É no limite da Europa à beira mar plantado que, do outro lado do Atlântico, se acredita estar o melhor exemplo de como se deve ‘obedecer’ às instruções para lutar contra a crise do euro. Os esforços a que a austeridade tem obrigado os portugueses, apesar de bem vistos, poderão não evitar um futuro mais optimista para Portugal.
Em suma, é esta a visão transmitida por um artigo publicado na madrugada desta quarta-feira pela edição online do New York Times. O texto explicar o caso português no meio do puzzle da crise financeira da zona euro, comparando-o principalmente à Grécia para não só tecer elogios, como igualmente para desenhar negras perspectivas para o nosso país.
A começar pelas diferenças. Ao contrário da nação grega, Portugal tem feito tudo o que lhe foi pedido quando, em Maio de 2011, a ‘troika’ – FMI, UE e BCE -, concordou em ceder um pacote de ajuda de 78 mil milhões de euros para o país recuperar uma dívida que, na altura, registava um défice de 107% em relação ao PIB.
Quase nove meses volvidos, o défice rondará agora os 118%. E para o diário norte-americano, a explicação não demora a ser resumida: de facto, a dívida portuguesa, em si, não aumentou, foi a economia que encolheu. Todas as reformas, cortes e ajustes, que foram apertando o cinto da austeridade, têm impedido que a dívida portuguesa aumenta, mas também que a nossa economia cresça.
O problema não é a dívida, mas a economia
Ao falar esta manhã na SIC, o jornalista Martim Cabral recorreu a um simples exemplo de crédito para explicar a situação descrita pelo NYT. Por alto, seria como se um qualquer cidadão português estivesse pagar a sua prestação mensal após um empréstimo do banco e, de repente, o seu salário fosse reduzido: as mensalidades (dívida) não aumentava, mas a sua capacidade financeira (economia) ia diminuindo.
De facto, as medidas adoptadas pelo Executivo de Passos Coelho e impulsionadas por Vítor Gaspar, ministro das Finanças e principal figura destacada no artigo, têm preservado a boa imagem portuguesa aos olhos da ‘troika’, ao contrário da Grécia, que tem sido alvo de exigências sucessivas, quase em forma de ultimato.
Ainda este fim-de-semana, a ‘troika’ exigiu que o governo de Lucas Papademos encontrasse maneira de poupar – leia-se, cortar -, mais 325 milhões de euros além dos cortes previstos no acordo para implementar novas medidas de austeridade no país, também exigido pelos responsáveis pela ajuda externa à Grécia. Esta semana, a ‘troika’ juntou a este outro pedido: uma garantia formal de todos os partidos gregos para que respeitem o acordo após as eleições legislativas marcadas para Abril.
Entre os condicionalismos que fazem divergir as dívidas portuguesa e grega, destaque para a principal diferença, no que a termo estritamente económicos diz respeito. Em Portugal, grande parte do valor da dívida é detido pelo sector privado, principalmente pelos bancos, que nos últimos 10 anos consumiram e gastaram mais do que lucraram. Na Grécia, porém, a dívida é detida pelo Governo, que financiou a maior parte do excessivo consumo dos últimos anos.
Apesar das boas perspectivas e elogios que Portugal vai recolhendo dos líderes europeus, David Bencek, um economista citado pelo diário sediado em Nova Iorque, defendeu que «a dívida [portuguesa] simplesmente não é sustentável» pois, e de volta a problema acima mencionado, «a economia real não tem estrutura para crescer no futuro e, portanto, não conseguirá pagar de volta a sua dívida a longo prazo».
Mesmo sem críticas, as previsões apontam para que a economia portuguesa não consiga crescer o suficiente para, no futuro, conseguir pagar a sua dívida. Mas, por enquanto, Portugal tem-se mantido afastado da turbulência e tensão que cada vez mais imperam na Grécia, que ainda é o centro das atenções da crise financeira europeia.
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