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A tragédia de Robert

9 de Janeiro, 2012por Luís Filipe Borges
Pergunto ao leitor há quanto tempo um filme, um livro ou um álbum não lhe estremecem as emoções como uma granada?

Dependerá, presumo, da geração a uqe pertence. O escriba tem a sensação de que a esmagadora maioria dessas obras destinadas a enformar os nossos tops simbólicos de predilecções reúne-se, sobretudo, naqueles anos decisivos da maturação, do crescimento e formação da personalidade. Daí resulta que, passando – no máximo – os 25 anos de idade, vá, fica cada vez mais difícil uma determinada peça artística penetrar a muralha entretanto levantada. É natural: o cimento do cinismo é forte. Já não é qualquer coisa que nos surpreende ou enche as medidas. Às vezes torna-se mesmo recomendável não rever as obras marcantes, às quais nos habituámos a tratar como ‘o meu filme favorito’ ou ‘um dos melhores álbuns de sempre’, pois corremos o risco do nosso Eu actual resolver humilhar o Eu anterior, bem mais ingénuo, susceptível, puro.

Serve esta introdução para deixar veemente o espanto sentido com o último livro que li, capaz dessa lança em África: trepar o top invisível dos favoritos aos 34 anos do seu leitor. A Life Too Short – The Tragedy of Robert Enke, da autoria do alemão Ronald Reng, começou por apanhar-me da forma mais inusitada: era rigorosamente o único livro naquele quiosque de Covent Garden aparentemente destinado à venda de bijuteria (colares, brincos, pulseiras, etc). Pensei até que fosse a leitura actual deste comerciante londrino em particular até reparar que a edição inglesa de capa dura, devidamente assinalando a obra como vencedora do Prémio William Hill (Sports Book of the Year), também incluía um pequenino autocolante com indicação manuscrita do preço – 5 meras libras. Uma pechincha.

Ronald Reng é um jovem jornalista alemão, autor previamente premiado, que se tornou amigo de Enke após ser um dos raríssimos conterrâneos que resolveu reportar sobre a passagem do guarda-redes por Portugal, ao longo de três épocas ao serviço do Benfica. Munido de extensas entrevistas com agentes, treinadores, colegas, amigos e até vizinhos e senhorios do amigo Robert, sem contar com o inestimável contributo da mulher, Teresa, Reng consegue em cerca de 400 páginas um equilíbrio notável entre a luz e as trevas. Como escreveu o Guardian: «An intensely moving book that transcends football». Graças à amizade que os unia e ao apoio da família do malogrado guarda-redes, Reng utiliza mesmo excertos do diário de Robert Enke, para quem a ideia de contar um dia a sua história parecia significar muito.

Enke suicidou-se em Novembro de 2009, aos 32 anos, durante a sua segunda depressão, após azares relativos – como ter apanhado grandes clubes longe do seu auge (o Benfica de Vale e Azevedo, o Barcelona de Van Gaal) –, tragédias maciças – a morte da filha biológica aos dois anos, gravemente enferma desde o nascimento – e quando – após algumas épocas brilhantes ao serviço do modesto Hannover, da Bundesliga – estava prestes a ser o n.º 1 da Alemanha, auto-intitulada pátria dos guarda-redes, no Campeonato Mundial da África do Sul.

Num parêntesis nada despiciendo, lamento que os jornais desportivos nacionais se encontrem aparentemente à espera da edição portuguesa – é que há um par de ‘furos’ à espreita neste livro: como a revelação de que Carlos Bossio, guardião argentino profundamente infeliz, terá sido contratado pelo SLB para acautelar o desejo repentino de Robert não cumprir o acordo assinado com o clube da Luz durante uma sua primeira tormenta (achou-se subitamente demasiado jovem para mudar de país e perdido numa terra estranha). Essa angústia demorou um Verão inteiro até Jupp Heynckes, Jorg Neblung e Teresa Enke, respectivamente treinador, agente e esposa, o persuadirem do contrário. Ou, mais interessante ainda, o minuciosamente descrito assédio de Pinto da Costa ao guardião encarnado, aqui resumido em três penadas: a) um intermediário do FCP apresenta ao agente de Enke uma proposta de 10 milhões de euros (!) livres de impostos por um contrato de três épocas; b) seduzido pelos valores astronómicos, o seu agente leva Robert a uma casa de Cascais onde são recebidos pelo presidente portista que, acompanhado pelo referido intermediário, desmente categoricamente essa oferta mas avança uma proposta ainda assim muito superior ao que o alemão recebia no Benfica; c) Enke termina abruptamente a reunião e diz ao agente que nunca poderia assinar pelo FCP pois ‘é benfiquista’. Assim se demonstrando que a aparente tradição portista de assediar futebolistas encarnados vem de (bem) longe.

Nesta espantosa biografia, tão dura quanto comovente, emocionam a fragilidade e o carácter deste homem muito distante do futebolista-tipo, a bravura estóica, compaixão resiliente e amor da sua mulher, a apreensão plena da depressão como uma doença atroz, espécie de ‘cão negro’ insinuante que morde por dentro todos os desejos e escolhas até a decisão de morrer se tornar não um fim mas uma saída, e muito mais ao qual não consigo fazer jus.

O livro termina com uma memória de Robert e Teresa, na sua casa de Sintra, à qual voltavam sempre que possível, pouquíssimos meses antes da segunda depressão. Robert, como habitual, gaba a vista do Palácio da Pena e a mulher ralha-lhe com doçura por nunca lá terem ido. É nesse mesmo palácio, com o PC sobre os joelhos, que termino a crónica. O meu antigo Eu exulta com a homenagem inútil a um anjo caído.

lfb_77@hotmail.com




1 Comentário
DisMissed
14.01.2012 - 09:28
Tera sido o fim do sofrimento
Mas certamente nao tera sido uma homenagem inutil


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