Patrões ou terroristas
Hoje em dia fala-se muito de terrorismo. Da Al Quaed e de Bin Laden pela capacidade que têm de destruição e de ameaça à vida e ao bem-estar das pessoas. Mas esquecem-se dos terroristas do quotidiano. Aqueles que exercem a coação, criam o medo, espezinham as leis e destroem lentamente a vida das pessoas.
Contra esses nem as polícias, nem os estados, nem os tribunais se parecem preocupar. Agora compreendo bem aquele trabalhador dos escritórios de uma grande superfície que um dia com um simples vírus informático provocou enormes estragos no sistema de gestão de stocks ou a operadora de caixa que quando percebeu que ia ser despedida se passou a esquecer de registar um produto de vez em quando oferecendo uma prenda aos clientes. Ou até os que roubam sistematicamente nas grandes superfícies.
Quando se aviam num supermercado, quando fazem as vossas compras não se esqueçam que aquelas pessoas que vos atendem podem estar a ser vítimas de um terrorismo bem mais subtil e perigoso do que aquele com que se abrem os telejornais. Porque mexe com as suas vidas e o seu quotidiano. E porque acontece todos os dias e fica impune. E já agora porque não começar a pensar em boicotar as grandes superfícies que tratam assim os seus trabalhadores? É que até podemos comprar noutros lados.
Leiam a reportagem do jornalista Paulo Mora do Público e depois digam se não tenho razão:
Nos hipermercados, trabalha-se muitas horas seguidas. Chegou até a estar marcada uma greve para hoje, que foi desconvocada. Mas quem são? Como é o seu dia-a-dia? Fomos falar com eles, na véspera do Natal
Marisa (*) abre e fecha a boca como quem está a dizer qualquer coisa. Ali, na balança, não é suposto fazerem-lhe perguntas, mas fazem. "Os alhos estão ali junto às cebolas", é o que os lábios dela pronunciam. Mas o que se ouve é: "..." Perdeu a voz por trabalhar demasiadas horas no bacalhau. "Senha 62!", gritava, em frente ao cartaz que classifica o bacalhau e o Natal de cada um dos clientes que enchem completamente o hipermercado. "Miúdo. Corrente. Crescido. Graúdo. Especial." Avançava para a serra eléctrica com o peixe seco na mão. "Em postas finas? São 35 euros. Senha 63!" Nove horas seguidas. No turno seguinte estava, afónica, a pesar os vegetais.
"Ontem deixei cair uma palete no pé", queixa-se Ana, mais de 40 anos, óculos grossos, farda e boné brancos, enquanto arruma os pacotes de frutos secos. "Mal consigo andar. Mas agora não posso fazer folgas. Só daqui a duas semanas."
Filomena está há 10 horas seguidas na caixa. "Alô? Boa tarde? Não, não é para dizer boa tarde. Não há razão para dizer boa tarde. É que estas beterrabas não têm cadastro. Passo-as e não regista. Podes vir aqui?"
Os produtos têm um código de barras, e o trabalho de Filomena é passá-los num scanner e metê-los num saco. Cada vez que o faz, a leitura óptica processa instantaneamente a informação de preço e características e envia-a para a área de gestão de stocks. Ao mesmo tempo, o sistema está a detectar automaticamente as variações no comportamento dos clientes, os seus hábitos de consumo, concretos e potenciais.
Filomena está a recolher toda esta informação, sem saber. "Se houver greve, eu não faço. Já me avisaram que as chefias vão ter de comunicar à gerência quem foram as trabalhadoras que faltaram. E depois, quando for para renovar o contrato..."
O Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Escritórios e Serviços de Portugal (CESP) não sabe ao certo quantos trabalhadores no sector da grande distribuição estão numa situação de precariedade. Mas o número situa-se entre os 30 e os 40 por cento dos quase 90 mil empregados das empresas da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED). Têm contratos a termo, a seis meses, que são ou não renovados consoante os gerentes estão satisfeitos. E eles são difíceis de satisfazer, a julgar pelo elevado índice de "rotatividade" no sector. Num hipermercado, onde podem trabalhar de 200 a 400 pessoas, quase todos os dias surgem operadores novos nas caixas.
Um "saco de horas"
Os trabalhadores da APED têm horários flexíveis. O sistema, acordado entre as empresas e os sindicatos, permite trabalhar 40 horas semanais, em jornadas de 8 horas, ou mais. Isto em teoria. Na prática, diz Elisabete Santos, da direcção do CESP, os operadores já fazem 50 horas semanais, que deveriam ser compensadas cada 8 semanas. Mas essas folgas extra raramente são gozadas. Passam para um "saco de horas" eternamente adiado. Segundo o CESP, a alteração que a APED quer agora introduzir não será mais do que a legalização dessa situação de facto.
Em períodos "especiais", como o Natal, os trabalhadores chegam a estar 14 horas seguidas ao serviço. Almoçam e jantam o que trazem na marmita, na sala dos funcionários, e voltam ao trabalho. Quando estão em locais de função ininterrupta, como na caixa, têm direito, teoricamente, a 10 minutos para irem à casa de banho. Na prática nem sempre conseguem substituição e, sim, é verdade que há muitos casos em que urinam ali mesmo. Numa reunião com as chefias, que alguém relatou a Elisabete Santos, chegou a ser sugerido que as operadoras usassem fraldas. Quando vão à casa de banho, não é raro haver uma câmara à entrada, para controlar o tempo que passam lá. Mas a pressão não acaba aí. Em vários hipermercados, há câmaras colocadas nas áreas de pessoal, e as trabalhadoras têm as malas revistadas à entrada e à saída. Em alguns, como os do grupo Auchan, há um semáforo aleatório na porta. Verde, pode seguir. Vermelho vai à revista. Noutros, como no Pingo Doce, existe o chamado "Stop aos cacifos", em que os compartimentos privados dos trabalhadores são abertos e verificados.
Horário "de bolso"
Mas, além da extensão das jornadas de trabalho, os seus horários podem ser alterados a cada dia, consoante as conveniências do serviço. Uma coisa é o "horário afixado", outra é o informal "horário de bolso". Este é o que pode ser alterado de véspera, convocando o trabalhador para o dia em que tinha marcada uma folga, ou prolongando o trabalho até às 10 ou 11 da noite. Legalmente, hoje em dia, isto não pode ser feito. Mas é. Segundo a proposta da APED, esta prática passaria a ser legal.
Para muitos trabalhadores, é impossível viver assim. Ou por terem filhos, ou por viverem longe e precisarem de 3 ou 4 horas por dia para os transportes, ou porque, à hora em que saem, já não há autocarros nem comboios, acabam por aceitar, "voluntariamente", um regime de part-time, com metade do salário. Há supermercados em que todos os operadores de caixa trabalham em part-time.
Raquel tem um filho de 9 anos, que entra às 8h00 na escola e sai às 18h. Se os horários fixos forem cumpridos, tudo corre bem. Raquel levanta-se às 6h30, deixa o filho na escola às 7h30 e vai para o trabalho, no Lidl, às 9h00. Ou então entra às 7h00, deixa o filho com a mãe às 6h00, para ela o levar à escola. Nestes dias, Raquel, como sai às 16, pode ir buscar o filho. Nos outros sai às 22, ou mais tarde, pelo que tem de pedir à mãe que vá buscar o filho. Mas a mãe trabalha, também com longos horários, tal como o marido de Raquel, que é motorista e nunca sabe a que horas chega a casa. Ou seja: se o horário de Raquel é alterado na véspera, a sua vida torna-se num caos.
Não era assim quando entrou para a empresa, há 13 anos. Solteira, sem filhos, cumpria qualquer tipo de horário. Era a trabalhadora perfeita. Podiam pedir-lhe que trabalhasse mais horas, que saísse tarde, que não fizesse folgas. Os gerentes gostavam daquela disponibilidade e ela habituou-os mal. Quando, depois do nascimento do filho, começou a pedir mais estabilidade, isso foi mal visto. Entrou em conflito com as chefias e foi transferida para outro supermercado. Mais tarde, ao puxar uma palete de frescos, fez uma hérnia na coluna. Ficou sete meses em casa e voltou, com indicações médicas de não levantar pesos. De então para cá, têm-se sucedido os processos disciplinares.
"Não lhes interessa terem pessoas mais velhas, com filhos, e muito menos com problemas de saúde, ainda que tenham sido causados pelo trabalho", diz Raquel. "Preferem mandar-nos embora, a nós que já ganhamos mais, para darem emprego a raparigas novas. Por isso começam a fazer pressão, até desistirmos."
"Trabalho, casa, trabalho"
Uma operadora de caixa em início de carreira ganha o salário mínimo, 450 euros. Mas todos os anos é promovida automaticamente, até chegar ao topo, oito anos depois. Ganha então 605 euros, como operadora especializada.
E a ambição pessoal fica por aí. A menos que consiga entrar para as chefias. O salário pode então subir aos 811 euros, no caso de um chefe de secção, ou, no de um gerente de loja, aos 1129 euros. Mas a estes cargos já não se chega por antiguidade. É preciso ser convidado, mediante opinião favorável dos gerentes, o que apenas se obtém com anos de uma atitude de docilidade e obediência, abdicando voluntariamente de direitos. Atitude que quem é casado e tem filhos dificilmente consegue manter.
"Eu queria casar, desde muito nova", diz Marília, operadora de caixa no Pingo Doce. "Casar e ter filhos. Estava farta de viver em casa dos meus pais. Queria ter liberdade, ser independente. Mas agora tenho dois filhos e mal os vejo. É só trabalho, casa, trabalho. Praticamente não tenho vida. Mas que hei-de fazer? É preciso ir aguentando."
Marília não é sindicalizada porque acha que isso lhe traria problemas. Segundo a delegada sindical Elisabete Santos, muitas das quotas do CESP são cobradas em dinheiro, e não descontadas no salário, para que os gerentes não saibam. "No Continente, há muito medo de pertencer ao sindicato, mas o pior é no Corte Inglés", de onde o sindicato recebe, diz, muitas queixas de abusos e até de assédio sexual.
À pergunta "Se a empresa exigir 50 horas semanais e flexibilidade permanente de horário seria capaz de fazer greve?", a resposta de Marília é: "..."
(*) Marisa, Ana, Filomena, Raquel e Marília são, por pedido das entrevistadas, nomes fictícios
http://jornal.publico.clix.pt/noticia/24-12-2009/em-postas-finas-sao-35-euros-senha-63-nove-horas-seguidas-18478149.htm