El Rei D. Caracol
Chega o calor e todo o povo procura locais que tenham o aviso na porta: “Há Caracóis”. Pois é precisamente aqui que começa o meu problema. O leitor habitual deste blogue já deverá estar a pensar: ‘Pronto! Lá vem ele dizer que não gosta!”. Caro leitor, digo que já me conhece. Eu devo fazer parte dos cerca de 1% de portugueses que admitem não gostar de caracóis. Porém, o meu caso ainda é mais grave. Eu devo fazer parte dos cerca de 0.01% de portugueses que admitem não gostar de caracóis sem nunca terem provado um.
Calculo o que vai dizer de seguida, ou seja, que quem perde sou eu por não provar ou gostar de tão grande pitéu. Poderei estar a perder uma maravilha gastronómica mas a repulsa é mais forte do que eu. O sétimo mandamento do meu estômago diz que: ‘Não comerás coisas semelhantes a lesmas com antenas, capazes de deixar um rasto de muco viscoso e brilhante’. Mesmo assim, não é um mandamento tão restritivo como o oitavo: ‘Não comerás partes impróprias dos animais, como faceira, orelha, língua, olhos, mioleira, dobrada, iscas, pipis, e afins’.
Eu equiparo a ingestão de um caracol à ingestão de gafanhotos, aranhas, minhocas ou outros insectos, se bem que um caracol não seja um insecto mas sim um molusco gastrópode de concha espiralada calcária, pertencente à família Helicidae.
A imagem de alguém a trincar um gastrópode meio enrolado na ponta de um alfinete ou palito é para mim ligeiramente nauseante. Nesse aspecto, o limite é atingido no caso de ser alguém a ingerir um gastrópode gigante, da família das Achatina Fulica, ou seja, a vulgar caracoleta.
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Chega o calor e eu sinto-me sempre marginalizado. A irmandade do caracol é muito unida e não vê com bons olhos a presença de malta sem um alfinete na mão, incapazes de saborear um prato de gastrópodes acabados de cozer numa amálgama de temperos, com o objectivo de lhes dar algum sabor. É como ir com um chupa-chupa para o meio de um clube do charuto, fazendo de conta que se partilha do mesmo interesse. Não dá mesmo.
À pergunta: “O que é o jantar?”, vem a resposta constrangedora: “Vamos comer caracóis!”. Ora, quando um grupo se dirige a um local para comer caracóis, convém que todos estejam em sintonia. No que toca ao pedido, já se sabe que a comida passa por pratinhos de caracóis, havendo apenas a dúvida entre o número de Imperiais e/ou garrafas de Sumol de Laranja. O que fazer então ao marginal que não é capaz de comer caracóis? Pede-se uma sandes de queijo? uma bifana? Um prato de tremoços? É preciso reconhecer que este tipo de dúvidas podem dar do esquema colectivo.
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O facto de não gostar de caracóis, não me impede de fazer um estudo detalhado sobre esses gastrópodes. Aliás, era o mínimo que podia fazer por aquele que é talvez, o Rei dos petiscos nacionais.
Comecei por pesquisar sobre receitas para confeccionar o dito pitéu. São todas muito semelhantes, mas existem sempre uns pozinhos de perlimpimpim.
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No www.gastronomias.com, encontramos a receita:“Caracóis à Portuguesa”
Ingredientes: 1,5 kg de caracóis pequenos; 2 colheres de sopa de azeite; 3 dentes de alho; 1 cebola; 1 folha de louro; 1 ramo de óregão; sal; pimenta; piripiri.
Confecção: Leve os caracóis ao lume numa panela de água (dois ou três dedos acima dos caracóis). Junte o azeite, os alhos, a cebola cortada em quartos, o louro, os orégãos e tempere com sal, pimenta e piripiri. A fervura deve ser suave e longa (cerca de 2 horas) e a espuma retirada de vez em quando. Conserve-os no líquido da cozedura até a altura de servir. Sirva quente em pratinhos com um pouco de caldo.
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E no www.netmenu.pt, encontramos a receita da região do Baixo Alentejo
Ingredientes: 2l de caracóis;1/2dl de leite; 4 dentes de alho; 1 folha de louro; Orégãos; Sal e pimenta.
Confecção: Os caracóis devem ser lavados abundantemente até não deitarem qualquer sujidade. De seguida, coloque-os a cozer em água com o sal, a pimenta, o leite, o louro e os alhos que devem ser cortados a meio. Deixe cozer sempre em lume brando para que o caracol saia o mais possível.
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Nestas duas receitas vemos diferenças ao nível dos ingredientes, como é o caso do azeite, do leite, da cebola e do piripiri. Mas nada melhor do que libertar o génio de cada apreciador de caracóis. Indico de seguida uma lista de pequenos truques mencionados por diversos cozinheiros de ocasião.
- Hortelã da ribeira dá um excelente paladar aos caracóis.
- Experimentem meter também duas ou três cascas de limão, fica um espectáculo.
- Knorr (galinha), pimenta e não piripiri, o sabor é diferente.
- Poejo, segurelha ou hortelã da ribeira. Mas uma coisa de cada vez, claro.
- Em substituição do Caldo de carne fazer um ligeiro refogado com cebola, bacon, pimenta e louro e, depois de apurado, juntar um pouco de água para fazer o caldo.
- Para que, depois de cozinhados, os caracóis fiquem mais limpos e apetitosos, a junção dos Orégãos deverá ser feita na panela, enquanto cozinham, mas sob a forma de chá. Desta forma fica o sabor sem as folhas da erva misturadas.
- Experimentem meter 1 cerveja 0,33cl branca na cozedura, vão ver o que é bom.
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Um truque que se relaciona com o espírito de sobrevivência dos moluscos gastrópodes. Estes, em contacto com coisas salgadas ou ácidas, recolhem-se para o fundo do T0 que transportam às costas. Assim, para que você não passe a refeição a escarafunchar as cascas com alfinetes ou palitos, na tentativa desesperada de conseguir espetar um destes danados de corninhos, o sal e o piripiri só deverão ser adicionados à cozedura depois dos bichinhos estarem devidamente mortos em consequência da temperatura elevada da água da panela.
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Outro aspecto. Os bichinhos, por se alimentarem de ervas, apresentam um sabor amargo. Novamente, segundo os entendidos, parece que esse inconveniente pode desaparecer, se os desgraçados ficarem alguns dias em jejum.
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Conheça aqui a Helix, uma empresa nacional que se dedica à criação de caracóis em viveiro. Saiba que toda a produção da Helix é canalizada para França, onde a produção é insuficiente para responder eficazmente à grande procura. O consumo de caracóis em França ronda as 40.000 toneladas anuais, das quais, 20.000 são importadas de países como Portugal, Espanha e Grécia.
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Sobre os seus benefícios, saiba que os caracóis são recomendados nos casos de raquitismo e no combate ao colesterol. Graças ao alto teor de sais minerais e ferro, são úteis durante a gravidez e amamentação (duvido é que possam ser cozinhados com todos aqueles condimentos). São pobres em lípidos e podem ser consumidos por aqueles que sofrem do fígado, arteriosclerose e obesidade.
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Estas propriedades benéficas do caracol e o seu consumo desenfreado nos meses mais quentes do ano, fez-me pensar numa oportunidade de negócio. Que tal, garantir a existência do amigo dos corninhos durante todo o ano? Será que não é possível comercializar miolo de caracol? Só pode ser. Já se vê tudo à venda nas grandes superfícies e este seria um produto que iria alegrar muitos portugueses.
Ainda hoje me dirigi ao site Empresa na Hora, e obtive toda a informação necessária para abrir aquela que será, dentro de muito pouco tempo, uma empresa de sucesso. Fiquei satisfeito por saber que o nome Allracol estava disponível.
Este produto, que será de enorme qualidade e cumprirá os mais altos critérios de exigência, tem já definido o rótulo das embalagens, que se apresenta de seguida:
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Pensem agora em todas as suas utilizações. Secos e com sal, para servirem de aperitivo com as bebidas. Em Pizzas, em empadões, em sandes, à bolonhesa, em rissóis, em saladas, etc. E tudo à distância do simples abrir de uma embalagem de Allracol.
Depois, podem-se adicionar várias vitaminas para obter produtos direccionados para cada tipo de necessidade, p.e., casos de “Allracol Cálcio Extra” e “Allracol Cerebrum”. Utilizando corantes e açúcar podem-se fazer gomas fantásticas e ganhar o mercado dos consumidores mais pequenos. O miolo Allracol pode também ser aglutinado com mel e amendoins para o fabrico de barritas energéticas. A imaginação é o limite.
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No Algarve, não perca em Maio de 2008, a Festa do Caracol que se realiza em Castro Marim.
No Technorati a pesquisa por Caracol em nomes de blogues devolve 23 resultados. Os blogues Canto do Caracol, Caracol Azul, Vida de caracol II, Há Caracóis (sobre anúncios a dizer ‘Há Caracóis’), são alguns exemplos.
Por curiosidade, podiam indicar qual é a época do caracol?
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