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Luís Miguel Pereira: Nas entrelinhas da bola

19 de Fevereiro, 2012por Paula Cardoso
Escreveu 30 livros sobre futebol nos últimos 10 anos, publicados em Portugal, Espanha, Inglaterra e Brasil. Obcecado por contar histórias, Luís Miguel Pereira já tem fãs a lutar pela sua entrada no Guinness.

Ao fim de mais de 200 páginas escritas, Luís Miguel Pereira enguiçou no prefácio. Esperou um mês, aguentou o segundo e à passagem de um trimestre quase dava por perdido o último esforço. «Já não sabia o que fazer. O prazo estava a apertar porque o livro tinha de ser lançado no Natal», conta o jornalista ao SOL, de memória fixada no telefonema que deu a volta ao texto. «Zico? Pensei: Zico só conheço um, do Flamengo. Aquilo era tão absurdo que perguntei: isso não é trote [brincadeira]?».

Não era. Do outro lado da linha, Zico, uma das lendas vivas do futebol brasileiro, confirmava a identidade. «Sim, Zico do Flamengo. Você entregou um livro ao Valdo, lembra?». Batia certo. Meses antes, entre transmissões de jogos do Mundial da África do Sul, o chefe de redacção da Sport TV recorria aos bons ofícios do antigo médio do Benfica para chegar ao eterno símbolo dos rubro-negro.

«Tinha acabado de fazer a Bíblia do Flamengo e não havia ninguém mais indicado do que o Zico, o deus do clube, para escrever o prefácio. Como o Valdo era comentador na Sport Tv durante o Mundial, lembrei-me que talvez pudesse conhecê-lo. Fiquei a saber que tinham sido colegas de quarto no México 86».

O resto da aventura conta-se pelas palavras do próprio Zico que, após meses de silêncio, vieram rematar as mais de 200 páginas da Bíblia do Flamengo.

«Na leitura fácil das fichas e curiosidades sobre ex-companheiros, notei o quanto será saboroso compartilhar as histórias vividas com meus netos», prefacia o antigo camisa 10, entre incontáveis actualizações de lembranças. «Encontrei vários trechos que aguçaram a minha memória […] detalhes para serem consultados a qualquer hora, que tornam o livro indispensável na mesa-de-cabeceira de quem é torcedor».

Por trás de cada uma dessas recordações, publicadas no Brasil em Dezembro de 2010, encontra-se a «vocação maior» de Luís: a reportagem. «Não tenho a obsessão de escrever livros», diz, distanciando-se de qualquer tentação de glória literária. «Até há pouco tempo nem sequer sabia quantos títulos tenho. Simplesmente não os contei».

Escrita à prova de rivalidades

Com 30 livros sobre o desporto-rei publicados desde 2002, não só em Portugal, mas também em Inglaterra, Espanha e no Brasil, já se medem esforços a pensar na sua entrada no famoso Livro dos Recordes. «Um grupo de pessoas chegou a propor o meu nome para o Guinness», revela o jornalista, e talvez o autor com mais livros de futebol no mundo.

Se isso acontecer, garante Luís, não nascerá daí um especial sentimento de realização. «Sempre olhei para o Guinness como uma distinção de quantidade, não de qualidade. E o que se mede pela quantidade não é necessariamente bom. O que me deixa satisfeito e orgulhoso é olhar para trás e ver livros do Benfica, do Sporting e do Porto. Significa que o reconhecimento do meu trabalho está acima das rivalidades».

Consensual entre os três grandes do futebol português e também em Espanha, onde tem obras licenciadas pelo Barcelona e pelo Real Madrid, o autor só não percebe por que motivo seus livros despertam maior interesse no estrangeiro do que em Portugal.

O exemplo mais recente vem do outro lado da fronteira: na semana de lançamento ibérico de Mourinho - Nos Bastidores das Vitórias, assinado em co-autoria com Nuno Luz, o desportivo Marca publicou diariamente algumas passagens da obra.

Em Portugal, pelo contrário, o trabalho – já a caminho do Brasil e com pedidos de expansão para o Japão, Inglaterra e Polónia – permanece na penumbra. E nem o sucesso de vendas da edição espanhola tem sido suficiente para inverter a tendência de esquecimento: logo no primeiro mês de mercado, o percurso do já aclamado melhor treinador do mundo transformou-se no livro de desporto em castelhano mais vendido na livraria online Amazon.

«Se calhar fica-me um bocado mal dizer isto, mas acho que há aqui um bocadinho de inveja e de mesquinhez. Se as coisas têm interesse editorial, por que não aparecem por cá?». A dúvida mantém-se ao fim de 10 anos de publicações – iniciadas na biografia do futebolista Mário Jardel – mas não trava vendas. Nas primeiras quatro semanas de mercado, o livro de Mourinho entrou na quarta edição e, a este ritmo, prepara para se converter no quinto livro da bibliografia de Luís Miguel Pereira a vender mais de 20 mil exemplares.

Foi assim com O Bloco de Notas de Lazlo Boloni, lançado em ano (2002) de dobradinha (Campeonato Nacional e Taça de Portugal) do Sporting. A Luz não se apaga, Bíblia do Benfica e Caretas do Benfica completam a pódio dourado do autor.

Mas o brilho maior das letras, acredita o jornalista, é outro. «Os livros de futebol eram feitos da mesma forma que os livros de economia ou de política. Não havia uma adequação da linguagem, do grafismo, da paginação nem das capas que fosse ao encontro das preferências dos adeptos».

Além de corrigir o desajuste na forma, pela aproximação ao formato dos jornais desportivos, Luís orgulha-se de ter desafiado um velho dogma nacional. «Dizia-se que quem gosta de livros não gosta de futebol e quem gosta de futebol não gosta de livros».

Na linha de novas conquistas

Hoje, uma década assinada desde as primeiras linhas de publicação – inauguradas para compensar a substituição do trabalho de campo por responsabilidades de chefia – o director da Sport TV 3 recapitula as histórias com um sabor especial.

«Nas sessões de autógrafos as pessoas abordavam-me para dizer que leram um livro pela primeira vez. Essa foi a grande batalha».

Nos próximos capítulos, o autor pretende «dar continuidade aos livros de recordes» e permanecer fiel à lei do mercado. «Quando surge a ideia de um novo formato testa-se primeiro com o Benfica porque vende mais. Se não resultar então não funciona com ninguém». A regra aplica-se desde a criação das Bíblias, a primogénita colecção, e promete manter activa a escrita de Luís Miguel Pereira. Sempre na linha da bola.

paula.cardoso@sol.pt




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