Comentador de sofá
Cavaco Silva, numa daquelas suas declarações que parecem arrancadas a saca-rolhas, dizia – a propósito da derrota da selecção portuguesa frente à Alemanha – que não era «comentador de sofá». E acrescentava, como quem não quer a coisa: «Talvez tenha sido um problema de altura…». Eu (e julgo que muitos portugueses) achava o mesmo: nos dois golos sofridos a papel químico pela equipa nacional, a altura (e a corpulência) dos jogadores alemães fora determinante.
Qual não foi o meu espanto quando, ao chegar a casa, vi uma mesa-redonda de comentadores ‘a sério’ (não ‘de sofá’), todos a darem ‘científicas’ opiniões sobre o jogo, a falarem das razões da derrota, de táctica e de estratégia, de «entre-linhas», de «passes de ruptura», numa geringonça de palavras que procurava explicar o resultado.
E eu voltei a interrogar-me, como se tivesse visto outro jogo: ‘Mas não dependeu tudo daqueles dois livres quase iguais? Não foi aí que tudo ficou decidido? E que tem isso a ver com «entre-linhas» e coisas que tais?’.
Apercebi-me, então, de um facto recorrente nos comentários futebolísticos: os comentadores não comentam propriamente o jogo – antes tentam explicar o resultado. Isto é: comentam o jogo a partir do resultado. Se uma equipa perdeu, vão à procura daquilo que ela fez mal; se ganhou, lá vão tentar descobrir-lhe as virtudes.
Ora o que se pediria a um bom comentador desportivo era exactamente o contrário: ser capaz de analisar um jogo para lá do resultado. Porque o resultado é frequentemente enganador. Uma equipa pode jogar bem e perder – ou jogar mal e ganhar.
Como no futebol se marcam hoje muito poucos golos, os factores aleatórios tornam-se frequentemente decisivos. Se numa das balizas uma bola passar uns centímetros ao lado de um poste, e na outra baliza um remate semelhante bater no poste e entrar, isso pode inverter o resultado de um jogo.
E não tem nada que ver com táctica, ou estratégia, ou entre-linhas, ou passes de ruptura. Tem a ver, simplesmente, com o imponderável. Com aquilo que não se explica, que resulta da sorte e do azar, da felicidade ou da má fortuna.
É esse ‘imponderável’ que explica que a Grécia tenha sido há quatro anos campeã da Europa – e que agora, com o mesmo treinador e a mesma táctica, tenha perdido todos os jogos. É ainda o ‘imponderável’ que explica que a Turquia tenha ido até onde foi, fazendo melhor que a França, a Itália, a Holanda ou Portugal, que reconhecidamente têm melhores equipas.
Fazer teoria futebolística a partir de resultados muito aleatórios é, pois, um exercício inútil (e enganador). O que se pediria aos comentadores é que dissessem com mais frequência (e mais coragem): esta equipa ganhou mas é pior, por isto e por aquilo; esta equipa perdeu mas é melhor, por isto e aqueloutro; esta equipa ganhou mas jogou mal; etc.
Exemplo de que os comentadores andam a reboque dos resultados foi o jogo Turquia-Croácia, que acabou empatado 0 - 0. No prolongamento, a Croácia marcou um golo a 30 segundos do fim – e os comentadores diziam que a vitória se aceitava, porque era a equipa mais categorizada, mais adulta, com melhores jogadores; só que, no último segundo do jogo, um turco chutou de qualquer maneira e a bola entrou, empatando o resultado. E nos penaltis que se seguiram os turcos ganharam!
Aí, tudo mudou. Os comentadores começaram a bater em retirada. Aquilo que tinham afirmado uns minutos antes já não valia. A Croácia não era, afinal, tão boa como isso; e a equipa turca era melhor do que parecia, tinha uma saúde mental invejável, etc. Aquela bola chutada por aquele maduro no último segundo de jogo tinha alterado por completo, na cabeça dos comentadores, o que se passara nos 120 minutos anteriores. O jogo passara a ser outro.
M AIS um exemplo: diz-se maravilhas da Espanha, porque venceu o seu grupo e eliminou a Itália – a qual, por sua vez, foi uma das grandes desilusões.
Mas a Espanha terá jogado melhor ou pior pelo facto de ter vencido a Itália nos penaltis? O que no Espanha-Itália ditou o vencedor foi apenas uma coisa: dois italianos falharam penaltis e só um espanhol falhou. Mas isso não tem nada a ver com o jogo, nem com a categoria das equipas, nem com a táctica.
Se fosse ao contrário, se fossem dois espanhóis a falhar o chuto, lá viriam os comentadores dizer exactamente o oposto do que disseram: estariam hoje a elogiar a Itália e a levantar dúvidas em relação à Espanha.
Quanto à selecção portuguesa, a minha opinião não se alterou com a derrota frente à Alemanha. É uma equipa que está a meio caminho entre o futebol brasileiro e o futebol europeu, com tudo o que isso tem de bom e de mau: muita habilidade, fio de jogo agradável, excesso de trocas de bola, pouco poder de choque.
Com este tipo de futebol (e não podemos ter outro, porque estas coisas não se alteram com uma varinha mágica) dificilmente ganharemos títulos – e só chegaremos aos primeiros lugares muito bem treinados e organizados.
Foi este o mérito de Scolari: fez o melhor possível, dentro do que o futebol português pode dar.
Recuperou a dignidade da selecção, que no passado recente esteve muito abalada, contribuiu para o ambiente de entusiasmo popular criado à volta da equipa, geriu bem as estrelas e os vedetismos, resistiu a pressões.
Agora, o futebol é por natureza contingente – e não é pelos livres em que prevaleceu a altura dos alemães que vou mudar de opinião. Não é por ter ganho a penaltis contra a Inglaterra há quatro anos que Portugal era o maior – nem por ter perdido com dois livres nas alturas que é o pior.
Do que precisamos, isso sim, é de comentadores que expliquem melhor as coisas. Que não mudem de opinião quando uma equipa marca um golo à beira do fim. Que tenham em conta que, sendo os resultados muito equilibrados, os jogos se decidem muitas vezes por imponderáveis, por razões fortuitas, que não são explicáveis nem racionalizáveis. E muito menos ‘científicas’.
Precisamos de comentadores que não construam os comentários a partir do resultado final – porque, este, já nós sabemos qual é.