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Europa: o fogo e o deserto

22 de Fevereiro, 2012por Vicente Jorge Silva
O Parlamento grego, apesar de um número significativo de dissensões entre os dois maiores partidos e a extrema-direita que também integrava o Governo, acabou por submeter-se, na madrugada de domingo, ao novo pacote de austeridade imposto pela União Europeia e o FMI.

O evidente absurdo de uma aliança política destituída de qualquer coerência não sobreviveu incólume à prova final, mas o poder da ameaça foi determinante na votação decisiva: estava em jogo a bancarrota da Grécia e a sua saída do euro, conforme insistiram os dirigentes maioritários à esquerda e à direita.

Se não aceitasse a sua condição de refém, o país estaria condenado a cair, insistiram as vozes oficiais da razão. Mas horas antes, no centro de Atenas, multidões enraivecidas pegavam fogo a lojas, cinemas e edifícios públicos, numa repetição ainda mais descontrolada e selvagem de manifestações anteriores, um eco amplificado das vozes da rua que se recusam a ouvir a razão oficial.

A Grécia não está apenas dividida entre uma maioria parlamentar de circunstância e a raiva popular que perdeu o norte e se limita ao instinto primitivo dos incendiários. Com eleições previstas para a Primavera, nenhum cenário político estável surge no horizonte, depois da desintegração do tradicional bipartidarismo entre a Nova Democracia e os socialistas do Pasok (reduzido, segundo as sondagens, a 8% das intenções de voto). A esquerda radical, que sempre se opôs às medidas de austeridade (as de antes e as de agora), sobe em flecha, enquanto se desenha uma convulsão sem precedentes da paisagem político-partidária, com alianças porventura ainda mais contra-natura do que aquelas já ensaiadas.

O incêndio grego não se resume, por isso, às ruas: é também um incêndio político, social, nacional. É o incêndio de um país que corre o risco de a breve trecho ser consumido pelas chamas. Mas se houve incendiários no centro de Atenas, não haverá igualmente outros, mais frios e invisíveis, nos bastidores internacionais e nas cúpulas europeias?

Quando ouvimos ou lemos alguns comentadores domésticos e estrangeiros, a opinião predominante exprime um sentimento de alívio com a razoabilidade do Parlamento ateniense. Decidiram o que havia a decidir, não havia outras alternativas. A Grécia comprometeu-se a pagar o que lhe foi exigido e, inevitavelmente, acabará por cumprir o acordado.

A situação social explosiva e potencialmente ingovernável que está à vista de toda a gente é desvalorizada como um fait-divers, apenas mais um entre muitos que o antecederam. E se o fogo pegar mesmo a sério para além das trincheiras de Atenas ou Salónica, então resta sempre a hipótese definitiva de criar um cordão sanitário entre a Grécia e o resto da Europa, isolar o foco infeccioso e eliminar a ameaça de contágio. De Lisboa a Berlim todos ficarão tranquilos, enquanto os gregos estoiram e, eventualmente, se esfolam uns aos outros. Paciência, a culpa é deles – governem-se ou desgovernem-se como quiserem.

Ora, deveríamos saber todos – incluindo os tais comentadores muito ciosos das virtudes redentoras da austeridade a qualquer custo – que o perigo grego não pode ser já circunscrito às fronteiras de um único país, por mais irrelevante que este pareça (ou até seja). O perigo está disseminado através das malhas do sistema financeiro e do espaço europeu. E a Grécia é a projecção num espelho fantasmagórico de uma catástrofe que ameaça instalar-se nos países ibéricos e alastrar ao centro europeu: à Itália, à Bélgica, à França.

A Itália é hoje celebrada como exemplo de santidade política, talvez devido à vizinhança do Vaticano, por obra e graça do abençoado Mario Monti («um primeiro-ministro para tempos desesperados», segundo a capa da última edição internacional da Time, que pergunta em título: «Pode este homem salvar a Europa?»). Mas esse suave milagre italiano redimirá subitamente um país que, ainda há poucos meses, era governado por um cavaliere de comédia? O contraste flagrante entre dois estilos de governo – a tranquila seriedade de Monti versus a irresponsabilidade carnavalesca de Berlusconi – será suficiente para livrar a Itália dos seus demónios? A actual e invejável popularidade de Monti e do seu Governo de tecnocratas – apoiado no Parlamento por partidos que registam recordes históricos de impopularidade – constitui uma garantia sólida de transformação cívica e política num país mergulhado em tantas contradições?

O caso italiano é, aliás, muito sintomático de um dos problemas mais graves que a actual crise está a desencadear na Europa: o défice crescente de representatividade democrática dos partidos tradicionais e o preenchimento desse vazio por Governos tecnocráticos ou reduzidos ao papel de meros executantes de uma agenda de ajustamento financeiro decidida em Berlim. Depois do fogo espalhado pelos incendiários de todos os géneros, da rua aos directórios políticos – que, aliás, tendem a converter-se, indisfarçavelmente, num único directório: o alemão – a paisagem que se perfila é a do deserto político europeu.

Ora, não se regenera a vida política e democrática substituindo organizações partidárias que perderam a confiança dos cidadãos – como na Grécia, em Itália ou na Bélgica, por exemplo – por meros agentes apolíticos ou executantes acríticos da vontade de um directório centrado no país economicamente mais poderoso do continente.

A cena que as câmaras da TVI captaram, na semana passada, entre os ministros das Finanças alemão e português, é imensamente reveladora desta rarefacção da soberania e representatividade políticas. Se só os ingénuos acreditavam ainda nas aparências que escondem a cadeia da submissão – de quem obedece, e agradece, a quem manda –, esse episódio indiscreto serviu para desfazer todas as dúvidas. É uma pequena cena que ilustra aquilo em que a Europa poderá vir a tornar-se: um deserto político com capital em Berlim.




2 Comentários
JoaquimVaz1234
26.02.2012 - 14:24
O fogo e o deserto

Admiro a preocupação de Vicente Jorge Silva. Admiro também o seu argumentário e estilo. Mas tenho de o lembrar que o imbróglio em que nos encontramos se deve a um pecado original para salvar o paradigma: Como não produzimos o suficiente para viver, vamos pedir emprestado!

Com sangue, suor e lágrimas, com muita austeridade e desencanto, com muito desemprego, fome e sofrimento, com muitas mortes à mistura, os portugueses têm de pagar a dívida que dirigentes incompetentes (e sabe-se lá se corruptos) fizeram em seu nome e em nome das gerações futuras.

Fazer floreados não basta: é preciso encontrar os responsáveis e, já agora, puni-los!
Ou não? Ora, ora, senhor VJS!
MPortugal
23.02.2012 - 22:08
Parabéns, Vicente Jorge SIlva. Bom artigo, inteligente análise. É sempre gratificante ler um pensamento inteligente.


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