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Hélder Conduto: 'O maior desafio é fugir do futebolês'

13 de Junho, 2012por Maria Francisca Seabra
O primeiro relato de futebol foi um Castrense-Boavista dos Pinheiros, há mais de 20 anos. Mas hoje ainda sente a «dificuldade» da narração. É preciso muita concentração e rapidez de raciocínio, sem recorrer a muletas.

Ter formação em rádio é essencial para se fazer um bom relato televisivo?

O estilo que utilizo na televisão, com mais dinâmica, tem muito a ver com a experiência que continuo a adquirir na rádio. É óbvio que não posso ser tão descritivo, porque a imagem não exige uma descrição tão detalhada, mas o ritmo que empresto à narração televisiva tem muito a ver com a rádio.

Foi fácil fazer a mudança de registo?

No início, senti muitas dificuldades, porque se convencionou que há um estilo comum, mais pausado, aos narradores. E eu procurei transportar um pouco do entusiasmo da rádio para a televisão, porque o futebol é um jogo de paixões e emoções. Mas como as pessoas não estavam adaptadas àquele estilo, tive de corrigir, nomeadamente na descrição.

Mas essa foi uma percepção sua, ou ouviu críticas que o levaram a mudar?

Apercebi-me depois de ouvir o que estava a fazer na TV. Há pessoas que me dizem que eu não deveria ter perdido algo que era genuíno, mas o equilíbrio era preciso, porque na televisão falamos para um público muito mais diversificado do que aquele que procura o relato da rádio. Agora, é preciso que as pessoas entendam que, de cada vez que digo uma curiosidade sobre a vida ou o rendimento de um jogador, estou a ser útil ao espectador, porque se eu der só o nome estou a ser redundante – isso já o espectador sabe.

Mas gosta mais dos relatos de futebol na rádio ou na televisão?

Aquilo que mais prazer me dá é fazer um relato na rádio, sempre foi o meu sonho. Não é um capricho; acho que nasci para isso. É por esta razão que continuo a fazer relatos para a Antena 1, porque poderia estar só na RTP. E tenho pena de não fazer mais jogos para a rádio.

Diz que nasceu para isto e a verdade é que começou aos 13 anos.

Sou de Aljustrel e já com sete ou oito anos tinha por hábito fazer relatos de futebol com os amigos, à volta de uma mesa. Mas aos 13 anos disse: ‘Quero ser relator e vou ser relator já’. Liguei para a Antena 1, alguém atendeu e disse-me: ‘Meu caro amigo, você tem 13 anos e vive no Alentejo. Tenha calma, estude, cresça e depois apareça’. Desliguei e não me dei por vencido. Então, liguei para a rádio mais perto da minha terra, a Rádio Castrense, e falei com o director que, num acto de coragem, me disse: ‘Vem fazer um jogo’. Fui e, no intervalo, ele disse-me que poderia ficar. A partir daí, iniciei a minha carreira: ao fim de semana fazia relatos de futebol dos distritais e da terceira divisão, até chegar à TSF.

E lembra-se das equipas desse seu primeiro relato?

Foi um Castrense-Boavista dos Pinheiros. Ainda tenho a gravação, que guardo com muito orgulho. De vez em quando, ouço-a para saber de onde parti e onde estou. E estou muito diferente!

Como é que começa nestas lides aos 13 anos e não fala ‘futebolês’?

Quando cheguei à TSF, aos 18 anos, tive uma conversa com o António Jorge Branco, que era o formador dos jornalistas. Ele chamou-me e perguntou-me se eu tocava algum instrumento. Lá respondi que tocava bateria, nas horas vagas. E ele reagiu: ‘Bem me parecia que tinhas bom ouvido. É que tu estás a repetir muitos dos disparates que ouves. Se queres fazer bem o teu trabalho, não podes utilizar o futebolês’. A partir dali, foi remédio santo.

Mas é fácil não cair na tentação das frases feitas?

Um relato não é fácil, mas eu não me recordo de alguma vez ter dito ‘esférico’ em vez de bola. Há uma ou outra frase que sai – é inevitável. Só quem não faz é que não sabe a dificuldade de um relato, que obriga a rapidez de raciocínio e a muita concentração. O maior desafio é mesmo fugir ao futebolês. Mas pode ser uma muleta fundamental para me apoiar, numa ou noutra ocasião…

Um jornalista de Desporto trabalha com a mesma isenção que um jornalista de Política?

Sem dúvida. Sendo que o Desporto tem uma componente que marca a diferença: a paixão. O futebol, em particular, tira a razão às pessoas quando olham para o nosso trabalho. É muito mais fácil colocar em causa o distanciamento de um jornalista no Desporto do que na Política. As pessoas são capazes de entrar numa zanga por causa do futebol, e dificilmente o fazem por causas políticas. E isso faz com que o jornalista também seja apontado como alvo.

Os adeptos já o rotularam com algum clube?

O maior elogio é quando erram! Já ouvi dizer que sou portista, benfiquista ou sportinguista ferrenho, mas quando estou a fazer o meu trabalho não me sinto condicionado.

Essa sua atitude muda quando se trata de um jogo da Selecção?

Se eu gritar o golo de uma equipa que esteja a jogar contra Portugal – que espero que não aconteça – será chocante. A Selecção Nacional é um caso à parte. É o nosso país e algo que não se explica.

Mas também é preciso haver distanciamento?

Quando estou a fazer a narração de um jogo, o equilíbrio entre a razão e a emoção torna-se difícil. Não quero que seja uma coisa muito festiva, mas, por outro lado, entendo que deva fazer transparecer esse sentimento que é comum a todos. Agora, também já tive ocasião de criticar a Selecção, e não tenho nenhuma relação de promiscuidade com ninguém.

Mas tem amigos no futebol?

Sim. Mas não somos amigos de casa.

Os portugueses estão pouco entusiasmados com o Euro 2012. Ainda vamos ser surpreendidos pelo desempenho da equipa?

Pode ser bom para a equipa não entrar num estado de euforia.

Mas acha que Paulo Bento traz alguma tranquilidade?

Não tem a capacidade de ir ao encontro dos portugueses como Scolari. O Scolari procurava despertar as pessoas, e não só os jogadores, com detalhes, como as bandeiras nas janelas, o Roberto Leal a cantar no estágio... Isso não depende apenas da vontade, mas do talento de cada um para proporcionar esse ambiente. O Paulo Bento é um treinador de grande qualidade, é uma pessoa muito equilibrada, com a tal tranquilidade que lhe é conhecida, mas não vende falsas expectativas.

francisca.seabra@sol.pt




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