Eu, abstencionista, me confesso
Das muito raras vezes em que, por um impedimento qualquer, me abstive de votar, ficou-me sempre um sentimento de desconforto e culpa. Até domingo passado. Ou, para ser mais rigoroso, até à última semana antes das eleições, quando se tornou claro que nenhum candidato merecia o meu voto e que me fartara definitivamente de condescender com o chamado voto táctico (de protesto, pelo menor dos males ou para evitar o pior). Se o meu voto é a minha liberdade, então é tempo de exercê-la sem o mesquinho espírito calculista da contabilidade eleitoral ou o constrangimento de um dever cívico tomado em abstracto. Esse dever existe, é certo, mas não como dogma que me torna refém, em todas as circunstâncias, daquilo que me é oferecido por quem se candidata às eleições.
Desta feita, portanto, abstive-me. E aproveito para acrescentar: dei por mim a desejar que a abstenção fosse maciça. Na minha crónica anterior, chegara a exprimir o receio de que muitos eleitores se sentissem tão pouco motivados como eu para votar. Era um último sobressalto de má-consciência do abstencionista preocupado em que o seu gesto ganhasse uma expressão excessiva (eventualmente perigosa para a democracia, como é costume dizer-se). Ora, por vezes, o acto de não-votar pode ser menos passivo, mais dinâmico e influente, do que o acto de votar. Precisamente porque exprime um sentimento de inconformidade com aquilo que nos é proposto no comércio estrito e exausto do calculismo político.
Afinal, mais de 62 por cento de abstenções, numa eleição para a capital do país, não podem deixar as coisas como estão – e como estão há já demasiado tempo na nossa ‘democracia consolidada’. São um sinal de alarme de alta intensidade, um sinal para acordar e rever tudo de alto a baixo. Quando se fala de terramoto em Lisboa, é preciso começar por falar deste – porque tudo o mais decorre dele, nomeadamente as vitórias e as derrotas (em especial a derrocada da direita) que emergiram da minoria dos 38 por cento dos eleitores que votaram no último domingo.
Mas não foi por acaso que esse sinal, apesar da sua esmagadora visibilidade, começou por ser recalcado pela maioria dos participantes na eleição e respectivos apoiantes. Cada qual fez as suas pequenas contas como se fosse possível escamotear esse imenso pano de fundo dos 62 por cento de abstenção.
Se os dois partidos da direita saem moribundos das urnas de Lisboa, não se pode dizer que os partidos da esquerda – incluindo o vencedor – tenham grandes motivos para festejar os resultados. Todos perderam votos: Costa teve menos 17 mil do que Carrilho e apenas mais 3 por cento de expressão eleitoral, enquanto Ruben e Sá Fernandes ficaram manietados pelas suas dependências (o primeiro pela retórica do seu partido, o segundo pelo seu próprio protagonismo quixotesco e unipessoal).
Vencedores verdadeiros, além da abstenção, foram Carmona Rodrigues e Helena Roseta. Capitalizando o efeito Alegre nas presidenciais e a magia ‘participativa’ de Ségolène Royal em França, Roseta mostrou-se mais mobilizadora do que os seus concorrentes à esquerda, embora a insistência em clichés abstractos e voluntaristas não prenuncie um programa concreto de acção. De explicação menos óbvia é o fenómeno Carmona: depois de ter deixado Lisboa no estado que se sabe e com a sombra da Bragaparques a persegui-lo, o que levou mais de 16 por cento dos eleitores a votarem nele? Porque soube vender a imagem de vítima simpática e injustiçada, num estilo de populismo soft e inofensivo? Ou basicamente porque – tal como Roseta, embora por razões diversas – foi ao encontro de um crescente sentimento de desencanto e divórcio com o sistema partidário?
Desse sistema, quem está por agora mais exposto – em estado verdadeiramente comatoso – são o PSD e o PP. Mas será uma ilusão pensar que tudo se resume a um problema de lideranças, ao regresso falhado de Portas ou à falta de carisma de Marques Mendes. Se não vejo futuro para nenhum deles, não vejo também futuro para esta direita, sejam quais forem os seus protagonistas anunciados. Só que isso não deveria constituir um consolo para Sócrates – deixado sozinho no deserto político português – e reinando sobre um PS também desertificado.