A Grécia e a Europa preparam-se para o rescaldo das eleições de domingo equacionando três cenários: a formação de uma coligação de partidos pró-troika; uma vitória da Syriza que abra as portas à saída do euro; e um novo impasse criado pela falta de uma coligação maioritária.
Mas nenhum dos cenários parece corresponder às ambições de Bruxelas: ver as «autoridades gregas» respeitar «os compromissos estabelecidos», segundo o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Isto porque, perante a votação de Abril que deu 68% aos partidos anti-troika, agora até os partidos que assinaram os memorandos fazem campanha a apelar à renegociação: «Prometo não criar mais impostos e não fazer mais cortes horizontais», garante Antonis Samaras, o líder da Nova Democracia (ND), que é apontado por algumas sondagens como vencedor da votação de domingo.
Outras indicam que a coligação de esquerda, Syriza, pode culminar a sua histórica ascensão com um primeiro lugar. Alexis Tsipras, o seu líder, mantém o discurso da primeira votação – apodado de radical – e apresentou um programa que prevê a revogação da redução do ordenado mínimo, a extensão do subsídio de desemprego para dois anos e uma despesa pública entre os 43% e os 46% do PIB, ao contrário dos 36% acordados com a troika.
Mas Tsipras garante que as suas políticas não têm como objectivo a saída do país da moeda única: «Não queremos sair do euro e isso nem é uma opção», afirma, defendendo que a «continuação de políticas de austeridade, especialmente em doses elevadas, é que levará a Grécia a sair do euro».
Kouvelis pode ser chave
Tsipras e Samaras representam duas ambições manifestadas pelo eleitorado que, para Bruxelas, não são conciliáveis: a renúncia à austeridade e a manutenção no euro. Entre eles está um homem que poderá ser a chave das negociações pós-eleitorais: Fotis Kouvelis, o líder da Esquerda Democrata – que em 2010 se separou da Syriza. Ao mesmo tempo que puxa a direita para a renegociação dos acordos de resgate, Kouvelis exige à esquerda moderação, rejeitando a anulação dos acordos proposta por Tsipras.
Seja qual for o vencedor, é quase certo que terá de satisfazer as pretensões de Kouvelis para formar um governo maioritário, pois as sondagens afastam o cenário de uma maioria de partido único, mesmo com a regra que dá ao vencedor 50 deputados extra num Parlamento com 300 representantes. E tanto Kouvelis como Venizelos, o candidato do PASOK, apelaram esta semana à formação de uma coligação de esquerda que ponha um fim ao vazio de poder e inicie uma «renegociação credível» que passe essencialmente pelo alargamento dos prazos de pagamento até 2017. «O povo grego não aguentará mais austeridade, a renegociação é realista», afirmou Kouvelis, que após as eleições de Abril rejeitava qualquer hipótese de coligação com os partidos pró-troika, ND e PASOK.
UE prepara o pior cenário
Sem abrir para já a porta para uma renegociação, Bruxelas prepara-se para todas as hipóteses, incluindo a saída imediata da zona euro por parte dos gregos. A Reuters noticiava na segunda-feira que um grupo de especialistas financeiros tem um plano para o pior dos cenários: limitar o levantamento de dinheiro no multibanco, suspender o espaço Schengen e limitar as transferências de dinheiro são as primeiras medidas de um plano, não assumido oficialmente, que pretenderá estancar ao máximo as consequências de uma saída que, ao agravar a situação de países como Portugal, Espanha, Irlanda e Itália poderá mesmo deixar em risco a moeda única.
Mas sem uma posição oficial, os jogos de bastidores vão sendo conhecidos por declarações menos cuidadas, como a do ministro das Finanças britânico. «Não sei se o Governo alemão precisa de uma saída da Grécia para explicar ao eleitorado por que razão tem de aceitar medidas como a união bancária, as eurobonds e outras», afirmou George Osborne, já depois do homólogo alemão, Wolfgang Schauble, ter dito que «se a Grécia decidir sair do euro» a Europa «não pode obrigá-la a ficar».
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