«O Nosso Século é Fascista!»
«O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)»
Salazar e Franco nasceram com 3 anos de diferença (1889 e 1892, respectivamente) e viriam a dar o nome às duas ditaduras ibéricas. O primeiro, com o programa Deus, Pátria, Família, com a força do Manda quem pode, obedece quem deve e numa «linha geral europeia»; o segundo, autoproclamando-se o Caudillo de Espanha pela graça de Deus e voz do movimiento general de rebeldia en las masas civilizadas del mundo; ambos, crendo-se portadores de uma nova ideia, que impuseram de forma totalizadora – no Estado Novo e Nuevo Estado –, a ideia de uma Nova Ordem, regeneradora e saneadora, integrante de uma nova Europa com fórmulas hitleriana e mussoliniana.
Conhecer o pensamento político daqueles dois homens filhos de um tempo complexo e vário é a proposta do soberbo e urgente Ensaio «O NOSSO SÉCULO É FASCISTA! – O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945)» do historiador Manuel Loff. São quase mil páginas de fascínio, que, sedento, segue a profusa e rara documentação histórica, interpelada, interpretada e contextualizada pelo historiador.
A presente edição, revista e adaptada – retirado o peso ao carácter académico para ser acessível a um grande público não especializado –, tem por base uma Tese de Doutoramento de Manuel Loff, discutida publicamente em 2004, em Florença, e inscrita no programa de Doutoramento do Departamento de História e Civilização do Instituto Universitário Europeu, em San Domenico di Fiesole, Florença, Itália. Foram nove os anos que o historiador levou a redigir este trabalho que a Campo das Letras disponibiliza agora no formato para grandes leitores apaixonados pelo saber histórico.
Ao todo, são nove capítulos (1- As ditaduras Ibéricas na Nova ordem Eurofascista: Uma aproximação ao problema; 2 – Os Pressupostos Ideológicos; 3 – História e Império; 3 – A Lógica dos “Grandes Espaços Continentais”»; 5 – O “Saneamento” Político da Europa; 6 – A Nova Ordem Como Corolário da Evolução Recente Europeia; 7 – Do Projecto à Prática: a “Construção da Nova Ordem”; 8 – Perante a Colaboração e a Resistência; 9 – Várias Conclusões e Um Epílogo) desdobrados em minudentes alíneas.
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O despertar da Raça
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«Salazaristas e franquistas revelar-se-iam prolíficos na elaboração teórica das maravilhas da unidade», escreve Manuel Loff, na explanação do ideário que presidiria ao Partido Único sustentado pelos movimentos Nacionalistas da nova era. Imbuídos pelo poderio nazi, salazaristas e franquistas faziam convergir os seus modelos políticos com os do «novo director da Europa», numa oportunidade histórica única de participarem no grande sonho da grande unidade europeia.
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Em Portugal, criava-se, no início dos anos 30, a «União Nacional como partido único admitido por um regime que ainda estava em criação» e que iria sustentar o salazarismo. Segundo o texto, João Ameal – conde de Ameal (1902- 1982), militante monárquico tradicionalista e “agente de Salazar” – «garantia que “a corrente nacionalista é hoje, entre nós, a força mais viva, mais importante e mais progressista – a força que representa o despertar consciente de uma grande Raça, apta a reatar uma grande História. O novo destilava-se em primeiro lugar da idade dos seus partidários: “Só o nosso ideal, nacionalista e reconstrutivo, satisfaz os homens de menos de quarenta anos, a mocidade do nosso século”, insistia Ameal, (…)”Só nós incarnamos a autêntica vanguarda espiritual e política”».
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Em Espanha, «a lei descrevia Franco como “Jefe Nacional de Falange Española Tradicionalista y de las J.O.N.S., Supremo Caudillo del Movimiento, [que] personifica todos los Valores y todos los Honores del mismo», «Autor de la Era Histórica donde España adquiere las posibilidades de realizar su destino».
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O programa do ódio
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Também os regimes ibéricos tinham na ideologia do Liberalismo e no seu filho, o Comunismo, os inimigos a abater; para Franco, eram «um peligro universal», para Salazar, «o maior problema humano de todos os tempos». E o ditador português, à semelança do espanhol, esmiuçaria as razões desse ódio, em 1943, apontando-lhes a responsabilidade de todos os males, num texto reproduzido por Manuel Loff:
«descalabro das finanças e da moeda, a ruína da economia, o assalto da propriedade, a desordem da rua e dos espíritos, os assassinatos dos inimigos políticos e dos militares de prestígio, os insultos e vexames da gente honesta nas praças e nas cadeias, as campanhas anti-religiosas, a “justiça popular”, a indisciplina e afundamento dos órgãos do Estado, o riso escarninho do mundo perante uma gloriosa Nação multi-secular que, parecendo não querer viver em paz, não fazia ao menos revoluções mas sangrentos motins.».
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Neste programa de ódio que visava a URSS, o bolchevismo, a que chamavam o comunismo asiático, e a «América plutocrática e imperialista», conta-se, também, a suspeita do «papel das minorias judaicas na Europa» e o epíteto de «terroristas aos que resistiam à ocupação nazi-fascista, primeiro em França, depois na Jugoslávia e na Grécia, depois na URSS».
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Delírio Imperial e propaganda.
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Da excelsa odisseia de conhecimento que nos dá Manuel Loff, cujo olhar que aqui deixo é necessariamente exíguo, destaco ainda o trabalho de pesquisa sobre as ideias Imperialistas dos dois regimes ibéricos e as manobras de promoção de salazaristas e franquistas – de «dois Estados internacionalmente periféricos e praticamente impotentes» – no palco internacional, nomeadamente na autojustificação colonial «contra a vontade de britânicos e franceses».
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Por cá, Salazar explorava propagandisticamente, até ao tutano, a ideia da universalidade e da «imagem espiritual da Pátria». O culto do passado é bem evidenciado pelo próprio Salazar no empenho das cenográficas «Exposição Colonial do Porto», em 1934, participação em exposições internacionais e «Exposição do Mundo português», em Lisboa, em 1940.
Uma «apoteose da Consciência nacional» que levava salazaristas e franquistas a configurarem um calendário próprio com as datas do orgulho. Entre outras datas, em Portugal, o 28 de Maio (pela Revolução Nacional de 1926); o 10 de Junho, proclamado como «Dia de Portugal e da Raça a partir da evocação do poeta quinhentista Camões, alcandorado o poeta dos Descobrimentos e da gesta imperial»; os 27 e 28 de Abril – o primeiro, dia da nomeação de Salazar para o Governo (1928) e o segundo, o aniversário do Ditador; em Espanha, o 18 de Julho na comemoração do Alzamiento de 1936, ou o 12 Outubro, a marcar a chegada de Colombo à América, que se tornava o Dia de la Raza e da Hispanidad.
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Já em nota de conclusão, escreve o historiador neste Ensaio - que é, indubitavelmente, um marco no campo da investigação da nossa História recente, acrescido do poder de nos alertar para as ameaças à Democracia -, que «não foi por terem naturezas ideológicas pretensamente distintas que o Franquismo e o Salazarismo sobreviveram nos trinta anos seguintes à derrocada do Nazismo e do Fascismo», comprovando-o com recurso a diversa documentação. Trata-se de uma «capacidade demonstrada por estes regimes em recorrer ao mais despudorado dos pragmatismos e em se comportar como autênticos camaleões políticos se de tal procedimento tiver percebido depender com muita probabilidade a sua sobrevivência», acrescenta.
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O Nosso Século é Fascista! - O mundo visto por Salazar e Franco (1936-1945), Manuel Loff; Editorial Campo das Letras, Porto, 2008
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© Teresa Sá Couto