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Panteão Nacional: Mais perto do céu

2 de Fevereiro, 2014por José Cabrita Saraiva
Inaugurado no ano em que a ponte sobre o Tejo foi concluída (1966), o Panteão Nacional tem uma história atribulada, marcada por um roubo, uma maldição e uma tempestade. A construção arrastou-se por tanto tempo que a expressão ‘obras de Santa Engrácia’ passou a designar algo que nunca ficará terminado. Hoje, o edifício está preparado, diz a directora, para receber “os melhores” – uma definição que, nos últimos anos, não se tem revelado consensual.

D. Manuel I e D. Maria, D. João III e D. Catarina de Áustria, D. Sebastião e o Cardeal D. Henrique, Vasco da Gama, Luís de Camões, Alexandre Herculano e Fernando Pessoa – quatro reis, duas rainhas, dois poetas, um navegador e um historiador. Nenhuma destas grandes figuras da nossa História está, porém, sepultada no Panteão Nacional. Estão todos no Mosteiro dos Jerónimos, em Belém. “Em 1916 é determinado que a igreja [de Santa Engrácia] vai ter a função de Panteão Nacional para receber os nossos melhores, mas as obras ainda não estavam terminadas. Entretanto, o Mosteiro dos Jerónimos vai cumprindo essas funções”, diz a directora do Panteão, Isabel Melo.

E foi precisamente dos Jerónimos que chegou a primeira vaga de personagens ilustres – três Presidentes e três escritores – aquando da inauguração do Panteão, em 1966. Além desses túmulos (a que se juntariam outros quatro), o monumento alberga seis cenotáfios vazios. O de Camões é um deles. “Às vezes os turistas vêm dos Jerónimos, onde acabaram de ver o túmulo de Camões, e ficam confusos: ‘Afinal o Camões está lá ou está aqui?!’”, diz Isabel Melo.

A actual directora entrou em funções em 2007, ano em que Aquilino Ribeiro foi para ali trasladado. Da cerimónia, recorda o “protocolo ao mais alto nível”. E desvaloriza a presença de algumas dezenas de pessoas à porta, que acusaram Aquilino de estar envolvido no regicídio de 1908. No interior, os protestos não se fizeram sentir.

Mais recentemente, também a eventual trasladação do futebolista Eusébio da Silva Ferreira gerou polémica. O rastilho foi ateado pela presidente da Assembleia da República, Assunção Esteves, que durante o velório do jogador mencionou os “custos mesmo muito elevados, na ordem de centenas de milhares de euros” da operação – embora se saiba que a trasladação de Aquilino custou aproximadamente 40 mil euros.

Alguns dias depois, Vasco Pulido Valente contra-atacava no Público, referindo que entre os ‘inquilinos’ do Panteão há “uma série de mediocridades, que nunca se distinguiram por terem ajudado a humanidade ou os portugueses. Sim, senhor, Eusébio merece um Panteão. Mas não aquele”.

Também no Público, num artigo intitulado ‘O Panteão de chuteiras’, João Miguel Tavares respondeu: “Inverter a discussão sobre se Eusébio deve ou não ir para o Panteão argumentando, em delírio hiperbólico, que ele é muito maior do que a Igreja de Santa Engrácia e merece melhor companhia é, digamos assim, uma entrada com os pitons à frente”.

Seja como for, Eusébio só poderá dar entrada no mausoléu dos ilustres depois de ter passado um ano sobre a sua morte, na melhor das hipóteses em Janeiro de 2015. Antes disso, realizar-se-á a trasladação dos restos de Sophia de Mello Breyner, prevista para as comemorações dos 40 anos do 25 de Abril. A confirmar-se, os túmulos de Sophia e Eusébio deverão ocupar os espaços vazios na sala onde estão Aquilino e Humberto Delgado. Mas não é seguro – recorde-se que em 2012 Passos Manuel, por ironia o autor do decreto que ‘criou’ o Panteão, viu a entrada no memorial ser-lhe negada por falta de verbas.

A maldição de Santa Engrácia

A história do monumento remonta aos finais do século XVI, quando uma igreja foi ali erguida por vontade da infanta D. Maria, filha do Rei D. Manuel I e devota de Santa Engrácia. “Em 1630 deu-se na igreja um roubo sacrílego, tendo sido arrombado o sacrário. Foi dado como culpado o hebreu Simão Pires Solis, que foi queimado vivo”, lê-se no Guia de Portugal, de Raul Proença. “E aí entra um pouquinho a lenda”, adverte Isabel Melo: “Ele ao passar por aqui terá dito: ‘Tão certo é eu ser inocente como esta igreja nunca ser acabada’”.

A ‘maldição’ estava lançada. “Quando estão a decorrer as obras, há uma tempestade e essa primitiva igreja vai ruir”, continua a directora.

A primeira pedra do edifício que hoje podemos visitar foi lançada em 1682. A obra ficou a cargo do mestre João Antunes, que desenhou um edifício barroco muito inspirado nas igrejas italianas. “É um monumento único no panorama nacional, com uma arquitectura que foi inovadora na altura e que não teve continuidade”. A responsável destaca as “paredes onduladas, que fazem contrastes de luz e sombra” e os “embutidos em mármore de várias cores”. “Mas o arquitecto morre em 1712 e a igreja vai permanecer inacabada, fica sem cúpula. Entretanto é entregue ao exército, chega a ser fábrica de calçado e depósito de armamento”. Para o espaço não ficar a céu aberto, o vazio é coberto com uma calote de ferro e vidro.

A criação de um Panteão Nacional chega em 1836 pela mão de Passos Manuel, “na sequência dos ideais da Revolução Francesa. Aparece a necessidade de

um Panteão Nacional – não ?? um Panteão Real – em que as pessoas são acolhidas pelos feitos extraordinários que desenvolveram ao longo da vida”. Por isso não há reis sepultados em Santa Engrácia. “Em 1916 é determinado que vai ser esta igreja a desempenhar essa função – mas permanece inacabada”.

Até que em 1966, passados quase três séculos sobre o lançamento da primeira pedra, a cúpula é concluída. Para a apreciarmos melhor, subimos “cinco andares, mas correspondem a nove” num elevador que se encontra dissimulado por detrás de uma porta de madeira perfeitamente insuspeita. “É uma das vantagens de as obras terem terminado tão tarde. Em tudo o resto o edifício é simétrico, menos no elevador, que só tem um”. A 42 metros de altura, a directora do monumento mostra, gravada na pedra, a assinatura do arquitecto Amoroso Lopes, que contou com a ajuda do engenheiro Edgar Cardoso. O acesso ao lanternim, outros 42 metros acima, faz-se através de uma escada que serpenteia sobre entre os dois zimbórios – o interior e o exterior.

O ano de 1966, além de ter assistido à inauguração do Panteão, foi também aquele em que ficou concluída a ponte sobre o Tejo e, claro, o do Mundial de Inglaterra, em que Eusébio brilhou ao serviço da Selecção Nacional. Isabel Melo prefere não se pronunciar sobre a vinda ou não do Pantera Negra. Mas sabe que o Panteão ainda tem lugar para muitos heróis nacionais. “Não há capacidade-limite. Eu só os recebo e tenho de os receber bem”.

Bem recebidas também são as escolas que visitam o monumento: “As crianças fazem perguntas extraordinárias”, conta a anfitriã. “Às vezes perguntam se os mortos lá dentro [dos túmulos] estão de pé, deitados ou sentados”. E há alunos mais ambiciosos que querem saber se também eles poderão dar entrada no Panteão. “Eu digo-lhes que sim, com certeza”. Quem sabe, um dia conquistarão o seu lugar entre os eleitos.

jose.c.saraiva@sol.pt




5 Comentários
AZULCLARINHO
03.02.2014 - 23:16
Com tanta gente a sugerir nomes para o Panteão Nacional qualquer dia começa a ser chique ir para o cemitério.
Miguelmartel
03.02.2014 - 15:03
Efectivamente, Amália era salazarista..., até tratava o Prof. Oliveira Salazar por "o meu salazarinho".
A construção do Panteão Nacional é mais uma das grandes obras "a Bem da Nação" efectivadas pelo Estado Novo, sem esmolas, como agora acontece. São estas diferenças, que distinguem um período de luz do actual período de trevas, corrupção, pobreza e subsídio-dependência.
Miguelmartel
03.02.2014 - 15:01
Efectivamente, Amáli a era salazarista..., até o tratava por "o meu salazarinho".
A construção do Panteão Nacional e mais uma das grandes obras "a Bem da Nação" efectivadas pelo Estado Novo, sem esmolas, como agora acontece. São estas diferenças, que distinguem um período de luz do actual período de trevas, corrupção, pobreza e subsídio-dependência.
NorbertoSousa
03.02.2014 - 14:39
Após minuciosa discrição, certamente foi por lapso que o jornalista José Saraiva não mencionou que foi nos governos do Prof António de Oliveira Salazar que o Panteão Nacional foi concluído.
veritatis
02.02.2014 - 20:43
Reservem já uns 3 lugares para futebolistas e outros tantos para fadistas.....depois da fadista salazarista ter sido lá instalada.....vale tudo!


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