Mais almoço, menos jantar, as refeições teimam em passar das medidas. «Eu que nem sou disso, dou por mim a comer batatas fritas atrás de batatas fritas». O apetite, digere Catarina Vilela, enfarta-se à medida da utilização voraz «dos cupões espectaculares da Portugália». Ou, livres de adjectivação: vales promocionais que permitem consumir dois menus pelo preço de um.
«Está a ver a maravilha? Ainda por cima é só imprimir os descontos aos maços da internet. Já fui lá umas 500 mil vezes com o meu ‘babe’».
Catarina Vilela
Sem sinais de saciedade, o casal de namorados planeia repetir a experiência até ao limite da promoção da cervejaria: 30 de Junho, uma das datas a assinalar no calendário de oportunidades desta estudante de 25 anos.
Não é ser forreta, é uma questão de usar a inteligência
«Tenho tudo planeado. Criei uma folha no Excel onde anoto os maiores descontos nos supermercados e a validade dos cupões. Por exemplo, mais lá para a frente o novilho vai estar 50% mais barato», aponta, de olho também arregalado para uma promoção de azeite.
«Já não consigo comprar nada sem reduções. Sei que é tudo uma questão de tempo e que, mais dia, menos dia, os preços baixam».
A lógica de um consumo orientado para os descontos – «não é ser forreta é uma questão de ser inteligente», repete Catarina– atrai clientes à medida que os orçamentos encolhem e lança as marcas numa crescente e quase cega disputa comercial.
«Quando é que se poderia imaginar uma situação destas? Fazer uma compra de saúde através de uma campanha de redução de preços nunca me passaria pela cabeça», admite Joana Carqueijeiro, antes resistente à ideia, agora rendida a um cupão de satisfação.
Joana Carqueijeiro
«Em vez de 120 euros paguei 35», contabiliza a gestora de marketing de 29 anos que, graças a um teste de intolerância alimentar feito a preço promocional, está desde o passado fim-de-semana em ‘guerra aberta’ contra a carne vermelha e os produtos light.
Desconfiar antes de comprar
Além de uma poupança de 85 euros, a experiência, vivida através do site Groupon, introduziu Joana na matemática das compras colectivas – popularizadas pela aplicação de percentagens de desconto tão generosas que tendem a ser recebidas com desconfiança.
«Acho que qualquer consumidor fica sempre um bocado de pé atrás», observa a gestora comercial Sónia Martinez, peremptória em estabelecer as barreiras psicológicas que podem transformar uma compra vantajosa numa compra arriscada.
«Se o produto tiver impacto na qualidade de vida de quem o procura, acredito que exista algum receio e uma preocupação maior na?escolha», nota Sónia, de pronto fixada na história recente de promoção de uma placa de titânio.
«Estamos a falar de uma coisa que custa mais de 2.000 euros e que estava disponível por menos de mil», explica a gestora de 31 anos. «Por isso acho normal que o consumidor se questione: será que o titânio é mesmo titânio?».
Sónia Martinez
Por trás da dúvida, Pedro Quelhas Brito, autor do livro Promoção de Vendas e Comunicação de Preços, encontra um erro comum.
«Toda a gente gosta de ofertas, de pagar menos e receber mais. Mas as pessoas também precisam de saber o porquê [da promoção]», nota ao SOL o especialista em Gestão de Marketing, sem esquecer que as falhas de comunicação tendem a precipitar falsas leituras.
«Nós interpretamos tudo. Se a acção promocional não surge enquadrada num tema, podemos ter uma interpretação que não é a mais interessante para a marca e que implica, a posteriori, um trabalho de relações públicas nem sempre convincente».
Da teoria à prática dos consumos, lêem-se páginas de apreciação e depreciação dirigidas à mais recente campanha do Pingo Doce.
No final das contas, Orquídea Pires, autora do blogue Criatividade em Movimento – orientado para partilhas de gestão doméstica – arrendonda a factura num bem-sucedido golpe de marketing.
Orquídea Pires
«O caso continua a dar que falar e esse aspecto faz com que a marca entre na cabeça das pessoas».
Mais do que isso, defende Pedro Brito, «os que beneficiaram [da acção] gostaram da experiência, independentemente dos sacrifícios».
A certeza do especialista reforça-se no sorriso de «dever cumprido» de Catarina, também conhecida por ‘tralheira’, nome replicado do blogue que alimenta desde 2007: o Tralhas Grátis. Por aqui, entre posts de divulgação de descontos, encontram-se descrições de aventuras consumistas, onde se contam as quatro horas de atropelos e «selvajaria» vividas por corredores de supermercado.
«Saí de lá a suar e no dia seguinte estava cheiinha de dores musculares, por ter andado a carregar as coisas de um lado para o outro. Mas para mim foi a compra do século».
Eles são mais desconfiados, elas vão à caça das promoções
Com 184,08 euros no balanço dos descontos, num total de 210 produtos armazenados, a estudante só lamenta ter deixado escapar alguns produtos. «Perdi o horário de abertura porque o meu ‘babe’ não acreditava que aquilo era mesmo assim», conta, categórica em arriscar uma justificação para a fraca presença deles na caça às promoções. «São mais desconfiados e gostam de repetir que ninguém dá nada a ninguém».
Além de um declarado cepticismo masculino, Orquídea Pires lembra que ainda é sobre elas que recai a principal responsabilidade na gestão do orçamento familiar e, por isso mesmo, a iniciativa na poupança doméstica.
Está assim parcialmente explicada a dificuldade de encontrar testemunhos com testosterona desligados de ofertas de namoradas e amigas.
«É verdade. Somos sempre nós a tratar dos vouchers», revê a enfermeira Carolina Almeida, desde o ano passado fidelizada a um plano de promoções de escolha múltipla. «Não recorro sempre aos mesmos descontos. Estou inscrita em quatro sites – Groupon,LetsBonus, Planeo e Cardume – , por isso vou recebendo várias campanhas no meu email. Algumas chegam a oferecer reduções de 90%».
Carolina Almeida
No pacote de oportunidades já agarradas por Carolina incluem-se perfumes, massagens, tratamentos em spas, e escapadelas de fim-de-semana. A última, para Évora, negociou-se com mais de 50% de desconto e um reforço de comitiva. «Convenci um casal de amigos a ir também», conta, sem reservas nas recomendações da experiência.
«Só tive um problema mas resolveu-se facilmente», recorda a enfermeira de 28 anos, de volta ao contratempo de uma dormida. «O voucher falava num quarto com vista para o mar, acesso ao spa, solário e essas coisas todas, mas quando lá cheguei a vista dava para o estacionamento».
A disponibilidade de lotação, aliada à disponibilidade no atendimento, fizeram o resto: «Pediram imensas desculpas e pouco depois já estava noutro quarto».
Está assim descartada a ideia de que os clientes com vouchers e os consumidores com cupões são desconsiderados?
Carolina não hesita em responder que sim – «Muitas vezes se calhar até estão mais preocupados connosco para ver se voltamos sem desconto» – enquanto Sónia partilha as nuances de tratamento que já testemunhou.
«Não se passou directamente comigo mas ouvi alguns dos comentários que os funcionários faziam nesse sentido. Do género: ‘Eh, pá, já estou a ficar farto destas marcações. Isto está a ficar uma loucura e ainda por cima não pagam nada. Vamos é despachar’».
Apesar do flagrante de saturação, a gestora comercial garante que não se sentiu desencorajada com a experiência.
«Tudo depende do segmento a que estamos a recorrer. No caso da estética, as pessoas estão a aproveitar uma borla numa área que naturalmente já tem os seus clientes». Pelo contrário, Sónia observa que os segmentos que à partida atraem menos adeptos oferecem uma maior abertura, na expectativa de captar mais pessoas. «No voucher que usei para fazer um workshop de astrologia, por exemplo, fui super bem recebida. Inclusive quando liguei a chamada caiu e a pessoa que me atendeu e que era a mesma que ia dar a formação – teve o cuidado de retomar o contacto».
Conhecer bem antes de usar
O atendimento muda de postura à laia das compras de Catarina. «No Pingo Doce ainda vieram com a conversa de que não podia usar os cupões de desconto no dia dos 50%. Acho que uma coisa não tem nada a ver com a outra por isso pedi logo para chamar o chefe. No final, a ver se os vales não passaram»...
Na voz de Orquídea, a história transfere o cenário de Lisboa para o Porto e aplica-se a um enganador cupão de detergente para a máquina de lavar louça. «Trazia a imagem de um dos produtos da gama mas o texto dizia que era válido para qualquer um. Na caixa tive de esclarecer isso para me deixarem pagar com o desconto».
Moral da história: «Convém estar sempre muito bem informado sobre as vantagens de cada vale antes de o usar».
Deste domínio de ‘jogo’, depende a eficácia da poupança, nem sempre potenciada ao máximo.
«Há quem me diga que faço muitos sacrifícios para poupar cinco euros. Mas se pensar que consigo cinco euros aqui e cinco euros ali, no final do ano já se nota a diferença».
Em que medida? «A média está entre 800 e mil euros». Além do dinheiro amealhado através dos descontos – para custear o curso superior de Tradução e Assessoria sem recurso ao crédito – Orquídea junta outros ganhos.
Como bilhetes de cinema e de teatro, quase sempre a partir de passatempos, e electrodomésticos e outras utilidades domésticas.
«Fiquei com uma fritadeira que custa 200 euros e tive a oportunidade de comprar uma máquina de café por metade do preço, porque estou inscrita numa ‘comunidade passa a palavra’, em que, consoante o perfil pretendido pelas marcas, os participantes são escolhidos para experimentar alguns produtos».
A modalidade, disponível através de um registo online – por exemplo no site embaixadores – multiplica as possibilidades de consumos gratuitos, também favorecidas pelo aumento de moradas online para descarregar de cupões, facilmente pesquisáveis através do Google.
Vale a pena comprar?
Até que ponto vale ou não andar à procura?», questiona Pedro Quelhas Brito, atirando a resposta para uma avaliação do «custo de oportunidade face à gestão do tempo». Para este especialista em marketing, as próprias marcas buscam adaptar a mensagem aos diferentes segmentos de mercado. «Nos jovens usam-se os festivais de música, o envio de sms e a participação nas redes sociais com fãs da marca. Em profissionais mais ocupados, o email marketing, as aplicações nos smartphones, os cupões e as compras online são a via mais atractiva».
Familiarizada com todas as plataformas, Catarina Vilela não hesita na sua elevação: «Tudo à minha volta gira sobre descontos. Seja com cupões, vouchers ou cartões de cliente, viver das promoções é o meu business».
paula.cardoso@sol.pt