O meu divórcio com a Sétima Arte
Reconheço que a primeira vez que me cruzei com ela não foi amor à primeira vista. Tinha eu quatro anos. Na sala, era projectado um tal de ‘Música no Coração’. Contaram-me que, talvez embalado pela bela música que ecoava na sala, dormi durante a maior parte do tempo e nem prestei atenção à bela senhora que dava pelo nome de Sétima Arte.
Esse facto não foi impeditivo para ir construindo uma relação entre ambos. Ela, já centenária, causava-me fascínio e deixava-me boquiaberto com todas as cores e sons que tinha. Por vezes era monótona ou dava-me uma grande desilusão, outras vezes assustava-me do princípio ao fim e eu até ficava traumatizado (leia aqui), mas na maioria das vezes era bastante divertida e audaz, deixando-me com um sorriso na cara quando lhe dizia adeus.
Porém, um dia senti que algo não estava bem. Ela tinha mudado muito desde que eu a conheci. Antes, ela tinha casas grandes onde nos encontrávamos. Não me importava de partilhar as casas ‘Monumental’, ‘Império’ e ‘São Jorge’ com mais gente. Aliás, dava gosto ver aquelas casas com lotação esgotada. As visitas usavam a sua melhor roupa e a maioria gostava de aparecer nas tardes de Domingo. Os tempos eram outros e haviam funcionários para indicar os lugares aos visitantes. Os ‘espertos’ iam sozinhos à procura do lugar, mas a maioria gostava de ser encaminhada ao seu lugar marcado, por uns senhores que tinham uma lanterna. Havia uma postura de pontualidade que afectava a maioria dos visitantes permitindo que todos fossem encaminhados com calma aos seus lugares. Por vezes, quando todos já estavam sentados e as luzes já haviam sido apagadas para se começar a ver anúncios em formato gigante, lá se via o foco da lanterna para encaminhar um qualquer atrasado. Os presentes rangiam os dentes e esse acto imoral até era esquecido quando o filme começava a ser projectado. Era raro alguém entrar quando o filme já estava em exibição. Também haviam intervalos que permitiam esticar as pernas, ir à casa de banho e até mesmo comer um lanchezinho.
Os tempos foram mudando e ela sentiu-se obrigada a acompanhar as novas tendências, sob pena de ficar sem visitas. As grandes casas foram vendidas e substituídas por casas mais pequenas. Algumas sofreram obras e deram também lugar a salas mais pequenas. Aumentaram o número de sessões diárias, passando de três para cinco. O desassossego era total e as visitas tanto podiam chegar às 12:40 como às 00:15. Para se conseguirem fazer estas sessões, como ninguém queria cortar os filmes - ao contrário do que já fez a TVI (ver aqui) – a solução passava por eliminar os minutos de publicidade - que sempre disfarçavam as entradas de pessoas atrasadas - e os intervalos para esticar as pernas. O intervalo entre sessões ficou muito curto e os senhores das lanternas foram despedidos, já que os lugares deixaram de ser marcados. As visitas perderam o respeito por ela. Visitar uma das suas novas casas tinha-se transformado num acto banal, onde determinados comportamentos, que antes ninguém imaginava que pudessem ocorrer e seriam imediatamente classificados como uma absoluta falta de respeito, eram agora comuns, passando a haver apenas um ranger de dentes por parte de alguns e um encolher de ombros por parte dos restantes.
Foi então que decidi que estava na altura de pedir o divórcio. O mal não era ela, era eu. Decididamente, já não suportava frequentar as suas pequenas salas e ficar muito tempo sem me poder levantar. Sobretudo, não conseguia admitir a absoluta falta de respeito de muitas das suas visitas. A última vez que estive com ela numa sala de cinema, foi em 1995. Dessa despedida, recordo-me que era projectado um tal de ‘Se7en’.
Mas ficámos óptimos amigos e eu continuo a ter fascínio por ela. Vejo-a imensas vezes através de emissões em directo no pequeno ecrã ou em emissões em diferido, à custa de uns objectos a que chamaram DVD.
Nestas coisas, quem sai de casa costuma ficar a perder e foi isso que me aconteceu. Na sala onde tenho o pequeno ecrã é impossível reproduzir as excelentes condições de visionamento que ela possuía nas salas onde recebia as visitas. O ambiente não é intenso e é raro dar um pulo na cadeira, ou melhor, no sofá. Os sistemas dolby-surround são para esquecer, pois para serem usados na sua plenitude e com excepção dos que moram numa vivenda isolada, corremos sempre o risco do vizinho tentar derrubar a parede com o cabo da vassoura. O sonho era mesmo ter uma sala privativa.
Pontualidade foi algo que evoluiu de forma errada com a sociedade. Existe falta de planeamento, que provoca atrasos consecutivos nos prazos de início e de execução das tarefas. Assim, todos dizem que nunca têm tempo para nada. Tal facto, poderá ser a explicação para alguns entrarem numa sessão de cinema já com quinze minutos de projecção. Como é óbvio, quem chega atrasado incomoda todos aqueles que tiveram a preocupação de chegar a horas. Como os cinemas querem vender bilhetes, nenhum vai impor regras que impeçam a entrada de pessoas com a sessão a decorrer, logo, estes actos vão sendo assumidos como algo normal.
Face aos casos de violência que vão acontecendo nos locais de diversão nocturna, há quem defenda os detectores de metais à entrada desses locais. Eu, defendia a existência de detectores de telemóveis à entrada das salas de cinema. A sua entrada seria pura e simplesmente proibida. Nos locais onde se deixam os casacos e guarda-chuvas, os espectadores seriam obrigados a depositar aí todos os aparelhos electrónicos que emitissem sons, que permitissem a comunicação oral ou o envio/recepção de SMS. No fim, mediante entrega do canhoto, poderiam reaver todos os seus bens electrónicos, indispensáveis para sobreviverem no século XXI.
Em tempo idos, os assuntos importantes eram tratados no intervalo da sessão, nos telefones públicos disponíveis. Ninguém era indispensável e todos entravam numa sessão cinema sem colocarem a hipótese de serem contactados, aliás, como poderiam ser contactados? Os tempos mudaram e todos passaram à condição de indispensáveis. Os objectos electrónicos de comunicação servem para serem usados em qualquer situação e pobre daquele que tenha o objecto desligado.
Para mim, é inconcebível que a meio de uma sessão de cinema se possa ouvir um tiri-ri-tiri-ri, ou um ‘ehhhhh marcarena, aiiiii’, ou um ‘I still miss you, a lálálá uuuh, a lálálá uuuh’, apenas porque o possuidor do telemóvel pensa que desligar o dito pode conduzir no futuro ao seu mau funcionamento.
E colocar no silêncio não é o mesmo que desligar. Mesmo no silêncio, há quem vá recebendo e enviando SMS. Porém, esquecem-se que a luz azulada de um telemóvel no meio de uma sessão de cinema, parece o farol do Cabo Espichel numa noite de lua nova. E esta atitude parece ser comum a todos. Faz pouco tempo que Paulo Portas foi ver o ‘The Departed’. A meio do filme, vejam o que lhe aconteceu: «…A mim aconteceu-me receber um sms mesmo na altura de um pormenor não despiciendo. Resultado – não tenho a certeza de ter percebido tudo. Vou ter de repetir…».
Uma prova do que estava a dizer. Ele ficou sem perceber um dos pormenores do filme (problema dele), mas de certeza que incomodou os vizinhos do lado com a luz que brotou do aparelhinho. Leia mais aqui.
Comida e bebida. Se nas lojas é proibido entrar a comer e a beber, então, porque motivo foram alguns cinemas adoptar essa escabrosa ideia proveniente dos EUA? Gostos não se discutem, mas eu não conseguiria estar a ver um filme com a sala a tresandar a pipoca. E nas cenas de suspense, onde o silêncio impera na acção por minutos e onde sabemos que a qualquer momento vai haver um ‘BUUUUH’ que nos fará saltar da cadeira, como é possível ter alguém do nosso lado a fazer:
CRUNCH, nhac, nhac, nhac, nhac
CRUNCH, nhac, nhac, nhac, nhac
SCHHHHHHHRULP (coca-cola)
CRUNCH, nhac, nhac, nhac, nhac…
E se vem o ‘BUUUUH’, o senhor engasga-se e cospe tudo para o pescoço do vizinho da frente?
E outro aspecto que nunca percebi. Ao comer as pipocas, os dedos vão ficando engordurados. Onde são limpos? Nas calças ou nas pontas dos braços da cadeira?
Já agora, e uns Hambúrgueres ou Cachorros quentes, para besuntar tudo com ketchup e mostarda?
Na altura do divórcio, o juiz ainda disse: “existe alguma forma de evitar esta decisão?”. Eu lá disse: “Bom, se todos aqueles que forem ao cinema assinarem a seguinte declaração, ainda poderei reconsiderar a minha decisão. Sr. Dr. Juiz, o documento poderia ser algo do género:”
«Eu, _____ , portador do BI _____ , comprometo-me com os seguintes pontos sempre que entrar numa sala de cinema:
- Nunca irei entrar com as luzes da sala já apagadas;
- Nunca irei entrar com um telemóvel ligado;
- Nunca irei entrar com qualquer tipo de comida ou bebida;
- Se tiver tosse, irei desembulhar o rebuçado Dr.Byard em menos de dez segundos;
- Quando as luzes se apagarem, interrompo todas as conversas que possa estar a ter com vizinhos do lado;
- Quando as luzes se apagarem, não continuarei as conversas com o vizinho do lado, mesmo que a segredar ao ouvido;
- Se já tiver visto o filme, nunca, mas nunca em tempo algum, direi: nem imaginas o que vai acontecer agora – ou – este morre no fim!;
- Terei o cuidado de mudar de meias e de camisa;»
Eu sei, não sou uma pessoa fácil e tal como já mencionei, o problema é meu, não é dos outros.
Esta imagem, irá sempre representar a magia do cinema. Como a população da aldeia não cabia na sala de cinema, Alfredo faz a projecção do filme na parede de um edifício da praça. Salvatore, olha deslumbrado para a magia que acontecia.
Fica também a memória de Philippe Noiret, falecido no final de 2006. Um dos filmes da minha vida, “Nuovo cinema Paradiso” (1988).
Num site sobre Cinema, que eu costumo visitar, fizeram um debate sobre as causas da diminuição acentuada nos últimos anos de espectadores nas salas de cinema. Foram colocados os seguintes pontos orientadores para o debate:
1) O poder avassalador das televisões;
2) O crescimento exponencial do mercado do DVD;
3) A importância da Internet no quotidiano dos cidadãos;
4) De que modo o aumento do número de estreias (6, 7 e mais por semana) produz um efeito de “apagamento” dos filmes com menores campanhas promocionais?
5) Quais os efeitos práticos da crescente “aceleração” da exibição dos filmes (por vezes automaticamente condenados a uma única semana nas salas)?
6) Porque é que, a par de estreias comercialmente irrelevantes, surgem cada vez mais filmes potencialmente interessantes a ser lançados directamente em DVD?
Apesar de não ser um ponto de debate, foram muitos os que se queixaram do preço dos bilhetes. Houve quem disse que levar quatro pessoas ao cinema representava um custo de vinte euros. Por esse valor, poderiam comprar o DVD e ver as vezes que bem quisessem. Leia todos os comentários do debate aqui.
Estarei sozinho neste processo de divórcio? Concorda com os pontos anteriores como explicação da inegável redução do número de espectadores nos últimos anos?
Aqui no SOL
O senhor Smith foi a Washington (meiadeleite)
Alice, cinema europeu vs. cinema norte-americano (meiadeleite)
12 Meses 12 Filmes - O Adeus (bp63)
Cinema em Casa substitui Salas de Cinema (samxis)