A tão comentada questão da mudança da sede da sociedade da família Soares dos Santos para a Holanda ainda merece uma crónica.
Alexandre Soares dos Santos tomou a decisão de fazer o que considerou melhor para si, para os accionistas que representa e para o conjunto do grupo que lidera.
Fê-lo no respeito pela lei – e motivado por razões fiscais, bancárias e outras relacionadas com a fragilidade da economia portuguesa.
Se não o fizesse, poderia ser acusado pelos outros accionistas de defender mal os interesses do seu grupo – e ficaria em desvantagem relativamente à concorrência.
O capital não tem pátria – e escolhe o que é mais vantajoso em função dos objectivos que define.
Às vezes é frio, cruel e implacável – mas é realista.
Não escuta argumentos lamechas.
Corta a direito.
É essa a sua força e a sua fraqueza.
O EXEMPLO mais eloquente dessa ‘inexistência de pátria’ do capital são as deslocalizações.
As empresas deixam o seu país de origem para irem instalar as suas fábricas ou os seus serviços a muitos milhares de quilómetros de distância onde os salários são mais baixos, as leis laborais mais flexíveis ou os impostos mais favoráveis.
O objectivo é sempre o mesmo: reunir um conjunto de factores que permita produzir o mesmo produto ou serviço ao menor preço.
A SEGUINTE história, passada comigo, ilustra bem esta realidade.
Aterrámos em Las Vegas, esperámos pela bagagem, mas verificámos que uma mala não chegara. Disseram-nos então que a levariam dentro de uma hora ao hotel. Mas o tempo passou e nada de mala. Telefonámos então para o serviço de informações do aeroporto, contámos o sucedido – e a funcionária perguntou em que hotel estávamos.
– Olhe, estamos num hotel mesmo ao pé do aeroporto. A senhora, se calhar, vê-nos daí.
– Não, não vejo – respondeu ela – É que eu estou na Índia…
MAS, exactamente porque o capital não tem pátria, não é possível ser, ao mesmo tempo, ‘capitalista’ e ‘patriota’.
O capitalismo e o nacionalismo são hoje, na era da globalização, incompatíveis.
O nacionalismo apela a valores que o capitalismo não respeita.
E aqui é que reside o problema de Alexandre Soares dos Santos: ele pretende fazer a quadratura do círculo e ser simultaneamente ‘patriota’ e ‘capitalista’.
Ele vai à televisão e fala do amor à pátria, ataca os políticos, critica o Presidente da República, tudo em nome do interesse de Portugal – mas, na hora da verdade, põe os interesses do seu grupo acima dos interesses do país.
Essa é a questão.
COM ESTA deslocalização para a Holanda, Soares dos Santos colocou-se exactamente na posição de Frei Tomás: «Faz o que ele diz, não faças o que ele faz».
O líder da Jerónimo Martins, pela sua exposição pública e pelas posições frontais que assume, é visto por muitos portugueses como um exemplo.
Ora, imaginemos que esses lhe seguiam as pisadas e, para acautelarem os seus interesses financeiros, começavam a transferir maciçamente as suas poupanças depositadas em bancos portugueses para bancos estrangeiros, faziam depósitos directamente lá fora, abriam contas em moeda estrangeira, etc.
Se isto acontecesse, seria a bancarrota.
Portanto, é bom que todos nós – incluindo os nossos governantes – escutemos os ensinamentos de Soares dos Santos, mas não façamos o que ele faz.
Continuemos a pagar a totalidade dos impostos em Portugal e a fazer os depósitos em euros nos nossos bancos.
Eu, pelo menos, faço isso.
De contrário, aconteceria uma catástrofe que nos arrastaria a todos.
P.S. – Num supermercado Pingo Doce entregaram-me um papelinho de esclarecimento sobre a questão «da Holanda», conforme o funcionário explicou. Li-o com curiosidade. Lá se diz que a sede social e a residência fiscal do Pingo Doce continuam em Portugal, que não houve qualquer alteração no pagamento dos impostos em Portugal, e que a Jerónimo Martins continua a contribuir fiscalmente neste país, também sem alteração. Perante isto, perguntamos: então o que foram fazer para a Holanda? Este tipo de esclarecimentos voltam-se contra quem os faz porque, fugindo a esclarecer as dúvidas (a palavra Holanda não é sequer referida no panfleto), ainda levantam mais suspeitas.