Nicola Raab, que tem encenado óperas de diversos estilos e épocas - coisas tão diversas como o 'Barbeiro de Sevilha', de Rossini, ou o contemporâneo 'A Flowering Tree', de John Adams -, em todos os continentes, falou com o SOL sobre a experiência de trabalhar no São Carlos, com uma equipa da casa.
O que acha de ter sido levada a produzir uma ópera de Puccini?
É a minha primeira ópera deste compositor. É uma música fabulosa, muito fácil de decifrar e pôr em palco. Mas, enfim, o que quer que estajamos a fazer sentimos sempre que é o melhor.
O La Rondine é uma ópera pouco apreciada...
É considerada a pior de Puccini. Não tem um plot como a 'Tosca' ou 'Turandot', com toda a acção, é muito mais centrada na vida interior de Magda. É muito serena e acaba por ser uma visão sobre as decisões que uma mulher tem que tomar na sua vida. Mas, sobretudo, foi pouco encenada. Na internet há poucas imagens e quase só da ária ‘Sogno di Doretta’.
Em que época situou os acontecimentos?
Tal como em 'La Traviatta', de Verdi, a acção decorre por volta de 1860. Mas decidi situá-la nos anos 20, perto da altura em que Puccini a escreveu.
Como vê a tendência de situar óperas nos tempos actuais?
Não gosto da total modernização de uma ópera, de lhe dar as roupagens e os cenários de hoje. Mas se o fizer tenho que perceber porquê, não conseguiria fazê-lo só para dar uma ilusão de actualidade. Para mim, o tempo em que a ópera foi criada é onde está a chave para compreendê-la. Cada ópera é muito filha do seu tempo. Pode pôr-se a 'La Bohème' ou a 'Traviatta' nos dias de hoje, não digo que não funcione; não funciona comigo. Mas outros fizeram-no com muito sucesso.
Mas recentemente fez uma encenação moderna de Wagner.
Fiz um 'Parsifal' moderno, situado nos tempos de hoje e até mesmo futurista, mas era uma coisa que se justificava plenamente porque fizemo-lo numa fábrica. Neste caso, o tempo em que a ópera foi feita, mais uma vez, é uma chave. É uma ópera contemporânea de Freud, de Strindberg. E é menos sobre as convenções da sociedade do que sobre a psicologia da personagem principal . Portanto, acho que foi apropriado fazê-la viajar no tempo.
Nos tempos de hoje a ópera ainda faz sentido?
Sim, porque a ópera é praticamente universal nas emoções que expressa e, ao mesmo tempo, é teatro. Ou seja, leva o público a uma participação comunitária num momento emocional. Isso é uma experiência que nunca morre.
Como foi trabalhar exclusivamente com cantores portugueses?
Nunca tinha trabalhado com uma equipa portuguesa e foi maravilhoso. E é uma grande sorte porque os cantores portugueses revelaram-se excelentes.
Como correu esta produção?
Cada produção é uma oferta para o público, um acontecimento irrepetível. É criada em relação ao sítio, à cidade, e acaba por ser influenciada por tudo o que está à nossa volta. Aqui quis fazer um espectáculo que ficasse bem neste teatro. E o que sinto é que, no final, algo de bom saiu de uma situação difícil. Penso que toda a gente ficou satisfeita com o resultado.
Qual o impacto da internet na experiência de ver ópera?
É fantástico, porque torna o acesso a tudo muito fácil. É possível ouvir dez versões da mesma peça quase instantaneamente, sem procurar nas lojas de discos. Sou muito a favor desta disponibilidade e do acesso quase ilimitado à música. Mas, depois, tenho outro tipo de sentimentos em relação a isso. É que o lado um pouco mágico do esforço e da espera acabou por desaparecer. A internet é uma ferramenta de trabalho maravilhosa. É muito prático poder usar o computador nos aeroportos. Mas, por outro lado, deixei de ir a bibliotecas, o que envolvia sempre um certo encanto. E era uma grande parte da minha vida, de que gostava muito.
Os públicos de ópera são diferentes nas diversas partes do globo?
Viajo imenso, o que me agrada muito. E da minha experiência, tenho a noção que cada sítio é muito específico. Há muitas diferenças entre a América e a Europa. Na América são muito conservadores, isso é uma evidência.
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