A greve de quinta-feira passada não era uma greve como as outras.
Não era uma greve contra os patrões, para reivindicar aumentos de ordenado.
Nem era bem uma greve contra o Governo, que está encostadoà parede com as metas da troika.
Nem era, obviamente, uma greve contra a troika, que não era afectada pela greve e da qual depende a vinda de dinheiros para pagar ordenados.
Contra quem era, então?
Não era contra ninguém em concreto: foi um grito de revolta que fez lembrar as investidas de D. Quixote contra os moinhos de vento.
A DIFICÍLIMA situação do país tem que ver com duas coisas:
1) Um défice crónico do Estado e um endividamento crescente das famílias, que algum dia tinham de dar problemas;
2) A decadência do Ocidente, que todos os dias perde capacidade para competir com os chamados países emergentes.
Ora as greves não podem contribuir para resolver nem uma coisa nem outra.
O endividamento excessivo exige que o Estado, por um lado, e as famílias, por outro, gastem menos.
E para as pessoas gastarem menos têm de ter menos dinheiro.
A isto chama-se austeridade.
E todos aqueles que a contestam, argumentando que há outros caminhos e que as medidas podiam ser mais brandas, não passam de vendedores de ilusões.
Não adianta suavizar as medidas: quanto mais depressa se atacar o mal, melhor.
QUANTO à decadência do Ocidente, ela é inelutável.
Todas as civilizações têm uma fase de ascensão, de apogeu e de declínio.
Ora o Ocidente está já na fase de declínio.
Com o avanço da globalização, as grandes fábricas começaram a transferir-se em ritmo acelerado de Ocidente para Oriente, onde encontram melhores condições.
Estando os países emergentes noutro estádio de desenvolvimento, os trabalhadores têm aí menos regalias, ganham menos e trabalham mais horas – tornando os custos de produção muito mais baixos.
E, como consequência disso, as grandes marcas preferem produzir lá – podendo depois colocar os produtos nos mercados ocidentais a preços imbatíveis.
ISTO É um ciclo infernal: as fábricas fogem para o Oriente, os produtos vindos de lá invadem o Ocidente a preços módicos, o Ocidente perde emprego, perde encomendas e perde receitas, o Oriente cresce.
Como combater este fenómeno?
Só pondo uma muralha à volta da Europa e dos Estados Unidos, e fechando o mercado ocidental aos produtos vindos do China ou da Coreia do Sul.
Mas, mesmo que isso fosse possível, não seria praticável – porque o Ocidente precisa do Oriente para exportar os produtos que ainda são feitos na Europa e nos EUA.
Não há solução, portanto.
O Ocidente vai continuar a empobrecer – enquanto a China, a Índia, o Brasil, mesmo a África vão sain-do lentamente da miséria.
Nenhuma lei pode parar este movimento.
POR ISSO eu disse que a greve geral foi uma luta quixotesca.
D. Quixote investia, impotente, contra os moinhos de vento, vendo aí perigosos guerreiros inimigos.
As centrais sindicais lutam, impotentes, contra as consequências da globalização.
São combates desiguais, condenados ao fracasso.
D. Quixote, já velho e arruinado, representava a caduca fidalguia que o progresso simbolizado pelos moinhos de vento veio matar.
As centrais sindicais representam as caducas formas de luta do tempo da revolução industrial, que estão igualmente condenadas.
Porque os culpados pelo empobrecimento dos trabalhadores já não são os patrões, já não são os governos – é um fenómeno difuso que dá pelo nome de globalização.
Um fenómeno que certamente não se combate com manifestações e greves – como os moinhos de vento não podiam vencer-se com a lança de D. Quixote.