SOL

Verba Politici

Carolina Vieira & Laura Anes
Valores e Globalização

No âmbito de mais uma conferência realizada recentemente na Fundação Calouste Gulbenkian sobre o tema Que Valores para este tempo? pareceu-nos oportuno deixar aqui uma reflexão acerca não só da temática dos valores mas essencialmente da temática da Globalização dado que vivemos nessa mesma era. Todavia impõem-se inúmeras questões às quais não temos, obviamente, respostas.

            Em primeiro lugar falar de valores leva-nos naturalmente a uma reflexão filosófica por toda uma relação com aspectos morais de cada indivíduo. Contudo também a moralidade se apresenta, na actualidade, como conceito paradoxal dado que nos é pedido de forma quase constante uma inteira racionalidade e realismo tantas vezes desumanizados. A questão que se coloca logo desde início é se os meus valores, serão os teus, os dele, os nossos?

            Iniciamos esta dissertação acerca da Globalização e da dinâmica dos valores citando Anthony Giddens, sociólogo inglês: «estamos a viver num mundo em processo de mudança acelerada». Esta citação prende-se com todo um contexto de mudança a nível mundial. Mas a mudança não é de hoje… Século a século são visíveis alterações. Será, então, que sempre vivemos num mundo globalizado? Ou será isto um fenómeno do século XX, XXI? As opiniões são diversas e por vezes convergentes todavia se considerarmos que a partir da Revolução Industrial (século XVIII) houve todo um motor que se começou a desenvolver e a fazer com que entre países crescesse um espírito de competição, então vemos que cada vez mais o mundo se tornou mais pequeno e mais próximo nomeadamente através dos transportes que na época melhoravam ou apareciam mais eficazes. Podemos também estabelecer outras datas, inclusive mais longe no tempo, como momentos em que é possível ver que nenhuma nação, que nenhum Estado, que nenhum país esteve só, esteve isolado. Se pensarmos no tempo dos grandes impérios é nítida a ideia de unificação, de integração, de intercâmbio aos mais diversos níveis. A pergunta que se impõe é onde começou a Globalização ou melhor que rumo segue este fenómeno? Será o de uma reunião de potências (países detentores de um poder desmedido e consagrado) numa ordem mundial? Caminhamos para as teses cooperantes e integracionistas ou pelo contrário remamos para os regionalismos isolados de potência unilaterais? Como descrevemos esta cena internacional que se impõe? Certo é que a Globalização é um processo pelo qual a vida dos diversos países, dos diversos espaços geográficos, dos vários actores é afectada por influências internacionais em razão de ***ções político-económicas. Um outro nome que passamos a citar é o de Boaventura Sousa Santos na medida em que afirma haver intensificação do processo de Globalização a partir da década de 70 o que nos leva a crer que tal como noutros campos da arena internacional a existência dos fenómenos é antiga apesar do, diríamos nós, falatório ser mais actual.

Retomando o tema deste texto, relação entre globalização e valores, vamos pegar naquilo que o autor acima referido denomina por Globalização Cultural. Nesta existe todo um questionamento acerca de Cultura e Valores Globais ou uma verdadeira Globalização Cultural. Em primeiro lugar, não devemos confundir um fenómeno global com uma teia de influências mais forte por parte de algum país. Dizemos isto tendo em conta a confusão clara que existe entre americanização, ocidentalização e globalização. Não podemos nem devemos entrar numa lógica de imposição do que eu sou àquele que é diferente. Se há que existir uma unidade na diversidade é preciso crer que a Globalização é um processo espontâneo, suficientemente forte por si para se impor como podemos ver pela intensificação louca dos fluxos de bens, capitais, serviços, trabalho ou ideias. Tudo isto está longe de conduzir a uma cultura global mas afirma-se como algo partilhado por essa globalidade. Diz o autor que existem, então, culturas globais parciais. Todavia é preciso de igual forma entender que a par deste fenómeno cresceu todo um lado localizado, isto é, houve uma intensificação de movimentos de integração, de regionalismos. Este conflito global versus local é, de facto, uma armadilha à Globalização enquanto processo e fenómeno global. É necessário conjugar essas comunidades que se sedimentam numa lógica regional enquanto actuação local mas numa linha global de comunhão de valores pelo menos aqueles mais idealistas que todos teremos que defender. Apesar dos meios serem tendencialmente diferentes para que os fins sejam naturalmente iguais ou semelhantes «temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza e diferentes quando a igualdade nos descaracteriza» (Boaventura Sousa Santos, Os Processos de Globalização, 2001).

            Concluímos dizendo que o sucesso ou não deste processo passa pela escolha Globalização para o crescimento económico puro e duro ou Globalização para o desenvolvimento sustentável e equitativo da população mundial. Homogeneizar o fenómeno seria totalmente dramático dado que o Mundo Global não passa unicamente pelas inúmeras e avultadas somas de capital, pelas inúmeras multinacionais ou por quaisquer medidas políticas. O Mundo Global terá que passar principalmente pela dinâmica dos valores não descurando, naturalmente, todos os outros domínios não menos importantes. Sejam eles quais forem, valores como a Liberdade, a Paz e a Solidariedade terão que imperar. E isto só será conseguido caso aqueles que “manipulam” o processo de Globalização considerem o Homem como o bem mais precioso do nosso planeta. É importante entender que realmente o Homem só se ultrapassa quando reconhece as suas falhas e que a pior atitude a ter é a de indiferença seja na crise de valores, seja num possível mundo global.

Armas de Destruição Massiva

O assunto da proliferação nuclear é em si bastante complexo sendo que a sua conjugação com o fenómeno do terrorismo, nomeadamente de cariz fundamentalista islâmico, o transforma numa questão ainda mais controversa. Mas será que o nuclear terrorista constitui uma ameaça assim tão imediatista, como muitos o querem fazer querer?

Na realidade a posse de armas nucleares por grupos terroristas, assim como a hipótese de um ataque em larga escala com recurso às mesmas, afigura-se improvável. Por um lado a estrutura dos grupos,pautada por uma total discrição, seria posta em causa por este tipo de dispositivos, demasiado visiveis. Por outro lado, adquirir este tipo de materiais exigiria recursos demasiado importantes para este tipo de actores não estatais, mesmo com as enormes somas de capital que circulam nos meandros destas redes. O caso seria diferente se as actividades e redes terroristas fossem directamente apoiadas por uma entidade estatal que lhes facilitasse o acesso a materiais que à partida só o Estado tem capacidade de manter. Sem a ajuda de um Estado é pouco provável que mesmo a mais sofisticada organização terrorista consiga enriquecer os materiais necessários para a produção de uma arma completa. Contudo quererá algum Estado correr o risco de se expor à ameaça nuclear terrorista?

Deste modo, o eventual nuclear terrorista nunca será superior ao nuclear dos Estados. De igual modo o facto de se ter material fissil, neste caso o urânio e/ou plutónio, diga-se de muito dificil aquisição, é distinto do fabrico de uma arma nuclear, a qual requer tempo, espaço e conhecimentos técnicos aprofundados. Ao invés, o recurso a armas químicas e/ou bacteriológicas impõe-se de uma forma muito mais real dado o seu fácil fabrico  (não são necessárias grandes dimensões de espaço nem para a fabricação nem para o transporte e não requerem um tão elevado nível de especialização como as armas nucleares). Além disso, não podemos descartar a hipotese, também ela mais palpável,  de ataque ou sabotagem a instalações nucleares.

Apesar de termos vindo a referir as dificuldades que uma organização terrorista, mesmo a mais bem sucedida, teria para ter acesso a materiais que permitam o fabrico de uma arma nuclear ou o acesso a uma, não podemos negar as tentativas feitas por este tipo de organizações para lhes ter acesso. Na verdade, circulam dados que revelam isto mesmo, especialmente por parte da Al-Qaeda, tentativas no sentido de adquirir material para fabricar armas junto às ex-Républicas Socialistas Soviéticas. Tal como na ficção, a proliferação nuclear surge essencialmente ligada à implosão soviética e ao "mito da mala nuclear", contudo não nos podemos esquecer de que os episódios de tráfico de materiais fisseis se deram um pouco por todo o mundo, inclusivé em muitos Estados europeus. Até agora os incidentes têm envolvido quantidades pequenas de materiais, quando essas são maiores não são apropriadas para o fabrico de armas.

Mesmo que num patamar hipotético, a ameaça do terrorista não deixa de constituir uma imagem aterradora. Pensar num futuro no qual os terroristas podem ter acesso a este tipo de armamentos, não nos pode fazer deixar de reflectir, mas também não podemos deixar de imputar culpas aos Estados, os verdadeiros responsáveis por uma era na qual a proliferação nuclear se tornou uma realidade, mesmo que ainda não aos níveis de actores não estatais. Até porque os tão afamados tratados de não proliferação nuclear não são mais do que o impedimento dado a alguns por parte de outros no sentido de não obtenção de arsenais.

Acerca do terrorismo

O terrorismo sempre existiu, sendo mais comum em certas épocas e variando no que respeita aos actores. Tal como Walter Laqueur o vê, o terrorismo não é uma ideologia nem uma doutrina política, mas sim um método, o qual pode ser utilizado por todas as causas (ideológicas, politicas, religiosas, etc.).

O terrorismo moderno nasce no século XIX entre os anarquistas russos, adquirindo várias formas ao longo do século XX e servindo inúmeras causas. Novos fenómenos aparecem com motivações muito fluidas, como é o caso do fundamentalismo islâmico, cujos atentados não possuem lógica aparente. Mais confuso ainda é o terrorismo sectário (atentados de Oklahoma City ou de Tóquio em 1995), o qual não assenta em qualquer racionalidade política. O terrorismo é igualmente tocado por uma lógica mafiosa, quer no que respeita à sua utilização pelos Estados considerados “pária”, ou ainda ao financiamento desse tipo de actividade, ligado ao mundo do crime e da corrupção.

Apesar de tudo, foi a partir do 11 de Setembro de 2001 que o problema do terrorismo passou a ser uma prioridade na agenda política internacional. Mas, a verdade é que desde a década de 80 o mundo é assombrado pelo espectro do terrorismo internacional, internacionalizado pela questão do desvio de aviões. Este encontra-se ligado a conflitos regionais ou locais. Através da pressão que exerce procura fazer progredir uma causa e restabelecer um equilíbrio frequentemente perdido no terreno.

Actualmente, é o terrorismo de feição islâmica radical que capta a atenção do Ocidente. Esta forma de acção encontra-se ligada ao conflito israelo-árabe, à guerra civil libanesa e à intensificação do fundamentalismo islâmico em todo o mundo. As suas acções dirigem-se contra aqueles que culpam pela situação dos países árabes e pela humilhação a que consideram ter sido submetido o Islão, ou seja o Ocidente, representado na figura dos USA.

Ao longo da década de 1990, os ataques terroristas contra alvos americanos multiplicaram-se, culminando nos atentados espectaculares do 11 de Setembro. Realmente foi este acontecimento que trouxe para as relações internacionais a preocupação com o terrorismo “de novo tipo”, o qual marca uma ruptura com o terrorismo “tradicional” como o da ETA ou do IRA, quer em termos de objectivos, como de alvos, âmbito de acção, etc.

Dificilmente se conseguirá encontrar uma definição incontestável de terrorismo, em parte devido às muitas apreciações que se fazem deste fenómeno, porém é possível descrever muitas das características deste “terrorismo de novo tipo”. Primeiro que tudo ele é transnacional, na medida em que não tem território, nem população. As suas células têm como base o mundo, actuando onde tem condições para tal, assim, “o mundo é a sua morada e o seu campo de actuação”. O terrorismo não requer a mobilização em massa. É obra de pequenos grupos de militantes que clama representar o “povo”, mas que agem na ausência do mesmo.

Nas últimas décadas verificou-se uma alteração dos alvos, das armas e das motivações, tornando-se os terroristas mais perigosos do que alguma vez haviam sido. Também as sociedades democráticas se tornaram mais vulneráveis a este tipo de acções. Hoje os terroristas empreendem acções indiscriminadas e brutais contra os que consideram ser inimigos. Assim uma pergunta fica no ar: quem é, para o terrorismo de novo tipo, o inimigo?

Com uma visão mais religiosa do que política, e pegando numa imagem geo-estratégica que vem desde a Idade Média, a qual contrapõe o Ocidente (casa da guerra) ao Islão (casa da paz)., os terroristas islâmicos distinguem simplesmente entre o bem e o mal (embora o presidente norte-americano, George W. Bush também o tenha feita), o que conduz a uma absolutização do inimigo e leva a uma não distinção entre culpados e inocentes, já que todos os inimigos, neste caso os infiéis, cujo líder mundial são os USA e cujo representante regional é Israel, são culpados. Daí a celebre frase proclamada no pós 11 de Setembro incitando à luta: “nenhum americano é inocente”. O inimigo é estrutural e não conjuntural. Assim, uma vez criado o inimigo, a hostilidade é generalizada e indiscriminada, não distinguindo entre homens, mulheres, crianças, combatentes e não combatentes.

O novo tipo de terrorismo caracteriza-se pela desproporção entre os meios e a capacidade de infligir danos. Esta capacidade tem crescido ao longo dos anos, e as armas utilizadas conseguem proporcionar um nível de destruição nunca antes alcançado. Todos os meios são justificados em função do seu fim, daí que a possibilidade de utilização de armas nucleares, bacteriológicas e químicas, se apresente como uma preocupação constante no mundo de hoje.

Além dos danos infligidos, os quais se propagam para além dos danos imediatos, fomentando a discórdia, promovendo a intolerância, fragilizando a economia, etc., existem as influências sociológicas, pela instalação na população de um sentimento de medo permanente e de vulnerabilidade constante, sendo que é um dos principais objectivos deste tipo de actos. Desde o 11 de Setembro, as pessoas encontram-se num estado de emergência aparentemente contínuo. A ansiedade no que respeita à segurança aumenta pelo facto do terrorismo atacar explicitamente inocentes, qualquer um, em qualquer lugar pode ser vítima deste tipo de ataques indiscriminados. Gera-se a sensação de que não se está seguro em lado nenhum.

A instalação do medo é facilitada pelos meios de comunicação modernos, os quais além de mediatizarem esses acontecimentos, são utilizados para veicular as mensagens, exigências, queixas e objectivos políticos, de natureza difusa, dos terroristas.

O novo terrorismo encontra-se imbuído em fanatismo. É ele que permite um dos actos mais visíveis do terrorismo: o suicido bombista, que apesar de não ser um fenómeno novo, continua a ser assustador. Como Joseph Conrad escreveu na sua obra “O Agente Secreto” (1907) “um atentado bombista, para ter qualquer influência na opinião pública, tem de ir para além da intenção de vingança ou de terrorismo. Tem de ser puramente destrutivo”. O auto-sacrificio é uma arma poderosa na relação com a comunidade moral, e tem para muitos um objectivo específico. Um suicida islâmico crê estar a cumprir a vontade de Deus, sendo o suicídio a maneira considerada adequada para terminar a vida (o suicídio em época de paz é proibido para os muçulmanos).

Mas resumir a prática terrorista ao Islão parece excessivo, basta lembrarmo-nos do ataque bombista de Oklahoma, o ataque terrorista mais mortífero antes do 11 de Setembro, para verificar o efeito destruidor do fundamentalismo cristão no próprio Ocidente. Contudo, muitos parecem ter esquecido tal e agora o conceito de terrorismo particularmente invocado relaciona-se com o de jihad (embora o verdadeiro significado seja “luta” ou “esforço”, é conhecida por “guerra santa”, sendo este acrescento estritamente ocidental), a qual é encarada como um incitamento à violência.

Os objectivos deste novo tipo de terrorismo são, na sua maioria, regionais ou mesmo locais, a própria Al-Qaeda tem como objectivo primordial destruir a casa Saud e expulsar os infiéis da terra Santa, todavia estão consciente das implicações que tal teria para a economia mundial Ocidental. Apesar disso, a sua acção é cada vez mais global actuando por meio de células locais, que actuam em rede e que têm hierarquias definidas.

O terrorismo pretende provocar divisões entre civilizações e no interior das mesmas. a ideia de choque entre o ocidente e o Islão, a divisão entre os Estados Unidos e a Europa e entre o islão fundamentalista e o moderado, foi uma estratégia até agora realizada com relativo sucesso. Todavia, o que é necessário fazer é precisamente o inverso: unir o Ocidente, aproximar o islão moderado, isolar o fundamentalismo, dividir a Al-Qaeda e evitar decisões irracionais que promovam um espaço de confronto e impossibilitem o diálogo.

O Nacionalismo

O nacionalismo, diferente de patriotismo e de sentimento nacional, surgiu, de certo modo, após a Revolução Francesa, ou poderemos dizer que teve aí a sua essência e a sua base de crescimento. Teve grande influência na organização política de muitos estados durante todo o século XX. A origem dele prende-se com a Revolução Industrial e com o próprio capitalismo surgidos nos finais do século XVIII em alguns países da Europa e o seu consequente desenvolvimento económico levou a que outros países almejassem alcançar as mesmas vantagens económicas e políticas. Segundo alguns autores, o nacionalismo já numa perspectiva ideológica serviu para mobilizar outros países na criação de circunstâncias políticas que levassem ao desenvolvimento económico e material através do capitalismo. Este processo veio a verificar-se também durante o século XX com a redefinição de fronteiras após o fim da Primeira e Segunda Guerras Mundiais, em que algumas nações deram origem a novos países.

A distinção entre nação e estado é pertinente dado que dentro de um mesmo Estado podem coexistir diferentes nações como é o caso espanhol com o País Basco e a Catalunha. «A nação é um princípio, o Estado uma realidade concreta. A nação é, hoje, tida como o único fundamento legítimo do Estado» (Anne-Marie Thiesse). O conceito de nação teve evolução extremamente marcada com o citado momento (Revolução Francesa) em que se considera ter nascido o nacionalismo. Se antes, ao longo do Antigo Regime, a partir dos séculos XII e XIII, esta foi a organização política da sociedade que permitiu o reaparecimento da forma estatal do poder que até aí era apenas associada ao Império Romano, culmina com o surgimento das nações europeias numa constante evocação de um novo império. Esta busca do reconhecimento estatal da identidade nacional concretiza-se primeiramente nos séculos XV e XVI em França, Grã-Bretanha e Espanha e mais tarde (séculos XIX, XX) nas restantes nações europeias. Na Realeza a nação e o Estado desenvolveram-se em torno o rei. A pessoa e a instituição régias incarnavam a Nação, ao mesmo tempo que iam construindo o Estado. Com a Revolução Francesa e o nascimento do nacionalismo esta concepção vai ser alterada em dois aspectos principais a legitimidade e a representação. A ideia de que o rei é escolhido por Deus, que é o legítimo representante da nação começa a diluir-se, pois com o propósito nacionalista que adquire politicamente forma, nada existe acima da razão humana. O homem será considerado o Ser-Supremo, como disse Feuerbach, e a única coisa que a ele se pode superiorizar é a colectividade humana, politicamente organizada, isto é, povo ou nação. Todavia Deus mantém a sua importância continuando a religião intimamente ligada à nação. No contexto desta valorização do homem que tem sentidos, sabedoria, vontade há igualmente uma valorização e uma intensificação dos sentimentos para com tudo o que pertence à nação. É, então, que a expressão «nacional» invade todos os domínios da sociedade: passa a falar-se em festejo nacional em vez de festividade religiosa, de traje nacional, hino, bandeira, armada e até a própria educação e assembleia do povo passam a ser nacionais. Importante referir aqui a criação da Identidade Nacional em que merece relevância Anne-Marie Thiesse uma vez na sua obra intitulada A Criação das Identidades Nacionais se faz uma alusão a toda esta temática. É referido que o processo identitário consistiu em determinar o património de cada nação e difundir o seu culto. Património que apresenta uma história que estabelece continuidade da qual constam heróis, ilustres antepassados, monumentos, folclore, gastronomia, fauna, flora, língua, paisagem típica e tudo o que caracteriza essa nação. A identidade nacional não é mãos do que o que é semelhante a essa nação e diferente das outras. Esta ideia de Nacional ganha mais força com a Revolução Francesa e transforma-se em nacionalismo resultante da transição da heteronomia para autonomia, algo que constitui aquilo que se designa por Modernidade. Assim como o Liberalismo e Socialismo também o Nacionalismo constitui uma ideologia. No seio das elites pensantes da Europa Ocidental há uma revolução. Apesar de lenta e discreta progressivamente o princípio de transcendência (as tais sociedades heterónomas ligadas ao religioso) altera-se aproximadamente a partir do século XVI para um princípio de emanência politica e social em que a normativade se baseia na dimensão humana. A ruptura total com esta heteronomia consuma-se com o aparecimento de filosofias materialistas e panteístas do século XVIII e inícios do século XX. Simultaneamente surgem ideologias centradas numa dimensão particular e privilegiada do campo social (indivíduo, classe, nação), mas estruturalmente filosóficas com tendência a atingir uma verdade absoluta que salvaria a humanidade. Estas três ideologias dominantes são o liberalismo, o socialismo e o nacionalismo. O socialismo e o liberalismo são lançados por uma elite intelectual enquanto que o nacionalismo é lançado por pessoas menos eruditas o que facilitaria a sua maior popularidade. O nacionalismo é, em suma, um a ideologia que se traduz em actos concretos e que resulta da necessidade das nações aumentarem o seu poder sobre a sociedade. De um ponto de vista geopolítico pode mesmo ter implícito a ideia de imperialismo. No fundo a realização deste poder processou-se em fases cuja primeira se pode dizer que foi o Colonialismo, a ideia de expansão dos territórios por parte das nações que se serviam de mecanismo económicos e militares para esse fim e também para a construção de Impérios Coloniais. Posteriormente numa segunda fase o nacionalismo adquire um pendor mais ideológico, dando-se uma teorização cada vez mais profunda bem visível nos nacionalismos italiano e alemão e na eclosão do pangermanismo. O Nacionalismo Italiano era de direito divino, pois pensava-se que em Itália havia um povo eleito, uma nação predilecta de Deus que tinha como missão ser guia universal dos povos. Apresenta-se assim como uma continuação da revelação divina cristã, no fundo uma integração na religião. Já, na Alemanha, esta imitação política do cristianismo dá lugar a um panteísmo político. O nacionalismo alemão esteve mais ligado à filosofia e a personalidades como Hegel e principalmente o discípulo de Kant, Fichte. Este considera que não é Deus mas o homem que pode alterar tudo. Sendo cada um de nós o eu que faz parte da nação, o eu que dá lugar ao nós e a nação que toma lugar de divindade uma vez que sempre manteve a pureza original. Essas qualidades eminentes do povo-nação alemão fundamentam-se nos conceitos de «sangue» e «raça» utilizados por Fichte no sentido mitológico empírico, mas que a posteridade do pangermanismo irá usar para fins racistas. O Pangermanismo é no fundo o idealismo filosófico do pensamento alemão que atinge a sua forma absoluta precisamente com o panteísmo destes filósofos. Está ligado à ideia de que os povos, mais do que as classes sociais são os grandes agentes da organização social, os actores da História. Povos que não são mais do que grupos organizados numa base étnica. Os teóricos disseram que Etnicidade é uma ligação natural daí eterna e que a politica é que dava unidade e fundamento a esta base étnica pois organizava-a. Salienta-se aqui o conceito de etnia surgido, de certa maneira, aquando da primeira fase das realizações do nacionalismo – colonialismo – e que inicialmente se associava apenas à designação de diferentes raças, das línguas. A. D. Smith desenvolve a tese segundo a qual as nações procedem de etnias que, através de mitos e símbolos, fornecem às primeiras uma identidade determinada e maleável.

O Apogeu do Nacionalismo tem lugar de 1870 a 1945 em que até à primeira data o objectivo principal era construir o Estado ou alargar o poder para as colónias. Terminada esta primeira realização há uma amplitude do Nacionalismo que se concretiza em dois caminhos: o exacerbar da luta entre as nações. A Grande Guerra de 1914-1918 foi considerada a cúpula guerreira desta ideologia nacionalista, no entanto antes dela o nacionalismo conquistava a sociedade e conduzia o Estado a uma crescente hegemonia domínio. Depois da primeira guerra passa a instaurar o poder nalguns países. Já a Segunda Guerra Mundial traduz o triunfo do liberalismo e do socialismo sobre a lógica nacionalista levada ao extremo nos regimes fascista e nazi em que as práticas racistas e xenófobas foram levadas ao extremo. Todavia ainda hoje o Nacionalismo embora mais concentrado nas identidade históricas e culturais dos povos, é usado por sectores racistas para sustentar as diferenças étnicas que levam ao eclodir de formas radicais do próprio racismo. Os movimentos nacionalistas estiveram na origem dos regimes autoritários já falados mas também de movimento autonomistas em África e na Ásia. Esta busca comum de hegemonia mostrou que os Estados recorrem normalmente ao uso da escola e das forças armadas para uma mobilização dos espíritos de toda a população. A escola sempre teve um papel importante em todos os momentos da História, por exemplo nos regimes autoritários levou à laicização do ensino para que cada vez mais se implantassem os valores do nacionalismo às populações mais jovens.

Em conclusão, o Nacionalismo é até certo ponto o característico sentimento da lealdade política ocidental. No entanto há quem o distinga perfeitamente de patriotismo sendo este o sentimento de lealdade às terras e ao grupo e o nacionalismo mais um sentimento de superioridade étnico-cultural.

Apresentação

Hoje em dia qualquer um escreve umas quantas palavras e acaba por constituir os tão conhecidos blogs. Nesse mundo da blogofera encontramos casos de liberdade pessoal, casos de exteriorização de emoções ou meros relatos de intimidade. Há, igualmente, aqueles que como o nosso se atrevem a abrir caminhos à opinião. E porque uma opinião não é mais que uma observação pessoal da realidade tantas vezes no campo daquilo que consideramos dever ser e não naquilo que realmente é. A atitude que tomamos ao ousar sonhar por um projecto é de algum optimismo e por isso apresentamos mais um blog de artigos pessoais e acerca de um tema que significa para nós uma imensa paixão. E porque só com ela conseguimos a realização pessoal, escrever sobre Relações Internacionais ou aproveitar toda a nossa investigação académica para os mais diversos trabalhos foi uma forma que encontramos de abrir caminho para um futuro ainda incerto. A ousadia do projecto que tem contornos de sonhos profissionais leva-nos a considerar que poderá não passar de uma utopia ou tornar-se uma mera torre babel. Todavia quem não ousa tentar jamais saberá se alcança algum fim. É de notar que os escritos terão uma interpretação, um olhar, um cunho pessoal de duas estudantes universitárias de Ciência Política e Relações Internacionais. Para já deixamos apenas um breve agradecimento àqueles que nos permitem sonhar e acreditar que o sonho é de alguma forma realizável. Agradecemos aos amigos, aos professores e a todos os que tenham algo para nos ensinar.