Vinte anos depois, o Rio de Janeiro recebe outra vez líderes de todo o mundo para discutir ambiente, economia, emprego e sustentabilidade. Mas o cepticismo domina.
Foi com um grupo de pessoas, anónimos de todas as idades, crenças, tamanhos e feitios, a reunir um conjunto de objectos sem uso e recicláveis (garrafas de plástico, latas e outros artefactos) e os depositar junto a um stand do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, que ontem foi dado o tiro de partida simbólico da cimeira mundial Rio+20.
O acto voluntarioso dos cidadãos cariocas responde, até ao último dia da conferência (dia 22), ao apelo do artista plástico Vik Muniz, que quer recriar a Baía da Guanabara com estes materiais, no espírito de uma das suas peças emblemáticas, Lixo Extraordinário, para a cimeira, na qual se discutirá também questões ambientais.
Mas, sob a batuta da ONU, na mesa das negociações – entre os dias 20 e 22, embora o programa se estenda em inúmeras programações paralelas – representantes de vários países, ONG e grupos de pressão dos mais variados vão tentar ir além do simbolismo e aprovar um documento que defina as relações internacionais, a economia, o emprego, o clima, a alimentação, a água, os oceanos, entre muitos outros itens.
Mas a Rio+20 já nasce sob o clima do cepticismo: «O documento actual é demasiado longo e recebe pouco consenso», diz, do Rio de Janeiro, Francisco Ferreira, da Quercus. De um lado, EUA, Canadá e Japão revêem-se em alguns dos parágrafos do texto, enquanto do outro está o chamado G77, países em desenvolvimento e China – e constitui a outra ‘facção’ de peso. A UE situa-se a meio, e o que está em causa é o que tem separado os países quanto a taxas de emissões de carbono permitidas anualmente, ou a política energética, só para citar dois exemplos.
Agência na agenda
Outro ponto de discórdia entre estes blocos de países é a eventual criação de uma Agência das Nações Unidas para o Ambiente, e uma série de objectivos definidos em 2000, os chamados Objectivos do Milénio – até 2015, conseguir erradicar a pobreza e garantir a sustentabilidade em todo o mundo –, além de outras questões de grande compromisso e discórdia na mesma proporção. Com a Europa em crise e à espreita, as apostas definidas antes de 2008 começam a cair no esquecimento. «A crise deveria precisamente conduzir a Europa a investir mais nas energias renováveis», continua Francisco Ferreira. «Sabe-se que esse caminho é inevitável, não apenas para evitar as consequências, mas acima de tudo porque os custos dos combustíveis não vão parar de aumentar nas próximas décadas».
Até lá esperam-se algumas conquistas desta cimeira, que celebra, precisamente, no seu título, os 20 anos passados sobre a primeira iniciativa deste género, que transformou urbanisticamente o Rio de Janeiro em 1992 e de onde saíram as primeiras metas para o desenvolvimento sustentável no planeta.
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