SOL

Da montra do meu café...

Crónicas do tudo e do nada... paisagens da cidade.

Uma metáfora

Gosto de abrir a janela pelo fim da tarde nestes dias. Abro-a e fico a ver entrar o calor no seu primitivo vigor primaveril junto com alguns farrapos de nuvens. Da janela vejo os pássaros e às vezes apetecia-me que me entrasse um deles pela casa. Raramente acontece e quando acontece é um aborrecimento, ter de andar a enxotá-lo e ele a esvoaçar assustado por toda a casa, depois limpar os excrementos que ele desastradamente espalhou sobre a mobília – o bicho não tem culpa, é um pássaro, não é uma metáfora de pássaro. Olho de novo a janela e reformulo: “Às vezes queria que me entrasse uma metáfora pela janela”

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Hoteis de luxo e pétalas de rosa...

Passei, há dias, um fim-de-semana num hotel de luxo. Escrevo, aliás, esta crónica, no papel de bloco e com a esferográfica que me deixaram no quarto. É uma velha mania minha, a de levar comigo estes pequenos blocos dos hotéis por onde passo e onde vou deixando as minhas impressões à posteriori. Estranhamente, não sei porquê, noto que com o passar do tempo as folhas que deixam sobre a cómoda são cada vez menos, os pequenos blocos timbrados reduzidos a três ou quatro folhas e eu a ter de reduzir poemas e apontamentos à escassez do papel…

Tornando ao início, dizia eu que passei um fim-de-semana num hotel de luxo; no final de tarde, de regresso ao quarto encontro a cama aberta, os chinelos colocados a preceito junto à cabeceira e, na sanita, pasme-se, uma mão-cheia de pétalas vermelhas, de rosa. Pétalas de rosa na sanita, o luxo transformado na indulgencia de achar pétalas de rosa na retrete, rapidamente levadas pelo autoclísmico fluxo que faço troar depois do uso da instalação em causa. Melhor fora que mas tivessem deixado sobre o leito, entre os lençóis ou sobre o edredão tal qual as fotos promocionais na Internet.

Pétalas de rosa, rubras, sobre o edredão acetinado talvez me calmassem a tempestade interior ou fizessem sumir os fantasmas que toda a noite se deitaram comigo e insistentemente me acordaram para uma cama com excesso de almofadas.

por sistermoonshine | 2 Comentário(s)

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Os fumadores, coitadinhos!

Desde 1 de Janeiro deste ano está instalada no nosso país uma nova raça de pobres e perseguidos – os fumadores-coitadinhos. Não se trata de fumadores-normais-cidadãos-civilizados-e-tolerantes mas sim de fumadores-coitadinhos, vítimas do escárnio, da repressão, tristemente votados a terríveis guetos (leia-se as portas de cafés, lojas e empresas) nefandos antros mal frequentados, decerto perigosíssimos para a sua frágil saúde tão atreita à pneumonia que se apanha, como se sabe cientificamente, directamente da corrente de ar, monstro bem mais nefando do que o cancro da laringe ou do pulmão a que estes seres parecem ter especial imunidade. Esta raça de fumadores, os coitadinhos, são conhecidos por denodadamente lutarem pelas liberdades cívicas apenas desconhecendo a velha máxima que é “a minha liberdade termina onde começa a do outro” tendo particular dificuldade em perceber que a liberdade do outro passa por não ter de conviver com o fumo alheio no seu prato de comida ou na chávena de chá. Bastiões da liberdade individual, a sua utopia consiste em que cada um pudesse exercer qualquer “liberdade” a seu bel-prazer, por exemplo um fumador-coitadinho que seja adepto de falar alto entraria urrando em qualquer biblioteca ou no meio de uma sessão de cinema ou teatro; os Fittipaldis correriam a 200 à hora nas cidades, os empregos nunca começariam antes das dez (sim que ninguém tem o direito de me cercear a liberdade de dormir até tarde!) e qualquer um teria um Grand Danois num T0 a ladrar furiosamente toda a noite, varreria o seu lixo para o pátio do vizinho e andaria

armado não fosse alguém pôr em causa a sua inestimável liberdade de se defender. Belo mundo este onde qualquer um poderia fazer o que lhe desse na real veneta desde que usasse como argumento a sua liberdade para fazer, precisamente, tudo o que lhe desse na real veneta!

Os fumadores-coitadinhos gostam de se expor ao ridículo enchendo páginas de jornais e revistas, sendo muitos deles notáveis cronistas, com o imbecil argumento de confundir fundamentalismo com respeito cívico pelos circundantes (sejam eles fumadores ou não, porque mesmo os que optam por fumar não carecem que os importune o fumo alheio em espaços fechados).

Menos barulhentos, os fumadores civilizados aceitam fumar nas esplanadas e vão aproveitando o sol que tão generosamente abraça o nosso país. No entretanto metem conversa com o colega da loja ao lado que também saiu para fumar, falam do tempo e de futebol e no regresso à confeitaria têm a liberdade de lanchar com os filhos num ar não poluído.

In "Jornal Público" - 26 de Janeiro de 2008

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Eu importo-me e você?

A 4 de Dezembro último completaram-se onze anos desde a elevação do Centro Histórico do Porto a Património Mundial da Humanidade pela UNESCO. Contra o perene esquecimento a que esta data tem vindo sistematicamente a ser votada, nos últimos anos, um grupo de onze cidadãos, na sua maioria arquitectos, encabeçaram uma festa que, de forma espontânea, reuniu cerca de mil pessoas que se importam para comemorar a cidade e a data. O slogan “imPORTO-me”, da autoria do jornalista Carlos Magno, faz sobressair a cidade olhada como uma marca a explorar e ao mesmo tempo importuna-nos fazendo-nos pensar sobre as coisas que nos importam na cidade, espécie de alfinetada na consciência dos portuenses que vivem, sentem e sofrem a sua cidade.

Eu estive lá, disse “Eu imPORTO-me” e que coisas são estas com as quais me imPORTO?

Importo-me com a massiva desertificação da cidade, particularmente o seu centro histórico; importo-me com a degradação das casas devolutas de traça antiga; importo-me com o plano de transformação do Mercado do Bolhão num supermercado com meia dúzia de vendedores tradicionais decerto incapazes de competir com a massificação, prováveis elementos decorativos condenados a definhar até se tornarem apenas uma memória do passado, tal como o extinto Palácio de Cristal.

Importo-me com a total ausência de um projecto cultural para a cidade, importo-me que os ícones da cultura, sejam ele monumentos ou pessoas, sejam votados ao desprezo ou “censurados” na cidade apenas por não serem convergentes com o poder vigente.

São estas algumas das inquietações que com as quais me imPORTO, como cidadã do Porto, tripeira até à medula!

Fica a deixa ao Jornal Público: que desafie os seus leitores do Porto a pronunciarem-se sobre as coisas com as quais se importam.

Eu ImPORTO-me e você?

In "Jornal Público" - 21 de Janeiro de 2008

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Os “voyeurs” e os “bitaiters”

Escrevo este artigo quando o famigerado casal McCann foi constituído arguido sem que, contudo, se conheça ainda o desfecho da triste história de Madeleine. Não sabendo que mais novidades, quiçá desgraças, se poderão conhecer entretanto, a única resolução desejável seria uma que fizesse encontrar sã e salva a criança desaparecida, coisa que parece cada vez menos provável que venha a acontecer.

A razão deste artigo prende-se com o circo mediático a que esta história foi sujeita. Tomada pela imprensa de forma histriónica, rapidamente se juntaram entusiásticos “bitaiters” profissionais opinando sobre tudo o que era do conhecimento público e tudo o que apenas seria conhecimento policial e que a PJ, e bem, nunca revelou. Trata-se da investigação do desaparecimento, que se supõe criminoso, de uma criança e não do reality show a que os media e o próprio casal McCann (sejam eles culpados ou não) se prontificaram a realizar para gáudio de um público sedento do voyeurismo da desgraça alheia. Durante dias a fio vimos o folclore da vida dos pais da criança, com muitas idas à igreja à mistura e até, vejam só, com uma digressão ao Papa. Não pondo em causa a fé que estas pessoas possam ter não se me afigura como muito importante na investigação do desaparecimento uma ida ao Papa e menos ainda a sua transmissão televisiva, em horário nobre nos telejornais, como se isso fosse assunto que nos influenciasse as finanças ou fosse mudar o futuro do ambiente. Notícias de primeira página esmoreceram por pouco tempo, eis senão quando os pais tornam-se suspeitos do crime e, como tal, de retorno às parangonas passam de vítimas a carrascos aos olhos do povo, fazendo-se sumário julgamento em praça pública com direito a vaias e apupos. Portugal no seu melhor!

Desde o início tudo esteve errado, sobretudo se se admitia a inocência dos pais, estes e os irmãos mais novos da criança desaparecida deveriam ter-se resguardado e permanecido longe dos incómodos holofotes. Foi a própria família que jogou a seu bel-prazer com a fome de notícia de quem vive desse métier. Agora, suspeitos de parte activa no desaparecimento da criança (já que passivamente sempre foram culpados por negligência), os McCann refugiam-se em Inglaterra, seja por culpa ou apenas como protecção à intimidade que deveriam ter procurado desde o início. Os media portugueses começam a ser repudiados pela família, mas tarde demais: “Quem com ferros mata, com ferros morre”, os manipuladores dos media são agora suas vítimas, é o normal, é assim que acabam todos os heróis de reality-shows (por regra menos violentos e fatais do que este parece ser). O que verdadeiramente choca nesta história mediática (além do que, de facto, possa ter acontecido à criança) é quem protege a dor? Quem lhe dá guarida? Até onde pode chegar a avidez pela notícia (mesmo quando não há notícia já que esta só existiria se fosse descoberto o paradeiro da criança ou a verdade sobre o seu homicídio)? Quantos mais julgamentos em praça pública terão a nossa complacência e até onde seremos coniventes com “bitaiters profissionais” nas mesas redondas televisivas onde só falta apostas a dinheiro?

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A Judite, o Pedro, o Carlos e a Maria

Nas últimas semanas elevado número de articulistas criticaram a campanha “Novas Oportunidades”, iniciativa do governo que visa incentivar a continuação do ensino por parte dos cidadãos. Visto desta forma custa a entender as razões de tantas manifestações de desagrado, pois se se trata de promover a formação dos cidadãos, não se percebe.

A causa de tantas e tão veementes críticas passa pelo formato usado para essa campanha, onde quatro figuras de sucesso em várias áreas – Judite de Sousa (jornalista), Pedro Abrunhosa (músico), Carlos Queirós (treinador de futebol) e Maria Gambina (estilista) – interpretam o papel do que eles poderiam ser se não tivessem completado os estudos, apresentando-se assim travestidos respectivamente de Judite empregada de quiosque, Pedro arrumador de cinema, Carlos jardineiro de estádio e Maria empregada de lavandaria.

O cerne das angústias dos críticos passa por considerarem que se trata de desprestigiar as referidas profissões ora porque são mal pagas ora porque são actividades ditas manuais que, no politicamente correcto mundo dos letrados críticos, não podem ser menosprezadas em relação às profissões ditas intelectuais. Na mesma sequência passam a referir exemplos daqueles que sem saber ler nem escrever são hoje empresários de sucesso ou, inversamente, o número impressionante de licenciados sem emprego, atendendo a um balcão ou conduzindo táxis.

No fim de tanta crítica questiono-me: em que ficamos? Será melhor que ninguém estude e acabemos todos na digna profissão de limpa-chaminés? Sejamos honestos, a campanha não é um exemplo de bom marketing, é péssimo, mas a ideia que suporta é boa. O que se passa é que à Judite, ao Pedro, ao Carlos e à Maria não chegou um diploma, a isso tiveram de juntar trabalho, talento, ousadia e uma pitada de sorte, para atingirem o sucesso que lhes conhecemos.

A campanha é mal conseguida no entanto apenas vi críticos encartados, profissionais da caneta com os estudos completos, manifestando-se contra ela, não ouvi ainda nenhum trabalhador dito manual queixar-se de se sentir humilhado por ela.

A moral desta “história” poderia muito bem ser que “aprender compensa”, não apenas na escola mas fora dela. É preciso ler, ouvir, aprender a ter sentido crítico, sabendo que não basta um canudo para se obter sucesso em qualquer profissão. É preciso ter um sonho, agarrá-lo pelas pontas pô-lo a andar com o talento que cada um possuir. E se um diplomado tiver apenas talento para limpar escadas pois que seja um bom empregado da limpeza, que o conhecimento é sempre útil em qualquer actividade por mais manual que nos pareça. Mais vale um jardineiro que saiba recitar o “Mar Portuguêz” que um alto dignitário da nação que desconheça o número de cantos “D’Os Lusíadas”!

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Os Rivoltosos vencidos

Deambulando pela baixa da minha cidade encontrei, itinerando por ela, um grupo de “rivoltosos”, ainda empunhando cartazes e entoando cânticos de revolta e indignação com o desprezo a que a cultura da cidade é votada, perante a inacção de todos. No final da tarde, novamente me cruzei com os manifestantes, desta feita junto ao Rivoli, os cartazes já pousados, os seus corpos em desânimo. São estes os vencidos “rivoltosos”, faltou-lhes tudo para que o seu protesto desse frutos, faltou-lhes cidade, faltou-lhes a massa crítica da cidade, o abraço de uma cidade que viva e lute pelo que é seu. Ao invés disso os intelectuais portuenses, sempre prontos a opinar e a esbracejar, preferem o conforto dos bons restaurantes lamuriando aí a inércia que se instala na urbe enrolados no conforto das lareiras e dos charutos caros, é tão mais cómodo!

Entretanto a cidade continua lá fora, o Teatro Municipal, recuperado com dinheiros públicos é oferecido, com despesas pagas, a um entertainer, teremos pão e circo como previsto, amén.

Dona Maria Borges, a antiga proprietária do espaço, que a minha Mãe conheceu e descreve como uma mulher de visão larguíssima, sobretudo no tempo em que viveu, deve dar voltas na tumba, ela que trouxe, por exemplo, Suggia e Rubinstein, ao seu Rivoli. Enfim, agora havemos de ter uma revista ou um musical sobre Sá Carneiro… ele há cada coisa que se lê nos jornais!

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Psiquiatra precisa-se!

Uma vez por outra, nos dias mais cinzentos, acho-me a mendigar abraços a alguns, poucos, amigos. É claro que é uma figura ridícula, que impressiona pela fragilidade mental de quem o faz. Quando isso acontece (mesmo sendo abraços metafóricos, as mais das vezes, aqueles que peço) percebo o sentimento que instigo nos meus amigos/vítimas que, uns, com denodada preocupação pela minha saúde mental, generosamente me franqueiam as portas do “seu próprio” psiquiatra para consulta urgente e outros, imbuídos do mesmo sentimento de comiseração, me fazem longas prelecções sobre a importância que o apoio psiquiátrico (não sei se ambulatório ou com internamento incluído), de preferência com umas quantas pastilhas de várias cores e sabores, tem no equilíbrio de uma pessoa (leia-se a felicidade total e absoluta, isenta da necessidade dos metafóricos abraços e lamurias que levam a lado nenhum).

Perante isto estou, finalmente, decidida a ir a uma consulta, vou pagar a um profissional para me abraçar. Obviamente sendo um serviço pago farei certas exigências: tem de ser homem e bonito, de preferência com voz baritonal (embora, na verdade, nem precise de falar). Quando a gente paga exige qualidade!

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O buraco do donut

Os urbanistas chamam-lhe o “efeito donut”. Trata-se de um fenómeno comum a cidades que vão perdendo centralidade em favor da sua periferia que vai “engordando”.

A cidade do Porto, dita a segunda do país, encontra-se no vago do donut, uma espécie de buraco negro, do qual parece incapaz de sair, tal é o marasmo da vida social e cultural (não) existente na cidade.

A edilidade parece apostada em fazê-la regredir à dimensão mais provinciana e triste de pequena freguesia, regulada pela máquina calculadora do senhor presidente que, qual pregador, faz saber que enquanto houver uma alma faminta na cidade esta não terá direito a outros eventos culturais senão aqueles que os seus fracos recursos cognitivos sejam capazes de digerir – nada que dê muito trabalho a pensar (isso gastaria muita energia calórica aos pobres esfaimados). De resto, nada lhes falta: as actuações de cançonetistas pimba promovidas nos bairros pela incansável Rádio Festival, os festivais de bandas de coreto e, claro, a única e imparável corrida de calhambeques – a tal que há-de fazer sombra ao Circuito do Mónaco.

Não é espantoso que não exista cinema na cidade? E teatro? Que é dos nossos festivais, agora que o Municipal fica entregue à gestão privada do “fast-profit”?

A cidade, enfim, atola-se no buraco do donut, provinciana, pobre, cinzenta e miudinha. Sobra Serralves, a Casa da Música (cujo parto, se bem nos lembramos, foi a ferros) e o quê mais? Tivéssemos tido este executivo camarário em 96 e o Coliseu teria, certamente, sido entregue a qualquer igreja ou loja dos trezentos que se candidatasse à sua gerência. Para quando a exploração da Torre dos Clérigos (a mesma que se encontra, qual embrulho de natal, envolvida pelo charme da cerveja e do Pierce Brosnan) por privados a fim de a tornar finalmente lucrativa?

Na festa da nossa aldeia – alegrem-se as hostes – haverá Quim Barreiros para festejar a passagem deste para outro ano, decerto tão farto como o que finda em autoritarismo ausência de diálogo, pobreza de espírito e um mutismo cultural que nos orgulha e ampliará o nome da cidade no país e no mundo.

Esta cidade, que já foi liberal e digna, antes batia-se pelo seu cunho burguês e pela liberdade de pensamento, mas isso… já foi há muito tempo. O tempo onde nela havia pessoas, decerto as mesmas que, entretanto, seguiram o êxodo para Gaia, Matosinhos, Maia e quejandos arredores onde existem cinemas, música, teatros, dança, e onde em breve, decerto, haverá feira-do-livro, FITEI, Fantasporto e as demais actividades de índole cultural que a limpeza intelectual instigada pelo poder vigente na cidade, conseguir afastar do buraco donutiano.

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Afecto versus Capital

Meio ao abandono, este blog de crónicas, resolvi hoje reatá-lo com um assunto espoletado por uma história que, embora com cerca de um mês, é actual por ser um dos possíveis retratos dos tempos que correm.

 

Há coisa de um mês os Rolling Stones cancelaram mais um concerto, desta feita em New Jersey, por laringite do seu líder Mick Jagger. Mais do que o cancelamento, o que fez notícia foi o pedido milionário de indemnização, feito por uma certa Rosalie Druyan, da módica quantia de 51 milhões de dólares, pretendendo o ressarcimento do bilhete ($ 375), reserva do hotel ($300), assim como respectivas viagens (suponho que o excesso cobriria danos morais pela expectativa de um magnífico concerto que – oh ignomínia! – se veio a gorar).

Os Stones são uma banda milionária, os seus sinais exteriores de riqueza são mundialmente conhecidos, fruto de uma carreira de sucesso pautada por muitos discos vendidos, estádios cheios, bilhetes caros, etc., etc., etc. Tudo isto se deve, em última análise, aos fãs que são quem, na verdade, permite que aufiram essa vida de nababos.

Porém, o que salta à vista no pedido desta dita “fã”, é a supremacia do capital sobre o afecto. Não duvido que além do bilhete (cujo valor é sempre devolvido nos cancelamentos), os preços das viagens e do hotel tenham sido penosos e até passíveis de ressarcimento para Rosalie, mas o valor de 51 milhões só se explica como uma tentativa de retaliação à banda por ser tão rica, uma espécie de vingança invejosa.

Na música – e eu entendo a música como uma coisa muito orgânica – espera-se a criação de especial cumplicidade entre os heróis que sobem ao palco e a massa que os admira da arena. Cria-se um enleio encantatório entre os artistas e os seus fãs. Enquanto que em espectáculos de desporto se nutrem inimizades e se exteriorizam ódios, próprios da competição, os espectáculos de música tendem a exacerbar sentimentos de ternura. Os concertos podem ser orgásticos ou orgiásticos até e saldam-se – quando valem a pena – por magia e encantamento.

Os Stones têm história e Mick Jagger caracteriza-se por uma espantosa energia em palco que mantém desde a juventude, tem, no entanto, sessenta e tal anos e um passado de drogas que talvez lhe fragilize o corpo. No lugar de uma admiradora da banda que viu o artista cancelar o espectáculo por doença, questionar-me-ia sobre quanto mais tempo este continuará sobre os palcos e com a energia que tem sido seu apanágio, perguntar-me-ia a quantos mais concertos poderia ainda assistir dos velhos Stones, talvez isso me entristecesse e sentisse preocupação com a saúde do vocalista.

A música é uma arte de afectos e o que assusta nesta história é a substituição do afecto pelo prazer apenas superficial ou, na sua impossibilidade, a inexorável busca do capital. É indiferente para a “fã” que os artistas que sobem ao palco sejam pessoas e, por isso, passíveis de doença, envelhecimento, degenerescência e morte; gente com sentimentos, risos e lágrimas. À espectadora interessa apenas que a uma dada quantidade de dinheiro despendida no bilhete e viagens corresponda um momento de música que dá prazer – um prazer que perceberá apenas de forma superficial – e, em não havendo espectáculo, saia-se a choruda indemnização, como convém, que os Stones são, afinal, uma banda rica!

Onde para o afecto?

Somos cada vez mais, em todos os lugares, em todas as actividades, peças de uma diabólica engrenagem, peças sem outra importância que não o correcto funcionamento da máquina, predestinada às pequenas coisas, neste caso, aos pequenos prazeres.

O vocalista está doente – a máquina empena, não trabalha – o espectáculo é cancelado – prazer imediato não conseguido – indemnização correspondente ao prazer que se esperava obter – situação sanada.

Resultado: Capital: 51 milhões; Afectividade: zero!

 

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"Rivolição"

Como que por maldição, a cidade do Porto, a cada dez anos, vê-se a braços com tentativas de usurpação das suas poucas salas de espectáculos.

Há dez anos a entidade privada que presidia aos destinos do Coliseu do Porto preparava-se para o vender a uma igreja, de propósitos mal esclarecidos, que o pretendia destinar a local de culto. Os portuenses saíram à rua e, com a ajuda da Câmara Municipal, compraram a sala, devolvendo à cidade aquilo que, por direito, sempre lhe pertencera. Uma manifestação que encheu Passos Manuel com palavras de ordem, um Abrunhosa algemado às grades e uma mole de povo acotovelando-se, algemando-se a ele de tão coesa na vontade de ali permanecer. Valeu a pena!

Dez anos depois o agravo é diferente. Desta feita é a Câmara que pretende entregar à concessão privada o Teatro Municipal Rivoli, recuperado com dinheiros públicos (nos idos em que a edilidade tinha preocupações culturais) e reaberto como teatro municipal vocacionado para a prestação de serviço público. Se, ao contrário do que aconteceu com o Coliseu, não se duvida que este espaço se mantenha direccionado para o espectáculo – sendo isso uma exigência – já se duvida do serviço público que um teatro municipal, como é este, possa prestar encontrando-se gerido por entidades privadas, cujo objectivo é, naturalmente, o lucro.

O Teatro Municipal Rivoli tem, e bem, recebido nas suas portas uma diversidade de grupos e artes, não apenas teatro mas também música e bailado. Sendo que a arte deve ser plural, o serviço público que cabe a um teatro municipal passa por manter essa pluralidade, pelo apoio a companhias “sem casa” e a alguns espectáculos ditos mais marginais, para públicos mais restritos e, sobretudo, ser abrigo à criação e à formação de novos públicos.

Ao entregar este teatro a privados, sob a desculpa do prejuízo – fácil de perceber tomando em conta o progressivo desinvestimento a que foi votado – propicia-se a ocupação deste por um tipo único de produção, visando exclusivamente a rentabilidade, onde se divisa apenas espectáculos de índole mais popular, de fácil adesão de público, garantindo sala cheia. Arredadas ficarão produções para as chamadas “imensas minorias”. Obrigados, pelo caderno de encargos, a quatro produções anuais mas com 300 noites de espectáculos, não consigo vislumbrar que produtos nos podem ser “servidos” senão uma espécie de enlatados a repetir iterativamente, ficando cerceada a capacidade de inovar e sonhar.

Assim, embora não perdendo uma sala de espectáculos, o Porto perde uma sala polivalente, perde um teatro verdadeiramente municipal, de serviço público, onde todos pudessem ter voz.

A cultura não pretende o lucro financeiro mas o da alma, o do conhecimento, o do sonho e da conquista de mais e melhor mundo. A edilidade, provou-o já várias vezes – e parece ateimar em prosseguir provando-o – não conhece a cultura nem quer vir a conhecê-la. É pena, perdemos todos! Um povo demarca-se dos outros pelos seus valores culturais e é esse o seu grande valor intrínseco.

No momento em que escrevo este artigo um grupo de corajosos ocupou, como protesto, no final de uma peça, o pequeno auditório do Teatro Rivoli. Sem luz, encerrados do mundo que espreitam por uma fímbria onde mal cabe uma mão e, ao que parece, sem água, hão-de sair certamente vencidos pela fome ou pelo cansaço. Não creio que consigam mudar o rumo traçado pela Câmara, caracterizada por profundo autismo e total insensibilidade a tudo o que cheire a cultura, mas pela coragem, pelo esforço e por, de uma forma ou de outra, ajudarem a agitar consciências, bem hajam!

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A topografia dos meus afectos

Um amigo emprestou-me “A ideia de Europa” de George Steiner. Melhor dizendo “obrigou-me” a lê-lo, tal era o seu entusiasmo e vontade de o discutir, fazendo fé que a sua leitura havia de alterar a minha visão da Europa e o do ser Europeu.

No fim do livro fiquei a achar que acabara de colocar mais uma peça no puzzle da compreensão da minha ligação umbilical ao Porto e do amor infinito que nutro por esta cidade cinzenta.

À luz de Steiner o Porto é a minha Europa em miniatura onde eu, peripateticamente, divago entre café e café, sorvendo o cheiro dos que antes de mim lá se sentaram, ali amaram e sofreram, desenharam conspirações e revoluções ou… apenas deixaram que o mundo fosse lá fora enquanto o café lhes aquecia o frio e chuvoso fim-de-tarde. Da montra do meu café é onde eu vejo o mundo acontecer e nunca vi luz mais bela que a do sol abrindo frestas na neblina numa manhã do Porto.

Aqui tudo é perto, tudo fica à distância de uma caminhada e, talvez por isso, nas ruas os transeuntes trocam olhares íntimos. Encontramos as mesmas pessoas nos mesmos sítios, às mesmas horas, nos mesmos lugares. Somos uma espécie de família implícita, uma voz una que se ergue em defesa da cidade e se alimenta de tripas se disso for preciso.

O horizonte alarga-se frente ao rio e ao mar, da cantareira à Foz. Numa esplanada beira-mar, não há horizonte fechado que cerceie a liberdade do pensamento, aqui todas as ousadias são admissíveis e admiráveis.

Ainda à luz de Steiner, a toponímia da cidade segue segundo os artífices da história: pintores, escritores, cientistas e estadistas, cruzando tendências e fados, reis e republicanos partilham a mesma cidade entrecruzando-se por ruas e vielas.

A filiação de Atenas advém dos renascentistas que encontramos em artistas e homens de ciência como Abel Salazar ou Bento de Jesus Caraça. Esta cidade é, ainda hoje, alfobre de alguns dos melhores cientistas, pintores, escritores, poetas e músicos. Aqui há, ainda, livrarias como a “Latina” ou a “Lello” onde os livros se conhecem pelas mãos e pelo odor e onde a palavra livreiro não é igual a balconista de livraria.

Paradoxal, a Invicta é burguesa e independente mas municiada de um conjunto de igrejas onde “a cidade da virgem” se persigna.

Escrevi um dia que “esta cidade tem mais passado que futuro”, não por um tétrico pessimismo que me levasse a crer no seu fim próximo nem, tão pouco, por a achar já morta, mas antes porque sentando-me no presente tenho um tão vasto horizonte de passado e história que é difícil não ficar avassalada por essa memória que, sendo tão imponente, acaba tomando-me num maternal colo de onde consigo erguer-me e conhecer-me como um Eu que existe e faz parte da cidade, tanto quanto estas pedras que piso e outros pisaram antes de mim. Cidade onde as marcas que deixo se misturam com as dos que me precederam.

Assim, da montra do meu café, fico a sonhar em Português, trocando os vês pelos bês (fruto da herança galega), tão mais macios e menos agressivos ao ouvido, deixando que o azul celta dos meus olhos fique imaginando uma gaita de foles como banda sonora ao cimbalino que arrefece sobre a mesa.

 

Café Majestic, Porto, 4 de Outubro de 2006

por sistermoonshine | 3 Comentário(s)

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Os patrões comprometidos!

Trabalhadores prostrai-vos! Os patrões acabam de se comprometer com o país! É agora que isto vai para a frente!

Foi amplamente divulgado pela imprensa que um corajoso, auto-denominado “revolucionário” grupo de empresários de sucesso, unidos no ensejo de ajudar o país, numa sessão cheia de glamour e show-play, proclamaram ao mundo quinze medidas, quinze! que hão-de arrancar o país da cepa torta!

Esperávamos, empolgados, que destes empresários surgissem luzes no fundo do túnel que nos permitissem perspectivar uma melhoria no investimento dentro e fora do país, um aumento quantitativo e qualitativo das exportações de produtos com a marca Portugal, com consequente diminuição do desemprego e igual melhoria na produtividade e no PIB (já nem falando da auto-estima, tão propaladamente falida!).

Eis senão quando a montanha pariu um rato! E, a acreditar no que foi transmitido pela imprensa, as famosas quinze medidas se resumiam a ideias e “bitaites” sobre como o governo deveria governar tornando mais fáceis os despedimentos por uma maior flexibilidade contratual, começando logo ali na função pública “abatendo” 200 mil funcionários; sobre como tudo seria mais fácil se houvesse um gestor profissional em cada esquina, gerindo todas as actividades, mesmo aquelas cuja natureza desconhecem e para as quais, por motivos óbvios não estão vocacionados, como sejam a título de exemplo: o ensino, a saúde ou os tribunais e, a cereja no cimo do bolo, um decréscimo no IRC para as empresas. Ora nem mais! Ficamos esclarecidos sobre a capacidade de comprometimento e o empenho destas luminárias!

Cá por mim, e num laivo de generosidade para com o país, apetece-me desde já fundar um revolucionário movimento de cidadãos desinteressados, de cujas reuniões hão-de sair ideias luminosas tais como: obrigatoriedade de patrões simpáticos e compreensivos, aumentos semestrais de ordenados, dois meses de férias e, naturalmente, um decréscimo no IRS. Em suma: mais emprego e menos trabalho!

Ai Portugal, Portugal, isto assim vai, não há dúvida!

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O amor é um lugar incerto

A história é tão simples quanto infeliz, conta-se em três penadas. Um homem nasce no sexo errado e passa o resto a vida a tentar mudá-lo, uma vida entre a lascívia e o luxo seguida da doença e da marginalidade extrema. Gisberta era emigrante ilegal, transexual, toxicodependente, infectado por SIDA e Hepatite, sem-abrigo, vivendo nas ruínas de uma obra inacabada abandonada há anos. Um bando de adolescentes residindo numa instituição, eles também fruto da miséria, espancam o transexual, dia após dia, até à inanição deste após o que o atiram a um poço, ainda vivo, onde este acaba por perecer por afogamento.

Julgados como criancinhas indefesas e inculpados não de homicídio (pois não seria certo que perto da morte Gisberta teria já asas de anjo para se livrar do poço onde caiu?) mas apenas do linchamento da indefesa vítima, sendo o crime aligeirado por as lesões inflingidas só terem sido fatais dada a fragilidade de que Gisberta já padeceria em virtude das doenças de que sofria (portanto é menos grave seviciar um enfermo do que um saudável, curioso não?) aplicam-se penas entre 11 e 13 meses em regime aberto.

É obvio que não se esperava, nem seria desejável, pena de prisão perpétua nem essa pena existe no nosso país nem os réus seriam imputáveis a esse ponto, mas o crime em causa além de redundar num homicídio, revestiu-se da mais penosa e degradante crueldade. Esperava-se que se aplicasse a Lei Tutelar Educativa na sua medida mais gravosa e sob regime fechado.

Se é certo que o grupo de jovens decerto desconhece o carinho e a ternura, talvez eles próprios vítimas de atropelos físicos ou psicológicos ao longo das suas vidas, eles também nascidos do lado errado do amor, não é menos certo que se se pretende reeducá-los para a sociedade, se se pretende torná-los cidadãos íntegros não é passando-lhes a mão pela cabeça como se esta morte ocorrida da mais dolorosa e degradante forma, nada tivesse sido senão um acidente de percurso, pouco mais do que se tivessem roubado fruta num supermercado, que se conseguirá tal proeza. Que cidadãos serão estes no futuro? Que podemos esperar deles senão mais marginalidade? Quem lhes vai mostrar o bem do mal, o certo do errado? Para eles como para Gisberta o amor é um lugar incerto, não creio que seja com um laxismo de encolher de ombros que o Estado que somos nós todos consiga conciliar a justiça com a protecção destes infelizes e cruéis marginais.

por sistermoonshine | 11 Comentário(s)

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