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‘Por favor, não tocar’

13 de Fevereiro, 2012por José Cabrita Saraiva
Penso não estar muito longe da verdade se disser que a devastação provocada na Europa pela II Guerra Mundial foi a grande responsável pelo actual culto do património.

Aliás, se não me engano, a UNESCO, a agência das Nações Unidas para a educação e a cultura, nasceu precisamente na ressaca da guerra. Desde então, o conceito de património tem-se alargado. Primeiro passou a abranger o património industrial – máquinas, minas e até fábricas inteiras. Depois o património natural. E, por fim, o património imaterial, ou intangível, que pode dizer respeito à história oral de um povo ou a um género de música regional, como o fado.

No tempo em que ainda havia margem para sonhar com esses projectos, a ministra Isabel Pires de Lima, em parte fascinada pelo intangível, em parte encorajada pelo sucesso do museu de São Paulo, planeou transformar o Museu de Arte Popular, em Belém, no Museu Mar da Língua Portuguesa. Felizmente a ideia não foi para a frente. Digo felizmente porque o projecto de Pires de Lima era fazer um museu sem acervo, dominado por equipamentos interactivos para visitantes hiperactivos. Equipamentos esses que tenderiam a estragar-se e a passar de moda até se tornarem eles próprios (embora para isso tivéssemos de esperar mais algum tempo) verdadeiras peças de museu.

Talvez seja um ponto de vista retrógrado, mas não acredito muito nessa ideia de um museu sem acervo. Na era do digital, em que fotografias, filmes inteiros e músicas se resumem a ficheiros de informação codificada no computador, as pessoas têm cada vez mais fome de contacto com objectos concretos, palpáveis. É por isso que as obras de arte atingem valores recorde e que milhões de turistas viajam milhares de quilómetros para ver ícones como a Mona Lisa, no Louvre, as Meninas de Velázquez, no Prado, ou o David de Miguel Ângelo, em Florença. Poderiam escrutiná-los ao detalhe no ecrã dos seus computadores, no conforto de suas casas, mas não há nada como ver uma dessas obras ‘em carne e osso’.

Há dias ouvi dizer que Vasco Graça Moura não achava muita graça ao Museu Berardo e que gostaria de vê-lo substituído, justamente, por um museu da língua portuguesa, repescando assim o projecto de Pires de Lima. Depois de termos visto que o novo presidente do CCB deu ordem para não se aplicar o acordo ortográfico naquela instituição, a fundação de um museu da língua, onde o Português encontraria condições ideais de conservação, faz todo o sentido. Graça Moura tem em relação ao acordo e à língua uma posição clara: não se altere uma vírgula, não se mude um acento nem uma consoante muda. Não é nos museus que existem umas placas a dizer ‘Por favor, não tocar’?

jose.c.saraiva@sol.pt




1 Comentário
JorgeDuque
19.02.2012 - 10:55
Museu sem acervo!?

Essa é daquelas ideias que não lembram ao diabo!


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