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Eusébio: 'Se não fosse futebolista, teria sido o melhor bailarino do mundo'

11 de Janeiro, 2014por Carlos Ramos, em Luanda
Foi um dos primeiros africanos a atingir o estrelato no futebol. Considerado um dos melhores futebolistas do mundo, Eusébio revelou-se no Benfica, onde assinou o primeiro contrato por 250 contos (1.250 euros). Filho de pai angolano, o Pantera Negra morreu esta semana. Aqui se republica a última entrevista que deu ao SOL, em 2010, onde fala das suas origens.

O que sabe do que aconteceu no dia 25 de Janeiro de 1942?

Nunca ninguém me tinha feito essa pergunta [risos]. Por isso, poucos sabem a minha hora de nascimento. Nasci no dia 25 de Janeiro de 1942, às 15H40, no Hospital Central Miguel Bombarda, em Lourenço Marques, hoje Hospital Central de Maputo. Já não me lembro se a minha mãe me disse com quantos quilos, mas sei que nasci bem constituído. Sou o sétimo filho da família Ferreira. Depois de mim veio mais uma menina. Éramos seis rapazes e duas meninas.

E do seu pai do que se lembra?

Era de Malanje, Angola, e chamava-se Laurindo. Não tive muitas oportunidades de falar com ele já que faleceu quando eu tinha sete anos. Morreu aos 37 anos com uma doença, naquela altura, de difícil tratamento, o tétano.

E isso marcou-o?

Marcou-me mesmo muito. O meu irmão mais velho contou-me que ele tinha sido um grande jogador de futebol, um grande médio, e que trabalhava nos caminhos-de-ferro. Mais tarde, o meu falecido sogro, sr. Ernesto, que era um grande amigo dele – jogavam à bola juntos –, é que me contou maravilhas do meu pai. Depois, conforme fui tendo mais confiança com o meu sogro perguntei: ‘O meu pai era melhor do que eu?’. Respondeu-me que tinha mais futebol do que eu. E voltei a questioná-lo: ‘Se tinha mais futebol do que eu, é porque era melhor…’ de imediato ele disse-me: ‘Não tenhas dúvidas’. Fiquei contente por ouvir o grande amigo do meu pai dizer que ele era o melhor da família. O meu pai jogou no Ferroviário, mas primeiro, quando foi transferido de Malanje [Angola] para Moçambique, jogou no Mafil, que era um clube lá do bairro de Mafalala. Do pelado da Mafalala saíram jogadores como o Coluna e o Matateu. Jogávamos descalços e, por isso, aquela zona ficou conhecida pelo ‘pé-descalço’.

Como é que a sua mãe conseguiu criar oito filhos sozinha?

A minha mãe era, como se costuma dizer, uma ‘mulher de armas’ e contava com a ajuda da família. O meu pai sempre atribuiu uma grande responsabilidade aos meus dois irmãos mais velhos, o Jaime e o Alberto. Trabalharam com ele enquanto estudavam e, por isso, quando ele faleceu, os meus irmãos deram uma ajuda à minha mãe. Éramos uma família modesta, mas educada e respeitadora, que sabia onde e como estar. Vivíamos numa casa de madeira-zinco, com água mas sem esquentador, coisa que também não fazia falta porque o calor era e é sempre muito.

E os estudos?

O único que não estudou fui eu. Só fiz a 4.ª classe. Todos os meus irmãos estudaram e chegaram a tirar cursos, até de engenharia.

Que diferença de idade tem para os seus irmãos mais velhos?

Dois, três anos. O mais velho, o Jaime, faleceu no dia em que o Benfica de Giovanni Trapattoni jogava em Setúbal. Foi em 2005.

Começa no futebol, por brincadeira, nos ‘Brasileiros’?

Nos ‘Brasileiros’ de Mafalala, que era o nosso bairro, e que ficou mais tarde conhecido porque o nosso presidente era o cauteleiro ‘Maneta’. Vendia cautelas e ganhava gorjetas [risos]. Eu acho isto muito giro, gosto de recordar… O homem era um doente pelo Belenenses por causa do Matateu. Ele gostava de nos ver ali, ao fim do dia, a jogar. Como jogávamos com uma bola de trapos, ele comprou-nos uma de borracha. Mais tarde conseguiu um equipamento como ele queria, ‘à Belenenses’. Era azul bebé, não era o azul do Porto.

Mas o Eusébio jogava com outro nome nos ‘Brasileiros’ de Mafalala. Aliás, como acontecia com outros miúdos, por exemplo em Portugal, que jogavam à bola na rua e escolhiam nomes de outros craques.

Sim, exactamente. Eu escolhi o nome de Nené, que era um jogador do Ferroviário de Araracuara, de Moçambique, que tratava muito bem a bola e jogava com inteligência. Como joguei contra ele e adorei a sua forma de estar em campo e a forma como tratava a bola, decidi escolher o seu nome quando jogávamos. O Pelé era o meu primo Madala, o Faquir era o Garrincha, o Amaral era o Didi, o Orlando era Gilmar. Todos os jogadores adoptavam nomes de craques. Mais tarde, adoptei o nome de Edson, mas como eles não sabiam o nome verdadeiro do Pelé – Edson Arantes do Nascimento – não se aperceberam e passaram a tratar-me por Edson.

Mais tarde tentaram jogar no Desportivo, que era o vosso clube, e o treinador nem o deixou equipar.

O Desportivo ainda é o nosso clube em Moçambique. Quando fomos ao Desportivo para treinar, o treinador disse que o Amaral, o Carlitos e o Faquir podiam fazê-lo, mas os outros não. Eu estava lá no meio dos outros. O Carlitos ainda intercedeu por mim. Disse ao treinador Vasco que eu era o melhor lá do bairro, mas o homem não quis acreditar porque me achava franzino e baixo. Mas eu era muito rápido e só queria que ele me deixasse treinar para me poder ver. E, em dialecto, eu disse aos outros, ‘olhem para aqueles coitados a treinar, eu fintava-os a todos e marcava’. Enfim, no final do treino só ficou o Carlitos e regressámos todos ao bairro. Ainda tentei mais duas vezes, mas o treinador nem sequer me deixou equipar. É depois dessas tentativas todas, para jogar no nosso Desportivo, que vamos para o campo que ficava lá ao lado e era do Sporting de Lourenço Marques. O Hilário estava lá, avisou que eu não era do Sporting, mas que tinha ido ao Desportivo e que estava chateado por não me terem deixado treinar. Eu disse aos meus amigos que não queria treinar, no entanto, eles fizeram-me ver que, já que ali estávamos, talvez pudéssemos voltar para casa de carro. Lá aceitei e perguntaram logo se eu tinha botas. Eu não respondi, naturalmente, já que jogávamos sempre descalços. Perguntaram-me o meu número, o 40, e foram buscar um par de sapatilhas. Olhei para os outros dentro do campo, grandes e de botas, e pensei que tinha de ser rápido e antecipar-me. E foi o que aconteceu. Marquei alguns golos mas sem emoção. Estava desgostoso, eu não era do Sporting. Mas trataram-me bem. Dali já não regressámos a pé, fomos numa carrinha Volkswagen até ao nosso bairro. Quando chegámos, os dirigentes preferiram falar com a minha mãe.

Que idade tinha nessa altura?

Doze anos. O meu irmão Jaime ainda não estava em casa e a minha mãe, como eles tinham sido simpáticos em trazer-me a casa, achava que devia jogar na equipa deles. Disse-lhe, em dialecto, para eles não entenderem: ‘Mãe, se o pai fosse vivo nem lá tinha ido treinar e a mãe não entende nada de futebol. Diga-lhes que vai pensar e que depois diz qualquer coisa’. Logo a seguir chegou o meu irmão Jaime que lhes disse que iria resolver com a mãe e o irmão, mas avisando-os, no entanto, que naquela casa eram todos do Desportivo.

Mas acabou por ir jogar pelo Sporting?

Não comia e só chorava. Andava muito desgostoso porque só queria jogar no Desportivo e o treinador nem sequer me deixava treinar. O meu irmão Jaime bem tentou que a minha mãe não assinasse e até lhe disse que o Sporting era um clube racista. Mas ela acabou por assinar a ficha e lá fui para os iniciados do Sporting. Logo no primeiro jogo defrontámos o Desportivo e marquei três golos. Chorei baba e ranho por ter marcado ao meu clube.

E o que aconteceu depois?

O treinador Vasco, do Desportivo, foi despedido. Ainda hoje nos falamos. Ele vai, em Lisboa, aos encontros de moçambicanos. Mas ficou marcado para toda a vida com esta história e ainda mais com a minha projecção no mundo. Ele podia ter sido o meu primeiro treinador. Nunca mais quis treinar. Hoje é reformado e vive em Carcavelos. Acabei por ficar lá. Com a idade de júnior, 15 anos, já jogava na primeira equipa.

O Eusébio era um miúdo traquina?

Recordo-me da minha mãe me ter pedido para levar um cesto à minha tia. Eu não sabia o que ia lá dentro, se tinha ou não de ser entregue rápido, e encontrei os meus amigos lá da rua a jogar à bola. Encostei o cesto e, quando já jogava, um amigo meu avisou: ‘A tua mãe vem aí atrás de ti’. Agarrei no cesto e pus-me a correr, mas quando cheguei a casa a D. Elisa tratou de me aquecer as orelhas.

E com as miúdas?

[muitos risos] Nós tínhamos as nossas namoradas, coisas de miúdos. Mas tinha uma namorada no bairro. Todos nós tínhamos uma namorada oficial. Era giro. Estou agora a lembrar-me daquele musical West Side Story. Lá era a mesma coisa, até dançávamos e tudo.

O Eusébio gostava de dançar?

Se não tivesse sido futebolista, tinha sido o maior bailarino do mundo. Está no nosso sangue. Qual é o africano que não sabe ou não gosta de dançar? Já temos negros como grandes bailarinos. Uma vez estava na televisão e estavam a mostrar o Pelé a cantar. Estive quase a pegar na apresentadora e dar, ali mesmo, um pezinho de dança.

A 17 de Dezembro de 2010 fez 50 anos que o Eusébio chegou a Lisboa. Dizem que foi raptado. Isso é verdade?

É triste. Isso é tudo mentira. O Sporting queria que eu viesse à experiência. O Sporting é que me queria raptar. O Hilário é que pode testemunhar. Quando a minha mãe assinou contrato, para jogar pelos iniciados do Sporting de Lourenço Marques, exigiu uma cláusula para o caso de eu não me sentir bem e poder deixá-los. Recebeu um cheque do Benfica de 250 contos que foi depositado no antigo Banco Nacional Ultramarino de Lourenço Marques. Não tirou um tostão. O Hilário pode testemunhar que é verdade. A única verdade, no meio disto tudo, é o nome de código que me arranjaram: Ruth. Por causa do pessoal dos Correios. Eram todos do Sporting.

Então por que não foi para o Sporting?

Porque não quiseram pagar. Queriam que eu viesse à experiência. Perguntámos na altura por que é o Sporting não podia pagar se o Benfica pagava. Ainda por cima, eu não gostava do Sporting. Toda a gente sabe, em Moçambique, que sempre fui do Desportivo que era a filial do Benfica. Sempre fui do Desportivo e do Benfica. Hoje é o Costa do Sol que é filial do Benfica. Ainda me lembro quando o Benfica foi a Moçambique, em 1950, à inauguração do então Estádio Paulino Santos Gil, perdeu com o Desportivo por 3-1, com três golos do Matateu. O Benfica queria trazer o Matateu, mas o treinador Otto Glória decidiu ficar com o Águas porque era bem mais novo. O Matateu veio para Portugal já com 27 ou 28 anos.

Então estas histórias, contadas ao longo dos anos, não são verdadeiras?

É tudo mentira. O nome de código que me deram, Ruth, é verdade. Cheguei a Lisboa e fui para o lar do Benfica que era ali na Calçada do Tojal, junto ao cemitério. A única coisa que estranhei quando cheguei a Portugal foi o frio. Lembro-me de ter dito ao José Torres: ‘Não diga nada a ninguém porque quando o Benfica resolver a minha situação eu vou entrar na equipa’.

Qual situação? A inscrição na Federação?

Exactamente. O Sporting quis meter papéis mas não tinha nada assinado, nem pela minha família nem por mim. Eles tentaram empatar a inscrição pelo Benfica. Naquela altura, o director do futebol do Sporting ofereceu-me 500 contos para assinar.

Quem o indicou ao Benfica?

O Bella Guttman acreditava sempre nos antigos jogadores. O Guttman treinou o São Paulo e um dos seus jogadores era o Bauer. Mais tarde, esse tal Bauer foi treinar o Ferroviário de Araracuara lá em Moçambique. Aproveitando uma deslocação a Lisboa, onde jogaram com o Belenenses e com o Sporting, o Bauer foi cumprimentar o Bella Guttman dizendo-lhe que ia regressar a África para depois voltar ao Brasil. Entretanto, tenta a minha contratação para o São Paulo do Brasil. Inviabilizada a contratação por falta de dinheiro, Bauer, na viagem de regresso ao Brasil, volta a passar por Lisboa e recomenda-me ao Bella Guttman.

Lembra-se do valor desse primeiro contrato com o Benfica?

Na altura, o meu contrato era de 250 contos. Primeiro ofereceram 110, depois subiram para 150 e depois o meu irmão mais velho, o Jaime, disse-lhes: ‘250 contos e fechamos o negócio’.

Lembra-se do seu primeiro ordenado no Benfica?

Seis contos.

E a adaptação a Lisboa? E as saudades?

Falava todos os dias com a minha mãe. Quando cheguei pensei que vinha encontrar um clima igual ao de Moçambique. Quando percebi que não, pensei que ia morrer de frio. E depois fui para a Covilhã, ainda mais frio, para me juntar à equipa que ia jogar com o Sporting local, naquela altura na 1.ª divisão. Cheguei ao hotel, abri a torneira e a água não saía porque estava congelada. Ainda me recordo do meu desabafo: ‘Ai, minha mãe, quero voltar… não quero morrer de frio’.

E a primeira vez que entrou no Estádio da Luz?

Foi no sábado antes de viajar para a Covilhã. Fui lá de manhã, depois levaram-me a almoçar na Adega da Tia Matilde, e mais tarde apanhámos o comboio para a Covilhã. Olhe, almocei na Tia Matilde que ainda hoje é o meu restaurante. Estou lá sempre.

Que ensinamentos reteve dos seus pais?

A ouvir primeiro a família. Falo sempre com a minha mulher, chamo as minhas filhas, e tomo as decisões. Tenho duas filhas já licenciadas. Não quero amanhã ouvir da boca delas que o pai não deu uma satisfação numa decisão importante. Quando eram crianças era outra coisa. Isso aconteceu quando fui jogar para o estrangeiro. As minhas filhas viajaram comigo para os Estados Unidos e para o México e estudaram sempre na escola Inglesa. Só mais tarde, elas já com 10 e 11 anos, é que entendi ser melhor voltarem para Lisboa. Apesar de ser importante ganhar dinheiro, achei que não podia sacrificar mais as crianças. A partir daí só nas férias é que estávamos juntos.

E a sua mulher?

Tive muita, muita sorte em casar com a Flora. Grande mulher, grande mulher. Apoiou-me em tudo. Conhecemo-nos, ainda crianças, lá no bairro da Mafalala. É por isso que estava há pouco a falar na minha namorada oficial, a tal namorada lá do bairro. Ela era campeã nacional de ginástica. Veio de Moçambique participar no campeonato e ganhou.

Se tivesse nascido noutro país sente que poderia ter tido mais projecção ainda?

Se tenho nascido em França, em Espanha, em Inglaterra ou em Itália, em termos de futebol, não teria havido ninguém a ganhar mais dinheiro. Mas não podemos esquecer os colegas de equipa. Sem eles, não somos ninguém.

É verdade que Salazar o proibiu de sair para o estrangeiro?

Devo ter sido dos jogadores que mais vezes foi a São Bento falar com Salazar que me disse: ‘Você não deve pensar em sair do país’.

Com quem ia a esses encontros?

Com o Coluna, o capitão da equipa, e um director do Benfica.

E a relação com o também moçambicano Coluna? Era o seu grande amigo no Benfica?

Lembro-me que tentaram, uma vez, pôr-nos um contra o outro. Mas eu e o Coluna sempre fomos muito amigos. É o meu ‘mais velho’, é o meu padrinho de casamento e, mais tarde, foi meu compadre. É padrinho da minha filha mais velha. O Coluna ajudou-me bastante.

E com o Pelé?

Somos grandes amigos, até nos tratamos por irmão.

Como chega aos Estados Unidos para jogar futebol?

Cheguei, para o Cosmos de Nova Iorque, no mesmo dia que o Pelé. Mas o presidente da federação não deixou que ficasse mais do que um jogador por equipa. Assim, fui parar a Boston, o Bobby Moore a San Antonio, o George Best a Los Angeles, o Johann Cruyff a Washington e o Pelé ficou em Nova Iorque, no Cosmos.

Tem fama de ser um bom garfo. Qual é o seu prato favorito?

Gosto muito de petiscos, mas tenho um prato que aprecio muito, caril.

O seu restaurante preferido em Lisboa?

A Adega da Tia Matilde e o Sete Mares.

Qual é a qualidade que mais aprecia numa pessoa?

A simplicidade e a honestidade.

E o que mais detesta?

Não gosto de mentiras.

carlos.ramos@sol.co.ao




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