Tocar a eternidade
W HEN I’m with you I’m immortal. Há frases nas quais tropeçamos para sempre. A questão da imortalidade ligada ao amor sempre me fascinou. Não acredito na imortalidade, embora não ponha de parte a ideia de que outras dimensões existirão, para as quais a nossa alma poderá ir depois da morte física. Mas vejo-a sob outro prisma, enquanto capacidade de perdurar no tempo, de poder falar ao coração de novas gerações através das palavras que deixarei escritas, depois de o meu invólucro voltar a ser pó e cinzas. No entanto, este é apenas o aspecto menos importante: para mim, tem mais a ver com os instantes vividos aqui e agora que nos fazem elevar-nos a ponto de vivermos a ilusão de tocar a eternidade.
Quando os nossos filhos nascem, quando sentimos que finalmente amamos alguém incondicionalmente, quando um abraço nunca acaba ou um olhar não mais se desprende, imaginamos que estamos perto, muito perto de tocar uma força maior, superior a nós, que domina a existência. E essa força é uma forma de imortalidade.
Vejo a imortalidade como algo impossível de dissociar do amor, sinto que existe uma ligação profunda entre o amor físico ou espiritual e a eternidade. A vivência de um amor pleno torna-o imortal. Como disse o sábio poeta Vinicius, «o amor é eterno enquanto dura». O problema é que, ao vivermos um amor pleno, recusamo-nos a encarar a finitude inevitável desse amor, aspiramos a viver para sempre nessa nuvem que nos protege do mundo e nos preserva em paz e harmonia. Viver um amor pleno impele-nos a cumprir a via sacra dos passos ditos como fundamentais para que os alicerces desse amor sejam lançados à terra e a partir deles se edifique toda uma nova vida. Estamos todos mais ou menos socialmente formatados para pensar que é preciso casar, que é preciso procriar, que é preciso mostrar ao outro e aos outros que existe um compromisso assumido, tantas vezes sem limites, ‘até que a morte nos separe’, esquecendo-nos que não são estatutos nem papéis que nos asseguram o que mais desejamos. Uma certidão de casamento não funciona como uma garantia bancária; se as coisas correrem mal, não temos onde ir recuperar todo o investimento perdido.
ACREDITO que o futuro nunca está escrito. Acredito que o que é verdade hoje pode ser mentira amanhã. Acredito que quando iniciamos uma viagem nunca sabemos onde chegaremos nem como vai acabar. Que o que vivemos hoje, aqui e agora, é que conta, e que o que recusamos viver em nome de um futuro incerto que desconhecemos nos vai trazer mais arrependimento do que se o vivermos. Não acredito em promessas para a vida, em relações perfeitas, no mito dos contos de fadas que apregoa a máxima ‘felizes para sempre’. Prefiro pensar que serei feliz enquanto conseguir amar incondicionalmente, enquanto puder ver o meu filho a rir, enquanto sonhar que posso voltar a ser mãe, enquanto os abraços dos que amo nunca terminarem.
Tocar a eternidade é tocar os momentos perfeitos que vivemos, agarrá-los com ganas e vivê-los sem medo e com liberdade, sem pensar no depois, sem equacionar se estamos certos ou errados, se o que sentimos é verdade ou mentira.
Verdade é o que se sente e o resto não passa de um conjunto de cogitações cartesianas inventadas para nos complicar a existência. Um amor pleno está acima de qualquer cogitação, está acima de nós e é por isso mesmo que vale e pena vivê-lo.