SOL

Eu, abstencionista, me confesso

Publicação: 21 July 07 10:00 AM

Das muito raras vezes em que, por um impedimento qualquer, me abstive de votar, ficou-me sempre um sentimento de desconforto e culpa. Até domingo passado. Ou, para ser mais rigoroso, até à última semana antes das eleições, quando se tornou claro que nenhum candidato merecia o meu voto e que me fartara definitivamente de condescender com o chamado voto táctico (de protesto, pelo menor dos males ou para evitar o pior). Se o meu voto é a minha liberdade, então é tempo de exercê-la sem o mesquinho espírito calculista da contabilidade eleitoral ou o constrangimento de um dever cívico tomado em abstracto. Esse dever existe, é certo, mas não como dogma que me torna refém, em todas as circunstâncias, daquilo que me é oferecido por quem se candidata às eleições.
Desta feita, portanto, abstive-me. E aproveito para acrescentar: dei por mim a desejar que a abstenção fosse maciça. Na minha crónica anterior, chegara a exprimir o receio de que muitos eleitores se sentissem tão pouco motivados como eu para votar. Era um último sobressalto de má-consciência do abstencionista preocupado em que o seu gesto ganhasse uma expressão excessiva (eventualmente perigosa para a democracia, como é costume dizer-se). Ora, por vezes, o acto de não-votar pode ser menos passivo, mais dinâmico e influente, do que o acto de votar. Precisamente porque exprime um sentimento de inconformidade com aquilo que nos é proposto no comércio estrito e exausto do calculismo político.

Afinal, mais de 62 por cento de abstenções, numa eleição para a capital do país, não podem deixar as coisas como estão – e como estão há já demasiado tempo na nossa ‘democracia consolidada’. São um sinal de alarme de alta intensidade, um sinal para acordar e rever tudo de alto a baixo. Quando se fala de terramoto em Lisboa, é preciso começar por falar deste – porque tudo o mais decorre dele, nomeadamente as vitórias e as derrotas (em especial a derrocada da direita) que emergiram da minoria dos 38 por cento dos eleitores que votaram no último domingo.
Mas não foi por acaso que esse sinal, apesar da sua esmagadora visibilidade, começou por ser recalcado pela maioria dos participantes na eleição e respectivos apoiantes. Cada qual fez as suas pequenas contas como se fosse possível escamotear esse imenso pano de fundo dos 62 por cento de abstenção.

Se os dois partidos da direita saem moribundos das urnas de Lisboa, não se pode dizer que os partidos da esquerda – incluindo o vencedor – tenham grandes motivos para festejar os resultados. Todos perderam votos: Costa teve menos 17 mil do que Carrilho e apenas mais 3 por cento de expressão eleitoral, enquanto Ruben e Sá Fernandes ficaram manietados pelas suas dependências (o primeiro pela retórica do seu partido, o segundo pelo seu próprio protagonismo quixotesco e unipessoal).

Vencedores verdadeiros, além da abstenção, foram Carmona Rodrigues e Helena Roseta. Capitalizando o efeito Alegre nas presidenciais e a magia ‘participativa’ de Ségolène Royal em França, Roseta mostrou-se mais mobilizadora do que os seus concorrentes à esquerda, embora a insistência em clichés abstractos e voluntaristas não prenuncie um programa concreto de acção. De explicação menos óbvia é o fenómeno Carmona: depois de ter deixado Lisboa no estado que se sabe e com a sombra da Bragaparques a persegui-lo, o que levou mais de 16 por cento dos eleitores a votarem nele? Porque soube vender a imagem de vítima simpática e injustiçada, num estilo de populismo soft e inofensivo? Ou basicamente porque – tal como Roseta, embora por razões diversas – foi ao encontro de um crescente sentimento de desencanto e divórcio com o sistema partidário?

Desse sistema, quem está por agora mais exposto – em estado verdadeiramente comatoso – são o PSD e o PP. Mas será uma ilusão pensar que tudo se resume a um problema de lideranças, ao regresso falhado de Portas ou à falta de carisma de Marques Mendes. Se não vejo futuro para nenhum deles, não vejo também futuro para esta direita, sejam quais forem os seus protagonistas anunciados. Só que isso não deveria constituir um consolo para Sócrates – deixado sozinho no deserto político português – e reinando sobre um PS também desertificado.

Comentários

# ramodebarro said on July 24, 2007 9:49 AM:

Caro VJS:

Os abstencionistas são os resignados, os da tal maioria silenciosa que poderá vir a ser ... a  tal "vaga de fundo" para a mudança do status quo!

Esta "paz podre" dá azo a esse fatalismo (fado?), esse negativismo que é pai de todas as malfeitorias dos tenentes do poder... até parece que "já chegamos à Madeira!"

Até quando a minoria activa e activista será dona das rédeas do  poder?        

# dejacosta said on July 24, 2007 12:17 PM:

"Ora, por vezes, o acto de não-votar pode ser menos passivo, mais dinâmico e influente, do que o acto de votar. Precisamente porque exprime um sentimento de inconformidade com aquilo que nos é proposto no comércio estrito e exausto do calculismo político. "

Para defesa própria, assino esta parte do seu discurso.

os meus cumprimentos

Duarte Costa

# fercarvalho said on July 26, 2007 5:10 PM:

Então para que serve o voto em branco? Ou o nulo? Neste último até pode escrever um palavrão, está na moda...

A abstenção tem todos os significados que lhe queiram atribuir, menos o cumprimento do direito e dever cívicos.

Fernando Carvalho

# mulher said on July 28, 2007 7:50 AM:

Uma das alterações que deveria ser feita à Lei Eleitoral é exactamente aqui. Qual é o peso dos votos brancos ou nulos? Será justo? Quem anula o seu voto é alguém que cumpre o seu dever cívico e diz claramente que não quer nenhum daqueles candidatos. Quem se abstém fica calado, diz que tanto lhe faz como lhe fez, em resumo não manifesta claramente a sua opinião. Não me parece justo que uma atitude activa e outra passiva tenham o mesmo tratamento.

Tome-se, como exemplo, a Assembleia da Republica: o número de Deputados é de 250, se 50% do eleitorado votasse nulo, o número de eleitos deveria ser 125. Assim estar-se-ia a ouvir realmente os eleitores e por certo a abstenção tenderia a diminuir, porque todas as atitudes estariam efectivamente representadas. Quando se mete no mesmo saco votos nulos e abstenção está claro que vence a abstenção pelas leis da inércia! Tal como diz o comentador anterior o melhor é escrever um palavrão....

# fallorca said on July 30, 2007 11:17 AM:

Há "confissões" que não se compadecem com o sigílio paroquial e devem ser apregoadas aos sete, se mais não houver, ventos...

Foi o que fizemos http://frenesi-livros.blogspot.com/

# chinezzinha said on August 19, 2007 11:10 PM:

Ora bem. Ninguém é obrigado a votar.

Não quer não vai, embora considere que se possa votar nulo ou em branco em sinal de descontentamento.

bjinhos

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