E SE A IGREJA SE PREOCUPASSE COM ESTAS COISAS?
Venham de lá essas propostas de
referendo!
Há quase um mês viveu-se período de alguma “agitação” noticiosa, a
propósito da discussão próxima da consagração
em foro de Código Civil, do casamento (chame-se assim ou de outro modo) entre
pessoas do mesmo sexo...
Estranhamente, como chamei à atenção na altura, alguns grupos de
católicos vieram tomar posições públicas, que pareciam ignorar que a questão em
discussão não era do foro religioso, mas apenas uma questão civil. No crescendo
das emoções e do fervor religioso, chegaram mesmo a propor (no que foram
secundados por alguns dos sectores mais radicais da direita nacional), um
referendo sobre o assunto!
Pois bem! Aguardo agora que todos aqueles que assim clamaram há tão
pouco tempo, sejam coerentes e abram dois debates que – esses sim – deveriam
incomodá-los, ocupar-lhes as mentes pias e, talvez, levá-los a interrogar-se
sobre a sua fé – ou pelos menos a pôr em questão os alicerces seculares e anquilosados
em que assenta a instituição que enquadra essa mesma fé!
Isto tudo vem a propósito de dois casos recentes: o primeiro, é o
caso do Padre
Rui e da sua amada Fátima, que ocorreu em Celorico de Basto na
última semana. Em breves palavras, resume-se a história ao essencial: um jovem
padre (26 anos) recentemente ordenado (há 1 ano e 4 meses) tomou-se de amores
pela sua ajudante Fátima, aguardou que ela fizesse 18 anos e confessou os seus
sentimentos à família da mesma, que não terá reagido bem... Ambos decidiram
então partir para parte incerta (sussurra o povo que terão rumado a Espanha) em
busca de uma felicidade que aparentemente não reconhece qualquer tipo de
barreira seja ela imposta pela mão humana ou pelos desígnios divinos.
Este caso só é possível porque a Igreja Católica mantém o seu
absurdo fundamentalismo, relativamente ao celibato dos seus sacerdotes. Isto,
apesar de se saber agora, que «em Portugal, há mais 400 padres que deixaram a Igreja Católica
para enveredar pela vocação do matrimónio»... (em Diário
de Notícias) e de, como bem lembra José Serafim de Sousa,
que lidera a Fraternitas Movimento, uma associação privada de fiéis constituída
por padres dispensados do exercício do respectivo ministério, pelo Vaticano, «"o celibato foi imposto pela
hierarquia e que não tem ponta por onde se lhe pegue. Não percebo por que é que
o Santo Padre recebe os padres anglicanos, que são casados, e não aceita que os
padres católicos se casem. A aceitação dos padres anglicanos poderá alargar a
discussão ao casamento dos padres católicos". Mas, admite: "A Igreja
é muito lenta na mudança.”» (idem).
É curioso que esta lentidão na mudança, apontada pelo ex-padre é a
mesma que justifica todos os fundamentalismos religiosos do Mundo, que
normalmente assentam em posturas conservadoras e mentalidades cristalizadas...
O segundo caso, é bem mais grave do que este e é mais um escândalo
sexual abafado pela hierarquia Católica durante décadas, enquanto crianças
irlandesas iam sendo objecto da lascívia pedófila, de inúmeros representantes
do clero...
«A hierarquia católica de Dublin fechou “obsessivamente” os olhos
a abusos de padres sobre crianças, durante décadas, pelo menos até meados dos
anos 1990, e praticou uma política de silêncio. (...) “Todos os arcebispos de Dublin no período abrangido pela
comissão estavam conscientes das queixas. Isto é também verdade para muitos dos
bispos auxiliares”, refere o relatório (...) os
quatro arcebispos são acusados de “não terem dito à Gardai [polícia], que
estavam ao corrente de abusos sexuais a crianças” cometidos a partir dos anos
de 1960. A investigação incidiu no período entre 1975 e 2004, mas reuniu dados
que não se limitam a essa fase. (...) “A
preocupação do arcebispado de Dublin pelo menos até meados dos anos 1990, foi
guardar segredo, evitar o escândalo, proteger a reputação da Igreja e preservar
os seus bens”» (em Público).

Claro que, o facto de este caso ocorrer num país não laico, justifica que o estado Irlandês tenha sido totalmente conivente com o manto de
silêncio que encobriu os abusos durante tanto tempo... «“As autoridades facilitaram o
encobrimento ao não cumprirem as suas responsabilidades” e “o bem-estar das
crianças, que devia ter sido a primeira prioridade, não foi sequer, no início,
um factor tomado em consideração”. “Infelizmente, pode ter sido o importante
papel que a Igreja desempenhou na vida irlandesa a razão pela qual os abusos de
uma minoria dos seus membros ficaram impunes”, refere também o relatório, que
denuncia o facto de a polícia ter demorado 20 anos a apresentar acusações
contra um sacerdote.» (idem).
Aguardo para ouvir – e já vai tardando... – as habitualmente vozes
farisaicas dos nossos grupos de pressão a favor da “moral e dos
bons costumes”... dos outros!
No 1º caso, o padre Rui Pereira, de Celorico, teve o louvável mérito – entre outros –
de não adoptar a habitual hipocrisia em tantos casos semelhantes, de se ter
mantido na “profissão” chamando para perto de si uma “prima afastada” que o
auxiliasse nos seus afazeres... Além do mais, a moça que foi objecto da sua
paixão, até dá pelo nome de... Fátima!!! Já no caso irlandês, réplica de
outros idênticos que regularmente vão sendo descobertos, não há como evitar a
repugnância perante tudo o que já se sabe...
Será que alguém vai propor que nas próximas eucaristias dominicais
nas igrejas e capelas deste país, decorra algum tipo de inquérito que referende
a opinião dos crentes sobre a questão do celibato dos sacerdotes?... É que esta
sim, é uma questão na qual o Estado não deve interferir mas cabe à Igreja e ao
seu rebanho fazer algo ou continuar a viver... com alguns séculos de atraso! Será
que se os padres pudessem continuar a amar Deus, sem prejuízo de poder com esse
amor, coexistir um qualquer amor terreno, não tenderiam a diminuir as aberrações
irlandesas que agora foram conhecidas?