bater do meio - dia na torre, as mesas reluzissem nas suas toalhas brancas de algodão ou de quadradinhos verdes e vermelhos, clubistas. Então a "chusma "de "esgazeados com a fome" que  já esperava à porta, tinha permissão para entrar e entre amigos iam enchendo as mesas, acotovelando-se para serem os primeiros, que a barriga dava horas.

Já as mulheres afogueadas, preparavam as malgas e uma mais despachada pegava na concha sopa e despejava para dentro delas a delícia mais esperada do mês:

 .... as tripas à Mata - Lobos.

Fumegavam  as mesas com  as tripas a ferver e os nacos de pão de Vilar de Maçada, (o melhor dos arredores, só rivalizava com o de Favaios), derretiam-se dentro do môlho com que o pessoal se alambazava, tantas vezes chupando os dedos , bem regados o pão e as tripas, com o tinto do Morais ou o branco das Saínças.

Se o apetite era grande e as  finanças o permitiam, em vez de uma iam duas  malgas e as rodadas do briol corriam  a contento.

Saíam de lá corados como tomates, satisfeitos da pança e, de mais uma vez cumprirem a tradição das tripas do Mata - Lobos.

Mas também as mulheres alinhavam na comezaina. As de lá e as de fora. Por vezes, à entrada da porta, ficavam as aguilhadas, enquanto eles e elas se desforravam da caminhada para ir e vir até Justes, Jorjais de Perafita ou Vila Verde.

Quando a Feira do Gado ficava para tarde, era já no calor da digestão da tripalhada que os negócios se faziam e não era raro que os eflúvios toldassem a razão. Daí que a cada passo acabava a feira à sarrafada e entre braços e narizes partidos e cabeças esfoladas lá ia a GNR de Alijó apartar os contendores que, quando tocava à porrada, os da terra eram de respeito.  Zuniam os varapaus, as mulheres gritavam, a canalha fugia e era um ver se te avias.

Era a Feira, estava tudo dito.

Ditosa eu que me recordo destas e doutras cenas, talvez menos edificantes mas que fazem parte da nossa tradição e sei que, muito boa gente que este texto lesse, teria outras coisas para acrescentar e histórias choveriam para completar este relato.

Apenas cumpro o meu dever de relatar e hoje assim aconteceu, porque este ano fui à feira da Senhora da Saúde onde, por tantos anos, o Mata - Lobos,  montou  a sua barraquinha.

Também tenho ainda memória de outras coisas.

Os cheiros da minha terra.

O perfume das mimosas; o aroma da terra lavrada; o cheiro a ozono quando as gotas de chuva caiam no chão seco do Estio ...

Saudades ... é o que é.

 

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Baú de Recordações - Valente tombo.

 

Marmelos

 

Quando os meus pais compraram ”o casal” na rua do Paço em Vilar de Maçada, havia muitas árvores de fruta, mas, havia uma que faltava e começámos a ouvir a minha Mãe:

-Não haver um marmeleiro! Deixa estar, não perde pela demora.

-Tu que tens mulher que estás tão arreliada?

-É que fui comprar uns marmelos à feira e sabes quanto paguei por eles? Ainda se fosse coisa que se visse, mas são todos “encurrilhados” e cheios de nós. Tira-se a casca e o caroço e não sobra nada.

É uma ladroeira! Nem só na estrada é que se rouba!

Assim descontente, pôs mãos à obra e ela mesma, plantou no quintal, bem à beira da porta, um marmeleiro. Resulta que, ou foi das mãos que o lá puseram ou tinha-o na origem, o marmeleiro não deixou o seu crédito por mãos alheias. Carregava até as pernadas ficarem vergadas com o peso da fruta.

De lá para cá, todos os anos é uma fartura de marmelos a pingar. Este anos trouxe mais de vinte kgs. deles, já deu para o caseiro e se lá não estiverem ainda mais de três arrobas…

E então enormes e lisinhos que são uma maravilha. Não há razão de queixa.

O certo é que logo que ele começou a produzir, regalava-se a matriarca (apesar da trabalheira) a fazer marmelada e a geleia, tudo de uma vez, porque nós agora temos as arcas mas naquele tempo, faziam-se as compotas para todo o ano.

Dizia assim a minha mãe:

-Ora andava aqui eu a fazer marmelada à ” remisga”. Olha agora, tenho para comer e dar a quem vier.

De facto, quando o meu pai me ia buscar ao Liceu Camilo Castelo Branco, em Vila Real, chegava e via as malgas e os tabuleiros no terraço ao sol, em tábuas atravessadas nos cantos das grades.

Eram tantas!

Calculo eu, pelo que sei dos costumes da terra, que não faltaria quem olhasse de revés e se algumas gabavam a previdência doméstica da minha mãe, outras ficariam com dor de cotovelo. Sempre assim foi e presumo que assim será.

Naquele ano ao sair do carro (um Fiat 1600,cinzento) chegando a casa, o terraço estava vazio.

-Não tenho tido tempo. Estive toda a semana com gripe e não fiz a marmelada.

Por isso de tarde fui chamada a colaborar na recolha do fruto. Bem chateada fiquei, porque a Cacilda do Roque tinha-me emprestado uma Fotonovela e apetecia-me mais lê-la do que trabalhar, mas não tive remédio.

Nunca fui grande trepadora mas desta vez quis experimentar e lá subi com facilidade pois o marmeleiro ainda hoje não é alto. Agarrei numa cesta e ponho-me a catar os marmelos.

- Apanha os melhores que depois os miúdos ficam para as galinhas.

Ora a árvore estava carregadinha e uma mocetona com uma cesta cheia no braço, …traz… o ramo quebrou, e eu “esbandalhei-me” até ao chão batendo com o braço na pedra de vinha que lhe ficava mesmo por baixo.

-Ai, Jesus, que a miúda magoou-se!

E eu, cheia de terra no chão, gemia agarrada ao braço. Não era só isto. A cara e os braços estavam cheios de arranhões de passar pelos ramos e a cabeça estalava com as dores. Pudera, fizera cá um galo! Desconfio que foi dessa vez que eu fiquei com déficit de…juízo.

À falta da senhora Aninhas Cascalheira, que já tinha ido para melhor lugar, fomos de carro até Vinheiros à Sra. Drª Edwiges e ela mandou-nos para o hospital tirar uma radiografia.

Mas o meu pai que tinha ficado com um pulso rígido (de um tombo que dera na caça), após tratamento hospitalar em que andara com gesso e tudo, estava de pé atrás.

-E se levo lá a miúda e ela me fica deficiente?

-Então se não queres ir ao hospital, onde a levamos?

-Só se for ao Dr Júlio, a Sabrosa.

-Ó senhor Arnãni (Hernâni), desculpe de me meter na conversa, mas olhe que os médicos, de ossos não percebem nada! Porque não vai com ela à Lage? – aconselhou a senhora Lucinda.

-_À Lage? E o que há lá nesse lugar? Nunca ouvi falar!

-Há lá uma “endireita” que tem umas mãos abençoadas. Ela ainda é novita mas, tem um jeito que só visto. Foi ela que valeu ao meu Xico que andou que tempos de braço engeçado ao peito e estava a ficar com o braço torto. Olhe fui lá e o rapaz já veio a mexer o braço para casa.

-Tu que dizes ? - consultava o meu pai a minha mãe.

-Se temos que ir, vamos já, que a rapariga está cheia de dores!

Ora ainda bem que alguém se lembrava de mim!

-Eu vou lá com vocês, se quiserem.

E fomos. A “endireita” era de facto nova, mas pôs-me as mãos no braço, umas mãos de toque leve e, de repente, sinto um estalo nos ossos, dei um grito, e o suor frio escorreu-me pela cara.

-Pronto já passou! Senta-te aí um bocadinho que estás branca como a cal.

Pudera!

Mas o certo é que fiquei bem. Dei logo conta que tinha ficado sem dores e parecia tudo nos lugares.

Pagou o meu pai 50$00 mas deu-os de boamente, por me ver boa.

Para concluir a história, o melhor foram os dias de repouso que tive a seguir, pois não era eu que ajudava a carregar com a marmelada para o sol no terraço nem que tinha de a ir buscar ao anoitecer.

Também tenho andado a fazer a marmelada e, vai daí, marmelo atrás de marmelo, fizeram-me eles lembrar deste pequeno acidente doméstico.

Pelo marmeleiro do meu quintal tenho afeição, porque me traz à ideia quem lá o plantou e olhando-o, dirijo ao céu uma prece muda de amor filial.

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Baú de recordações - Um adeus que ainda o não foi.

 

A Fofinha

Escrever na primeira pessoa pode em muitas circunstâncias parecer uma pieguice se não um exagero. A esse tipo de julgamento me tenho afoitado desde sempre, por isso, desta vez, para dar mais credibilidade ao texto direi apenas…

Era um Outono ruim de chuvoso e a protagonista desta história (na verdade era um casal, mas ela é mais activa nisto dos animais), chegava a casa e não lhe faltavam afazeres. Porém antes de tudo o mais, pegava numa tigela e metia-lhe todos os pedacinhos de comida que arranjava ou já tinha guardado para esta eventualidade. Acrescentava ainda um pouco de ração e, fizesse ou não chuva, pelo caminho que rodeava a sua habitação, entrava no mato rasteiro e deixava de comer e água a uma cadelita abandonada que todas as noites e madrugadas fazia coro com os dela a guardar a casa a que se encostara na perspectiva de um aconchego que perdera. Alguém a tinha abandonado e ali viera ter na mira de um afago ou de alguma côdea que lhe mitigasse, pelo menos momentaneamente, a fome.

Esta personagem, Maria, digamos assim, ia depois a correr para a janela do quarto verificar a sofreguidão com que a comida era engolida.

Vale a pena dizer que de princípio achou o animal estranho se não mesmo um pouquinho feio. Branca, com manchas grandes arredondadas, de cor preta e castanha e pelo eriçado que se esparramavam pelo lombo. Lembravam-lhe, aquelas manchas, os anéis do corpo de uma lagarta das couves, mas coloridos. A cada vez que a via, era esta imagem que lhe surgia na mente!

Veio mais tarde a saber que afinal ela era uma cadelinha de raça, uma Fox Terrier de pelo de arame. Estava explicado aquele pêlo hirsuto.

Muito fugidia de princípio, pouco depois já lhe saltava às pernas em busca de uma carícia que não lhe era negada. Esta timidez durou-lhe para toda a vida e era característica da sua personalidade calma e meiga.

Caía uma vassoura e ela refugiava-se na sua casinha. Ralhava aos outros e ela corria aflita…

O Inverno atiçava-se e pelas tardes descaídas lá ia a Maria, tratar da cadelita da rua e a tanto chegou a sua amizade, de pouco tempo mas já forte, que lhe fez no monte, mesmo por cima de sua casa um abrigo de plástico coberto de ramos de pinheiro, para ser mais natural e atapetou-lhe o chão de camisolas velhas de lã quentinhas. O interessante é que ela percebeu logo que seria aquele o seu abrigo, que, embora precário, ficava mesmo em frente da casa de quem lhe matava a fome.

Aqui para nós que ninguém nos ouve, ao ver tudo isto, parece que a mulher não tinha os cinco alqueires bem medidos…

Tempo depois do início desta convivência, a cadelita apareceu com uma pata muito ferida, com uma das almofadas dos dedos quase cortada e uma inflamação terrível. Caía intensamente a neve, mas o sangue aqueceu de fúria o rosto desta nossa amiga Maria por pensar que alguém tinha feito mal à sua protegida. Deu por paus e por pedras.

Fez-lhe o curativo e envolveu-o muito bem prendendo-o com uma meia para que ela não retirasse o penso. De nada serviu porque aquela dentadura forte, desfez num ápice todos os nós que lhe tinha dado. No dia seguinte a pata estava pior e agora eram já os dois membros da frente que se encontravam magoados.

 A neve tinha-se acumulado por todo o lado, embora menos por baixo dos pinheiros, onde a cadelita se mantinha deitada por não poder andar.

O que pensou a Maria? Muito naturalmente que a cadelita, com as patas em carne viva, estaria cheia de febre e à intempérie e, vai daí, pegou nela em braços e trouxe-a para a sua casa. Nos dias consecutivos, estando de vigia para que ela não tirasse os pensos, a nossa protagonista viu com os “olhos que a terra há-de comer”, como diz o nosso povo quando quer reforçar a expressão de seriedade com que fala, que era a cadelita que roía as próprias patinhas, coitadinha, num prenúncio do seu sofrimento pelo abandono a que tinha sido votada e à falta de carinho que tanto sentia.

Poucos dias depois, apercebeu-se que a sorte lhe tinha batido à porta e nunca mais roeu as patinhas. Foi com muita alegria que a Maria a viu brincar e pegar-se de amizade com o Bógui o seu amigo de eleição. Até há bem pouco tempo, brincava com ele e conseguia, com a sua pequena estatura, meter os machos na ordem.

Aqui começou uma bela amizade retribuída mil vezes com o seu afecto canino.

Uma criatura dócil e extremamente meiga, de maravilhosos olhos castanhos amendoados que faziam derreter o coração da Maria que nunca vira olhos assim. A cauda amputada, dançava em ritmo frenético quando os seus novos donos chegavam.

Passaram a chamar-lhe Fofinha à falta de imaginação que a dotasse de nome mais pomposo. Mas não fazia mal. Dizia à letra com a portadora e fofinha será eternamente nos nossos corações. A minha doce e linda Fofinha.

Dez anos se completaram em Outubro que veio parar a esta casa. (A esta altura, já não posso esconder mais o nome real desta Maria). Quando aqui chegou era já velhinha, de modo que se calcula que tenha aproximadamente dezoito aninhos!

Neste período de tempo, diversas vezes foi tratada e há meio ano que sabemos ter sintomas de síndrome de Cushing (tipo Parkinson) doença degenerativa. Mas ela estava bem. Apesar de ter de tomar medicação diária vivia feliz e o seu olhar nunca perdeu o brilho nem a ternura que lhe era inerente. Minha querida!

A alegria e os “gorgeios”(uns sons roucos que fazia na garganta que parecia que falava), quando aportávamos a casa, os saltos para nós…

Há dias ficou mal.

 Muitos anos! Nem os carinhos, nem o bem – estar obstam a que os dias passem e sobrecarreguem de anos quem já deveria parar de os contar.

Temos vivido momentos dramáticos.

Pouco faltará para esgotar as lágrimas que os meus olhos possam ainda verter. O meu coração está pesado e uma tristeza profunda se apoderou de

mim. Na expectativa de a ver partir temos estado pendentes, ainda mais porque nos olha e nos reconhece. Parte o coração.

Há uma semana que não se levanta e a comida é forçada. Poupo-vos a outros pormenores dolorosos.

Ontem, sabe Deus como, chegámos à conclusão que não vale a pena este viver vegetativo. Com a dor de a ver partir, tivemos ainda de ter a coragem de decidir ser melhor para ela adormecê-la indolormente.

Todos estes dias, apenas os olhos manifestavam vida e o reconhecimento da nossa presença junto dela.

Hoje, com as forças quebradas, mas para a não ver sofrer, preparo tudo e chega o meu Pedro para a levarmos ao hospital.

Ela lá está cada vez mais prostrada e eu na esperança e no desespero de ao acordar ver que já tinha partido. Ao abrir a porta de casa o seu olhar desfazia as minhas dúvidas e eu ficava feliz de a ver, e triste, por ver que até a resolução definitiva, nem essa me seria poupada de tomar. Nesse dia eram quatro da madrugada quando me levantei e fui ao pé dela. Estava vivinha. Fiz-lhe umas festinhas e fui para a cama a engolir as lágrimas neste desespero que não podia partilhar para não afligir mais os que me rodeiam.

Era ainda manhã cedo, avisei o hospital de que íamos .

Quando abro a porta e chego à varanda… vejo a Fofinha de pé!!!

Nem queria acreditar nos meus olhos!!! De espanto, travaram-se-me os passos e fiquei presa a gesticular mostrando ao meu filho o que estava a acontecer.

Ele aproxima-se e ela, toda trémula, vem até próximo dele e depois mantém-se de pé, pelo menos meia hora até eu ir depois deitá-la para descansar!

Todos ficámos cientes de que ela ali queria terminar os seus dias.

Não foi possível levá-la daqui! Os nossos corações quebraram perante este facto extraordinário.

Voltou logo a seguir a ficar letárgica e não mais recuperou a mobilidade.

Ela vai ficar connosco até que a Natureza siga o seu curso.

Sinto-me apaziguada por ela, de algum modo, manifestar a vontade de ficar aqui ainda mais algumas… horas? dias?

Não sei o que pensar do sucedido. Aceito apenas.

E espero.

…………………………….

Partiu.

Um pedaço de mim foi com ela,

Mas ela, a minha Fofinha, permanecerá eternamente no meu coração e a sua lembrança povoará os meus sonhos, já que a saudade…essa não mais se apartará de mim.

 

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Baú de Recordações - Robin Hood, precisa-se!

 

 

Preservo de uma visita à grande cidade, memória de duas experiências que foram traumatizantes o suficiente para ainda hoje me afectarem. Bastou uma pequena (?) circunstância e …zás, de novo revivi essas lembranças.

Vindo a sair um dia do Metro, trazendo os meus filhos pela mão, no último lance de escadas, quase a meio, um homem debruçava-se sobre si, amarfanhado, com a cabeça encostada nos degraus, numa imagem trágica que me perturbou o coração.

Não sei se é porque sou destas cepas enraizadas em terra boa porque produtiva, ou se é dos genes, quando dei por mim já tinha arrastado comigo os meus ganapos e aproximava-me samaritanamente do homem ali tombado. Eis então que a minha acompanhante me puxa por um braço e me diz:

- Ó Celeste, que está a fazer?

- Aquele senhor precisa de ajuda!

- Qual o quê? Você sabe lá quem ele é? Ele pode estar a fingir!

E eu, atónita, rendi-me à sabedoria de quem passara a vida nas urbes capitais. Não saía do meu assombro por ver, ou melhor, não ver, prestar ajuda a quem precisava e espantada com o juízo de valor tão ligeiro feito por aquelas pessoas passantes, pois que nenhuma lhe deitou a mão.

Levaram-me dali para fora e eu comigo a pensar que tinha dado bandeira de provinciana, ao mesmo tempo arrependida de não ter feito o meu dever, fosse quem fosse o pobre coitado. Mas naquele tempo, não tive”pulso” na situação. Se fosse hoje…!

Numa outra viagem, também à capital, viajando no meu flamante Toyota Corolla, na companhia dos meus entes queridos, não queria acreditar nos meus olhos quando vi um homem remexendo no caixote do lixo e retirar algo de dentro levando-o à boca!!!

Precisei de perguntar ao meu marido se eu tinha mesmo visto o que acabara de ver. Em resposta, recebi a confirmação com aceno de cabeça, também ele compungido com a cena.

Olhei para o banco de trás, onde os meus filhos com a barriga abarrotar de termos comido num bom restaurante, ainda saboreavam um delicioso gelado em taça que, naquele dia lhes déramos. Os meus olhos arrasaram-se de água e… mais uma vez, eu impotente…

Os anos passaram, mas a lembrança ficou.

Há dias numa grande superfície, não sei que me conteve, mas também não reagi. Quer dizer, o que me conteve eu sei: medo de ofender; medo de falar; medo de …

Andava eu na secção dos legumes, escolhendo cuidadosamente algum feijão verde, quando me apercebo dum movimento sub-reptício ao meu lado esquerdo. Olhei por cima do ombro e que vi?

Um homem na casa dos setenta, alto e magro, vestido com simplicidade mas muito decente, trazia um saco plástico na mão com alguma coisa no fundo e, ao meu lado, cortou timidamente uma folha exterior de uma alface e meteu-a dentro do saco. Fez o mesmo com um pedaço de cenoura partida que estava no expositor.

Eu fiquei em suspenso! Que era aquilo?

As vagens ficaram em equilíbrio instável na minha mão, pois eu não sabia o que havia de fazer.

O homem estava a roubar ou simplesmente apanhava alguma coisa para em casa poder meter na panela e saciar as exigências do corpo já em declínio?

Foi uma situação terrível! Queria ir atrás dele e meter-lhe no saco algo substancial que desse ao menos para uma refeição.

E se não era nada disso?

Mas tirar aqui e ali uma folha de alface, uma maçã, uma metade de cenoura…?

E como passava na caixa ?

Estava sozinha. Não tinha com quem compartilhar esta dúvida.

Virei-me e vi o senhor seguir muito direito pelo meio dos expositores e eu fiquei a pensar:

-Para onde irá agora, para o peixe? Levará uma sardinha? Dois carapauzinhos?

-Conseguiria levar um punhado de arroz depois do saco arrombado?

-Que faço? -perguntava-me.

-Sigo-o até à caixa e pago-lhe a despesa?

-Vou envergonhar o homem? Ou se falo denuncio-o e pior a emenda que o soneto?

Optei por não fazer nada, com um nó na garganta, embaraçada pela minha timidez, ou por uma cobardia que permitiu que alguém, na minha frente, usasse de pequenas subtilezas para levar de comer para casa.

E, em casa, quiçá alguém aguardasse com esperança:

-Ó Manel, então trouxeste alguma coisa?

-Não pude trazer nada que prestasse, estava lá uma senhora a olhar para mim…

Vim para casa cheia de remorsos, por não ter acrescentado nada àquele pequeno saco de mão.

Nunca vira nada assim na minha terra!

Lameiros e lameiros de hortaliça que vai para os porcos ou para o lixo e alguém a precisar de uma folha de alface?

Mas como está este País?

Desde que me conheço que a experiência que tenho é bem diferente:

-Ó Maria pega lá umas folhas galegas para o caldo.

-Ó fulana pega lá um saco de batatas para cozer. São das mordidas, mas são tantas que ainda se estragam.

E também:

-Olha lá ó Adozinda, dá-me aí uma cebola que depois dou-te das minhas.

Era assim. Não se passava necessidade, contanto que o Povo soubesse.

As coisas são um pouco diferentes, mas ainda se dá aos vizinhos.

Agora assim uma coisa?

Nunca tal tinha visto! Pobreza envergonhada de gente a quem as míseras pensões não chegam para os medicamentos.

Fiquei muito triste!

Por isso o meu grito :

- Venha lá o Robin dos Bosques! Precisamos aqui muito dele.

 

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Baú de Recordações - Capela de Nª. SEnhora da Azinheira - S. Martinho de Anta

 

Tecto da Capela de Nª Senhora da Azinheira

 

Um evento social cá em cima, (protocolo entre a Câmara Municipal de Sabrosa e a Gulbenkian - espaço Miguel Torga) fez-me estes dias pensar que ando há anos a falar da Serra e que nunca até hoje, vos falei da minha vizinha dilecta e sempre presente a Santa que, no cume dela, abençoa o seu povo, logo de manhãzinha, ao fulgirem os primeiros raios de sol: a SENHORA da AZINHEIRA.

Mora numa solitária capela no fresco ar da montanha, onde o magnífico panorama, enche a vista dos que lá se refugiam em meditação ou dos passantes que poisam naquele mirante natural, numa amplitude de 360º.E… vejam bem se não vale a pena: de lá se enxerga até a Serra da Estrela, quando em dias claros espraiamos o olhar até ao mais longínquo horizonte! Mais, abarcam-se treze Concelhos!

È pois uma dádiva ímpar da Natureza, que, segundo a hora, nos permite observar as tonalidades de verde até aos confins, encantar-nos com os tons esbatidos de cinzentos, azuis e magenta, quando ao entardecer subimos a serra e olhamos para poente, enfrentando o Marão.

 Mas difícil, difícil mesmo, seria descrever-vos os esplendorosos pôr – de - sol, que todos os dias temos o privilégio de poder contemplar.

Já temos falado que, se com as cores de determinados dias, pintássemos esses ocasos, pareceria uma tela surrealista. Ninguém acreditaria que apenas copiáramos a realidade.

Foi então, nesse dia, bem a meio da cerimónia que mais uma vez evoca o nosso nome maior MIGUEL TORGA, que me propus escrever sobre esta Capela e a nossa Padroeira.

 E aqui estou, a cumprir a minha promessa interior.

Faço-o com todo o gosto, lamentando não poder impregnar este meu escrito com os odores do serpão, da urze, da erva brava que brota solta aos nossos pés; do forte perfume das maias nos seus dias de dourada floração, ou ainda com a pureza do ar que nos revigora; ou com a beleza deste lugar de eleição.

Não virá longe o dia em que tudo isso seja possível. Até lá, tereis de fazer boa fé na minha palavra.

Altar MorTrago-vos então até cá, ao alto de uma pequena colina, onde começa a cordilheira a que chamamos “ Serra da Senhora da Azinheira” por ela não ser de grandes proporções que mereçam nome próprio. Mais adiante será a Serra da Garganta e até mesmo a Serra da Arcã que se dispõem paralelas umas às outras. Esta será a Serra do Meio, muitas vezes cantada pelo nosso reconhecido Poeta. Serra que se encontra cheia de vestígios arqueológicos que todos temos o dever de preservar e respeitar.

Foi aqui que pelo século XVIII se construiu ”…fora deste povo em distância de três tiros de mosquete para a parte do Norte huma formoza capella com a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, que dizem se chama assim por haver no dito sítio antiguamente huma arvore chamada Azinheira…”; “… tem a capella aparências de Matriz…”; “…finalmente não se encontra nesta Província capella de serra com mais custo e galhardia…”.

Assim reza um documento datado do séc. XVIII e longe de mim desmentir tão ancestrais palavras, que aliás descrevem na perfeição a harmoniosa ermida.

Possui a capela uma pequena nave, capela - mor, sacristia e toda ela foi construída em granito, que também forra o chão. As janelas abertas na parede mostram a sua espessura e explicam a frescura que no Verão suaviza da canícula exterior, mas que no Inverno enregela os ossos de quem assiste às cerimónias.

Antecede a entrada na capela uma galilé de boas proporções com três portas de arco perfeito, duas laterais e a principal na sua fachada poente.

Na capela - mor existe uma”…fermoza tribuna com seu trono, onde está Nossa Senhora ao lado do Evangelho na mesma tribuna a imagem de Sam Domingos de Gusmão, no da Epistola Sam Gonçalo, no altar colateral da parte do Evangelho Sam Jozé e no colateral da Epistola Santa Rita de Cássia, todos os retábulos dourados primorozamente e o tecto tanto da capella mor, como do corpo da igreja, todo pintado com perfeição…

Na verdade na capela - mor a tribuna tem ao cima a representação da Santíssima Trindade, com Nossa Senhora ao meio e duas imagens ladeando-a que são Deus Pai e Deus Filho, Jesus. Por cima, uma pomba branca representando o Espírito Santo, que  teve em tempos no bico uma coroa para pousar na cabeça da Senhora coroando-a como Rainha do Céu e da Terra.

Neste retábulo, estão inseridos à direita e à esquerda de quem entra, as imagens dos Santos já referidos em pequenos mísulas e não propriamente na tribuna.

Entre o altar de S. José e o arco divisório da capela - mor há uma coluna cilíndrica de granito, alta, onde, em cima de uma peanha , se encontra a imagem de Nossa Senhora da Azinheira, de pequenas dimensões, policromada, que sai na procissão no seu andor de cetins, no dia 15 de Agosto, o dia da festa anual.

Todos os altares, de estilo barroco português, estilo que se iniciou em princípios do séc. XVIII, são de bonita talha dourada. Apresentam uma exuberante profusão de mais de trinta anjinhos bonacheirões e rechonchudos, aqui e ali intercalados com brancas pombas. As colunas ornadas de motivos vegetalistas de acantos e volutas, seguem um estilo escultórico internacional. As mais centrais, são estilo salomónico nacional ao mostrar parras e cachos de uvas que se desenvolvem nos enrolamentos das colunas, bem ao gosto português.

  As intensas cores das pinturas dos tectos ainda hoje nos oferecem o colorido original e retratam a Assunção de Nossa Senhora. Um tecto profusamente decorado, maravilhoso e que será do séc. XVIII.

 A decoração das laterais das janelas (parecem frescos), provavelmente original, será da mesma época, com motivos florais e aves, mas apresenta já evidentes sinais de degradação.

Não posso deixar de referir também o púlpito, todo ele em talha dourada, muito bonito, coberto por um dossel cuja parte inferior tem esculpida uma pomba, mais uma vez um simbolismo muito próprio deste lugar. Há ainda os dois cadeirões, recentemente restaurados, pintados com medalhões representando cenas bucólicas, muito belos e antigos. As escadas, em apertado caracol, levam ao coro todo em madeira suspenso sobre a porta principal.

Pertence ao recheio da capela um painel de madeira pintada, semi-circular, muito antigo, de que se desconhece a data e o nome do autor. Esta pintura evoca mais uma vez a coroação de Nossa Senhora em belíssimas cores e em que a figura de Jesus se distingue da de Deus Pai, por ter no Seu braço direito a Cruz. Aos pés das figuras principais encontra-se uma cercadura de anjos e por baixo destes, singularmente, aparecem três dísticos com as palavras “mistura”, “dinheiro” e “trigo”, que intercalam a frase: aqui se lançam as esmolas para as obras de Nossa Senhora da Azinheira.

 JanelaFazia esta pintura jogo com um móvel de castanho que possuía, levantado o tampo, três compartimentos, segundo a sua função (tal como se encontravam descriminadas na pintura do painel), onde se recolhiam as esmolas destinadas à Santa.

Actualmente este móvel já não condiz com o retábulo, pois ao sofrer remodelações foi o seu interior completamente desfigurado.

Refiro as duas pias de água benta, ambas ao lado das portas, também elas com gravuras incisas.

  O exterior

Como já vimos a capela de Nossa Senhora da Azinheira está implantada numa colina a 750m de altitude.

Rodeiam-na imensos blocos de granito, na maioria dos quais aparecem grandes covas,

que mais não serão do que o resultado de  um fenómeno geológico que provocou o rebentamento de gases à superfície dos rochedos.

São muito curiosas pois algumas sugerem ligações intencionais entre si, provavelmente para alguma utilização que de momento se desconhece.

Aparecem também outras “covinhas” essas já feitas pela mão do homem e que remontam a tempos antiquíssimos da Pré-História.

Há ainda outros vestígios arqueológicos que espero dar a conhecer e a conseguir para eles uma datação cronológica correcta. Para isso tenho contactado alguns arqueólogos no sentido de que, algum dia, possam dar início ao estudo desta região.

É pois primordial que se preservem todos os vestígios para valorizarmos o nosso património arqueológico.

Dado não possuir a data certa da construção deste pequeno templo baseado em documento oficial, ao momento, direi que pela sua decoração interior é do séc XVIII.

O que posso afirmar é que o local apresenta vestígios de ocupação romana, com tégula em que encontrei uma marca provável de oleiro e pedaços de tijolo romano, em que há incrustações de material de fundição.

É muito possível que no espaço envolvente, próximo da igreja, tenha havido uma forja e seria de grande importância poder localizá-la.

Exterior ao recinto, vêem-se grandes castanheiros que são seculares conforme documento antigo que já nessa época os refere falando ainda”…pouco abaixo da capella se encontra huma fonte christalina, bem guarnecida de pedra lavrada com primor de arte, rebentou de huma penha esta fonte haverá trinta annos, tempo em que Nossa Senhora neste sitio ou capella vizinha comessou a fazer prodígios. E desde então até ao tempo presente nunca secou, das suas agoas se valem os enfermos nas suas affliçoens.”…

A fonte referida é a que está mais ou menos a meio da calçada que, de facto, apresenta as características referidas e possui uma carranca por onde verte a água que cai na pia.

Hoje conhecemos uma outra fonte, situada a nascente da capela um pouco mais em baixo e que, também ela, tem a sua calçada até ao sítio.

GaliléNão podemos esquecer a calçada!

O Sr Padre Avelino disse-me que era medieval, portanto mais antiga que a capela, no entanto é meu convencimento que será contemporânea desta. Se fosse anterior a este período, seria consistente com outros vestígios encontrados. É no entanto necessário um estudo de toda a área envolvente para se fazer uma datação mais aproximada.

À falta de documentos comprovativos neste momento, ficamos com esta referência que nos leva a pensar como devemos preservá-la, pelo menos como se encontra. Alguns desportos que por ali se praticam são causadores de estragos que podem ser irreversíveis.

Seria de muito lamentar tal circunstância. O conhecimento do valor inestimável deste património, evitaria que as pessoas, no seu desconhecimento, estraguem este bem comum e o passem adiante aos vindouros.

Quero ainda mencionar que nesta capela existia “…huma copioza e digníssima irmandade, com coatro dias solemnissmos de indulgência ou jubileo por bula ponteficia, o primeiro e mais principal em os quinze de Agosto dia em que se festeja a Senhora, o segundo na segunda oitava do Natal, o terceiro em dia de Nossa Senhora dos Prazeres, o coarto na segunda oitava do Spirito Sancto, nos quaes dias concorre tanto numero de irmaons, fieis e devotos a conffessar-se, comungar e vizitar a Senhora, que excedem comummente o numero de seiscentas pessoas. E neste ministério se occupam desde a luz da manhã athé o meio dia vinte e sinco e as vezes trinta conffessores.”…!!!

É interessante fazermos a comparação com os dias que correm!

Pois bem, foi à sombra destes velhos castanheiros que se assinou o protocolo que trará muitos benefícios futuramente à nossa terra.

Foi escolhido este local na Serra, por ser um lugar emblemático, sabendo que tanto nela pensou e sobre ela escreveu o Poeta e grande escritor Miguel Torga. E foi neste lugar, nesta capela, que ele quis imaginar um dos seus contos mais bonitos: Natal.

A ele se deve a projecção desta terra tanto no nosso País como também a nível mundial.

Espaço exterior da Capela- Vertente SulNa singeleza deste bucólico cenário, mais uma vez pela grandeza do seu nome e do legado que nos deixou, será S. Martinho de Anta favorecido com este acordo de colaboração de que todos, sobretudo a juventude, pode recolher muitos e férteis benefícios.

Saibamos pois reconhecer o nosso património, quer histórico quer humano, em tudo o que ele representa, para valorizarmos a nossa terra e sentirmos orgulho também de os sabermos preservar com o interesse respeito merecidos.

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Baú de Recordações - Há dias assim!

 

 

Era para ser um dia de desfrute de amizade e, uma vez que era distante , seria também um agradável passeio pela A24, que oferece a todos umas vistas que encantam, até mesmo os de cá, quanto mais, (digo eu), aos que estão de passagem. Refiro-me aos verdejantes socalcos do Douro a perder de vista e, mais ao longe, aos contrafortes rudes e solitários do Marão, nossa Serra primeira. Quantas vezes por ali passar, tantas serão as vezes em que me deleitarei a absorver tão lindo panorama.

Era para ser…!

Mas foi um dia de surpresas tão diversificadas, que me “lavaram a alma” ao contemplarem três vertentes muito caras da minha personalidade:

-a cultura da amizade

-o meu gosto pela História

-o meu amor pela Natureza.

Foi com alegria que revimos os nossos amigos Clara e Alfredo e depois de um saboroso almoço beirão, bem lá no alto da serra do Mezio, foram eles que nos surpreenderam com a sugestão de um passeio para irmos à Ermida.

Normalmente somos nós que arrastamos os amigos daqui para ali na ânsia de tudo lhes mostrarmos. Desta vez foi o inverso e aí vamos todos ao encontro do Passado, eu já a antever um momento bem vivido.

Mas confesso que não estava à espera daquele templo maravilhoso do Séc. XII!

 Lindo, lindo e um património importante a preservar.

Ainda por cima a simpatia do nosso amigo (parece transmontano, o homem!!!) tinha já conquistado a amizade da Dulce, que tudo deixou para nos vir mostrar aquele   tesouro, que faz a devoção de zelar e florir com mimo para as cerimónias religiosas.

Fica pois aqui o meu reconhecimento por aquela encantadora senhora que ainda mais nos surpreenderia, desta vez aos quatro, ao propor-nos uma visita ao Pisão.

Aceitamos prontamente, eu convencida que iríamos ver artefactos de moagem que alguém tivesse preservado no tempo.

Acompanhámo-la até um portão que estava fechado e pensámos ver frustrados os nossos prometedores projectos. Mas não, que ali as coisas não se fazem a meias! De novo a Dulce se pôs a caminho e regressou acompanhada por uma simpática vizinha. Fina como uma vergôntea de giesta, despachada e moderna apesar das cãs que revestiam como neve toda a sua cabeça.

Recebeu-nos como amigos de longa data a Laurinha!

Valha a verdade logo sentimos o mesmo e juro, do fundo da alma, que me parece o mesmo se ter passado com a Clara e o Alfredo, estes pouco habituados ao recebimento das gentes do Norte.

Mas mantínhamo-nos na expectativa, sem sabermos o que ali iríamos fazer. Não deixei escapar porém um desabafo da Laurinha, quando nos disse:

-Querem ver o meu Paraíso?

Uma pista.

O que é o Pisão? O Pisão é um pedaço da alma, o ritmo do coração desta nossa nova amiga. O seu viver, o seu sonho para atingir a felicidade dela e dos seus.

O Pisão é quase uma ilha. É um pedaço de terreno em socalcos, entalado entre dois   rios menores, afluentes do Rio Paiva. Logo à entrada uma pequena ponte deixa que os dois se abracem mesmo ali, ao olhar extasiado dos visitantes, a coberto de verdejantes árvores que pendem à volta de nós. E a gente, ainda não refeita daquela frondosidade, já recebe o som da água cristalina, que de pedra em pedra rumoreja e reflecte a luz brilhante do sol àquela hora da tarde.

Ao aproximarmo-nos, temos a surpresa de ver o rio a nossos pés, escapando-se ( agora com menos água pois é o pino do Verão)  ligeirinho de charca em charca, trepidante e convidativa a puxar-nos para lá.

 Reina o granito em grandes fragas desgastadas pela erosão do ribeiro corrente, docemente arredondadas e calcinadas pelo ardor do sol ao longo de tantíssimos anos de existência! A aragem arrufa as folhas do arvoredo, tão silenciosamente que nem damos conta que passa e só me apercebo dela ao desfazer os fios do meu cabelo.

E vamos de cachoeira em cachoeira, marginalizando agora pela esquerda o rio que atravessa a propriedade por aquele lado. As encostas são íngremes de pendor agressivo, cobertas de vegetação que ensombrece aquele rincão.

E depois vimos a piscina natural!

Centenas e centenas de litros de água que subtilmente represados, criam uma formosa piscina que dá arrepios de prazer e de vontade de poder desfrutar e sentir como nossa.

 Que coisa linda!

Subindo, subindo, há de tudo: frutos silvestres e tratados, caminhos serpenteantes, paralelos ao rio e na sua perpendicular, devidamente protegidos e sempre, recantos belos, a água murmurante, a erva dos rios retouçante de frescura…

Enfim!

A Laurinha fez questão de nos mostrar todo o seu empório.A própria diz, que há ainda muito por fazer, mas ela é uma mulher jovem, com um espírito de invejar, que arregaça as mangas e enfrenta as dificuldades com coragem, na vontade imensa de ali construir o seu lar, o seu pedacinho de céu na Terra. A alma canta-lhe já a saudade de algum dia ter de partir e deixar o seu Eden. É então que se imagina repousando ali eternamente, para minorar essa devastadora perda que sentiria ao desenraizarem-na de lá. Antecipa autorizações de que carece para atingir o seu desejo final. Alegremente.

Ainda nos ralha por chegarmos sem aviso. Outra coisa não tem para nos oferecer a não ser água pura das suas fontes, fresca e leve e, enquanto nos dessedentamos, mais uma surpresa nos aguarda: a Laurinha com desenvoltura abraça um velho companheiro de muitas horas solitárias e felizes: um acordeão!

Imagino-a ali sentada, olhando para o rio que corre, tocando à desgarrada com a cantoria das águas passantes. Sons de música suave e calma no Verão e em vigorosos e bravios tons maiores, quando as águas turbulentas rolam zangadas a seus pés.

Vejo-a ali.

Para nós, tocou a Marcha de Vila Real, ou em nossa homenagem e dela própria porque é também transmontana, ou porque lhe lembrou, mas calhou bem. Para os Lisboetas soaram algumas Marchas Populares e… num rasgo de romantismo, só podia terminar com “Encosta a tua cabecinha…”

Cantámos, dançámos…

E meu Deus que dizer mais?

Eu ficava já ali a dormir ao relento, numa manta de retalhos coloridos e enquanto o rio cantasse e as estrelas brilhassem, também eu quereria ter ali o meu paraíso!

Graças, muitas graças, por vivermos esta oportunidade!

Longa vida aos protagonistas desta sucinta história, porque ficou ainda muito por dizer!

 

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Baú de Recordações - Romaria da Srª. da Saúde

 

Nª.Srª da Saúde- Saudel, S.Lourenço, SABROSA

 

NOTÍCIA: No dia 26 de Julho, realizou-se no santuário de Nossa Senhora da Saúde em Saudel, Sabrosa a tradicional festa da FAMÍLIA COUTINHO, originária de Sedielos – Peso da Régua, mas que estendeu as suas vergônteas a toda a zona do Douro e actualmente aos países da comunidade Europeia.

Com muito agrado se registou a presença de 50 pessoas e se lembraram os ausentes que motivos pessoais impediram de comparecer.

Celebrou a Santa Missa o Senhor Padre Manuel Coutinho, digníssimo membro da família e da Igreja.

Seguiram-se os “comes e bebes” e todos pareceram saciados e prontos para a animação musical a cargo do primo Joaquim Coutinho, com a sua já conhecida habilidade para esta missão.

Ao entardecer partiram para as suas vidas seguindo rumos diferentes, mas unidos na vontade de, para o ano, se Deus assim o quiser, de novo se reunirem para mais um fraternal convívio”.

Não foi sem alguma nostalgia que recebemos os nossos parentes neste espaço de lazer onde há 34 anos demos o nó e nos comprometemos a fazer uma família feliz. Ao sabor da vida lá temos ido cumprindo esta promessa e apenas algumas preocupações empenam um pouco a nossa tranquila felicidade.

Mas a saudade foi também pelos meus tempos de meninice e juventude quando a festa da Senhora da Saúde era o evento mais notável dos arredores.

E foi dessas recordações que falei um pouco aos comensais. Do então…

Naquele tempo, mal abriam os primeiros alvores, a gente de Vilar de Maçada carregava os burros ou carros de bois (quem os tinha) com tudo o que era necessário para três dias de romaria. Nas lojas e nos cercados os animais ficavam pensados para tão longa ausência dos donos. Nos quinteiros as pitas recebiam milhão, farelo e braçados de couves a triplicar e as vasilhas com água à fartura para que todos ficassem confortáveis até ao regresso. E depois faziam-se ao caminho com a canalha adormecida deitada no carro ou aos solavancos montados nos burros. Não era longe, mas para quem vai a passo dos animais de carga era quase um dia. Depois ao passar por Parada do Pinhão, para atalhar, ouviam os comentários zombeteiros dos locais:

-Aí vai Vilar de Maçada, cesto grande, comida nada…

Ao que os citados respondiam à letra sabendo que quem falava era de emulação, pois naquele tempo eram mais ricos os da minha terra. Os outros é que até do pão eram dependentes de nós.

Era como a história dos sinos. Tocavam os de Parada  afrontando os de Vilar de Maçada:

-Tem lêndeas, tem lêndeas  ( toque de cana - rachada)

_Tirai-lhas, tirai-lhas (eram os de S. Lourenço, roufenhos de todo)

-Com quê , com quê? (volviam os de Parada)

E, já picados com o desafio, respondiam os de Vilar de Maçada:

-C’um pau! C’um pau!

 E os outros aninhavam-se envergonhados com o som grave e macho do seu vizinho e rival.

Quem não tinha outro meio de transporte…ia a pé, que não tinha outro remédio, mas faltar à festa? Coitado!

 Punham os cestos de carga à cabeça (que não era pouco carrego) e os garrafões de vinho na mão e aí vão eles pelos caminhos abaixo até ao rio Pinhão no sopé da nossa aldeia. Escusavam os de Parada de falar. Tomaram eles! Dentro dos cestos iam as bolas de carne, o arrozinho de forno de lenha, bem tostadinho por cima, o cabrito e as batatinhas redondinhas tudo do mesmo lote de assados ( para isso estiveram as mulheres toda a noite à espera de vez no forno do Sebastião ou da Senhora Alcina que Deus haja).

E o presunto, o salpicão ou a linguiça caseiros, para não falar das pão cachado da terra o famoso “pão de Vilar de Maçada”. Era pão afamado ou pela água, ou pelas mãos que o amassavam e lhe conferiam um sabor único. Só comparado ao de Favaios também feito nos fornos a lenha tradicionais.

Formava-se a procissão dos romeiros em grupos de vizinhos e amigos que esperavam uns pelos outros e assim iam cavaqueando até chegar às poldras. Falo disto com conhecimento próprio, pois tive a sorte de compartilhar esta aventura aí com os meus nove anos de idade. Se alguma coisa não bater muito certo é porque a minha memória infantil só o registou assim, mas não devo errar grande coisa.

As poldras punham-me medo! Eram os temores de Mãe que, receosas que nos nossos devaneios juvenis nos atrevêssemos a ir até ao rio, pintavam aquele passo como a passagem do Inferno. Assim eu fui-me ficando para trás no grupo dos miúdos que aguardavam para passar.

Imagem da Srª. da SaúdeNas ditas poldras, blocos de granito cravados no leito do rio à escancha  (passada) de um homem, do tempo dos romanos que assim cruzavam, os homens à frente levavam para a outra margem os garrafões do vinho, os cobertores, os cabazes de vime e depois davam as mãos às mulheres para elas passarem com os cestos á cabeça. A canalha ia no fim. Então um deles vinha até ao início das pedras e puxava-nos um por um e passavam - nos a outro que entretanto se aproximara do meio. No final outro nos pousava a seco já do lado de S. Lourenço.

Os rapazes e as raparigas novas, descalçavam as meias e os sapatos para chegarem secos e asseados ao outro lado. Penteavam-se e sacudiam-se, que eles investiam muito na sua imagem nestas festas anuais.

Por ali acima resfolegávamos com o calor e a subida até ao santuário porque ainda era um bom esticão e como ao cima nenhum Santo ajuda…

Esta romaria em Saudel, chamada de Nossa Senhora da Saúde, faz-se com os esforços das outras povoações e lugares que formam a freguesia e tem uma característica: no primeiro dia é a feira do gado, até às tantas. Há depois um dia de intervalo e só no dia nove é que é a festa propriamente dita. Daí serem necessárias muitas provisões para cada família.

Quando se chegava ao recinto, na época de terra batida, logo nos víamos cercados por um mar de cornos, tantos eram os bovinos que se apresentavam para venda! O gado cavalar era numeroso também e depois havia a raça miúda dos porcinos e ovinos. Fora a pitarada e coelhos, que em cestos se acrescentava ao negócio.

As famílias conforme chegavam logo se estabeleciam num espaço azado e lá estendiam as mantas como se em grandes camarotes se alapassem à espera do desenrolar das festividades.

Naquele dia os negociantes de gado de todo o distrito ali se apresentavam de samarra aos ombros, chapéu de feltro ou de palha ou boinas (trauliteiras), e aguilhadas nas mãos, e passavam o dia em grandes negociatas que oficializavam com um vigoroso apertar de mãos.

Quando o negócio não corria à feição ficava adiado para de tarde e até à noite era um discutir de preços e de qualidades dos animais para ver quem dava mais pelas reses:

- Então, ó Zé, dá lá  mais duas notas, olha que o boi é de qualidade.

-Não me parece! Ele até tem as costelas à mostra! Tu não lhes botas de comer? Trazes por lá os animais a cair de fome?

-Olha lá, tu não digas uma coisa dessas, que não há em…quem trate melhor os animais que eu!

-Pois olha que não parece. E mais a mais, não quero negócios contigo… bem te conheço.

Azedavam-se às vezes as conversas e, palavra puxa palavra, começavam os fueiros e as aguilhadas a cruzar-se e a porrada só acalmava quando vinha a GNR de Alijó para os apartar, quantas vezes já com costelas partidas ou cabeças a esguichar sangue. Eram os vapores do álcool, a excitação das discussões e os calores da digestão das tripas do Mata Lobos.

O Mata Lobos, comerciante de Vilar de Maçada, tirava a barriga e a família de misérias nestes dias de festas e, mais ainda, na Senhora da Saúde. Com três dias de antecedência já ele lá estava a levantar umas casqueiras e a cobri-las com toldes de apanhar a azeitona. Depois era só fazer umas mesas corridas do mesmo material, tapadas com vistosas toalhas aos quadrados azuis e verdes. No dia da feira, os potes iam para o lume de manhã cedo, mesmo dentro da barraca e todo o santo dia as mulheres não tinham mãos a medir, porque, sentados nos bancos corridos, todos, pobres e ricos, por ali faziam uma pausa para comer uma malga de tripas.

Era um sucesso!

Claro que tanta energia desandava depois nas tais zaragatas e os prevaricadores iam dormir a noite para lhes passarem os vapores à “casa do cão” ou debaixo do coreto, à falta de acomodações mais simpáticas. E a GNR à porta, para o caso de mesmo presos lá dentro, os contendores se agarrarem de novo.

Quando ao outro dia os tiravam de lá de dentro, vinham não só sóbrios como também envergonhados de dormir naquelas instalações.

Servia-lhes de emenda!

Mas este dia era ainda de outras compras, menores é certo, mas nem por isso menos importantes.

Era para a pequenada. Mal chegavam matavam a paciência ao pai e à mãe que queriam diversas coisas:

-Carrinhos de lata pintada; carrinhos de madeira para empurrar, com a forma de uma ave e que batiam as asas conforme rolava pelo chão de terra batida; gaitas de barro com riscas cor de laranja e um pífaro também de barro (era um passarinho que se enchia com água e, que, ao soprar, soltava uns trinados que faziam a maravilha dos miúdos e punham os cabelos em pé aos graúdos que os ouvissem horas a fio).

As meninas pouco mais tinham que umas bonecas de cartão vestidas de chita e as panderetas de lata. Esperaram por elas o ano inteiro!

Depois do almoço, às vezes feito mesmo ali debaixo dos castanheiros em potes de ferro, (cada família prevenida levava sempre um deles, para cozer as batatas e fazer o caldo, em pequenas fogueiras à volta das quais, como se fosse o lar, estendiam depois os cobertores e dormiam a sesta ou a noitada conforme fosse o caso, ao som da música ambiente que pela manhã anunciava as festividades):

-Alô, alô. Rádio Ideal Sonora de Justes. Manuel Monteiro dando início às festividades em honra de Nossa Senhora da Saúde. Tenho o prazer de anunciar o programa das festas…

E assim decorria o primeiro dia da festa, a feira. Lá pela noite já se bailava no “dancing” em cimento, mesmo na esquina da capela debaixo dos centenários castanheiros que sombreavam o espaço religioso. A cerca feita de cordas era o entrave para que os rapazes não entrassem sem pagarem os respectivos bilhetes. Para as meninas era grátis porque sem elas não se fazia a festa.

Ao outro dia descansava-se e ia-se comendo do que trouxeram de casa, mais o caldo e eventualmente mais umas tripitas se o Mata Lobos tinha o pessoal a postos. Passeava-se para baixo e para cima e, mais que tudo, cumprimentavam-se os amigos e sabiam-se as novidades.

No dia da Santa, nove de Agosto, juntava-se o povo dos arredores e de mais longe. Também esses traziam abonada comezaina e comiam-se as merendas debaixo de qualquer sombra, pois por essa altura já os que tinham carro, atravancavam qualquer nesga de espaço com os seus bólides para passar a tarde e o arraial.

Aguardava-se ansiosamente a Procissão presidida pelo Reverendo Pároco Sr Padre Hermínio Chaves, para que conste, para se cumprirem as promessas e regalar a vista com tão bonitos andores.

Nesse dia à volta da capela, eram muitos os que de joelhos evocavam os favores da Virgem ou lhe rendiam graças pelas benesses conseguidas. Já na capela se encontrava o andor principal para que todos tivessem oportunidade de o ver.

Era e é felizmente, uma bela tradição esta dos andores armados com panos de cetim e rendas.

O principal armador era o Sr Zé Pinto de Vilar de Maçada. Meses antes, na capela da Borba, os carpinteiros construíam as estruturas de madeira, segundo desenho do próprio (se era para uma Santa, fazia-se um andor em forma de capelinha). As mulheres cobriam então a madeira com o pano de cetim pregueado ou em forma de favo de abelha e depois enfeitavam-no com pérolas enfiadas em cordão, que balançava conforme os movimentos do andor aos ombros. Cobriam também as estruturas com franjas douradas e mais uma vez cordões enfeitados com espelhinhos que brilhavam durante a procissão e transmitiam beleza e algum misticismo à ocasião, pois só nos andores eram aplicados. Todos os restinhos e as pérolas perdidas eram catados por nós, laboriosamente, e com eles fazíamos colares com que durante dois dias, pouco mais, nos enfeitávamos a preceito.

Ainda hoje me comove os cetins azuis bebé, os rosas e os brancos que tanto me recordam este período da minha infância.

Vinha à tarde a Procissão e os anjinhos a acompanhar, vestidos com uns saiais tão pesados e quentes que as pobres crianças se desfaziam em suor. Em suor e em lágrimas porque alguns não queriam fazer aquela volta, muitas vezes para cumprir as promessas feitas pelas mães. Baba e ranho pingavam pelas faces vermelhas em protesto por pagarem eles as promessas alheias. E as mães que se esqueciam que iam na procissão, falavam alto e metiam-se no meio dos andores. Lá tinha o Sr Padre Hermínio de pôr ordem naquilo, senão gerava-se a balbúrdia.

 Quando recolhia a procissão, despediam-se os devotos da Santa até para o ano e recomeçava  o profano. Música e bailarico até à hora do arraial.

Dúzias de foguetes e morteiros arrebentavam pelos ares e iluminavam a cena  nocturna campestre. Depois vinham os foguetes de fantasia que embelezavam a noite e originavam ahs de espanto e regozijo. No final, lentamente se escoava a multidão como formigas em busca do seu buraquinho.

Juraria que, dos que agora se despediam, muito poucos não levariam debaixo do braço um saboroso melão ou uma deliciosa melancia. Quase todos levariam também um pedaço de doce da Teixeira, para acompanhar em casa com um cálice do tratado que tinham nas adegas. Desta vez, os cestos apenas levavam os garrafões vazios e nas carroças cabia mais gente que à vinda, mas valera a pena!

Que a Senhora nos guarde até para o ano!

Passadas horas já só se contavam os retardatários a fazer lembrar aquela historieta:

-Ó Maria, p’ra onde vais?

-Vou p’rá festa !!!

E no regresso:

-Ó Maria, donde vens?

-Aiii, vee…nho da…fees…ta.!

 

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Baú de Recordações - Da Serra Transmontana aos Valinhos...

 

Fátima - Valinhos

Saí apenas com uma intenção bem definida : peregrinar.

Não queria fazê-lo de forma superficial como acontece sempre que penso ir a Fátima. As pressas fazem com tudo seja feito a correr sem aquela profundidade que me apetecia sentir e vivenciar. Ir em família não resulta, por isso rumei para o Sul englobada num autocarro excursionista cheio de pessoas que, como eu, têm os seus compromissos religiosos para pôr em ordem ou simplesmente para ir “lá”.

Mal chegámos, compusemos o nosso ar mais respeitável e, cientes do que queríamos, eu e uma amiga, demos asas à nossa parte cristã para cumprir (enfim!) o nosso desejo.

Passei uns bons momentos de reflexão e de entendimento com Deus e a Virgem e saí daquele espaço reconfortada e a decisão reforçada de que, fosse qual fosse o sacrifício a fazer, eu iria cumprir a Via Sacra aos Valinhos, coisa que me apetecia demais fazer.

Sabia que era longa a caminhada mas pensei comigo que Fátima está há muito preparada para isto e haveria pois todas as condições de o fazer em comodidade.

Sabia também que era muito bonito. Por isso, de coração assente, chegada a hora, o grupo de peregrinos pôs-se em andamento em plena estrada, por uma alameda sombria, em pé de igualdade com o trânsito normal, já afeito a estes desmandos dos peregrinos a ocuparem metade da faixa de rodagem.

Longo percurso que fizemos a esmo até chegar ao lugar onde se inicia a Via Sacra, propriamente dita.

Esperei que acendessem as luzes e ligassem a aparelhagem sonora pois até ali o som era praticamente nulo.

Alguém me disse que não, não haveria luzes.

Como?

Não haveria luz? Espantei-me!

De seguida caminhámos ao encontro da primeira estação, apenas guiados por uma pequena claridade dos jovens que levavam a viola para cantarmos nos lugares próprios.

Um pouco desorganizados ao princípio, lá fomos encontrando o nosso rumo e lentamente…

Era a meia-noite!

Os caminhos solitários que percorríamos eram os mesmos que três crianças calcaram há cem anos quando apascentavam as ovelhas na tarefa infantil que lhes era atribuída, procurando com esta sua “obrigação” aliviar o trabalho dos maiores ocupados em outras actividades. Era o seu contributo para a economia  familiar.

Todo o percurso se desenhava entre chaparrais que, àquela hora, cobriam o caminho de sombra e desenhavam silhuetas elegantes e rendadas ao nosso olhar. Quando apenas se ouvia o murmúrio das rezas orientadas pelo sacerdote, começa o meu espírito a dar-se conta da calmaria da noite estrelada. O céu era preto retinto, de breu, mas, como para nos pasmar com a sua beleza, milhões de estrelas luzentes piscavam do alto a convidar-nos a orar e a admirar as maravilhas que Deus criou para todas as suas criaturas, não olhando a credos, a raças, a cores…

O vento que de tarde nos afrontava calara-se, e apenas uma suave brisa perpassava na nossa pele. De quando em vez soava a viola e as vozes chegavam ao alto, tão alto onde pudesse Deus ouvir as nossas vozes plenas de emoção, e como não?, de súplicas bem sentidas. Algumas molhadas, deixaram nas minhas faces a intensidade do meu pedir e do meu louvor.

Durante duas horas, caminhando na fé, o meu olhar desviava-se pela paisagem nocturna e tudo o que eu sentia, para lá da melopeia das orações era…silêncio e calma …e paz…!

Nem um ruído perturbava a noite, nem a aragem arrefecia os corações! Tudo ali se conjugava para um encantamento que nos irmanava e sem falarmos sabíamos que todos, pelo menos os primeiriços, estavam subjugados por aquela noite de paz.

E então a luz, não me fez falta?

Não. A luz era perfeitamente dispensável.

Sabia que era bonito, disse ao princípio.

Quais eram as minhas expectativas? Nunca nada assim!

Quando ao fim do percurso nos encontrámos na capela e demos por concluída a Via-Sacra, parecíamos todos das mesma família cada um sentindo o outro verdadeiramente como irmão. Naquela hora, esta palavra teve mais sentido que nunca, porque ali, cobertos pelo mesmo céu, aconchegados naquela noite mística, um único olhar nos abençoava: um olhar de Pai !

 

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Baú de Recordações - Pássaro novo

 

Quem vive embrenhada em montes e penedias tem como principais vizinhos a fauna e a flora locais. Se ainda por cima, a sua casita, proporciona um bom espaço de abrigo e de alimentação a esses intrometidos bicharocos ( e ademais, gosta muito desta convivência ), está sujeita a encontros inesperados, suaves e belos alguns, ou, um que outro, menos simpático.

Um destes dias caiu-me aos pés um minúsculo pintassilgo (canário do monte, como lhes chamam).

 Tã…ã…o pequenino…!

 Mal coberto de penas e com alguma penugem ainda a ondular no seu pequeno corpinho, jazia trémulo e inseguro no aconchego da minha mão.

Não será preciso muito para adivinhar  como fiquei triste, pois vi que não haveria salvação para tão pequeno cantor, que nem ainda comia por si.

Pelo menos livrei-o das graçolas do Bógui, fechei os portões e lá o deixei, para que a mãe, sempre a mãe, viesse ajudá-lo.

Ao outro dia, caiu-me o coração aos pés, ao ver que por pouco o não pisava! Ainda estava lá e…vivo! Era um resistente.

 Que fazer? Tentei dar-lhe de comer, mas o biquinho era do tamanho das minhas unhas e era uma tarefa ingrata, mais pelo medo de o magoar. Acolei - o enquanto meditava na solução e ia regando o jardim. Supliquei-lhe baixinho que chorasse para que a mãe o pudesse ouvir. E ele pipilou mesmo. Passados minutos, de cima dum galho de pinheiro ali tínhamos a resposta.

Pousei-o num lugar visível e entre ambos desenvolveu-se um diálogo emocionante:

- Mãe, anda-me buscar. Estou aqui!

-Ó meu filho, meu pequenino! Não sabia de ti! Temos estado tão aflitos!

-Tira-me daqui! Tenho fome e medo!

-Ó meu menino, mas como posso eu fazer isso? Tu és tão pesado e nós não conseguimos levantar-te daí!

-Mãe, mas eu quero ir para o pé de ti.

-Ai meu Deus que hei-de eu fazer? Espera um pouco que vou dar-te de comer e já venho.

E um suspiro de desgosto da mãe ecoou pelo meu terraço, onde eu seguia a cena meia escondida para os não assustar.

 Quis ajudar. Peguei no pequeno e fui até ao pinhal. Esperei que ele voltasse a piar e pela resposta da mãe e deixei-o lá em cima de uma pedra. Durante aquele dia choviscou mas eu ouvia – os a conversar .Todo o dia foi assim.

Ao outro dia, quando o silêncio se fez ouvir, restavam-me duas hipóteses: a mãe alimentou-o e ele conseguiu voar, ou…

Prefiro a primeira. Ele era um resistente, não vo-lo disse? E daí veio-me à lembrança a seguinte poesia:

.

.

Há dias deixou o ninho

Por já ter a condição

De poder voar sozinho

E encontrar o seu grão.

 .

Então voou pelo mundo.

Subiu alto no firmamento.

Foi ao abismo mais fundo

E p’ra tudo teve alento.

 .

Escolheu um pouso certo,

P’rá noite se recolher.

Tem um regato bem perto,

Onde sempre vai beber.

 .

Um dia, está repousando

E sente uma leve brisa.

Nada disso lhe importando,

Suas peninhas alisa.

 .

Relampeja. Ele estremece.

Começa logo a chover

E quando a chuva acontece

Não sabe o que há-de fazer!

 .

Ficou no ramo parado,

Todo, todo encharcadinho…

Seu lindo traje molhado!

Coitado do passarinho!

 .

Avisou-se então, o tonto,

E compreendeu, não sem mágoa,

Que crescer é, em certo ponto,

Saber “passar-se” pela água.

.

Do livro " Tentativas" de minha autoria

 

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Baú de Recordações - E agora adeus!

 

 Três anos atrás, manhã de Outono, numa estrada esconsa da serra, por baixo da minha casa, apareceu abandonado um pequeno cãozinho esguio de pêlo castanho avermelhado. Encontrou logo um   amigo, acorrentado, que vivia  mesmo naquela curva e que se tinha mudado há pouco tempo para aqui. Era uma casa nova, daí ele estar preso já que a casa não tinha ainda muros de protecção. Era o Ken, um cooquie manso e afável e que o recebeu de braços abertos, também ele solitário e amarrado.

Mas, o “canito” era apenas um bebé e, sozinho, de noite uivava por baixo da janela do quarto dos donos da casa. Corriam-no e atiravam-lhe pedras.

Poucos metros acima, construía-se uma casa e o cachorrinho, varado pela fome, chegou-se aos trabalhadores que das suas merendas, lhe iam dando por compaixão, os restos. De dia estava tudo bem., mas quando os homens despegavam, vinha um aflitivo uivar desse lado da rua. Noites e noites a fio.

 Pensava eu que era o cão de uma vizinha que ao ver-se preso assim se lamentava.

Desconhecia então o drama que tão perto de mim se desenrolava .Alguns meses estive sem o ver. Um dia regressou para junto do Ken. Logo comecei a “fazer uma lavagem cerebral” aos vizinhos de baixo:

-Que o cão era lindo…

-Que era muito fiel…

-Tomara eu tê-lo para mim (o que era verdade) …

-Que era muito amigo do cão deles…

Ora o Ken, era um cão que rompia a corrente e fugia. Passava um, dois, dias quando ele aparecia e claro o outro ia com ele. Quem ficava com a culpa era o alheio, até que certa vez, os cães desapareceram e o Ken levou de arrasto a corrente que o prendia.

Passou mais de uma semana e a primeira coisa que eu fazia de manhã era ver se os cães tinham voltado. Nada.

-Aquilo o Ken ficou preso nalguma coisa e não consegue vir - dizia a dona.

-Pode ser, mas da maneira que o outro é amigo dele, só se de todo não o puder ajudar. Mas olhe que ele não o deixa sozinho.

-É verdade, porque ele podia vir, mas até agora não o largou. Só quando o Ken morrer à sede nalgum sítio.

- Coitadinhos – dizia eu, a “ ver” a cena dos pobres animais - Como o cão ficou tão amigo do seu que o não larga.

-Já tenho dito isso ao meu Paulo e ele diz que se ele aparecer ficamos com ele, por  ser tão fiel e amigo.

Passaram os dias nesta expectativa, até que uma manhã cedo, olho pela janela e vejo, o cão deitado à beira da estrada, sempre em frente à casa que ele considerava sua, como habitualmente.

Pensei num desfecho triste, mas não. Quando fui até ao fundo do quintal , lá estava o Ken esparramado a descansar. Soube então que tinham chegado de madrugada, desidratados e famintos. O Ken trouxera só metade da corrente, vinha manco, mas tinham chegado.

Deram-lhes logo de beber e de comer e o cão foi adoptado.

O filho do casal que era um bebé de tês anitos, conhecia o cão como “amigo”. Amigo do Ken. E assim ficou.

Mas não acabou tão bem a sorte desta criatura. Muita água haveria ainda de correr na sua atribulada vida.

A dona perdeu o emprego e com a casa por pagar e os pais em França, depressa emigraram rumo a melhor futuro. Para trás ficou o Amigo, pois não se deixou apanhar para ir para a quinta com o Ken.

Noite e dia o cãozinho não saía dali.Comecei a dar-lhe de comer lá no recinto da casa e ele por ali estava e habituou-se a mim, sem nunca se aproximar.

De Inverno, resolvi dar-lhe de comer aqui ao meu portão para não ir para o frio e mais ainda, não me sentia à vontade de entrar e sair na casa dos outros.

Arredondei-lhe o nome para “Migo” e chamava-o para vir comer. Tinha agora uma identidade, um porto de abrigo e comida não lhe faltava. Cresceu, engordou e tornou-se um grande cão garboso e sempre fiel, agora connosco.

Os donos tinham prometido ficarem França apenas dois meses para a apanha do morango. De facto vieram para a festa de Agosto. E querem saber? O cão voltou para baixo, com grande mágoa minha. Continuei a pôr - lhe de comer ao portão , pois os donos saiam muitas vezes e custava-me vê-lo sem comer.

Pouco depois, o casal voltou para França e desta vez, nem água vai, quer dizer, lavaram as mãos do Migo.

Quando ele viu que estava sozinho ficou de vez aqui à porta. Tocar - lhe, nem pensar, mas fiel…Nunca saía daqui. Às vezes ia dar um passeiozinho, mas uma, duas horas depois, aqui estava novamente Nos primeiros dias que ficava sem o Ken, uivava de novo que metia dó. Era um animal social e ver-se sozinho dava-lhe uma tristeza infinda. Encostava-se às grades do meu portão para se aproximar dos meus.Com o tempo, já era um animal feliz. Rebolava-se lá fora de pernas para o ar a apanhar sol e levantava a cabeça, quando nos aproximávamos, com olhar meigo, mas sem se chegar.

Aqui ficou, uma altura a força do instinto, fez com que trouxesse com ele uma cachorrita que aqui no monte pariu e de quem cuidei, das duas vezes que procriou e deu à luz os filhotes a quem ajudei a criar, lindos e roliços de tal modo a mãe tinha leite, com a comida que eu lhe dava. Uma malfadada manhã, vieram os do canil para apanhar o Migo de quem algumas pessoas diziam ter medo. Medo fantasioso, porque ele não se aproximava de ninguém, nem sequer de mim.

A ele não o apanharam mas levaram-me a cadelinha e os filhotes de quem eu já gostava tanto e para quem andava a arranjar casa.

Garantiram-me que foram logo adoptados, mas…!

O Migo, andou fugido, receoso, mas depois regressou e uivou, tão  triste que me dobrou o coração. Estava de novo só. Desta vez perdera a família!

Fui ao portão falar com ele e ele, olhos nos olhos, percebeu o que eu lhe disse que não pudera salvá-los. Parece mentira, mas não. Tenho a certeza que ele me compreendeu.

Na Primavera seguinte, o chamamento da natureza, mais uma vez, trouxe a nova companheira do Migo até aqui. Creio que ele as aliciava dizendo-lhe:

-Anda que a minha amiga dá-nos de comer. Ela é maluquinha, coitada, e gosta muito de mim. Ora anda ver. E elas vinham e cá eram recebidas, tanto mais esta que era uma ternura e se aproximou de mim logo, pronta a dar-me o que eu mais queria: a sua amizade e os seus miminhos.

Em Maio, quase a dar à luz, mais uma investida do canil e tornam a levar-me a minha “Ventoinha”, como eu lhe chamava, pois o rabinho dela quando me via, fazia uma rotação completa. Prometeram que quando tivessem a espingarda de dardos o vinham buscar, que não desistiam.

Falei para o canil, comprometi-me com a ração para a cadelinha até ela ter os filhos e estes serem desmamados para adopção e que depois a iria buscar.Todos os dias  eu tremia, com medo de ver a amaldiçoada”carroça”. Para minha tristeza maior, há dez dias que não vejo o Migo e diz-me a minha lógica que por fim o conseguiram apanhar. Tinham-me dito que havia uma quinta que o queria. Não sei qual o destino dele, mas sei que no máximo de dez dias se não tiverem sido adoptados, são abatidos.

E isto revolta-me tanto, tanto que toda a compreensão que eu possa ter em relação à saúde pública desaparece perante a irrefutabilidade da lei.

Pobre do meu Migo! Pouca sorte teve!

Mais uma vez eu, que lhe tinha tanto carinho, não o pude salvar! Falhei outra vez e tudo porque já tenho 4 cães aqui em casa e os machos não toleram outro rival.

Estou a fazer o meu luto por mais este amigo que perdi. Sei o que me vai custar. Não há dia nenhum que não espere vê-lo em frente do portão, mais uma vez a sentença adiada, mas algo me diz que desta vez é definitivo, que nunca mais o verei. Não o verei mais cabriolar a apanhar as bolachinhas que lhe deitava!

Onde está a protecção aos animais tão propagandeada?

Os canis não passam de matadouros onde a eutanásia é o seu objectivo principal.

Tratar de animais neste País, é como escalar uma montanha: não há protecção.

Ás vezes lamento, ter este carinho tão forte pelos animais, que me tem dado tantos desgostos. Sei que muita gente não compreende, mas que respeitem, como eu respeito opiniões dos outros.

Por eles tenho feito e faço sacrifícios, mas não me importo porque eu fico de lucro com a amizade que eles têm por mim e pela minha família.

Só espero agora reaver a minha Ventoinha, coitadinha. Pode que este desgosto, que trago comigo, se esbata com as suas festas e traquinices.

E tu Migo, adeus. Fiz por ti o que pude e não foi o suficiente.

 

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Baú de Recordações - ò santa ingenuidade

Coelha - Cartoon

 

Queria muito ter o que vos oferecer, assim como se fosse o “folar da Páscoa, mas não tenho nada a não ser bons votos. E como a  Páscoa é para nós sinal de esperança e de alegria,  deixo-vos, à guisa de postal humorístico, esta pequena história traduzindo o meu desejo de que esta seja para vós uma Santa Páscoa com muita alegria.

 Como em quase todas as terras também aqui não faltam figuras típicas. E se não são daqui, são da Paróquia e todos nos reunimos na Igreja Matriz pelo menos aos Domingos.

 Uma dessas pessoas é a”Coelha” , que é pouco abonada relativamente ao  siso, e os poucos neurónios que ainda tenha devem andar meio afogados do tinto ou do tratado, tanto importa, ( diz-se que o paladar com o decorrer da usança , às tantas já não distingue um do outro…).

 Mas lá vai religiosamente à Missa.

 De Inverno é vê-la de casaco de pele de …coelho, branco com manchinhas pretas, saia de quadrados, meias e peúcos uns por cima dos outros e lenço a tapar a melena desgrenhada que, mesmo escondida irrompe de todos os lados ( d’uns, mais que d´outros), que a tentativa de domar as farripas nem sempre é válida e escorreita.

 E avental de riscado com folhinho e tudo.

 De cara não é bonita, mas bonitas são as acções, já o diz o ditado.

 Mas aquela boca!!!

 Desdentada, os poucos dentes que tem (ralos como peneiras), são do tamanho de vigas de castanho. Buço pronunciado e descaído dos lados da boca, enfeitam as feições chupadas e secas do ar das terras bravias da sua nascença.

 A sua noção de estética tem pois alguns quês que nos levam a sorrir, convencidos como estamos que botamos melhor figura subindo a alcatifa vermelha que nos leva ao altar, onde deveríamos ir com melhores sentimentos… (mea culpa). Mas…às vezes, não dá .

 Assim que, de Verão, também nos não admiramos, quando aparece de casaco de lã, a mesma saia travada e as flausinas das pernas a aparecer dos meiotes de riscas, por cima dos tornozelos, uns dias por outros com o calcanhar ao léu e calçando chinelos de meia rampa.

 É castiça!

 Aproveita quando vai à Comunhão para cumprimentar à direita e à esquerda numa democrata distribuição de “passoubens” que só lhe honra o feitio. Às mulheres a sem cerimónia, leva a que lhes deite a gadanha ao pescoço e num aperto possessivo lhes “pespegue” com dois beijos molhados e sonoros, tanto quanto baste.

 No dia de Lázaros, chegada a hora da Comunhão, formou-se a procissão dos que queriam comungar, e nas duas filas que se formam, invariavelmente nos vamos cruzando com amigos e conhecidos a quem dispensamos um sorriso, uma pequena saudação.

 Na fila que subia, vi passar a dita senhora que denomino por “Coelha” sem sentido pejorativo. É que não sei como se chama mas sei que a conhecem assim. Lá ia, meia desengonçada e quando chegou à Capela - mor, esforçando-se por ver quem haveria de cumprimentar nos bancos da frente,  deu de caras com outra que descia, esguia e séria, de regresso ao seu lugar.

Aquilo quando a “Coelha” a viu, foi um céu aberto. Logo ali lhe agarrou na cara com as duas mãos, com a alegria do reconhecimento, com intenção de lhe propinar os tais beijos lambidos. Não sei se por serem ambas surpreendidas pelo encontro, desencontraram-se de faces.

 Vai uma vira “p’ráqui vai outra vira p’ráli”, e…zás!

 Espeta-lhe um beijaço na boca!

 Ora eu que estava no banco logo atrás, ao ver esta cena, não consegui conter o riso, ainda mais quando bato olhos nos olhos com a senhora beijada!

E eu que não conseguia parar de rir! Tive de me sentar e tentar compenetrar-me do lugar onde estava e que ia dali a pouco receber a comunhão. Vá que à hora de comungar me dava outro ataque de riso? Vi-me aflita, mas felizmente lá sufoquei o riso e tudo passou.

Passou nada.

 Este Domingo, prevenida, ao ver passar ambas as protagonistas, prevejo a mesma cena e, claro, não resisti a seguir o desenrolar da acção. Não é que elas ao passar uma pela outra, não vão directamente ao assunto e não se beijam na boca outra vez?

 Até que nem sou de riso fácil, mas não pude. Ri-me tanto, tanto, que as pessoas à minha volta, sem saber do que se passava, já  esboçavam largos sorrisos também.

 Pois bem, quando na Sexta -Feira seguinte, rezava na Igreja de Sabrosa, sozinha na penumbra, o meu pensamento vadio, trouxe-me de volta aquela lembrança.

 Voltei a rir-me e imaginei que, se Jesus me estivesse a ver lhe devia algum tipo de explicação e disse-Lhe:

- Perdoai-me meu Jesus, mas bem sabeis como foi engraçada aquela cena! Até Vós de certeza sorriríeis se a tivésseis observado como eu!

Constou-me hoje, acidentalmente, que quando aqui veio o Sr Primeiro Ministro para inaugurar o lançamento da obra do Centro Cultural Miguel Torga, foi a muito custo que conseguiu evitar, levar um “chocho”na boca, eventualidade essa que deveria constar da placa comemorativa deste evento social não vos parece?

 Agora eu… sinto - me na obrigação de pôr de sobreaviso o meu Pároco, pois se isto se vê nos Domingos comuns, o que poderemos nós esperar ver quando houver um Domingo de festa?

 

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Baú de Recordações - Eles agora já são espertos!

 

A nova versão do Pestinha

 

 

 

Numa escola velhinha, mas mesmo velhinha, onde esta professora dividia corredor com uma casa de habitação, um dia enquanto se  estudavam os substantivos colectivos, depois de se enumerarem uma série deles e de os terem estudado (pretensamente) em casa, no dia seguinte verifiquei que algumas crianças ainda estavam com dificuldades. Era preciso a minha ajuda ou a dos colegas para   acertarem. Então à pergunta:

- Como se chama um conjunto de lobos? A Isabel não conseguia responder, que era normalmente o que lhe acontecia.

Eu ajudei:

-Um conjunto de lobos chama-se …al…alca… e diz ela muito lampeira:

-Alcatifa, Sª Profª.

Outros tempos…

Porque hoje…

Numa escola importante da grande cidade, uma Senhora Professora pega nuns documentos e diz a um garotinho de 9 anos:

-Nuno, vai à Senhora Coordenadora que faça o favor de assinar estes papéis.

-Sim Senhora Profª.

E aí vai ele direito ao gabinete da Coordenadora, bateu à porta  e com ordem para entrar aproxima-se e diz à superiora:

-A minha Professora disse para assinares estes papéis.

-Está bem, Nuno. Dá cá então.

E a Senhora em questão, meticulosamente, começa a ler as páginas que a colega lhe mandou.

Nisto diz-lhe o garoto:

-A minha Professora disse para tu assinares os papéis, não disse para tu os leres!

-Cala-te só um bocadinho que eu já os assino, sim?

-Mas olha, tu não compreendeste! É só para assinares, não podes ler!

-Está bem…

Mas a Coordenadora continuou a ler os escritos sem ligar nenhuma às recomendações já aflitas do garoto.

Então sente um abanão impaciente na manga:

-Tu estás a ler! -diz o miúdo com voz irada na defesa dos bens da Sua professora - Eu vou dizer à minha Professora!

Responde a Coordenadora, cheia de trabalho mas também de paciência, virando-se para o aluno inquieto:

-Olha Nuno, eu tenho de ler o que aqui diz! Não posso assinar em branco.

Resposta do Nuno numa voz cantada, passando a mão em frente dos olhos, como vira fazer na T V:

-Helô...ô…ô, Professo…o…ra… Se assinares em branco a letra não se lê…ê…ê….

Posto isto…

E se já noutros tempos, trabalhando isolada, sem ter com quem compartilhar, me enchi de rir, imaginem o que foi na sala dos Professores onde se reunem ao intervalo mais de trinta colegas!

 

 

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Baú de Recordações - Já a procissão vem no adro.

 

O Ninho das Lagartas do Pinheiro

 

 Sim, estamos na Páscoa (já passaram os Lázaros. No Domingo… Ramos, na Páscoa estamos) e com ela as procissões do Compasso, velha tradição rural que ainda perdura muito embora já dando os últimos estertores. Longe vai o tempo em que o Senhor Abade percorria as casas da sua paróquia, levando a bênção pascal e dando a beijar a Cruz, àqueles que cheios de fé, esperavam por esta oportunidade para receber em sua casa o Deus Ressuscitado.

Era o tempo de receber a Côngrua mas também a oportunidade de ver todos os seus paroquianos e com eles trocar duas palavras, nem que fosse um sermão encapotado:

-Olá Emílio! Há quanto tempo te nãEm alinhamentoo via!

-Pois é Senhor Padre, tenho andado muito ocupado. O Senhor sabe como é…um rancho de filhos para criar…

-Ora, ora, Emílio, não era uma hora de Missa que te tirava o sustento!!! Vê lá se te apegas mais um pouco às coisas de Deus, que não te haverás de arrepender. Quero ver-te no coro como fazias há uns tempos atrás.

-Prometo, Senhor Padre, que me lá há-de ver mais vezes.

-Conto contigo rapaz.

E  por aí adiante.

Hoje, cada Padre tem cinco e às vezes mais Paróquias e já não lhes chega o tempo para nada. O tempo e as pernas, pois a grande maioria dos Sacerdotes andam bem para cima dos sessenta.

Outras procissões vêm com os tempos estivais, nas romarias deste Portugal castiço, que é o nosso torrão natal.

Porém esta procissão de que faço gosto em falar-vos, é outra. Muito diferente!

Quando nos meados de Fevereiro me desloquei à serra registei digitalmente um ninho sedoso, esbranquiçado, que se erguia seguro e hirto, entre dois galhos em fisga de um pinheiro. Não quis perder aquela oportunidade, pois se encontrava mesmo à mão e nem zoom foi preciso fazer.

Não que me faltassem outros espécimes semelhantes.

Não.                                                  

O pinhal está, aliás, bem recheado deles, para vergonha do nosso Ministério da Agricultura que se descuida das suas obrigações e não manda desinfestar os pinhais como era a sua obrigação.

Mesmo que as matas estivessem muito bem tratadas pelo seu legítimo proprietário, não consigo imaginar os pobres lavradores de pulverizador às costas a tentar limpar os pinheiros desta praga!

Sabe bem o Sr Ministro que só o Estado poderia fazer esta desinfecção por vias aéreas.

 Não se gere a confusão com este arrazoado com que pareço estar a desafiarr a vossa inteligência!

O ninho em questão é um ninho de lagartas, e naquele período, elas estavam já  quase prontas a sair, pelos resíduos que se encontravam no chão. Porém o frio atrasou o seu surgimento, mas ei-las que aparecem, novinhas em folha, vestidas do seu colorido castanho e laranja, em segmentos hirsutos de pêlos urticantes.

Começam por se ver esparsas e fugidias, andando, andando, como se algum destino prévio esperasse por elas.

Pouco depois, concorrem para o mesmo lugar mais duas desgarradas irmãs e se tu, amigo, estiveres à cuca,  dar-te-ás conta que, da próxima vês que as vires, já elas se posicionaram uma atrás da outra, sem pretensões de hierarquia, e vão devagar mas sem parar, transpondo obstáculos verticais ou horizontais num afã de chegar.

Chegar, mas aonde?

Eu desconheço qual será o pouso destas incansáveis andadeiras. Pelas estradas e veredas, subindo pelos muros, trepando os degraus das casas, em toda a parte nesta ocasião, topamos com longos carreiros moventes, quase sempre vítimas esborrachadas dos veículos que passam, impiedosos, ou esmagadas debaixo da bota pesada do andarilho que parece por  elas um ódio figadal, por aí elas  perecem e se contorcem no último alento de vida.

Quando, alguma que outra vez, me vejo obrigada a pisá-las, confesso, fico dorida. É que tenho carinho por estas lagartitas encimesmadas que não fazem maldades por querer. É apenas o seu meio de protecção!

De que estou eu a falar?

Falo das Lagartas Processionárias, as célebres lagartas dos pinheiros.

Nos seus genes está, provavelmente, inserida a obrigação de andar em carreirinha como devotas figuras de procissão e há vidas incontáveis que assim fazem, quer chova quer faça sol.

Daí não viria mal ao Mundo se não trouxessem consigo um terrível estigma. Os seus pêlos urticantes, espalhando-se com o vento ou em contracções medrosas, soltam-se e podem provocar doenças respiratórias e alérgicas que derivam por vezes, em fatais, quer para os animais , quer até para o ser humano.

Pinhal onde esta praga se desenvolva ( anos há que pode ser uma calamidade), os pinheiros ficam sem folhas e queimados como se por ele tivesse lavrado cáustico incêndio.

Apesar de todos estes senãos não consigo ter-lhes raiva pelo mal que nos possam fazer e aos meus cãezitos. Antes pelo contrário. Sinto uma certa ternura por elas. Será pelo mistério do seu caminhar em fila, será simplesmente pela sua obediência cega a um Karma que as cataloga como hostis.

ProcessionáriaOutros dirão: - É mas é  pura estupidez!

Que seja, mas não quero privar-me de sentir algum afecto por mais esta criatura de Deus, que com suas particularidades me tira momentaneamente dos meus  cuidados e enche os meus olhos de beleza e prazer.

O mesmo gosto não tem por elas a minha amiga Fatinha, desde quando um ano quis ir apanhar pinhas para o Inverno, bem próximo da minha casa, na mata adjacente. Ambas fomos, mas ela apanhou uma alergia no couro cabeludo que durou meses para curar.

Por isso, agora que ela vem aí, estreando netos gémeos, vou andar afadigada a correr com as processionárias daqui do pátio para fora.

Espero que apesar deste final menos feliz, olhem para estes bichinhos com alguma simpatia.

Combinado?

 

 

 

 

 

 

 

 

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Baú de Recordações - Figuras da "BILA"

O Fanando, o Bertelo e a Bichoqueira

 

 

Nalgumas deslocações que fazemos a Vila Real é vulgar frequentarmos as grandes superfícies para nos abastecermos ou apenas por ócio. E foi num desses lugares que presenciei a cena que agora vou contar.

Quem pensa que tendo morrido o “Fenando”, o  António Bertelo….a Bichoqueira .. se  acabaram as figuras típicas da cidade, está muito enganado ou de facto anda cego no meio da claridade.

No Verão passado enquanto bebia uma água num pequeno bar do hiper – mercado, reparei num casal sentado numa mesa de canto e, embora quisesse ser discreta, não deixei de apreciar o par  que se expunha ao olhar dos que ali se encontrava. Pareciam “habitués”. Estavam descontraídos e ele cirandava por ali como quem anda por casa própria.

Ela sentada pacatamente trajava uma indumentária que me deu nas vistas. Na cabeça lenço de merino florido, bem apertado debaixo do maxilar, não fosse a calmaria levar-lho, esvoaçante. A sair do lenço, tombando para o lado direito, sobressaía uma grossa trança de cabelo escuro.

A blusa era branca com renda na gola, de mangas compridas e, cobrindo-lhe os ombros, um xailinho de cor vermelha.

Saia a tapar o meio das pernas, escura, com um cinto branco, no seu devido lugar.

Nas pernas meias de algodão de riscas largas azuis e verdes. Sapato de meio tacão e fivela lateral dourada.

Era uma pessoa séria, de óculos, cuja expressão não raiava a beleza, mas também não afastava ninguém. Sossegada comia um croissant e bebia um sumo num copo alto por uma palhinha colorida.

Já ele a cada passo se levantava, tendo acabado a sua refeição. Era uma figura mediana ao bom tamanho português. Um pouquinho de nada para o gorducho e se não tivermos a  preocupação das medidas padrão, passaria muito bem. Também ele usava uma toillete jeitosa: calça clara de sarja, pejada de bolsos e uma camisa de grandes e garridos quadros, aberta no peito formando triângulo através do qual luzia um grosso cordão de ouro brilhante (não “ouropeles e prata reles”, não senhor!). Do de 24 quilates, como manda a Lei. Relógio dourado no pulso inquieto e anel de mesa, enorme, na sua mão direita.

Rosto branco sem rugas e um ar de felicidade ou, pelo menos, de quem não tem ralações que lhe impeçam o dormir. Ar de sobranceria ou de toleirão espevitado. Para não fazer juízos de valor , limito-me a dar pequenas pistas.

Naquele dia fiquei-me por esta apreciação pois logo a seguir vim-me embora e eles lá ficaram.

Numa outra altura, cansada das compras e os pés a gemer dos sapatos a estrear, fui para o carro estacionado no parque do imóvel enquanto o Raul tratava de outros assuntos.

Bem, neste dia o sol era de Inverno e que bem que me sabia batendo-me no rosto por entre os vidros claros.

Dali a pouco aparece no meu campo de visão um par já por mim conhecido.

Mais uma vez a primeira nota é a fardamenta.

Ela de saia pelos tornozelos, de riscas ao fundo e nos pés botins de verniz. Por cima da saia um sobretudo a três quartos e noutra andada superior, um poncho, tudo da  cor  de ferrugem. De novo o lenço na cabeça e carteira a tiracolo.

Nesse dia ele usava calça verde militar, larga, a dançar por cima do tornozelo, meia branca e sapato de vela. Vestia ainda uma camisola de riscas horizontais e por cima uma “camurcine”, de fecho meio desabotoado. Às costas uma mochila de marca, comprada na”feira dos farrapos” da “Bila”. Cabeça descoberta onde se destacava um cabelo bem penteado para trás alourado. Se de origem ou já “recauchutado” isso agora…

Não posso deixar de notar, claro, o seu andar gingão, garimpa levantada e assobio a sair dos beiços afeiçoados à melodia. Aqui diríamos um ar de bazófia, galaréu.

Enfim, por aí anda!

Vem ele na frente e eu já não lhe tirava os olhos de cima curiosa para ver  qual seria o  seu modo de locomoção. Sempre assobiando ziguezagueia por entre os outros bólides e vai em direcção a um motociclo daqueles que têm atrás uma caixa aberta. Como estávamos no Inverno, deduzi eu, a caixa ia fechada com uma capota alta em luzente azul portista, aliás como a frente do veículo. Diz o meu sapiente marido que é um “triciclo”. Não conheço estas denominações, pois no meu livro de código ainda não entravam estas cilindradas nem as dos chamados “mata reformas”…

Ele chega, dá três voltas à máquina verificando o seu aparente bom estado. Puxa da chave e abre a porta. Entretanto chega ela e ele, cavalheiramente, abre-lhe a porta do lado contrário onde ela se sentou regiamente.

De novo no lugar do motorista o homem leva as mãos ao tejadilho do motociclo e sacode-o bem, por três vezes, como que para aquilatar do excessivo, ou não, peso da viatura. Contente, olha em seu redor, faz o sinal da cruz e apresta-se a entrar. De novo sai, volta a sacolejar a “pancheleta”, benze-se de novo e por fim lá toma o volante.

 Dá o arranque, acelera o motor e então sai novamente, examina o cano de escape, mete o ombro à ombreira da porta, empurra uns pequenos passos, olha em redor todo ancho, esfrega as mãos uma na outra e volta  para dentro , desta vez sim, começando a rolar pelo alcatrão do estacionamento, com o fumo do escape a evadir-se livre e afoito qual fumaceira de um qualquer avião nos céus de Portugal!!!

Eu estava de boca aberta com tamanha exibição!

A minha grande arrelia foi não ter filmado esta cena espantosa! Só visto!

Quando o Raul chegou, pela minha cara logo deu conta que eu tinha alguma para lhe contar, Está-se mesmo a ver que lhe contei tudo, ponto por ponto, por ter as imagens ainda vívidas na memória.

Ele gostaria de ter presenciado, mas tão colorido foi o relato que anda mortinho por ver com os seus próprios olhos.

 Já quase calhou outro dia, mas desencontrámo-nos à entrada do Hiper e não tínhamos tempo nessa hora. Um dia destes vamos perder um pouco nosso rico tempinho, mas vai valer a pena se o folclore for o mesmo.

Não sei se vos consegui transmitir a situação de modo a deixardes escapar um ligeiro sorriso, nem que um pouco amarelo.

Não?

Então não valeu a pena estar p’raqui a esfarrapar-me e a gastar o meu lati?

Mas juro que não lhe acrescentei nem como o negro de uma unha. Sou muito fidedigna e também há cenas que valem por elas próprias, nem é preciso fazer como no velho ditado: ” quem conta um conto, acrescenta-lhe um ponto”.

Juro.

 

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Baú de Recordações - A Flor do Cardo ( A Serra em Renovação)

 

Flor do Tojo

O sol tem estado de apetecer, vai daí agarramos na mochila e…ala que se faz tarde! Aí fomos nós até à serra.

Subimos aos cabeços mais altos, velhíssimas moles de granito tão antigos que nos poderiam contar a história do Mundo. Redondos pela acção da erosão, mostram-se impávidos e serenos no acinzentado da sua cor. O musgo verde e viçoso pelo Natal, perigoso porque escorregadio, já murchou e dele só restam algumas repas torcidas e esturricadas do temporal que nos tem fustigado. Haja Deus!

Aqui e ali, nos lugares mais solarengos mas que retêm ainda a humidade retouçam agora lindos líquenes cinzento- -esverdeados, tenrinhos de meter dó.

Por entre as pedras esboroadas da serra, a água escorre cantando ou apenas sussurrando, aos nossos pés desprevenidos. Outra espraia-se mansa, em pequenas poças  onde as ervas pretensamente aquáticas se estiram maravilhadas com esta dádiva da natureza, tão pouco habitual  naqueles recantos mais ressequidos que outra coisa.

Olhar do alto e a toda a volta é contemplar uma minúscula parte do Paraíso. Tudo se vê, por léguas e léguas ao redor. O Raul identifica todas as montanhas e as povoações circundantes. Eu,” mal acomparado”, quase nem sei onde fica Vila Real.

Neste dia, como nesta semana, o céu tem sido pródigo de luz. As raras nuvens pairam altas e leves como só elas, de um azul aguado e formoso. O sol resplandece de amarelo e lá em cima respira-se o ar novo que remoça os pulmões, até os cansadotes como os nossos.

A paisagem tem que se lhe diga! Não é feita de grandes contrastes (que normalmente aformoseiam o horizonte), mas a serenidade das altas serras, nos tons” degradé” de cinzento e lilás, não sei se é porque as sentimos nossas, mas lava a alma e o espírito renova-se nesta convivência de solidão.

Flor da Serra da AzinheiraEmpenhados na procura de vestígios arqueológicos, fomos calcorreando a serra e fotografando algumas coisas que nos pareceram interessantes, inclusivé mais das célebres covas e covinhas de que este lugar é prenhe. Não fomos muito afortunados, mas desenferrujámos as pernas e viemos por aí fora a “cantar muito calados”, como diz uma amiga minha, que lá nas “estranjas”muitas saudades deve ter deste torrão transmontano.

Então não é que, ao olhar, nos aparece um brilho amarelinho, amarelinho? Fiquei alvoroçada! Já há flores!!!

-Qual o quê? - diz logo a minha cara - metade.

-Então anda cá ver.

-São as flores do tojo (ou cardo).

- Pois são. Nem são belas nem vistosas, mas têm uma grande qualidade: são das primeiras.

Ora escutem:

- Uma juvenil mamã muito orgulhosa da sua pequena cria, andava com ela mais uma amiga a passear no Jardim das Fontaínhas. Tratava-se de um dia aprazível e por isso as ruas se encontravam mais movimentadas do que o habitual.

Eis senão quando, de entre outras que por ali se refastelavam ao sol, surge uma rapariga parecendo “um pau de virar tripas”,  tão esquelética se mostrava. De rudes feições morenas e mal amanhada num corpo sem harmonia de formas, passa e diz para a acompanhante da deleitada mamã:

-Ai, esse miúdo, não é nada bonito, pois não?

Nem tempo teve a outra para lhe retrocar. Vira-se furiosa a mãe e como uma cobra assanhada, logo lhe dá o troco na sua forma repentista de rimar:

-Olha lá a flor do cardo

Que fala do que não sabe.

Mais valia tapar a cara

P’ra bem dizer a verdade.

A outra desandou dali com o rabo entre as pernas, pois não faltou quem logo apoiasse a mãe e criticasse a falta de delicadeza da, nunca mais esquecida, “Flor do Cardo”.

Pois nós, antes de virmos embora ainda esbarramos em mais duas florzinhas de cabecinha ao sol. Airosas e belas, estas sim, num precoce louvor à Natureza que desta forma subtil e donairosa se renova para regalo dos olhos e contentamento do Mundo que anseia pela Primavera.

 

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