SOL

Ze da Penalva

Não conheço nenhuma fortuna ganha honestamente
Os Pobres, os Diferentes e a Violência

Apercebi-me dele pela rigidez dos gestos. Braço esquerdo encolhido junto ao corpo, denuncia de trombose, segurando a modesta bengala preta. Traje típico dos muçulmanos com arabescos acastanhados, muito usado e pouco limpo, óculos de aros escuros e barretina tipo Amílcar Cabral.

Tentou segurar o varão junto ao meu banco, rodopiou rígido e caiu sobre mim desamparado. Sentei-o no banco onde estava, mas não consegui evitar que a mala me caísse.

Como um azar nunca vem só, a mala ao cair abriu-se com estrondo no centro do autocarro, espalhando a tralha, causando inconveniencia, gerando bulício na manhã ensonada. Entre os solavancos e com licenças, lá se recuperaram os artefactos no meio de sacos e tacões.

O ancião balbuciou um Obrigado com forte acento, o Desculpe que só se entendeu pelo contexto, eu bendisse o facto de ser cedo e por isso haver pouca gente no autocarro. Atafulhei a pasta das folhas do relatório como se enchesse o balde do lixo. A menina dos piercings deu-me o estojo das canetas e dois marcadores soltos, a senhora forte do vestido estampado apanhou-me a carteira dos óculos e perfilou-se comigo junto à porta.

À saída sempre me disse:

Eu se fosse ao senhor via tudo bem, não fosse faltar alguma coisa. Esta gente não é de fiar, o senhor não viu na América e no comboio lá em Espanha.

Ensombrou-se-me a alma um pouco mais, e lá fui pesado pôr em ordem o famoso relatório. O dia mal começava e quis ser positivo.

Pensei pra mim, tomara que falte alguma folha, talvez possa melhorar o maldito relatório. 

a Bescondessa

Há coisas que só acontecem aos parolos e nós cá na Penalva parece que fomos calhados para certas cenas. Eu conto.

Ontem fui à Loja do Cidadão nos Restauradores, para tratar de um certo  Cartão da Segurança Social, assunto que ia ficando de dia para dia à espera do último, acto em que somos useiros e vezeiros.

Lá tirei a senha e tal, fiquei 5 minutos a ver o que aquilo dava, fico ou vou embora, que eu tenho mais que fazer. Calculei 45m até ser atendido. Decidi-me pela espera.

Fui dar uma vota à Praça, a manhã era radiosa, beleza aqui e ali, gente gorda, gente magra, turistas loiros de nariz avermelhado, pobres de muitos matizes, enfim a Lisboa mulata cada vez mais multicolor e cada vez mais bonita também por isso.

Voltei a entrar na Loja, sentei-me a tentar ler o meu livro, tarefa difícil naquela confusão de feira, onde ao telemóvel toda a gente fala com toda a gente, num linguarejar mesclado entre português, crioulo, espanhol (são sempre os que falam mais alto) e até línguas eslavas por ali se faziam ouvir.

A espera não foi de 45m, acabaram por ser 50m, mas o número da minha senha lá apareceu no visor a apontar a mesa 5.

Encaminhei-me para a mesa onde ia ser atendido e no momento em que me ia sentar, isto só me acontece a mim, uma senhora dona Fufa apressou-se a debruçar-se para cima do computador da funcionária, para pôr um problema importantíssimo, evidentemente que para ela. Pátáti, Pátátá, segue-se que enfim está claro, e eu por delicadeza em pé junto à cadeira, mas a topar a marosca, a minha mãe não pode esperar tanto tempo e já estamos quase há meia hora, pois pois os outros que se lixem, conversa de Chica Esperta, e eu a topá-la, e já a fincar os pés nos tacos com a alergia da mostarda. É claro que a senhora da SS que estava a atender, papa daquilo todos os dias, e muito calma, muito pausada, mas não se preocupe minha senhora há uma mesa de atendimento prioritário, se a sua mãe veio do Hospital e está doente, leve ali à minha colega um documento que prove isso mesmo e é logo atendida. Mas não trazemos documento nenhum, obrigado isso estou eu farto de saber, oh mãe não tens um papel do médico, pois não? Então se não tem documento, tem que ter paciência será atendida na sua vez.

A senhora da SS virou para mim o olho direito e disse, sente-se. Eu que já impava capaz de apertar o pescoço à “bescondessa” *, sentei-me.

Atão não é, que a mulher se senta ao meu colo!

Acho que fiquei meio divertido e meio atrapalhado. A cadeira era um pouco baixa  e a senhora era digamos, que bem provida de carnes, particularmente na parte que usou para se sentar ao meu colo.

Ela bem tentou alçar os quartos traseiros com ligeireza, mas a gravidade e a atrapalhação não lhe permitiram levantar-se à primeira, o que muito a enfureceu.

Virou-se furibunda e pronta sabe-se á para quê, quando a senhora da SS intercedeu a salvar a cena e o pacífico e estupefacto utente que era eu.

Quando eu disse sente-se, foi para este senhor evidentemente.

Confesso que tratei do assunto do Cartão a conter o riso. A senhora da SS, muito serena, mas via-se que estava aflita para dar uma boa gargalhada. Perto de nós a “bescondessa” até batia o pezinho no chão de furiosa que estava.

Quando saí direito à porta, senti o seu olhar assassino. Podem ter a certeza, há olhares que se matassem eu não estaria aqui a contar-vos isto.

* - Bescondessa era o nome que  minha avó dava a qualquer senhora fina. Nunca soube se ela não sabia dizer Viscondessa, ou se queria mesmo achincalhar aquele tipo de comportamento que simulava Nobreza e não passava de vaidade.

O Lingueirão

Reflexos rosa dourado faíscam no cinzento chumbo do rio denunciando a manhã. Passo marcado ao longo da muralha, som de botas na gravilha, murmúrio dos esgotos da cidade, que desenham deltas no lodo liso.

Gaivotas famintas depenicam lixo. 

Ao longe dezenas de vultos coloridos deambulam na maré. Uns curvados outros erectos de cá para lá em rotas sem sentido.

Quando a muralha se agacha, estão mais nítidos os vultos errantes. Famílias inteiras,  baldes e galochas, camisolas de todas as inscrições, colorindo a cinza da manhã. Dobram-se. A mão direita aperta o saleiro soprando o pequeno jacto, numa pitada que pinta a lama. Mão esquerda lesta, a apanhar o lingueirão que assoma na babugem do sal.  

É este o amanhecer domingueiro do povo à beira rio.  

Quando se esgota a maré vaza e o rio devagar alaga os baixios, ganham a estrada serpenteando os pedregulhos que amparam a muralha, equilibram os baldes e arrastam as galochas.

Sentam-se na mala aberta do automóvel, prova provado do seu sucesso, sinal indesmentível da sua vitória, e lavam pachorrentamente os pés, retirando o lodo que até à alma se lhes agarra.

Enquanto o pé enxuga, busca no bolso o telemóvel avançado:

_ Deixa-me lá dizer à mulher que já pode pôr o sal no peixe!

Ufano! Orgulhoso do macho que é!

Eram 5 da manhã quando deixou o morno húmido do seu três “soalhadas”. Cortou pés e mãos, mas ganhou bem o petisco. Caçador perdido nos meandros da história. Está-lhe nos genes esta sina de maltês, que só descansa quando garante o jantar.  

No fundo do balde os lingueirões escuros, marisco de pobres, troféu arrancado na esperteza desenrascada em que somos todos uns alhos.

Lá mais para a tarde, chamam-se uns compadres, abrem-se uma babosas e aquilo é que vai ser uma petisqueira. Mais um domingo bem passado. 

Se o Sporting ganhar logo é a felicidade completa. Se perder também.

Sim porque ele agora quer é uma tardes bem passadas. Manifestações, greves, lutas e a mãe que os pariu, disso está ele farto. Já foi tempo. Afinal todos se querem é safar. Andou ele para ali de papo cheio com a liberdade e afinal o que é que ganhou? Uma indemnização que sumiu sem ele dar por isso e uma reforma da trêta.  A democracia só serviu para encher os mesmos. Por isso mesmo é que ontem pegou no telefone e votou no Salazar, um a cada esquina e ainda era pouco. A ele nunca mais enfiam o barrete.

  

Filhos de Rei

Dizia o nosso companheiro de blog Partebilhas, no seu excelente trabalho sobre “O amante da rainha Isabel de Bourbon “ , que a corte de Filipe IV, não terá sido uma boa escola de moralidades.

Sabe-se lá o que diriam as Holas desse tempo, com tanto caso passado atrás dos pesados reposteiros.

Nós por cá, todos bem…, mas na verdade também tivemos as nossas estórias na História, porque um homem não é de pau e sendo Rei, então até a Pátria se engrandece.

Há pouco li Seomara Veiga Ferreira, historiadora que muito admiro, que descrevia que o nosso Rei Poeta, o nosso D. Dinis, para além de ter mandado plantar o pinhal de Leiria, plantava filhos nas damas do Paço com poesia e generosidade. A Rainha, acolhia na corte todos os bastardos, e foram muitos, e educava-os com desvelo, porque tal como dizia:

Eram filhos de Rei!

Evidentemente que uma Rainha assim, só podia ser santa!

Entre os bastardos parece que o nosso D. Dinis tinha um preferido, Afonso Sanches, filho de uma tal Dona Aldonça que apesar de casada foi uma das amantes do Rei.  

Desde sempre bem sisudo, o Príncipe, o futuro  Afonso IV, via no irmão uma influência nefasta para as suas pretensões ao trono, sempre lhe devotou um grande ódio e apelidava-o de “Aquele Cão”. Anos de guerra civil, de morte e de devastação se viveram no final do reinado do Rei Lavrador. Diferentes facções da nobreza tiravam partido do ciúme do jovem Príncipe, e instigaram-no a uma feroz luta de consequências desastrosas para o Reino.

  

A Poluição Noticiosa

Com toda a humildade de quem pouco sabe sobre este assunto mas que procura estar atento, parece-me que a comunicação alavancada  na tecnologia tem tido nas ultimas dezenas de anos um progresso extraordinário. Isto do alavancado não tenho a certeza se é bom português, mas é moderno e agora usa-se muito.

Há pouco mais de 30 anos em Sesimbra, quando era necessário informar a população, pagava-se a um pregoeiro. O último creio que se chamava Canário. O homem ia para o cimo do povo, colocava as mãos em concha à volta da boca e gritava o pregão que lhe tinham encomendado.

-  Morreu o Jacinto Cachucho, o funeral é amanhã às 10 horas.

Sesimbra está muito maior. Já nenhum Canário por muito bem que cantasse, se faria ouvir. Tantas são as torres, os apartamento pendurados nas falésias mais íngremes, implantados nas barrocas mais absurdas .

As notícias hoje dão-se pela rádio e pela televisão, em pacotes repetidos, de tal maneira, que quem estiver sujeito a qualquer destes meios por um período razoável de tempo, as decora facilmente.

As notícias chegam por mail, em vagas cíclicas como as ondas do mar, as anedotas, as brejeirices, aqueles avisos de segurança que recebemos uns com sentido outros sem sentido nenhum. Com um pouco de atenção reparamos que se começam a repetir por vagas ao fim de algum tempo, aí sabemos que aquele grande pacote informativo já passou de um para outro circulo dos nossos relacionamentos.    

As notícias chegam nos jornais como antes, mas como o mundo mudou já não se compram jornais. São dados todas as manhãs, nos locais onde passa muita gente. E para quem levar os jornais, às vezes ainda há um pacote de batatas fritas, um pedaço de chocolate light, com alto teor de açúcar evidentemente, uma latinha de sumo em lançamento ou até mesmo um boião de yogurte.

Se estivermos atentos e receptivos ainda recebemos o papelinho do Professor Caramba, o folheto da Clínica Sorri Dente ou o anúncio do Curso de Inglês, porque isto sem línguas já não vamos é a parte nenhuma.    

Aquilo que nos faltam são os filtros. A natureza deveria ter-nos equipado com a possibilidade de accionar protecções, de acordo com os nossos interesses, que impedissem a poluição da nossa cabecinha com tanta tonelada de informação que não serve para coisíssima nenhuma.    

Tenham um bom fim de semana, e fiquem atentos à notícia. Já sabem, mais à frente neste mesmo Blog.

Os Vírus Informáticos

Aprendi nos livros de Aghta Cristie que para chegar ao criminoso, o caminho mais lógico é procurar descobrir quem é que lucra com o crime. Vem esta conversa, a propósito dos crimes informáticos, e por contra-posição as medidas implementadas no sentido de os evitar.

A princípio era vulgar passar a ideia que os vírus informáticos eram programas maliciosos, quase sempre desenvolvidos por pequenos génios, que se divertiam em obscuros sótãos, fazendo patifarias de espantar.

Tretas! Tudo tretas!

Basta imaginar os milhões de dólares e de euros, consumidos nos últimos anos em segurança dos sistemas informáticos. São programas, são configurações, são consultadorias, são estudos, são seminários, são upgrades, são updates, passando o exagero, haverá meio mundo a desenvolver sistemas e outros tantos a tratar dos “segurar”.  

Se por milagre acabassem os vírus, o spyware e quejandos, o que é que fazia toda essa gente?  

Os Sapatos Azuis

Especialmente dedicado á Fernanda Valente, que ainda há pouco nos lembrava, “que todos os meus conhecidos são campeões de tudo”, mas provavelmente de peúgas rotas.

É o tipo de loja onde normalmente não entraria. O aspecto clean, as marcas, os preços altos estando em saldos, o próprio nome da loja e a sua atmosfera.  

Não acumulo sapatos e aqueles azuis davam-me jeito. Olhei outra vez para confirmar o preço, parecia muito baixo, comparando com o  resto dos objectos exibidos na montra.

Evidentemente que aquela loja não tem balconistas como as outras. Todos me pareceram senhores solenes. Assim como se vendessem produtos financeiros.

Vossa excelência deseja, disse ele sibilante. Imediatamente lhe li nos olhos ... o que é que este pelintra quer da minha loja?

Fechei o semblante para que ele não sentisse o meu acanhamento. Apesar do esforço, a voz saiu sumida. Certamente por lhe estar a pedir o objecto mais barato que ele tinha na montra.

Queria ver aqueles sapatos azuis.

Queira vossa excelência passar a este gabinete.

Passados que foram mais 4 ou 5 vossas excelências, trouxe-me os sapatos para calçar.

Foi nesse momento que aconteceu o vexame.

Ao descalçar o pé direito, ali estava escarrapacho e gritante toda a minha envergonhada condição de suburbano. O calcanhar expunha-se descarado e risonho na esfarrapada meia preta.

Que pena não tem o meu número.

Hirto caminhei para a porta, contendo o passo que o coração apressava. Ainda sinto aqui nas costas aqueles olhares impiedosos.

 

 
Eh Toiro!

Levantara-se ainda a noite era cerrada. Enfiou as calças mais coçadas que tinha, calçou as botas sem as atacar, às apalpadelas procurou o sabão no lavatório, depois de levar a primeira água ao rosto. O amigo Vitorino esperava por ele na fazenda de baixo, tinham combinado ir esperar o gado à Ponte das Enguias e ele nunca faltava a um compromisso.

De caminho passaram na taberna do Laberca, onde mataram o bicho. A pretexto de dois branco, ainda roeram uma côdea de casqueiro e comeram umas laranjas colhidas pelo caminho. 

Um pouco antes das salinas, começaram a ver ao longe a poalha que toldava a primeira luz da manhã, depois ouviu-se a guizalhada dos  touros e dos cabrestos, que a trote se encaminhavam para a vila.

A pequena multidão, que se juntava na espera, vinha de roldão em esforçada correria, com foguetes e morteiros, homens, cavalos e touros, entravam em Alcochete seguidos de enorme canzoada, que excitada pela algazarra, não parava de ladrar.

Parte do gado ficava na Praça à entrada da vila, porque se destinava à tourada. Dois garraios e um touro batido foram levados para a Largada.  A festa era rija em todas as ruas, fogareiros assavam sardinhas e coiratos, o vinho corria em abundância por toda a parte.

Já manhã alta, junto ao cais, a vedação da Largada cedeu a uma tarrascada  mais impetuosa do bragado, que em fúria perseguia um capinha arranjado à pressa. O animal encrençou-se no Rasqueira que tonto de luz e de vinho correu para a praia.

Foi nesse instante que sentiu o pânico supremo, a maré estava vaza e a água mal se via na cala lá ao longe. Prestes a ser alcançado, o Rasqueira correu para uma zona de lodo e de ostras. A cada passo, a perna afundava-se até ao joelho deixando-o exausto ao fim de cinco ou seis passadas. Atrás dele, o bragado, com o lodo pela barbela, estava quase imóvel.

Foi aí que um sorriso lhe assumou ao canto da boca. Puxou a boina para trás e gritou com aficcion:

Éh Toiro! Toiro! Nem tu marras nem eu fujo.

O Mestre é do Chão Duro

Há ofícios que se colam às famílias ao longo dos anos e por isso algumas artes atravessam por vezes gerações. Uma boa parte do pessoal navegante que tripula as embarcações do Tejo, é natural do Rosário, do Gaio ou de Sarilhos Pequenos.

Quase todos são descendentes dos velhos arrais, que navegavam fragatas, varinos,  botes e batéis, de cá para lá na labuta de todos os dias, transportando pessoas e mercadorias entre as duas margens. 

Gente brava e destemida, trabalhadores direitos, gente com força de guindaste sobre os ombros, marinheiros desenrascados que guardam no olhar todas as fintas do cais.

Ainda hoje em muitas situações e sobretudo na margem sul há um linguarejar carregado de metáforas que vem do Rio. No futebol por exemplo, se o avançado se esgueira, o mau defesa dá-lhe uma trancada. Mas se o quiser arrumar mesmo, tem que ser uma fragatada, que é mais ou menos a mesma coisa, mas com muito mais força.

Dizia eu que uma boa parte dos mestre cacilheiros, são do Rosário, pequena e pitoresca freguesia do concelho da Moita, ali toda com os pés dentro de água.

Também no concelho da Moita, mas um pouco mais para o interior, há outra freguesia que é o Chão Duro, esta predominantemente de agricultores e fazendeiros.

Pouco vai ficando das antigas tradições, mas ainda hoje, se atravessar o rio para Lisboa e ao chegar, por um golpe da corrente, do vento ou da ondulação, o barco bater com estrondo no pontão, a pior coisa que pode fazer é olhar para cima, para o homem que está a fazer a manobra e gritar:

O Mestre é do Chão Duro.

Notícias do Dia

Finalmente temos um Governo diferente.

Habituados que estávamos a que os dirigentes governamentais se pavoneassem entre inaugurações, mesmo em badalados empreendimentos que fechavam pouco depois, constatamos agora a originalidade de se festejar aquilo que afinal não encerra.

Eram para fechar cento e não sei quantos centros de saúde, mas afinal há catorze que escapam desta.

Ah, mas o senhor ministro está agora a dizer que não fecha, mas depois sabe-se lá, diz o autarca. Não senhor, diz o ministro, assina-se já aqui um protocolo.

Ainda hoje, a inquietante notícia de que alguns trabalhadores portugueses da Base Americana das Lajes, estão a ser sujeitos a interrogatórios e a pressões psicológicas. Não devem passar da fase dos três macaquinhos, não viram, não ouviram, não falam.

De facto não inovam nada. Há muitos anos que se conhecia este princípio em Portugal. “Tirem-lhes o pão, e vão ver que eles ficam caladinhos”.

 

Sonia

Cheguei há pouco a esta comunidade, não "conheci" a Sónia.Por curiosidade fui ver, e arrepiou-me encontrar a morte, assim, tão cruamente exposta, quase em directo nos blogues do Sol.

A Sónia foi certamente uma pessoa heróica, pela forma como se bateu, pelo jeito simples como se dirigia aos amigos e falava do seu sofrimento.  Era certamente uma pessoa que gostava de viver. Logo hoje que Lisboa se inunda de Sol e de cheiros anunciando Primavera.

Alma Portuguesa

Fiquei a pensar no Post da Julieta e a congeminar sobre as traves da nossa alma.

A música de Carlos Paredes é para mim o som que melhor traduz a alma portuguesa. O homem, para além do génio, era uma personalidade impar de simplicidade, honestidade e coerência.

Um dia deu um espectáculo no Porto, onde tocou e encantou como era hábito. Os organizadores quiseram levá-lo a cear. Recusou envergonhado e pediu:

Oh amigo, eu não costumo jantar, preferia um copinho de leite e uma sandes de fiambre, se não desse muito trabalho.

Levaram-no ao bar do hotel, por ser mais fácil.

O empregado do bar, ao vê-lo abriu o sorriso e disse:

Sr. Carlos Paredes, que prazer em conhecê-lo. Tive pena de não poder ter ido ao seu concerto, mas estava aqui a trabalhar. Sou um grande admirador da sua música.

É verdade que o amigo, gosta da minha música? Tão jovem!

Por momentos o músico subiu ao quarto. Em breve estava de volta com a guitarra numa mão e o pano de flanela na outra. Limpou as cordas e começou a tocar. O rapaz do bar, viu-se tratado como um príncipe, com o artista ao vivo, ali a tocar para ele.

O Carnaval da Madeira

O Carnaval na Madeira vai durar mais de sessenta dias. O leader Madeirense demite-se, para voltar a candidatar-se.

Quase todos ganham, menos os portugueses.

Ganha o Rei Mono, as eleições.

Ganham os Madeirenses, a ilusão de que ele defende os seus interesses.

Ganham alguns políticos, mais votos para mostrar na praça.

Ganham os jornais e as televisões, porque enchem jornais e telejornais de assuntos pitorescos e picarescos, que são coisas que vendem bem.

Ganha a Região porque quanto mais falada, maior é clientela turística.

Infelizmente o custo da cegada, será para deduzir ao erário público, que é o bolso dos portugueses, que são sempre os que perdem, com estes enviesados caminhos da Democracia.   

Afinal era Outra

A entrada do Metro da Baixa Chiado, no lado da rua da Vitória, é um lugar de pregão. Primeiro destaque para a senhora do Destak. É uma senhora magra de óculos, vestida de vermelho como o Pai Natal, mas com boné americano, que timidamente exclama: É o Destak, o Destak. É um anúncio chocho, pouco enfático, como se confessasse, desculpem é uma m**** mas é de borla.

Depois há o cauteleiro do é o seeeeesssssenta e novi ! Quem quer o sesssenta e novi! O trocadilho apimentado dos números apela à brejeirice, mas ele não. Ele é um homem das barracas, voz de clarinete, que toca bem alto que é o 69. Nervoso, alterna o cigarro barato entre o canto da boca e a mão direita, mas grita sempre que é o trezi e o sessenta e novi. Mesmo a fazer o troco não pára de gritar pelo sessenta e novi.

Há os pregões mudos dos negros junto à escada do Metro que nos põem um humilde papel na mão geralmente escritos a azul, a propôr os serviços de um Professor Caraças Qualquer Africano, especialista em fechamento, em mal de inveja e outras maquinações.

Há também as teenagers temporárias, de arganel nos beiços, cabelo ajavardado e olhos dormidos em poiais brancos de casas escuras, que displicentemente nos metem na mão propaganda anónima das clínicas dentárias, que vão abrindo e fechando como lojas de chineses.   

E é a propósito de chineses que ela aparece. Bastam uns tímidos pingos sobre o quadriculado das ruas da Baixa e ela surge como que por encanto, com o seu  chapelito arredondado e 3 chapéus de chuva em cada braço, vestida de forma comum, agitando-se na multidão que entra e que sai com o seu esganiçado pregão: Japêu, Japêu, Japêu.

Nunca vi ninguém na rua vender com tanto empenho. Nem o artista que depois do 25 de Abril vendia o “Pente Comunista” e que gritava à malta, “alguns até têm a foice e o martelo”. Ela roda, ela dá passos em várias direcções, estende os braços e quase pula quando vê alguém molhado e mais desprotegido. O  alarido é sempre o mesmo: japêu, japêu, japêu.

Duvido que saiba outra palavra em português.

Não sei quantos milhares de chineses estão em Portugal. Labutam em qualquer lado com afinco, como formigas. A cara inexpressiva e trágica, às vezes parece sorrir, mas quase todos carregam  a pobreza ancestral, o desconforto, a teimosia arreganhada da sobrevivência com um pequeno bago de arroz. Aproveitam todas as oportunidades. Lá das caves de onde se acoitam perscrutam o céu com ansiedade,  esfregam as mãos minúsculas quando divisam uma nuvem carregada, e ao primeiro pingo no nariz chato, saltam para a rua: Japêu, Japêu, Japêu.

Hoje encontrei-a mais abaixo. Passavam poucos minutos das oito e chovia que Deus a dava. Trazia os inevitáveis chapéus pendurados nos braços e atravessava a Rua Augusta em zigzag atrás dos raros transeuntes, junto ao cruzamento com a rua da Conceição. O mesmo ar apressado de gestos e o seu habitual pregão: Japêu, Japêu, Japêu.

Sorri para ela quando me estendeu um, apesar de me ver de impermeável e com o meu próprio chapéu de chuva aberto.

Creio que me correspondeu com um sorriso igual, sem me distinguir, sem me ver, e rapidamente se virou: Japêu, Japêu, Japêu.

Prossegui lento, na direcção do Metro, a pensar como é duro garantir o pão de cada dia, com os pés no chap, chap.

Foi nessa altura que junto à entrada do Metro da Baixa Chiado na rua da Vitória tive um baque. Lá estava ela de novo! Japêu, Japêu, Japêu.

Perguntei-me se tinha tomado os comprimidos. Era impossível ter ficado lá atrás e que estivesse de novo ali no seu alarido habitual, junto à mulherzinha do Destaque. Parei sobressaltado e olhei melhor. Seria outra? Mas era igual aquela que eu tinha visto!

Foi aí que a coisa se aclarou! Quando me viu a olhar com insistência estendeu-me a mão a dizer: Japêu Juba!

Era outra! Igual à primeira, igual a muitas, mas era outra!

O Juiz Jubilado

O senhor até tinha um ar simpático de avô divertido. Inevitáveis os olhos pequeninos ao fundo dos óculos, felizmente os óculos não tinham aros pretos, nem o homem tinha pêlos negros nas orelhas, mas via-se bem que era um juiz.

E não era um juiz qualquer, era um conselheiro. Confesso que não sabendo bem o que isso é, percebi que seria assim uma espécie de chefe dos togas. E não era um chefe qualquer, diziam que era Conselheiro Jubilado, o que dá para  perceber perfeitamente que é um Chefe com muito mais penacho, com direito a trombetas e vénias, galões e alamares.  

Do alto da sua cátedra sentenciou:

As pessoas assinam papéis e não sabem o que assinam. Por exemplo quem assinou o Habeas Corpus do sargento foi condenado a pagar 480€. Cada um dos 10000 vai ter que esmifrar essa bonita quantia, porque as custas do processo são pagas individualmente, segundo o artigo patata do acórdão pipipi e mai nada.

E ficou com o sorriso ainda maior.

A princípio ainda dei uma gargalhada e pensei, até que enfim que vejo um juiz com sentido de humor.

Mas a coisa continuou, parecer para aqui, debate para acolá, opinião assim e assado, aquilo era mesmo a sério.

E outra vez mergulhamos no pesadelo de perceber que a justiça, como cimento das sociedades, se distanciou tanto delas que já não tem nada a ver com as sociedades nem com os indivíduos.

E aqueles senhores estão tão convictos da sua superior sapiência, disputando a quantidade de vírgulas que um sabe mais do que o outro, que se esquecem completamente dos objectivos da tarefa que desempenham.  

Sendo as custas do processo o pagamento de um serviço, não pode ser outra coisa, um único serviço pedido por 10000 pessoas, será pago como se houvessem 10000 serviços.

Quero ir de Lisboa para Cacilhas e peço à Soflusa o transporte. Eles dizem atravessar o rio de barco custa combustível, mestre, marinheiro, taxa de embarque etc será 500€. Para além de mim a Soflusa mete no barco mais 10000 e vai cobrar 500€ a cada um?

Oh senhor Doutor Meritíssimo Excelência Juiz Conselheiro Jubilado essa não lembra a nenhum mortal com um pingo de senso comum!