Com a Grécia ainda sem saber se recebe mais financiamento e sem dinheiro para pagar pensões, dívida ou mesmo salários públicos a partir de Outubro, a sustentabilidade das finanças públicas do país volta a estar em causa.
As opções que Atenas tem para sair desta rua que cada vez mais se arrisca a ser um beco sem saída incluem a reestruturação – que pode assumir várias formas – ou mesmo a saída grega (ou dos países mais ricos) da zona euro, que todos, incluindo Durão Barroso, o presidente da Comissão Europeia, garantem que não acontecerá.
Incumprimento ordenado
A reestruturação ordenada da dívida, ou incumprimento ordenado é uma opção que a Alemanha, a Áustria e a Holanda já admitiram abertamente e que permitiria manter a Grécia na zona euro. Acontece quando um país admite que não pode reembolsar a dívida, em parte ou na totalidade. Considera-se uma reestruturação ordenada porque se segue a uma negociação com os credores, que já sabem quanto – e quando - vão receber.
Diferentes analistas consideram que a Grécia já está próxima desta situação, uma vez que, com o segundo plano de resgate para o país, de 21 de Julho, o sector privado – nomeadamente bancos, companhias de seguros e fundos de pensões – já aceitaram perder parte do valor em 21 por cento da dívida grega que têm no balanço, com algumas instituições, como o BNP Paribas, a admitir já aceitar maiores perdas.
O plano de 21 de Julho prevê também a recompra de dívida grega no mercado secundário, no valor de 12,6 mil milhões de euros, o que acaba por ser uma forma de prolongar as maturidades da dívida existente, no que diversos analistas já disseram ser novas «obrigações Brady».
Obrigações Brady
Uma solução que os bancos dos Estados Unidos adoptaram na década de 1980 quando se viram a braços com grandes dívidas de países da América Latina, cujas perdas tinham de pôr nos balanços. Por ideia e proposta de Nicholas Brady, então secretário de Estado do Tesouro dos Estados Unidos, a dívida destes países da América Latina acabou por ser reestruturada através das «obrigações Brady».
Os bancos trocaram as obrigações dos países insolventes por obrigações de maturidade mais longa e de juros mais baixos, garantidos por títulos de tesouro dos Estados Unidos, permitindo assim aos bancos não terem de reduzir o valor dos activos no seu balanço, enquanto os países em dificuldades ganharam tempo para reestruturar a economia.
Diversos analistas defendem que, em vez de continuar a emprestar à Grécia, as obrigações do Fundo Europeu de Estabilização Financeira poderiam servir de colateral para novas obrigações gregas, de maturidades mais longas ou juros mais baixos.
Reestruturação desordenada
Neste caso não teriam lugar negociações prévias com os credores. A Grécia, sem conseguir fazer frente à dívida e sem conseguir impor politicamente – e aos manifestantes na rua – as medidas de austeridade e sem conseguir reduzir o défice, diz aos credores que lamenta, mas não pode pagar. É a bancarrota, o cenário dos priores pesadelos para os líderes da zona euro, da Europa e do mundo, pelo contágio que poderia ter a outras economias, mesmo às emergentes, como o Brasil, a China ou a Rússia.
A possibilidade da bancarrota grega contagiar as grandes – mas frágeis - economias da zona euro é também muito elevada. Os observadores apostam que, neste caso a Grécia seria pressionada para abandonar o euro, ou seria expulsa. Os tratados europeus tornam ilegal a expulsão ou a saída da moeda única, mas não têm mecanismos para o evitar.
Saída voluntária do euro
Se a Grécia saísse do euro, poderia voltar à antiga moeda, o dracma, que seria muito desvalorizado face ao euro, arrastando para a ruína os bancos gregos, que detêm grande parte da dívida do país. A banca seria nacionalizada. Ao Estado grego, depois de ter ido à bancarrota, seria muito difícil encontrar financiamento, aumentando o custo do financiamento
Um dracma mais baixo beneficiaria as exportações gregas, e o turismo, mas a dívida do Estado, das empresas e das famílias, contraída em euros, custaria muito mais a pagar, num fenómeno semelhante ao que aconteceu na Tailândia na crise asiática da década de 1990. Para o banco central, a tentação seria fazer a economia pegar de empurrão imprimindo moeda e provocando um fenómeno de hiperinflação.
A poupança real grega, convertida também em euros, perderia grande parte do valor, aumentando a pobreza e o desemprego,
Willem Buiter, analista do banco Citigroup, chama a este cenário um «desastre económico e financeiro». Se, numa primeira fase poderia fazer o euro valorizar porque acabaria com a incerteza face à Grécia, não há certezas onde e quando terminariam a cair as peças de um dominó, depois da peça grega ir ao chão. Os bancos europeus apanhariam a «doença grega», devido à exposição ao país e precisariam de ser recapitalisados de urgência.
Lusa/SOL