O director do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), Achim Steiner, foi hoje vaiado durante a sua intervenção na Cimeira dos Povos, quando discutia com a sociedade civil o conceito de economia verde.
O responsável participou numa mesa redonda com outros dez oradores que representavam entidades civis brasileiras, norte-americanas e latino-americanas.
Logo no início da conversa, Steiner foi confrontado pelo conceito de economia verde utilizado no relatório do Pnuma, no qual se menciona a necessidade de «valorizar» os recursos naturais como água, solo e florestas.
«Acreditamos que valorizar os bens naturais, que são bens comuns, para convencer as empresas de que eles são valiosos, e por isso devem ser preservados, só ajudará a prosperar o modelo capitalista», afirmou Larissa Packer, representante da Carta de Belém, que integra mais de 30 movimentos sociais do Brasil.
A activista argumentou que esse tipo de solução levará a uma forte especulação financeira, na qual os títulos atrelados a valores naturais tornar-se-ão mais atractivos na medida em que se desfloresta mais.
«A escassez de florestas irá elevar os activos ambientais negociados. Então, o mesmo fazendeiro que planta soja no Brasil, na medida em que desfloresta para plantar mais soja, eleva o valor de seu activo ambiental, correspondente à parte da mata nativa que mantém em pé», observou.
Durante o seu período de resposta, Steiner tentou aproximar o conceito de economia verde que está a ser discutido pelos governos, no Riocentro, àquele que as entidades civis estão a procurar definir, num evento paralelo, alegando que sua definição ainda está em construção.
«O modelo de economia que adoptamos hoje não é o modelo para o futuro, e isso não sou só eu que estou a dizer», afirmou o director, ao indicar que a intenção não é tornar os bens naturais em activos comercializáveis no mercado financeiro.
«O que estamos a dizer é que devemos também valorizar esses recursos em termos económicos», tentou explicar Steiner, único membro da ONU que se deslocou ao evento da sociedade civil até ao momento.
Inicialmente aplaudido, o responsável foi ainda interpelado pelo embaixador aposentado da Bolívia Pablo Solón que o acusou de estar a dissimular o pensamento que realmente defende enquanto director do Pnuma.
«Se a economia verde não tem nada a ver com o capitalismo, o que está a fazer o REDD?», provocou o ex-embaixador, em referência ao Programa de Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação Ambiental, que deu origem ao mercado de carbono.
Steiner argumentou que a solução não será encontrada numa divisão entre capitalismo e anti-capitalismo e defendeu todas as alternativas verdes que estão a surgir nos últimos tempos, ainda que nascidas em economias liberais com baixo controlo estatal.
«Não vamos voltar ao tempo em que toda a tecnologia que surgia era uma ameaça», completou.
Steiner ainda criticou o facto de as entidades civis criarem um evento paralelo à Rio+20 e não estarem a participar directamente no evento, o que, constatou, dificulta a integração de todas as visões no processo negociador.
Quando concluiu o seu discurso, Steiner foi vaiado por parte da plateia, mas não deixou de agradecer a oportunidade de participar na Cimeira e de cumprimentar os presentes.
A Cimeira dos Povos tem lugar no Aterro do Flamengo, a mais de uma hora de distância do Riocentro, onde está a realizar-se a Conferência da ONU sobre o Desenvolvimento Sustentável Rio+20.
Lusa/SOL