
Casas brancas de um lado e de outro, ao meio uma rua central. É assim Ferreira do Alentejo tal como muitas vilas e aldeias do Alentejo. Do Jardim do Ferrinho de Engomar, ornado com uma escultura de um antigo ferro de engomar de imponentes dimensões, até ao Parque Municipal, a vila atravessa-se a pé em poucos minutos.
Alberga no entanto um património histórico considerável e incomparavelmente bem cuidado. Desde a pequena igreja de portal manuelino passando pela Igreja de Santo António, agora transformada em Galeria de Arte que fica na confluência da Praça Comendador Infante Pessanha com a Rua da República, até aos muitos solares bem conservados há um mundo de pequenas coisas a descobrir. Vale a pena visitar o edifício da Câmara Municipal, com uma entrada que faz lembrar o cenário de um filme dos anos quarenta.
Quase no fundo da vila fica a celebre Igrejinha das Pedras, o ex-líbris do município, de planta circular e com uma cúpula cravejada de pedras negras simbolizando o apedrejamento de Cristo no Calvário. O contraste das pedras negras com a alvura da cal atrai a atenção dos visitantes. No interior da Igreja é o tecto azul e branco que chama a atenção pelos rendilhados primorosamente desenhados.
O sol queima e avança-se com dificuldade pelas ruas quase desertas. A temperatura vai atingir hoje os quarenta graus, uma situação mais que habitual nesta terra em Agosto. Os habitantes refugiam-se nos estabelecimentos onde há ar condicionado ou ficam no interior das suas casas.
Mas andar pelas ruas de Ferreira é também perceber que o comércio local já teve melhores dias e que agora enfrenta uma situação extremamente difícil. Há lojas fechadas. Não foi apenas a desertificação que atingiu a região, a actual crise faz-se sentir por aqui com particular intensidade.
É sabido que os alentejanos gostam de conversar. Não é difícil encontrar quem explique o que se está a passar no Alentejo. No café Xadrez dois jovens metem conversa e rapidamente tiram as dúvidas que se tinham instalado durante o passeio. «A agricultura que tradicionalmente foi o suporte da economia local e a grande geradora de emprego já não dá de comer a ninguém daqui» diz Nuno sem pestanejar. A namorada Rita acrescenta: «Abalou tudo. Os espanhóis não precisam de nós no olival. Nem nós queríamos, claro!» graceja.
Os olivais, a bandeira politica de Sócrates e dos autarcas da região, que brotaram como cogumelos e invadiram a paisagem alentejana nos últimos anos vêm inevitavelmente à baila. É difícil não se dar por eles. Entre Serpa, Beja, Aljustrel e Ferreira formam um reticulado cerrado que invade grande parte da paisagem.
«Isso dos postos de trabalho é uma treta. Sabias que o maior lagar da Europa fica aqui em Ferreira? Emprega sete trabalhadores» diz Nuno enquanto mexe o café. O jovem estudante universitário natural do concelho vêm até cá durante as férias escolares mas não pensa instalar-se em Ferreira quando acabar o curso. «Isto aqui não dá. Vir para cá é empatar a vida. E eu não sirvo para empregado da autarquia».
Enquanto vão bebendo o café Nuno e Rita contam-nos como foram implantadas esses olivais que eles apelidam de Nódoas na Paisagem. «Aquilo a bem dizer nem são oliveiras. A oliveira é uma árvore respeitável e centenária. Aquilo são umas miniaturas que trouxeram de Espanha para durar uns anos. É agricultura intensiva. Crescem à força de herbicidas e agro-quimicos. Noutro dia ia eu a passar na estrada perto de Figueira de Cavaleiros e vi que a terra estava esverdeada. Tinham pulverizado tudo».
Rita que também já não vive em Ferreira mas visita a vila amiúde lamenta a forma como foram implantados os olivais «Arrasaram com tudo. Azinheiras, sobreiros, até restos arqueológicos foi tudo na frente. Entraram depois com as máquinas e riparam o solo. Tudo devidamente autorizado pela Direcção Regional de Agricultura do Alentejo e abençoado pelas autarquias. Às vezes trazem aí gente a ver e toca de lhes enfiarem com a lengalenga do desenvolvimento e dos postos de trabalho».
«Uma mentira» acrescenta Nuno «aquilo nem de grande mão-de-obra precisa. Os vigilantes são espanhóis. E quando é necessário gente preferem recorrer a trabalhadores emigrantes. Sai mais barato e não dão chatices. A pouca agricultura que há por aqui já quase só recorre a trabalhadores emigrantes. Ainda há dias em Selmes na Vidigueira encontraram romenos a viver em condições piores do que animais. Trabalham por qualquer preço e circulam entre a Andaluzia e o Alentejo. São máfias que os arregimentam e controlam. Os inspectores de trabalho têm mais que fazer do que andar por ai ao sol a ver quem anda a trabalhar».
São palavras duras, as destes jovens naturais do Concelho que não pensam instalar-se por cá depois de terminados os cursos. Alguma vez se cumprirá o sonho do poeta que cantava «O Alentejo esquecido ainda um dia há-de cantar»?
Reportagem escrita em Agosto de 2009
Fotografia de josep: Janela com flores em Arraiolos