Acesso à Universidade, Matemática, Sonhos e afins
Quando nos últimos dias se falou dos ‘brilhantes’ resultados nos exames de Matemática e em mais uma ronda de candidaturas à Universidade, não pude deixar de recordar um período da minha vida onde a indecisão estava a dar cabo de mim. Corria o mês de Julho do ano de Mil Novecentos e Oitenta e Sete, na graça do Senhor, e eu acordava com a decisão de seguir Arquitectura e deitava-me com a certeza de ir para Eng.º Civil. Mas para o leitor compreender a situação, vou recuar uns quatro anos.
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Sempre tive o ‘sonho’ – objectivo identificado no imaginário, cuja concretização depende da vontade do próprio, da sociedade, do meio ambiente e da ponderação de prós e contras ou custos e benefícios, podendo ser substituído por outros objectivos sem que daí resulte dano considerável para quem o formulou (segundo bluewater68) – de seguir Arquitectura. Gostava de ver projectos. Imaginava e desenhava a casa onde um dia havia de viver. Numa época onde a televisão só tinha dois canais e onde consolas de jogos eram Ficção Científica, Desenhar era uma forma de ocupar o tempo. Por estes motivos, após concluir o 9º ano, tomei a primeira decisão que iria condicionar o meu futuro escolar e decidi inscrever-me na escola António Arroio, como forma de obter a melhor preparação para mais tarde poder frequentar a Escola Superior de Belas Artes.
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Se as disciplinas de desenho eram feitas com gosto e davam boas notas, o mesmo já não se passava com a famosa Matemática. Quer dizer, eu nem tinha de me preocupar com a nota, já que o professor era tão mau, mas tão mau, que ele próprio se recusava a chumbar alguém. Não quero divagar sobre quais as justificações que manteriam alguém assim a leccionar, mas em termos práticos posso dizer que foi uma nulidade aquilo que aprendi na disciplina de Matemática no 10º e 11º ano.
Chegado ao 12º ano, tive de tomar a segunda decisão curricular. Ficar na António Arroio e apanhar com os exames de acesso de Geometria Descritiva e Física, ou, mudar para uma escola que permitisse o exame de Geografia. Nesse tempo, o acesso à faculdade era feito com dois exames em três disciplinas nucleares possíveis. Escolher duas entre Geometria Descritiva, Geografia, Física e Matemática, não provocava qualquer dúvida. Por isso, toca a marchar para a escola secundária da Cidade Universitária. Foi quando descobri que o ‘King’ e a ‘Copa’ eram formas viciantes de ocupar os tempos livres.
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Finalmente vem a hora de todas as decisões. A média obtida nos anos anteriores teria um peso de 30% (não me recordo) e o resto seria decidido em dois exames. Se Geometria Descritiva foi trigo limpo, Geografia nem por isso. Ó miséria, ó inclemência. Seria possível que a média de acesso em Arquitectura fosse acima de 16 valores? Mas eu ia desenhar casas ou ia fazer uma operação ao cérebro? Ó tristeza, que a minha média não dava para concretizar o sonho. Opções? Ir para um curso que não fazia parte do guião do sonho, ou, andar um ano a marcar passo para tentar subir a média. Isso conduziu-me à terceira decisão curricular e empurrou-me para um externato ali para os lados do CC Imaviz.
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Passado mais um ano, toca de repetir os exames de acesso. Por algum motivo que ainda hoje desconheço, eu e Geografia não éramos unha com carne. Em resumo, um ano perdido e a mesma média que me impedia de um dia poder aparecer em filmes caseiros, na qualidade de Arquitecto.
Se a Faculdade das Belas Artes estava inacessível por uma questão de números, outros números, do género financeiros, poderiam permitir manter o sonho vivo, bastando apenas candidatar-me à Faculdade Lusíada e esperar que a minha patrocinadora educacional conseguisse pagar todos os meses cerca de 25 contos (uns 125€, para aqueles que nunca conheceram o escudo). E seria preciso somar todos os custos em material e livros escolares, que não era pouco para o curso em causa. Na altura também havia o problema do curso ainda não estar reconhecido.
A alternativa seria esquecer os dois anos em que a Matemática foi uma brincadeira, o facto de não ter tido Física no 12º ano, e candidatar-me ao curso de Eng.ª Civil no IST. Pelo menos seria o mais parecido com o grande sonho.
Incapaz de tomar uma decisão, fiz as provas de acesso à Lusíada (tendo sido admitido) e candidatei-me ao IST.
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Foi assim, graças a uma balança perfeitamente equilibrada, que eu passei uma das semanas mais terríveis da minha vida. Tinha de tomar mais uma decisão curricular, que iria marcar o meu futuro e não encontrava um argumento que me fizesse decidir de forma inequívoca. Seguia o sonho, mesmo com enormes dificuldades financeiras e obtinha um curso numa universidade privada, podendo mais tarde ficar sujeito a estigmas profissionais, ou optava por uma solução que poderia trazer mais segurança e opções profissionais, estando no entanto sem bases sólidas para o frequentar?
Muitos Prós e Contras depois, a escolha acabou por ser feita sobre o curso de Eng.ª Civil.
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A primeira aula a que assisti foi uma Teórica de Química. Quando terminou, a única coisa que me ocorreu dizer foi “O que foste fazer…!?”.
E a Matemática? Muito simples. Durante dois anos, passei a fazer parte da mobília da Biblioteca da Penha de França. Nesse local, encontrava o incentivo e as condições adequadas para o estudo intensivo e solitário de Matemática do 10º ao 12º ano. Ou fazia isso, ou ficava a marcar passo por muitos e muitos anos, ou mudava de curso.
Pode ter existido facilitismo no recente exame de Matemática, apenas como forma de mostrar que as reformas no ensino dessa disciplina estariam a produzir bons resultados, mas se da parte dos alunos não houver uma preparação adequada e exigente, então vão haver muitas desilusões e ‘cadeirões’ em atraso durante muitos e muitos anos.
Nunca foi a favor de qualquer facilitismo no acesso á Faculdade. De nada serve escancarar as portas se depois, por falta de preparação, os alunos acabam por passar muitos anos a tentar fazer cadeiras em atraso. Nesse aspecto, acho que o grau de exigência deve existir desde o início. E se me perguntarem a opinião, acho que os exames do 9º ano foram uma excelente medida. Não sei quem escreveu isto em 2005, mas concordo em absoluto «É surpreendente que só agora haja exames, e que estes apenas abranjam a Matemática e a Língua Portuguesa. Mas é ainda mais surpreendente que o que deveria corresponder a uma prática rotineira tenha sido alvo de forte contestação. [+]»
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E o Sonho? O sonho foi-se. Ponto. Ou melhor, foi substituído por outros objectivos tangíveis sem que daí tenha resultado dano considerável para Moi-même. Seria preferível continuar a perseguir um sonho que muito certamente nunca seria concretizado? Abdicar de muitos momentos únicos na vida apenas para riscar o item da lista? Não penso assim.
Logo após ter tomado a grande decisão curricular, uma das frases mais ouvida foi “Deixa lá. Tiras agora esse curso e um dia mais tarde inscreves-te no outro”. É uma hipótese e nada impede que isso aconteça. Porém, depois de passar vários anos na faculdade, qual é a pachorra para voltar ao início? E muito provavelmente, na condição de trabalhador-estudante, o que torna ainda mais complicado todo o processo.
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Na maioria dos casos, o curso escolhido no acesso à universidade será uma escolha para toda a vida. Segundo alguns, uma escolha a fazer lembrar os eternos casamentos com mulheres não–modernas e não-tatuadas, onde elas eram autênticos livros em branco, possíveis de serem gatafunhados diariamente pelos seus companheiros.
Alguns poderão mudar de curso já dentro da Universidade.
Poucos, muito poucos, vão acabar um curso e avançar para o seguinte.
Por isso, o dia da inscrição no ensino superior é sempre um dia memorável, já que na maioria dos casos são feitas escolhas que definem o caminho académico a seguir, o qual, certamente, condicionará o futuro caminho profissional.
É engraçado constatar como o árduo caminho universitário começa logo nas longas filas para entregar a candidatura. Os “Zês” foram no dia dos “Ás” e dos “Bês”. Outros já iam no 3º ou 4º impresso pois pensaram estar a preencher o Euromilhões. Os impressos esgotaram. Uns não confiam na Net nem em Simplexes. E tal como alguns disseram, “Este é o dia que decide a minha vida” ou “É a oportunidade de uma vida”. Tudo isto e muito mais, num Vídeo RTP.
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Nisto do sonho Arquitectónico não me admirava que um dia fosse abordado por um tipo parecido com o Matt Damon mais anafado (ler aqui) e que ele me dissesse algo do género,
- Olá, eu sou tu. Não me olhes assim. Tá tudo bem contigo? Feliz com o teu trabalho? Eng.º Civil!? Parece que sim. Dizem que os sonhos são para quando se está a dormir. MUDASTI! MUDASTI!
Provavelmente dizia-lhe para ir chatear o vizinho do lado e para me deixar em paz com o Icetea que eu já bebo há vários anos.
O caminho seguido foi bem diferente do que eu sempre tinha sonhado. No entanto, isso não invalidou que o objectivo académico fosse feito com gosto e empenho, e que a realização profissional acabasse por acontecer.
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Dedico este texto a todos os que vão começar uma das etapas mais importantes da sua vida e desejo que consigam realizar todos os seus sonhos académicos ou profissionais.
E sobretudo, dedico este texto a todos os que, com muita coragem e dedicação, decidem voltar a tirar um curso superior, frequentando aulas à noite e ficando menos tempo com aqueles que mais gostam. Neste SOL, transmito toda a força para Patana.