Equinócios e Solstícios - 6 de Novembro de 2009
Evolução
Em vez de ideias, o que vale hoje no PSD é a capacidade de filiar pessoas
Na passada semana escrevi sobre as razões pelas quais decidi exercer o cargo de vereador para que fui eleito nas autárquicas de 11 de Outubro. Mas não escrevi sobre a razão que me fez admitir tomar a decisão contrária: o estado em que se encontra o PSD.
Já só raramente me refiro ao meu partido como PPD/PSD. Essa diferenciação para mim não é dispicienda. O PPD/PSD, como dizia Francisco Sá Carneiro, era o «partido mais português de Portugal». Carlos da Mota Pinto, por sua vez, dizia que o PPD era o partido das pessoas que «sobem a vida a pulso». A verdade é que, com o passar do tempo, essas características, essas componentes do ADN do PPD/PSD, foram-se diluindo.
Julgo que fui o primeiro a dizer que o partido se ‘balcanizou’. Cheguei a afirmar, num grande jantar na FIL, em Julho de 1989, que o PPD começava a ficar cansado de aturar o PSD. Já na altura exteriorizava o que comecei a sentir em 1986/87: a força crescente do aparelho e a decrescente ligação às mulheres e aos homens bons de cada concelho, de cada terra.
Em cada terra, notários, merceeiros, farmacêuticos, construtores civis ou professores primários, consoante os casos – mas, no geral, as figuras que se destacavam em cada comunidade –, juntavam-se ao partido de Sá Carneiro. Era um partido, ao mesmo tempo, muito interclassista – e esta característica ainda se mantém, mas rapidamente pode perder-se.
Às tantas, para contrapor ao poder cada vez maior da estrutura partidária (ou de uma elite muito reduzida que em Lisboa e no Porto tomava as grandes decisões, como aconteceu quando Durão Barroso substituiu Marcelo Rebelo de Sousa em 1999), comecei a propor as eleições directas, para devolver o poder ‘às bases’. Propu-las, concretamente, aquando do Congresso de Viseu, em 2000. Mas na altura não consegui fazê-las vingar. Vieram a ser aprovadas depois da minha fugaz liderança, julgo que em 2006.
Hoje discute-se muito se as directas foram ou não benéficas para o PPD/PSD. É, de facto, discutível. Mas gostava de vincar o contraste com o que sucedia anteriormente, relembrando com mais pormenor o que se passou nessa substituição de Marcelo Rebelo de Sousa, quando se demitiu da liderança.
Foi feita uma reunião em Lisboa, julgo que em casa de Manuel Dias Loureiro, com cerca de cinco ou seis pessoas, para escolher quem deveria ser o sucessor. Após essa reunião, Leonor Beleza leu na sede nacional uma declaração aos jornalistas em que dizia ser José Manuel Durão Barroso quem reunia melhores condições. E foi.
O que aqui relembro não envolve nenhuma crítica aos intervenientes neste processo, que se limitaram a exercer o poder lhes vinha parar às mãos. Mas confesso que nunca gostei disso. E por essa razão foi nessa altura que comecei a lutar pela alteração do método de escolha da liderança.
As ‘directas’ não são, pois, as culpadas da balcanização ou feudalização. À medida que as ideias e o respectivo debate iam desaparecendo, ganhava cada vez mais peso o papel daqueles a quem chamei «os técnicos da representação permanente». Esses técnicos são aqueles que se dedicaram profissionalmente a assegurar os lugares de representação política – primeiro ao mais alto nível do Estado, e depois, à medida que o número dessas pessoas aumentava na disputa de avenças ou assessorias no nível mais inferior do Estado.
Em vez de se discutirem ideias, em vez de funcionarem os gabinetes de estudo, passou a ter importância a capacidade de filiar pessoas. Principalmente desde que as ‘directas’ foram aprovadas para a eleição dos líderes distritais, ainda antes de o serem a nível nacional.
O único caminho de terminar com a perpetuação do poder dessas pessoas que nunca fizeram mais nada na vida é, de facto, a limitação de mandatos aos mais variados níveis.
Manutenção
É confrangedor ver os camaleões
O PSD passou a estar dividido em grupos cujos laços são única e exclusivamente a conquista ou a manutenção do poder – os quais, por sua vez, rivalizam com supostas elites, de supostos iluminados, que vão vencendo na vida à conta de estarem sempre disponíveis para apoiar qualquer líder desde que tenham a garantia de fazer parte da equipa _dirigente.
Muitas carreiras e muito poder têm sido construídos à conta dessa natureza ‘camaleónica’ de pessoas que, ao longo dos últimos 15 anos, aparecem sempre nas fotografias ao lado dos diferentes líderes. Há pessoas que estiveram na primeira linha com Marcelo Rebelo de Sousa, com Durão Barroso, comigo, com Luís Marques Mendes e com Luís Filipe Menezes. Têm uma tese curiosa: mesmo que exerçam cargos da mais alta responsabilidade, a culpa nunca é deles. É, tão só, dos líderes depostos. Muda o líder e aí estão eles, frescos como nunca, de fatinho engomado, prontos para um novo ciclo de poder.
É absolutamente confrangedor, a esse propósito, aquilo a que se assistiu nas últimas semanas. Há pessoas que nunca estão dispostas a sair. Precisam da influência política, nuns casos, e noutros não sabem fazer mais nada.
Sei que quem ler estas linhas pensará que sou muito ligado à política e que tenho muitos anos disso. Sem dúvida. Mas, como sabem todos os que me conhecem, nunca tive jeito nenhum para os assuntos do aparelhismo partidário, listas, lugares e afins.
E, por outro lado, de modo mais modesto ou mais conseguido, tenho sempre, quando a lei não o impede, a possibilidade de exercício da minha actividade profissional, quer como profissional liberal quer como docente universitário.
Degradação
A situação no partido é muito grave
HOJE em dia é maior e mais forte o poder dos grupos do aparelho do que dessas supostas mini-elites. Mas a questão tomou contornos bem mais graves. Porque alguns grupos, com práticas marginais, começaram a infiltrar-se nas estruturas do PSD e a levarem por diante práticas absolutamente inconcebíveis.
Confesso que é muito difícil ter qualquer espécie de identificação com a vida interna do PSD, nalgumas áreas com que tenho contactado ultimamente. A troca de favores, a negociação de apoios, as mudanças de campo, o descaramento (ou seja, a capacidade de ter duas caras, completamente opostas, no mais curto espaço de tempo), o atrevimento de se aparecer em público a elogiar alguém que durante anos se considerava inaceitável.
A utilização perversa de normas estatutárias. A facilidade em caluniar companheiros de partido, sujeitando-os às maiores humilhações.
A tudo isto se vai assistindo a nível local ou nacional. Por isso mesmo – e tendo autoridade acrescida por ter disputado a liderança do partido com a actual presidente – procurei sempre apoiar Manuela Ferreira Leite. Na verdade, certamente com defeitos como todos os humanos, trata-se de uma pessoa decente e que podia contribuir para impor a dignidade e o respeito pelos princípios, valores e pela história do PPD/PSD. Pelo menos isso!
Como se pode constatar por estas palavras, considero muito grave a situação a que chegou o PPD/PSD. E exercer um cargo público nestas circunstâncias, em nome do PSD, não é nada fácil. Faço-o, como disse na passada semana, por respeito aos cerca de 40% que votaram no projecto que defendo para Lisboa.
Compreendo Marcelo Rebelo de Sousa quando diz que não se quer sujeitar às actuais ‘regras do jogo’ no PSD. Mas também compreendo alguns apoiantes de Pedro Passos Coelho quando defendem ser preciso um tempo novo.
É preciso haver coragem para se mudar quase tudo.