SOL

Liberdade de imprensa

Não sinto hoje necessidade de me ir manifestar à Assembleia da República 5ª-feira, para defender a liberdade de Imprensa ou de expressão, como alguns sentem. Não quereria tornar-me o centro das notícias, em vez de um veiculo delas, como Mário Crespo. Não retiro ao primeiro ministro o direito de insultar jornalistas em privado, e de os criticar em público, como gosto de fazer com ele.

Mas gostava que se investigassem a sério as escutas sobre o assunto, e se apurasse o que o poder anda a fazer para controlar a imprensa. Gostava que todos se indignassem mais com o que está nas escutas (nas da Face Oculta ou nas do Apito Dourado), do que com discutir se deviam ou não ser divulgadas ( eu acho que deviam). Infelizmente, não me parece que uma simples alternância de partidos seja suficiente neste caso. Ainda me lembro do ministro Morais Sarmento, da central de informações planeada por um governo, e da saída de Marcelo Rebelo de Sousa da TVI.

O drama é que, se não aparecer ninguém de outra craveira no PSD, tudo continuará na mesma. Até a hipocrisia das contas públicas e do despesismo, como se viu com a Lei das Finanças Locais (e há partidos que não percebem não ganhar nada com isso, pois para tudo ficar na mesma os madeirenses sempre preferirão votar em Jardim). Claro que, de qualquer maneira, seria preferível um primeiro-ministro sem ter um curso como o que ostenta Sócrates da Universidade Independente (e sem estar relacionado com tantos escândalos). Mas era insuficiente.

Futebol à pancada

Há uns anos foi Sá Pinto a esmurrar o seleccionador nacional, então Artur Jorge, por não o seleccionar a ele. Agora foi o seleccionador, Carlos Queirós, a esmurrar um jornalista, por o criticar.

Não vou defender o jornalista, que acumula as funções de jornalista com as de assessor da FIFA - num conflito de interesses que me parece difícil de aceitar.

Mas também não me orgulho de ter um seleccionador que resolve assim as suas divergências de opinião. Pior, só mesmo Gilberto Madaíl, a achar tudo aceitável, e o seleccionador intocável. É definitivamente preciso começar pela direcção da Federação Portuguesa de Futebol, para endireitar as coisas.

Armas por todo o lado

Segundo uma reportagem do Público de ontem, há armas de fogo a fabricarem-se e a venderem-se clandestinamente por todo o País. A reportagem cita uma fonte da Polícia, a dizer que há réplicas de metralhadoras Kalashnikov a fabricarem-se em garagens da periferia de Lisboa.

De facto o crime violento aumenta, e houve mais 60% de assaltos com armas de fogo em 2008 do que no ano anterior. Quem sofre são os caçadores, cujas armas entram sem alaridos nas estatísticas nacionais, e sempre são mais fáceis de perseguir com medidas burocráticas do que os ladrões que compram armas no circuito clandestino. Duvido é que o combate ao crime ganhe com isso. Só mesmo as estatísticas de apreensão de armas.

 

Católicos distinguidos

Depois do bispo do Porto ganhar o último Prémio Pessoa, aparece o Padre José Tolentino de Mendonça a receber o Prémio Literário da Fundação Inês de Castro para uma publicação editada em 2009, com o livro O Viajante sem Sono (Assírio e Alvim). A Sociedade Civil portuguesa e culta rende-se assim a prelados católicos cultos e humanistas. O que deve deixar tristíssima a histeria laica nacional que, em vez de agradecer ao capelão que rezou uma prece na abertura das comemorações da República (em vez de ir lá remoer velhos ressentimentos), resolveu indignar-se com o facto.

Os jornalistas criticados

Mário Crespo é a imagem gritante dos jornalistas que gostam de ter o direito de criticar os políticos, mas não admitem que nenhum politico os critique. Já não digo publicamente, que seria também um direito deles - mas mesmo na intimidade de uma mesa de restaurante E usa as orelhas de algum abelhudo que gosta de ouvir a conversa dos outros para se vitimizar, contando a conversa de forma deturpada - como já veio esclarecer um dos presentes mais insuspeitos, o director de programas da SIC, Nuno Santos.

O caso de Crespo só seria grave, e teria importância, se alguém na SIC o quisesse despedir, por pressões do Governo. Não consta que tenha acontecido. Mas já estou a ver a boçalidade geral a chamar ditador a Sócrates, porque não gosta de Crespo, e o insulta em privado. E no entanto eu quero ter o meu direito de criticar publicamente Sócrates, aceitando que ele também me critique publicamente a mim.  Tenho vergonha de pertencer a um sindicato - ao qual pago quotas -que correu a defender corporativamente Crespo.

Mário Crespo consegue esta coisa extraordinária: transformar uma pessoa tão enervante como Sócrates numa figura muito mais razoável do que muitos jornalistas. Por causa daquilo que algum ministro deste Governo já chamou muito objectivamente uma «calhandrice».

Isto não significa que não possamos achar mal o JN ter recusado publicar o artigo de Crespo (embora deontologicamente censurável, suponho que ele seria o único a poder ser responsabilizado pelo que escreveu). Talvez valha a pena verificar é se realmente o grupo de Joaquim Oliveira não dependerá demasiado da boa vontade deste Governo (e de um próximo qualquer) para a sua sobrevivência económica. Isso sim, é um problema de liberdade de imprensa.

De resto, acho Crespo melhor pivot de Telejornais do que a miudagem que por aí pulula. Sobretudo desde que a credibilidade de José Alberto carvalho ficou afectada pelos seus ziguezagues como director de Informação da RTP (com o mesmo espírito de serviço em relação a este Governo ou ao do PSD com que iniciou funções).

O descaradíssimo mentiroso

Uma ex-ministra de Blair acaba de acusá-lo de ter mentido ao próprio Gabinete quando justificou a guerra do Iraque.

Perante o que disse agora na comissão que está a investigar o assunto em Inglaterra, Blair mentiu, e descaradamente, não só aos seus ministros, ao Parlamento inglês, e ao povo britânico, mas ao mundo todo. Porque, ou mentiu agora, na Comissão, ou mentiu na altura, quando justificou a intervenção. E com uma indiferença homérica perante as famílias dos soldados mortos. Ele tinha uma embirração definitiva com Sadam (de quem a maioria da nós também não gosta), e usou o seu poder para mandar lá morrerem soldados ingleses, desestabilizar a região, e dar razões ao Irão para se portar com a arrogância actual (mal se tornou a grande potência regional, e viu o Ocidente entupido numa guerra sem saída). Coisas que nós, os comuns mortais, felizmente não podemos fazer.

Claro que podemos admirar a frontalidade com que Blair defende as suas convicções, mesmo assumindo-se como o imenso mentiroso que é. Mas é horrível imaginar que a Democracia abre a porta do poder a gente desta, porque são pessoas carismáticas.

E talvez tenha sido pior a posição do nosso então primeiro-ministro, Durão Barroso, que se limitou a fazer de «mordomo jovial e adulador» dos poderosos da terra (entre aspas, cito Baptista Bastos, na crónica de hoje no DN). Pode não se assumir como mentiroso, preferindo desculpar-se com a tendência para ser «um Maria vai com os grandes». Mas é também ele a imagem do drama em que as democracias se transformaram, ao deixarem gente assim chegar ao poder, mesmo de um País pequeno.

Obscuro rating

E o descaramento das agências de rating? Não lhes chega o imbróglio global que criaram, e a necessidade de serem os contribuintes a pagarem as asneiras feitas por elas mais os seus banqueiros. Ainda se atravem a dar palpites à antiga sobre países como Portugal. E há quem continue interessado em lhes dar atenção!!!

O capelão republicano

Um capelão católico foi rezar uma prece nas comemorações da República. E alguns republicanos histéricos, em vez de se sentirem satisfeitos com aquela forma de a Igreja se ligar ao regime e esquecer as perseguições que lhe foram feitas nos primeiros tempos, desataram a protestar - achando que o Estado laico estava em causa!... Nem se preocupam sequer com problemas mais sofisticados, ou com a maioria católica do País.

Mas aos histéricos da imprensa estamos nós habituados. O estranho foi ver Mário Soares dar para esse peditório, no seu artigo desta semana no DN.

Estamos gregos

A Grécia veio comparar a sua crise orçamental a Portugal, que nem por sombras se sente assim tão mal. Os gregos querem ver-se portugueses. Nós é que não queremos ver-nos gregos. O problema foi a Comissão Europeia aparecer, pela voz do comissário espanhol Almunia, a dar razões aos gregos na comparação (tendo o cuidado de deixar de fora a crise espanhola).

A ética de Obama

Obama desiludiu então as altas expectativas que nele depositaram? Às minhas, continua a corresponder lindamente. E lá está pronto a receber o Dalai Lama, indiferente a pragmatismos imorais em relação a Pequim.

Não vem à cimeira da UE? E a UE mostrou alguma vez ser uma voz internacional útil e em uníssono? Não será mais interessante para os EUA cultivar relações bilaterais com alguns países mais determinados em política internacional, e menos dados a ceder às chantagens de Pequim?

Orçamento no País das Tecnologias

Viram nas TVs o Orçamento do Governo dos EUA a ser distribuído por jornalistas, deputados e senadores? O País das últimas tecnologias distribuiu o Orçamento em grossos volumes azuis em papel.

Cá, que somos tecnologicamente retrasados, e distribuímos pelos estudantes Magalhães com programas do ano da Catapum, o Orçamento é entregue em modernas pen ou sofisticados cartões electrónicos. É certo que depois estes gadgets falham quase sempre nalguma coisa, e o velho papel americano o mais que pode precisar é de alguma errata final.

Estranhos salazaristas

Os feirantes que se manifestaram sábado em Lisboa contra as novas exigências de segurança dos carrosséis ostentavam cartazes tão diversos como os que diziam «Volta Salazar, o Governo anda a roubar-nos», «Salazar volta, estás perdoado», ou «Segurança sim, ditadura não».

Estes feirantes, além de serem alérgicos aos custos de segurança, têm uma curiosa ideia do que é querer o regresso de Salazar, e ao mesmo tempo detestarem a ditadura. Salazar talvez lhes desse uma liçãozita sobre o assunto: nada de manifestações, nada de cartazes (aqui, sempre se evitava a contradição), e a leizinha era para cumprir na íntegra, ou adeus carrossel.

Uma certa subversão

Um cenógrafo e figurinista entrevistado na última Pública, João Figueira Nogueira (o nome parece de BD), liga a sua recusa a usar fato e gravata num acontecimento oficial com haver «espaço para a subversão». Já uma vez fiquei banzado ao ouvir um padre da mesma geração, do alto do púlpito, numa homilia, explicar como também tinha conseguido toda a vida recusar-se a pôr uma gravata (ou cabeção, depois de ordenado), dando também a ideia de que era a sua forma de subversão.

Que sorte tem esta geração, em poder ser subversiva apenas contrariando algumas normas de convivência e bom gosto - atitude normalmente ligada a uma enorme falta de à-vontade social e de referências estéticas. No meu tempo, a subversão saia-nos do pelo, era até arriscada, e tinha finalidades mais nobres. Mas talvez seja injusto confundir aquelas atitudes com uma geração inteira. Continua com certeza a haver gente que sabe ser mais inteligentemente subversiva.

Guerra de números nos filmes

Público e Diário de Notícias envolveram-se numa verdadeira guerra sobre os números dos filmes (recordes de bilheteira). No Público, a área é dominada por um tal Jorge Mourinho, que se deslumbra com as audiências imediatas no Cinema e na Televisão (não há maneira de este jornal conseguir ter um cronista de TV interessante), e anda a proclamar os recordes do Avatar (James Cameron, 2009) desde que o filme se estreou por cá. No Diário de Notícias, onde predomina o mais culto e maduro João Lopes na área de cinema (e até nas crónicas de TV têm o interessante Joel Neto), explica-se repetidamente (e mais uma vez hoje) que, em termos relativos nas receitas, e em termos absolutos nos espectadores, o Avatar está ainda muito longe do recordista absoluto, E Tudo O Vento Levou (Victor Fleming, 1939). Na lista hoje publicada pelo DN o Avatar surge apenas em 21º lugar, havendo mesmo outro filme de Cameron à frente, em 6º lugar (Titanic, 1997).

Em geral, as minhas simpatias pelo Público, jornal mais sério e politicamente independente, são muito maiores do que pelo DN (que, tendo ainda como cronista o irresistível Ferreira Fernandes, foi perdendo outros essenciais como Vicente Jorge Silva, Nuno Brederode ou João Miguel Tavares). Mas em cinema, sempre, e em TV, nos dias do Joel, mudo prioridades.

Má Justiça

O Presidente Cavaco conseguiu unanimidade de apoios nas críticas à Justiça em Portugal, na recente inauguração do Ano Judicial, perante os principais agentes do sector. Como enfatizou - não sem razão - a má qualidade legislativa, até os magistrados aplaudiram entusiasticamente o seu discurso. E, no entanto, todos sabemos que mesmo com legislação 5 estrelas, basta esta nossa magistratura para a Justiça em Portugal ser tão má.
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