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Crise espanhola sem fim à vista

5 de Maio, 2012por Nuno Escobar de Lima
Ao fim de quatro meses de Governo, Mariano Rajoy já paga a factura de uma ‘agenda reformista sem precedentes’ que teima em não dar resultados. E nem as ex-colónias o ajudam.

No último domingo, Mariano Rajoy admitia que o seu Governo apostara numa «agenda reformista sem precedentes na democracia» espanhola e explicava a razão: «Espanha não necessita de maquilhagem, precisa de mudanças estruturais profundas».

O primeiro-ministro espanhol mostrava também saber que há quem «não entenda as decisões» do seu Executivo, mas garantiu estar «absolutamente consciente» do que está a ser feito. Rajoy voltou a lembrar que o país se «comprometeu com a Europa» a não ultrapassar os 6% de défice, valor que Zapatero «deixou nos 8,5%». O seu Governo, reforçou, foi obrigado a «reduzir o défice em 18 mil milhões de euros mais do que o previsto».

O tom justificativo de um primeiro-ministro empossado há apenas quatro meses explica-se pela multiplicação de protestos contra as sucessivas reformas anunciadas e também por dados económicos que teimam em esconder a recuperação prometida.

De regresso à recessão

No primeiro trimestre do ano, 365.900 pessoas perderam o emprego, colocando a percentagem de desempregados nos 24,44% – número inédito na democracia espanhola. Para tal contribuiu o terceiro trimestre consecutivo de contracção económica, que oficializou a segunda recessão espanhola desde 2009.

O número de postos de trabalho destruídos é 14,8% superior ao registado no mesmo trimestre do ano anterior e não falta quem aponte as reformas de Rajoy como principal causa. «A primeira consequência da reforma laboral são os 400 mil espanhóis que perderam o emprego», considerou Alfredo Pérez Rubalcaba, líder da oposição socialista.

Referindo-se ao novo método de cálculo das indemnizações por despedimento – de 45 dias por ano para 33, podendo ser apenas 20 se a empresa registar prejuízo em três trimestres consecutivos –, o número dois de Zapatero no Governo anterior diz que, «quando se abarata os despedimentos durante uma recessão, eles aumentam e com menos direitos».

Reformas contestadas

Mas se a lei laboral motivou a primeira greve geral do Governo de Rajoy, a 29 de Março, as reformas posteriormente anunciadas têm recebido a mesma aprovação. Foi o que aconteceu quando se soube que dos 18 mil milhões extra a retirar do Orçamento, 10 mil milhões sairão das verbas previstas para a Educação e Saúde.

Na primeira, entre outras medidas, irá aumentar o número de alunos por turma, o número de horas de aulas por semana para cada professor e o tecto máximo das propinas universitárias. Na segunda, aumentam as taxas de assistência hospitalar, diminuem as comparticipações estatais na compra de medicamentos e retira-se a assistência básica gratuita aos imigrantes ilegais.

Não foi, portanto, de admirar que na terça-feira, quando mais de um milhão de pessoas saíram à rua em toda a Espanha para celebrar o Dia do Trabalhador, os cartazes erguidos fossem dirigidos às reformas do Governo do Partido Popular: «Ensino público de qualidade» e «cortar na saúde é crime» eram as mensagens.

E aos protestos nacionais juntam-se as manifestações locais, tanto contra medidas dos Governos autónomos como contra decisões de Rajoy com um impacto mais localizado. É o caso da cobrança de portagens nas auto-estradas (equivalentes às SCUT portuguesas) nas regiões de Valência e Catalunha, onde 25 mil pessoas recusaram pagar a nova tarifa. Uma medida que o Governo quer alargar até ao final do ano – apenas para automóveis ligeiros – aos mais de 12 mil quilómetros de auto-estrada não paga em todo o país.

Tudo contra Rajoy

A ideia promete agravar a relação de Rajoy com o eleitorado, que já começa a dar sinais de desgaste: o PP teria hoje menos 6% dos votos alcançados em Novembro e 70% dos inquiridos num estudo da Metroscopia dizem ter «pouca ou nenhuma» confiança no actual Executivo.

E se em Espanha o ambiente não lhe é favorável, de nada vale a Rajoy virar-se para fora: esta semana, o boliviano Evo Morales decidiu nacionalizar a eléctrica do país, que pertencia em parte à rede eléctrica espanhola. Mais um golpe de uma ex-colónia, depois de a Argentina ter feito o mesmo com a petrolífera YPF.

Foi mais um factor que contribuiu para os recordes negativos registados na quarta-feira na bolsa de Madrid, embora a principal causa esteja em mais uma revisão em baixa do rating dos principais bancos espanhóis, que viram a sua cotação cair a uma média de 4%.

Também o mercado da dívida mostra dúvidas quanto à ambiciosa austeridade espanhola: os títulos a 10 anos estão outra vez a rondar os 6% de juros. Mariano Rajoy acredita, porém, que está a plantar «as bases para o futuro». Vai «levar o seu tempo» mas «melhores dias virão», garante o «último moicano da austeridade», como lhe chama Rubalcaba.

nuno.e.lima@sol.pt




7 Comentários
MPortugal
06.05.2012 - 20:57
rAJOY NÃO APRENDEU NADA COM pORTUGAL E A gRÉCIA!
quijote
06.05.2012 - 16:54
Não tarda a Espanha terá também a França como companheira de infortúnio.
Banze
05.05.2012 - 22:41
Só existe uma solução para a crise económica : Coloquem dinheiro na economia. Sem dinheiro não há cpnsumo, e sem consumo não há crescimento, e sem crescimento não há receita, e sem receita nãpo há investimento. Acabem com o euro e voltem às moedas antigas.
Leonidas73
05.05.2012 - 22:35
Não deixa de ser bonito a AL levantar-se contra o "Império Espanhol"... Justiça Poética?
1atica
05.05.2012 - 22:18
pois é e tarda a que estes neo-liberais entendam de uma vez por todas que a austeridade só por si nao leva a lado nenhum.tristemente vamos chegar á inevitavel desvalorisaçao do euro,que de facto nunca deveria ter sido este valor.---erro de cálculo dos politicos europeus é um facto!agora é tarde e quem paga sao os povos,mas isso nao importa para os neo-liberais pois os paises para eles nao sao as pessoas (se nao sao nao perçebo)sao apenas os montes as serras as casas os rios o mar (se houver) tudo menos as pessoas essas só contam quando há que pedir votos dizendo que o importante sao as pessoas e esta me desculpem mas vai directa para o psd tenham uma boa noite
Arthur
05.05.2012 - 22:10
Eles bem não querem, mas vão seguir as nossas pisadas. Pior que tudo vai ser a Grécia. Se a Europa estivesse mais unida, o dólar não fazia pouco do euro.
TerraQueimada
05.05.2012 - 20:51
E assim Portugal e "empurrado" para baixo pela economia Espanhola, pois é o nosso principal país importador e dai podem tirar as vossas próprias conclusões...


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